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CRIPTÓGAMAS
A flor de seis pétalas pode ocorrer em qualquer estação. Qualquer parte. Mesmo onde não se supõe um jardim. Ela é rara e efêmera. Dá-se a todos embora poucos a apreciem em seu esplendor momentâneo, quase camuflado. Poucos, os atentos. Mais: entre os geômetras os mais vulneráveis, os que, à sua semelhança, ocorrem também com raridade, quase despercebidos. O que os diferencia intimamente: o espécime observado não se dá conta de sua condição, enquanto os que o identificam vivem, ainda que obscuramente, sob o signo de sua singularidade, sofrem-na de certa forma. Nela também encontram o húmus próprio à nutrição de seus sonhos. Nela se descobrem e se encontram, fertilizam-se e crescem, cultivam suas estranhas flores. Essas espantosas flores.
Um dia azul, de nuvens e ruas azuis. Os cidadãos chamam a essa cor cinza. Pensam que o mundo ficou cinzento porque parou de chover e a cidade tem raízes em poças remanescentes. Enganam-se, como sempre. As chuvas são azuis. As cidades são azuis. O universo, mas guarde esse segredo. Outro: o cosmo não é a vastidão visível que desafia os físicos. É o por onde passamos. A rua e o ponto de ônibus, a cidade refletida, o cristal deixado pelas chuvas. O ponto azul claro. O cosmo multipovoado, tantos de nós. Multidão, cidade refletida, o ponto de ônibus, o ponto. Então eu a vi. Nesse dia eu a vi.
Não vou descrevê-la, distraída, no ponto de espera. Mas tudo concorreu para que se cristalizasse em meio ao movimento frenético de todos os que giram. Até hoje, se vejo cogumelos de cores vivas despertando num ermo de jardim após a noite de outono e orvalho, torno à infância, quando me era dado, no tempo infinito que dura essa fase, maravilhar-me com a variedade de criptógamas, fungos e cogumelos que surgiam pontilhando a relva úmida, as ervas rasteiras e as raízes negras, espessas e calejadas, que faziam crer fossem invulneráveis. Tão raras vezes ocorre a grata combinação de todos os elementos que montam a imagem de uma pessoa, no caso, essa mulher. Esse sonho. Essa forma nítida em meio ao mundo nublado, à cena urbana, entre uma e outra notícia que nos une a todos e nos faz apreensivos, que a paz conquistada não nos permite arriscá-la por um nome, hoje após a tormenta, uma herança de águas e cristais de chuvas. Aura de silêncio e surdo segredo situam-na em minha fase azul: aí está ela, safira lapidada entre cotidianos gris, jardim de surpresa. Considerando-se os impulsos, sentimentos e memórias que despertou em mim nessa manhã de azuis (quem sabe a noite houvesse deitado orvalho) agrada-me associá-la ao assombro e à felicidade dos outonos remotos. Cogumelo repentino.
E assim como a fissão nuclear desencadeia energia bastante para devastar um planeta, um detalhe pessoal, infinitamente íntimo e reagindo com olhos propensos ao encontro-chave, de número zero, pode irradiar partículas, algumas de estrutura hexagonal, que se propaguem por mais de uma geração, atravessando inclusive o chumbo dos valores apenas materiais que se supunham a principal defesa, e isso de homem para homem, do místico ao matemático, cobrindo continentes e transpondo idiomas. Por enquanto assemelha-se o hexágono a estruturas mais simples e menos assustadoras, como constatado com frequência na íntima formação dos flocos de neve. Quase um cristal. Gira outra vez, pousa suavemente.

– de Lisette Maris em seu endereço de inverno
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