1970

Sonhei que estava contando toda a nossa história a alguém. A uma mulher estranha. Que não era você.

Um nada antes de começar

Estas são histórias que eu gostaria de esquecer. Que gostaria um vento poderoso e hostil as eliminasse para sempre da face do mundo. Que acabassem, com seu peso sinistro, no mais profundo abismo do oceano. Que ardessem furiosamente até reduzirem-se a pó de cinzas irreconhecíveis. E ilegíveis.

Quase todas as pessoas que povoaram aqueles meus dias estão mortas. Ou vivem seus últimos momentos nesta mesma cidade, talvez também em alguma outra parte do mundo, próxima ou distante daqui, o que faz pouca diferença. Se falo nelas hoje (nas pessoas como nas histórias) é porque tudo passou. É porque tudo ruiu. Desapareceu dos lugares. Desmanchou-se no tempo.

No início de nossa vida adulta, um de nossos amigos, que já havia passado pelo serviço militar (conhecido por nós como tiro de guerra), fora humilhado publicamente pelo pai em uma festa de família. Ele seguiu quieto até um canto de jardim e caiu a chorar como uma criança inconsolável, sem que dois de seus primos, eu e mais um amigo próximo conseguíssemos reverter seu surto de sofrimento.

Perto dos dez anos de idade, eu e um vizinho de mesma calçada presenciamos um conflito inesperado, que começou e terminou muito rapidamente. Um menino da vizinhança mostrava a outro menino seu presente de Natal, um foguete de plástico da altura de uma garrafa térmica. Dizia, orgulhoso, que um brinquedo como aquele não era para qualquer um, insinuando que seu interlocutor não era digno de algo tão sofisticado e encantador. (De fato, era incomum que alguém de nosso meio ganhasse de Natal algo tão fascinante e aparentemente caro.) O outro olhou o brinquedo por um instante e passou a chamá-lo de traste ridículo e a ofender o vizinho taxando-o de besta e crianção, embora tivessem a mesma idade. Irritado, o menino do presente novo, ganhado no dia anterior, que havia chegado com um sorrisinho feliz e arrogante à frente da casa do outro, golpeou-o de imediato com o que tinha em mãos, tentando acertar-lhe o alto da testa. O outro defendeu-se por instinto, erguendo um braço à altura da cabeça, o que causou um pequeno dano ao foguetinho prateado, quebrando-lhe um detalhe lateral. Vendo isso, o agressor entrou em surto e pôs-se a desferir golpes rápidos consecutivos na direção do vizinho, chorando e gritando ao mesmo tempo, tomado pelo ódio. “Desgraçado!”, ele berrava com fúria, olhos arregalados, rosto subitamente sanguíneo. “Olha o que você fez, desgraçado!” Como o outro se defendesse com o antebraço, o foguete espatifou-se por completo, caindo em cacos sobre a calçada. Ele próprio destruíra seu lindo brinquedo, até então intacto, ganhado na véspera, entre gritos de ódio e um pranto sofrido e transtornado. Tudo isso ocorreu em menos de cinco minutos.

De posse de tais memórias, exclusivas e particularmente assustadoras, compreendi que a melhor maneira de se observar uma pessoa era presenciando algum de seus momentos de dor intensa, de pranto sentido, de fúria e de ódio.

Muitas situações inusitadas, algumas desesperadoras, outras fatais (como se nunca fosse possível evitar nenhuma delas), sucederam-se ao longo de minha formação involuntária, ao longo do que eu, equivocadamente, intuía serem períodos de encantamento e entusiasmo, até que minha transferência para São Paulo, aos vinte e quatro anos, fora aprovada pela empresa onde trabalhava, pondo fim a um espaço e um tempo carregados de ilusões extintas, erros dramáticos, vergonhas inconfessáveis e sonhos que nunca foram coisa alguma, como um remoinho violento e agressivo se desfaz naturalmente, só porque aquelas correntes de ar, tão palpáveis e fortemente direcionadas, houvessem se cansado de mim.

Minha solidão agora movia-se de um ponto a outro em uma metrópole distante, dinâmica e impiedosa, aparentemente imune ao passado.

1970

Esse número tinha o poder de anunciar uma década de surpreendentes realizações da modernidade, embora fosse o último da década anterior. Falávamos no Concorde, em Fórmula 1, transmissão via satélite, TV em cores, relógios à prova d’água, calculadoras eletrônicas, trens-bala, e um ano antes os americanos haviam tecnicamente desvirginado a Lua.

No armazém, a um quarteirão de casa, onde se compravam café, macarrão, doces e frios fatiados, serviam-se também cerveja e cachaça a uns que aportavam por ali. Meu pai e eu fomos até lá não me lembro comprar o quê, no dia seguinte á descida dos astronautas na Lua – em nosso bairro, um dia tão normal e sem atrativos como qualquer outro. Um dos homens que bebia a uma mesa de madeira descascada dizia a outro, em voz alta: “Que Lua nada! Tudo truque de cinema! Americano saber fazer essas coisa!” O outro sorriu (faltava-lhe um dente) e exagerou em sua defesa argumentativa. “Se nem urubu, que voa tão arto, num chega nem nas nuve, quem que vai chegar na Lua?” Meu pai voltava para casa mais indignado do que divertido. “Como pode ter tanta gente ignorante no mundo?”, comentava.

Parecia mesmo inacreditável que houvesse pessoas ignorantes. Por que não compreendiam coisas tão simples? O que lhes faltava?

Quando nós, Homo sapiens, representados por brancos norte-americanos, descemos na Lua, nós, uma parcela ridiculamente pequena e irrelevante da mesma espécie, já morávamos na casa nova. No primeiro semestre daquele mesmo ano, meus pais conseguiram um financiamento e adquiriram seu primeiro imóvel, uma casa simples, alinhada diretamente na calçada, sem jardins, sem recuos, basicamente um portão de grade e uma parede contínua interrompida pelo vitrô da sala e pelas venezianas da janela de um quarto.

Nesse quarto, dormíamos os três irmãos e uma tia solteira, Noêmia, que habitava periodicamente a casa de um e outro parente, embora me parecesse que ela teria morado conosco por muitos e muitos anos, uma impressão que se confirmou ao longo do tempo, até que, em outra casa ainda e em outra fase, foi acertado de ela ir morar por outro algum tempo com sua irmã, nossa outra tia, Nora, casada e mãe de quatro filhos. Essa tia solteira morreu após alguns anos de eu nunca mais tê-la visto, em uma casa para idosos, muito emagrecida e desbotada, movendo-se com um andador precário, esquecida de quase tudo o que transcorrera absurdamente em sua vida.

O quintal dessa casa era pequeno, chão de cimento liso, quatro grandes placas preenchendo a área que dava para um estreito corredor lateral, mas nos parecia suficiente para qualquer coisa de brincar. E era ali que jogávamos bola, com uma trave improvisada de um lado só, disputando cobranças de pênaltis e as consequências de cada rebote, que nos permitiam driblar, correr uns passos no espaço exíguo, vivenciando assim as felicidades e as agonias próprias do esporte. Na prática, não existia essa trave: era apenas uma demarcação no muro, marcada com giz. Na primeira vez em que a bola caiu na casa da vizinha, ficamos paralisados – eu, dois colegas da vizinhança e um primo. Chamamos por alguém do outro lado, e arrastou-se um silêncio que pesava no ar. Naquela idade, isso tudo nos parecia muito mais grave do que qualquer incidente internacional. A frente da casa de dona Leonor dava para a primeira rua perpendicular à nossa, de tal forma que era o seu corredor lateral o que fazia fundos com o nosso muro. Sabíamos, por informações, que era um corredor cimentado, encerado em vermelho, nenhum vaso de plantas, nem mesmo algum pequeno móvel, nada que pudesse ser danificado pela queda daquela bola leve, de material ordinário. Depois de uns tantos minutos à espera, um objeto caiu à nossa frente, no meio do quintal. A bola havia sido rasgada com algum instrumento cortante, talvez o mais simples, alguma faca de cozinha, e era agora só uma casca de plástico, completamente morta. Uma voz ligeiramente rascante assumiu a autoria do atentado:

“Toda vez que cair coisa aqui, vai ser isso!”

Envergonhado, pedi ao meu pai que nos comprasse outra bola. Ele a trouxe no dia seguinte, produto barato de algum armazém próximo, que ficava no caminho de seu trabalho. A partir daí, combinamos entre nós o máximo de cuidado: nada de bolas altas, nada de cabecear, qualquer coisa que pudesse causar um novo incidente. Sim, todos de acordo: engajados para evitá-lo ao máximo. Mas isso não foi possível. Mais cedo ou mais tarde, uma jogada desastrada arremessava novamente a bola para o território vizinho, que já tínhamos como uma nação hostil.

“Ah, que pena!”, fazia a voz de dona Leonor, além do muro. “Essa porcaria de bola furou!”

Os restos da bola esquartejada caíam entre nós como vindos do céu.

Meu pai tentou conversar com ela, batendo à sua porta: era apenas uma bola de plástico, não poderia fazer estragos em um corredor vazio, sem vasos ou enfeites – e éramos apenas crianças. Não fomos informados sobre o resultado de tais argumentações, mas ele mandou instalar, a partir do alto do muro, uma tela de arame trançado que quase duplicava sua altura, e agora brincávamos com mais tranquilidade e segurança. Porém, passados uns poucos dias, quando a bola, arremessada acidentalmente para muito alto, tocou o topo estreitíssimo da tela e, tragicamente, em meio a duas possibilidades, escolheu cair para o lado do inimigo, ficamos com a sensação de que aquilo seria o fim. Mais uma vez, agora sem o acréscimo de qualquer comentário arrepiante, a casca da bola morta voou por cima da fronteira proibitiva, caiu tristemente entre nós.

Por causa desses insucessos, nossas tardes terminavam cheias de culpa, impregnadas de silenciosas angústias. Entendíamos que nós mesmos havíamos perdido nossas pequenas chances, por erro nosso, por nosso descuido e imprudência. Eu não teria coragem de pedir ao meu pai que substituísse mais uma bola e outra, já devia ser a quinta que perdíamos, mas ele ficou sabendo do ocorrido e nos proveu com mais uma réplica barata, do mesmo tamanho e marca, que geralmente era amarela, vermelha ou azul.

“Vão brincar, não liguem pra isso”, ele nos aconselhava. E saía de cena.

Isso durou pouco tempo. Isso, nossas brincadeiras, nosso futebol improvisado e nossa convivência com essa vizinha experiente e determinada. Dona Leonor vivia nessa casa com seu marido, um homem silencioso e debilitado, e tinha um filho na faixa dos trinta anos, motorista de ônibus intermunicipais. Nós o víamos de vez em quando, perto da esquina de casa: um rapaz simpático, bigode bem aparado, acenando às crianças enquanto passava, brindando-nos com trocadilhos e outras coisas engraçadas. Ele sempre se despedia desejando que ficássemos com Deus. Foi um choque quando soubemos que ele havia morrido, de um dia para o outro, vitimado pela cólera – mordido por um cão raivoso, não procurara ajuda a tempo, subestimando o ferimento leve.

Uma notícia dessas era devastadora para nós, não apenas pela surpresa terrível de tê-lo perdido para sempre, mas também porque deparávamos com cães de rua praticamente todos os dias. Depois dessa tragédia doméstica, seus pais se mudaram de lá, eu nunca soube se para outro bairro ou para outra cidade. O fato é que nunca mais tivemos notícias deles, por isso não fiquei sabendo do que teriam morrido.

No primeiro semestre de meu segundo ano de estudos no bairro novo, que era a quarta e última série do primário, o tanque de oxigênio da Apollo 13 explodiu no espaço. A imprensa do mundo todo acompanhava os esforços dramáticos para trazer de volta os tripulantes, após o cancelamento da missão. Nossa professora, dona Lourdes, pediu a todos nós, minutos antes do fim de uma das aulas, que orássemos pelos astronautas e também nos informou que o papa já fazia isso, encaminhando suas preces a Deus pelo bem-estar e salvamento de nossos representantes no espaço. Ela acrescentou, talvez movida por seu próprio desejo esperançoso e desprovida de informações científicas básicas, que talvez pudéssemos ver a nave no céu a qualquer momento, já que ela estaria retornando à Terra, entraria em órbita e tudo o mais.

“Olhem bem, com atenção!”, dona Lourdes nos aconselhou. “Quem sabe vocês podem ser abençoados de ver o foguete voltando.” (Ela dizia foguete, sem saber que o gigantesco Saturno V  desmembrava-se nas primeiras horas da decolagem, e agora não havia mais foguete algum.)

Por causa da censura à imprensa e a toda instituição ou pessoa que divulgasse informações não autorizadas pelo Estado, não imaginávamos que estavam em curso uma intensa perseguição a dissidentes políticos, prisões sem julgamento, torturas, assassinatos e sumiços de corpos. Nossa maior preocupação era com aqueles três homens no espaço. Assim que deixávamos a escola, tão logo passávamos pelo portão lateral que nos franqueava a rua, sem os entraves visuais das copas das árvores do pátio, erguíamos nossos olhos para o céu azul tentando identificar algum ponto, algum sinal, alguma coisa por lá. Eu pensava sinceramente que Deus poderia ajudar aqueles homens em apuros mesmo que não rezássemos por eles – por que não? E estando Deus no céu, mais próximo da cápsula espacial do que qualquer ser humano na Terra, por que isso lhe seria tão difícil? No fim, tudo correu bem. Os astronautas voltaram inteiros. E nós não vimos nada no céu.

Um de nossos colegas de rua, o Lico, tinha dez anos, só um pouco mais velho que a maioria de nós. Ele morreu afogado em um rio próximo de nossa cidade – seu corpo enroscara-se em uns galhos submersos. Era magro e ágil, de reações rápidas, tanto físicas quanto mentais. Seu pai era mais velho que os nossos pais, uma idade intermediária entre parecer pai e avô do Lico, e isso causava um estranhamento na cabeça simplória (e de certa forma padronizada) das crianças.

Nós, os meninos próximos, mesma vizinhança e idades parecidas, brincávamos de futebol no meio da rua, uma rua de apenas dois quarteirões onde raramente entrava um veículo. (Entre os vizinhos, pouquíssimos tinham carro, e muitas daquelas casas eram construídas sem garagem, como era a casa do Lico, bem na esquina.) Nessas partidas improvisadas, ele nos driblava com facilidade. Quanto a mim, no corpo a corpo, por mais que eu esticasse a perna para alcançar a bola, aquilo parecia impossível, pois ele girava sobre si mesmo com agilidade e num instante já estava a alguns metros dali, em disparada.

Os velórios eram feitos em casa, como o do Lico, em sua casa de esquina, muretas baixas. Eu não quis entrar, não quis ver. Fiquei do outro lado da calçada, junto com uns colegas da rua, observando a pequena aglomeração de pessoas por ali, murmúrios, prantos tímidos, coisas assim. O pai dele saiu para fumar, andou por ali, parou. Eu disfarcei, me levantei da guia da sarjeta, fui andando devagar, passei perto dele, ele me olhou por nada. Tinha olheiras fundas, rugas em todo o rosto, um ar cansado, declinando a um silêncio escurecido. Até então, em minha pequena vida, era a primeira vez que eu via de frente um homem tão triste.

Era comum que muitos de nós colecionassem figurinhas, vendidas em bares e armazéns próximos, condicionadas em pequenos envelopes retangulares, pontos onde também se vendia o álbum em que seriam coladas, um álbum da moda, do momento, da falação geral, capa em cores fortes, fascinantes, que atraía os olhos, atiçava a ânsia de possuí-lo, mais tarde gravando-se na memória singela de um futuro distante. Havia uma página com pássaros do Brasil, outra com borboletas, outra com trajes típicos de diversas etnias, figuras históricas, atores e atrizes da TV, enfim, o que pudesse chamar nossa atenção naquela contemporaneidade, tudo muito colorido e atraente. Em geral, todos os álbuns seguiam essa tendência. Não era fácil completá-los, que as editoras retinham por algum tempo determinadas figurinhas (que chamávamos figurinhas difíceis), por isso, quando um de nós conseguia essa pequena façanha, todos, nos quarteirões próximos, ficavam sabendo.

Um desses vizinhos era um menino mais velho, de 13 anos, conhecido por Letcha, enquanto oscilávamos entre os 9 e os 11 anos. Ele comprava muitos envelopes, cada um com cinco cromos cada, e várias vezes acontecia de ser o primeiro a completar um desses álbuns que tanto nos entusiasmava. Então ele pedia que avisássemos o máximo de pessoas para um encontro à noite, na esquina próxima de sua casa, quando nos mostraria o álbum completo, com as figurinhas raras que tanto perseguíamos. Depois disso, para surpresa e estupefação de todos, Letcha tirava um isqueiro do bolso e incendiava o álbum à vista de todos, começando por uma das quinas, segurando-o enquanto pudesse, à altura de nossos olhos, até que precisasse soltá-lo para que ele se acabasse por si mesmo, já quase todo cinzas retorcidas. Alguns o xingavam.

“Egoísta, filha da puta!”

Ele sorria. Letcha tinha dentes incisivos grandes e arcadas proeminentes, o que fazia de seu sorriso algo singular, os dentes expostos insinuando involuntariamente algum sarcasmo, como se não coubessem na boca.

“Não pensa nos outros, palhaço?”, sofria um dos espectadores, indignado.

Ele fez o mesmo em outras ocasiões, com novos álbuns, agora sem o elemento surpresa. Sabíamos o que iria acontecer, um pequeno espetáculo que apenas nos horrorizava. Alguns tentavam negociar, oferecendo algum valor pelo álbum completo; outros argumentavam que, se ele iria incinerar tudo definitivamente, que ao menos nos desse as páginas com as figurinhas raras – já se supondo que tentaríamos descolar essas joias e negociá-las entre nós. Letcha sorria ao ouvir inúmeras propostas. Afastava uns passos para que ninguém tentasse impedi-lo e rapidamente tocava fogo nas páginas plastificadas, facilmente inflamáveis. Em pouco menos de um minuto, não restava nada além de cinzas esbranquiçadas. Então Letcha pisava os restos mortais daquela linda coletânea extinta, esfregando a sola do sapato com energia, menos do que era usada para apagar de vez uma bituca de cigarro, certificando-se de que não tivesse ficado cromo sobre cromo.

“Babaca!”

“Teu pai não devia te dar mais dinheiro!”

A atitude de Letcha me fazia pensar no que estávamos estudando sobre civilizações antigas, em como tudo havia desaparecido, exceto as ruínas, e o que esse vizinho fazia, como um mago com poderes desconhecidos por nós, era acelerar o tempo, transformando milênios, séculos, décadas em segundos. Talvez nem todos atinassem que nossos próprios álbuns iriam um dia desaparecer também. Nossos pais, nós e o Letcha. Nosso bairro inteiro.

Um menino menor chorou ao ver um álbum retorcendo-se desde as margens, colapsando sobre si mesmo.

“Deus vai te castigar!”, praguejou, meio gago, entre lágrimas.

Letcha sorria, sem se defender.

No período do primário, havia só uma professora cuidando de uma turma ao longo do ano. (Professores homens eram raros.) Em alguma manhã do terceiro ano, nossa mestra, dona Hênia, fez um ditado, exercício periódico que se repetia semanalmente. Quando terminou a leitura, estabeleceu um tempo para que completássemos o texto com os sinais de pontuação adequados. Eu já havia feito isso enquanto ela lia e eu escrevia. Deitei o lápis ao lado do caderno, enquanto os colegas começavam a realizar a tarefa solicitada. Dona Hênia aproximou-se, perguntou por que eu estava parado, sem fazer nada, e eu respondi. Ela olhou meu caderno.

“Você está querendo me dizer que fez isso agora, em alguns segundos?”

Não, e expliquei a ela o que tinha acontecido. Dona Hênia curvou-se ligeiramente sobre mim.

“Por acaso eu falei que era para usar pontuação? Hein?”

Fiquei vermelho, amedrontado com sua figura atarracada, uma mulher idosa sem pescoço, sua entonação de voz enérgica, seus óculos de aros grossos, semitransparentes, cor de âmbar. Fiz que não com um movimento de cabeça, concordando com ela.

“Por acaso eu dei essa instrução? Hein?”

Fiz que não de novo. A essa altura, a turma toda assistia à bronca, suspendendo a tarefa até que aquilo encontrasse um desfecho.

“Não sabe obedecer instruções, não compreende o que está sendo pedido?”

Nesse ponto, fiquei imóvel. Não sabia mais o que dizer.

Ela corrigiu os textos mais tarde, devolveu os cadernos no dia seguinte, e eu vi que não tinha errado nenhum dos sinais: ponto, vírgula, interrogação, exclamação. Mesmo assim, tive metade da nota, por não ter obedecido às instruções dela. Alguns colegas riram de mim pelo ocorrido no dia anterior e continuavam rindo agora que eu tinha ficado com uma das menores notas da classe, e claramente menor do que as deles.

Foi a partir desse episódio que eu percebi, senti, intuí, concluí que eu tinha uma espécie de poder. Não saberia dizer a mim mesmo o que era aquilo, não dispunha de palavras suficientes, mas guardei a certeza de que estava acima de dona Hênia. De alguma maneira que não saberia explicar, estava acima dela, tinha um poder que ela não identificava e que eu não saberia explicitar.

Três anos depois, quando já estávamos no ginásio, ficamos sabendo que dona Hênia havia falecido em consequência de um câncer no ovário. Fiquei constrangido, com vergonha de mim mesmo enquanto meus colegas comentavam a notícia. Não tive coragem de perguntar, de dizer a nenhum deles que eu não sabia o que era um ovário.

Regina: negra, alta e esbelta, trocando comigo recordações boas e ruins, nós dois sentados nos degraus mais altos da arquibancada da quadra esportiva do Vilhena. Eu olhava toda a dimensão daquele espaço, agora deserto, recordava diversas situações de constrangimento pelo fato inegável de eu ter sido sempre um desastrado em todos os esportes. O piso da quadra, limpo e impecável, de um brilho exemplar, apontando para um presente e um futuro assépticos. Nenhuma gota de sangue. O silêncio contando da extinção completa de toda a agitação que um dia me fizera sofrer.

“Minha transferência deve sair logo”, eu lhe disse. “Vou para São Paulo. Vou embora.”

Ela sorriu.

“Bom pra você. Está feliz?”

“Não sei.”

Naquele mesmo período de estudos, tivemos a notícia de que um adolescente de 14 anos (assim, só um pouco mais velho que nós) havia esfaqueado pelas costas uma colega de 13 anos durante o intervalo de aulas do curso noturno. No dia seguinte, fomos conferir discretamente o local do atentado, procurando pingos de sangue no cimento, no recorte entre a torre da caixa d’água e a lateral do pequeno palco de madeira escura que servia ora como teatro, ora como palanque para anúncios cívicos e eventos relacionados a datas comemorativas. A menina ficou três dias no hospital, antes de morrer, e coisas assim nos deixavam perplexos: não entendíamos muito bem os motivos de tais gestos violentos, porque ninguém nos passava claramente o que havia precedido a consumação daquela tragédia pontual e também porque, com base nos noticiários e em tudo o que chegava até nós como informação, pensávamos que só os adultos podiam matar.

Uma palavra que ouvi muito nesses primeiros anos no bairro novo foi esta, desgraçado, potencializada como uma exclamação terrível, adulterada por prantos histéricos, carregados de ódio. Por algum tempo, as vidas todas naqueles quarteirões e naquela parte do bairro (e talvez em toda parte do mundo) transcorriam tranquilas, previsíveis, com trocas de amenidades e votos rotineiros de boas coisas para o dia, para o tempo próximo, as horas á frente, até que se deflagrasse uma situação qualquer que então me paralisava e me impressionava pelo que me parecia um desfecho absurdo de algo que não se via, que não se mostrava, como se uma coisa não tivesse nenhuma relação com outra.

Já era uma grande coisa que eu e alguns de nosso bairro tivéssemos bicicletas, mesmo sendo muito simples e baratas. Só perto de nossos 15 anos começamos a levar a sério o sonho de possuir uma moto. Não era propriamente um sonho meu, mas como isso era muito divulgado entre os homens, com apoio de incessantes mensagens publicitárias, passava a ser um sonho coletivo, por contaminação. Com 16 anos, um colega da escola ganhou de seu pai uma essas maravilhas: uma 50 cilindradas novíssima, azul, da qual contemplávamos todos os detalhes com fascínio. Ele a pilotava mesmo sem ter idade para isso, a dois ou três anos de obter sua carteira de habilitação, e isso era o que menos importava, que sua família era financeiramente próspera e podia arcar com as consequências por qualquer trapalhada que ele fizesse.

Quando minha bicicleta apresentou um pequeno defeito que eu não soube consertar, sentei-me no chão ao lado dela, esperei que meu pai passasse por ali, fingi um ar de cansaço, como se já tivesse tentado tudo e disse:

“É… O jeito é comprar uma moto.”

Meu pai sorriu, disfarçou, saiu de perto. Comprar uma moto era algo absurdo em nossa condição social. E eu banquei o ingênuo, como uma criança que acha que vai manipular o mundo dos adultos, sem noção de sua própria precariedade argumentativa.

Mais ou menos por essa época, ocorreu um episódio trágico envolvendo o irmão mais velho de um colega do último ano, acostumado a ostentar rotineiramente sua 150 cilindradas. Não, não foi um acidente: ele tirou a própria vida. Os pais haviam viajado no final de semana, ele estava sozinho em casa. Lacrou as frestas da janela e da porta de seu quarto, deixou a moto ligada, em ponto morto, e deitou-se na cama. Luigi, 20 anos de idade, filho de uma respeitada família católica, encontrara uma função sinistra para sua máquina, essa mesma que representava um sonho de liberdade e conquista para muitos de nós. Os motivos que o levaram a usá-la de maneira tão engenhosa nunca foram esclarecidos.

Regina ergueu um braço e o moveu na horizontal, como se abençoasse tudo aquilo à nossa frente, a quadra de esportes como nova, o amplo espaço até o teto alto, com refletores.

“Essas coisas não foram boas”, disse. “Mas agora o espaço é outro. Assim, o tempo também.”

Então eu, numa espécie de ansiedade contida, quase motivadora, disse:

“Minha transferência foi aprovada. Vou embora.”

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