| O RÉQUIEM DAS CRIANÇAS |
A trilha de lajes hexagonais atravessa a noite e a tormenta. Leva-me a uma manhã de árvores que aos poucos se dividem e se alinham entre alamedas, muretas e estreitas calçadas. Sofro uma estranha comoção, como um choque de luz e voz de pássaros, pois detém-me um ramo inclinado, a folha em detalhes à frente de meus olhos. Perto de onde estou, um grupo de crianças posa para uma foto enquanto eu, só eu, busco a folha singular, a nervura central, o minúsculo, o grão, o átomo. O mínimo cristal.
Por minha sombra de pernas magriças e cabeça desproporcional, vejo que não sou mais que um menino e assim me aproximo das crianças que não me veem. Elas entoam uma espécie de hino coral, alegre e harmonioso, acompanhadas de instrumentos que eu não previa. Uma suave mas contagiante felicidade as perpassa e as une, circula entre os sorrisos, os gestos avulsos, as vozes em encantadora ressonância. Em todas, no braço direito, uma tarja de intenso violeta. Eu as sigo. Por que caminham como se dançassem?
O grupo dobra esquinas entre as alamedas, ao som de suas canções. No meio delas, confundindo minha sombra às suas sombras de mesmo sol, compreendo por fim a razão do cortejo: seis meninos, como uniformizados em predominante violeta, carregam o pequeno esquife que atravessa o parque. A urna sextavada, o hexágono próprio a meu último corpo e aos réquiens que se podem cantar sorrindo. Deixo-me ficar, deixo-me ir. O grupo se distancia e vai diminuindo de tamanho na perspectiva infinita das árvores.
Tomo outro caminho, bifurcação entre as alamedas desertas, desço e embrenho-me sob a sombra de copas mais espessas que gradualmente anoitecem essa outra senda. A trilha de folhas ressecadas dá na margem de um lago silencioso onde um barco adormecido sob azuis irradia lentos vincos sob a superfície de lua. O barco é coberto, de cor indefinida não pela noite que outra vez presencio, sim por meus olhos fartos de arco-íris como também de trevas. Subo ao convés e passo pela porta aberta de esperar-me. Lá dentro meus olhos varam a escuridão. Ela, sentada no leito, nua e ao meu alcance, não associada a uma cor ou a uma canção mas a um sentimento de silêncio somente invadido pelo lento sinal de um sorriso esboçado. Penso ver em seu rosto todos os rostos. Em todos o preço da paz. Em todos o impulso da vida. Em todos a face da morte. Tudo o que ela significou para mim, todas as formas que encarnou. Um silêncio sem dramas, sem apoteoses ou grandes fogos brancos. Sono e sonho esvanecendo-se, abro os olhos. Talvez seja tudo uma maneira de dizer. Palavras. Talvez não seja nada. Não lhe ocorre, ainda assim, que sou um geômetra, também secreto. Sempre soube que tinha em mim um homem qualquer. Sei que o tempo se dilui. Mas é tão grande...
Ela aconchega entre os seios meu rosto de menino. Um último e duradouro gesto antes que o barco deixe lentamente a margem rumo ao coração dos cristais que se fossilizam após todos os encontros. Após todos os conflitos. E antes que se adense o que já é a noite com seu escudo de estrelas.
– de Lisette Maris em seu endereço de inverno
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