| A TORMENTA |
Os cristais de gelo, embora ostentando formas simples, têm a alma intrincadamente ramificada. Não cai a neve e não a espero. Volto-me ao céu, aos cristais que o tornam azul sempre mais escuro, negro. Cristais de cúmulos-cirros, cristais de chuva e sua dissolução: a espantosa tempestade.
Busco abrigo no castelo de escuros torreões, à frente da densa floresta por onde não mais se avança, construção que guarda o centro de todos os cenários. Sempre observei com alguma inquietude o que fosse passageiro, hoje sei que a quase tudo se aplica a dissolução. Amo os castelos porque são definitivos. Cada grande bloco mantém-se ali, desde um dia antigo, contra o esfacelar-se das estações sobre o mundo, algo semelhante às esculturas milenares, que o tempo sinaliza, mas não arrasta. Assim dispostos, bloco sobre bloco, fortalezas que emergem das névoas como estranhas aves soturnas e gigantescas, pousadas sobre o tempo, eis o castelo: ao fundo, entre a relva mal cuidada, erguem-se as lápides irregulares de um cemitério doméstico. Ela me espera à frente da grande porta.
Quero que me responda: que pesadelo é este? Com a capa esvoaçando, parece dizer-me que não há pesadelo algum. A vida oscila entre a brisa e a tempestade, viver é estar à procura. E o desejo é o que move o mundo. Pensei que nunca mais fosse encontrá-la. Pensei que a houvesse esquecido, um compromisso inadiável como o que parece ser minha vida toda. Estará frio nesse castelo? Espero que não.
Ela me leva para dentro. Ao último quarto, à última torre. Sob a capa, usa um colete azul escuro, cor do céu e da tormenta, decote unindo-se por cordões trançados em xis. Eu insisto, que pesadelo é este em que a tenho nua sob o dossel num quarto povoado por mortos? Murmúrios. Passos, pessoas. Jovens e maduros, também velhos e velhas: “Por que só vocês podem ter esse privilégio?” Ela lhes responde que amar não é um privilégio. “Mas sim como fazem: livres, apaixonados, entre selvagens e dóceis, na forma exata da beleza, como pedem a fome, a sede dos que verdadeiramente vivem.” Sim. Os fantasmas têm razão. É preciso ter coragem para desnudar-se e livrar-se do mundo, esse traje puído cheirando a mofo e morte, embora se mencionem cânticos e anjos. Por favor, mande-os embora. Expulse os fantasmas, não quero que nos vejam. Há algo de muito perigoso em mim e sinto que não posso deixar-me envolver demais com tal demônio. Os fantasmas permanecem. Dispõem-se ao redor. Consideram-me.
Às vezes, tenho vontade de matá-la. Matar-me em seguida. Dar um fim a tudo o que me tenta e que não posso alcançar. Embora me faça livre, os desejos me traem e me perdem. Mesmo que alcançasse o fundo de sua forma, sei que não encontraria o que procuro. A proximidade dos mortos me incomoda. Suas frustrações. Chances e horizontes exauridos. Um momento pode alterar tudo. Como resistir a esse rosto brando, de olhos cerrados, o pescoço claro e indefeso? Atravessa os fantasmas um murmúrio de espanto. Lá fora, um estrondo precede o desabar da tormenta. O sangue mancha a pele pálida de , suja os lençóis, espalha-se por seus ombros. Minhas mãos tremem e me impedem de completar o que comecei. Ante o indefinido delírio dos fantasmas, esqueço de matar-me, e só me resta fugir. Voo sobre todas as escadas, corredores e labirintos, sigo sob a tempestade a trilha de lajes hexagonais montadas à maneira dos alvéolos. Não sei mais por onde ir. Avanço agora em direção a meu próprio fim, que não sei. Estranhamente, adquiro nova agilidade, disparo como um menino sob a tormenta. Quando menino, tinha o hábito ocioso de pisar as lajotas alternadamente, sem tocar as linhas que as definiam. Hoje corro desesperadamente por sobre tudo o que vivi. Sob a escuridão dos azuis. Sob a tormenta. Sob o firmamento que desaba. Um menino.
– de Lisette Maris em seu endereço de inverno
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