Em nome de tudo

Vincent van Gogh. Camponês queimando sementes. 1883

No princípio era o verbo – era nada.
Era nada: outras eras
desfizeram mais dessas doces mentiras.
……………..Eu sei, você sabe: palavras
……………..sempre serviram a nos enganar
……………..– claro, em nome de tudo.
Que lindos são nossos livros.
Que lindos, nossos ideais.
Quem adivinha as lacunas mata a charada em nome de tudo.
Em nome do rei. Em nome da lei.
E vamos brincar de forca.
Eric, Iara, Cândido, Marta. Pedro e Paulo, João e Maria…
Que nomes nos damos!
Que palavras nos condenam? Por que nos danamos?
Quanto dura seu nome? – por que duraria?
Colônia de corpúsculos, microscópicos cósmicos micróbios
renomeando-se ininterruptamente,
assustadoramente,

reconhecendo-se entre a centelha viva e a vertigem.

Ou entre um galope e um golpe.
O ótimo agouro e o óbito.

Um espelho, uma esperança: e um espectro.
Um canto, um cânone, um credo. Uma queda.
Quanto dura seu nome? – e quando ele some?
Vocábulo, signo, termo… – que nos importa, afinal?
Por que mais palavras aprisionando as palavras?
Uma vez foram grunhidos, alguém se lembra? – e se moldaram.
Podemos pensar sem elas? Quem disse?
Palimpsestos as guardam, que a voz não chega
– ora, porque morremos.
Quem?
Só você não sabia?

Morremos cada um sua centelha, seu espectro, sua queda.

Era uma vez uma era.
E que voz linda eu tinha!
Temos nomes para as coisas todas.
É?
produz lâminas de fungos entre a relva e a erva úmida
E como se chama esta manhã, no claro de meu dia?
E aquela noite neutra, quando meu dia inteiro se for?
Traga-me o nome dessa insuficiência entre os abismos

– e serei seu súdito, seu servo por um sonho.
……………….Se não, desista de me enganar: jamais
……………….me renderei às suas tolas verdades
……………….de ricas aparências
……………….e fartas de espinhos.
(Não me esqueço, não me esqueço nunca do grito daquela criança perdida:
seu clamor por socorro era uma palavra apenas.
Mas não devo dizê-la, é por demais chocante.
Você poderia perder-se ou destruir-se com ela.

E era – juro! – só uma palavra.)
 
Grandes palavras nos fazem infelizes.
Mas soam solenes.
Que lindos são nossos votos:
juras pelo amor e pela pátria, pela nossa espécie, pelo futuro.
Em nome de tudo, enfim.
Por nós mesmos, enfim, que somos superiores.
Somos superiores, que lindos são nossos discursos.

E nos matam.
Quem quiser, que acredite e continue.
Siga o sagrado. Cometa outro crime.
Palavra de honra – em nome de tudo.
Palavra de fé – ante o combate.
Palavra de Deus? – não, já lhe disse:
não tente me enganar de novo.
Você sabe, eu sei: toda palavra é nossa.
 

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Diário contra o destino.

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 Imagem: Vincent van Gogh. Camponês queimando sementes. 1883.

2 comentários

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  1. Perfeito! Por mais que procure não encontro palavras que possam expressar tudo que esses textos me proporcionam. Um leque, que se abre em emoções e instigam o pensamento!