Manhãs encobertas

Quando chegamos, estendia-se um céu de nuvens. Flutuante e baixo. Quando partimos, outras (ou as mesmas) nuvens, amplas, compactas, estagnadas, faziam o céu tão espesso e silencioso quanto antes. Como se alguma coisa viva e latente, nessa manhã de outono, estivesse suspensa por nossa causa.

Uma discreta voz feminina se fez ouvir por trás do vidro escuro. Querendo saber do espaço e do tempo.

“Um quarto no andar de cima”, respondi. “Por três horas.”

Silencioso porque não havia vento. Espesso porque amplamente encoberto. Um céu que não se decidia. Que não assumia sua própria densidade enquanto não permitia a visão de qualquer mínima porção de azul.

Nossos movimentos dentro da suíte tornaram-se repetitivos, previsíveis: ela seguia direto ao banheiro para se trocar; eu ajustava o ar-condicionado à nossa temperatura ideal. Depois de abrir a camisa e descalçar os sapatos, eu me sentava na beirada do colchão alto até que ela voltasse e se acomodasse ao meu lado, antes de se ajeitar, carinhosa e afável, sobre minhas pernas – outra série de movimentos previstos, quase um ritual estabelecido, como eram alguns de nossos outros rituais, arranjos e posições, a princípio apenas convenientes, mas que acabavam por se repetir, com isso cristalizando-se ao longo do tempo, e dos quais dizíamos algo como: “Ninguém lá fora imagina isso…” – com um nível de cumplicidade que sempre nos fazia mais próximos.

Nessa manhã de baixa claridade, iniciava-se outra vez uma nova sequência de momentos que marcaria nossa conhecida memória de nós mesmos, como das outras vezes, como havia sido sempre. Segurei seu rosto entre as mãos.

“Pensei que não fosse ver você por muito tempo.”

“Parecia que sim. Também pensei. Estava difícil. Você sabe.”

Ela usava uma camisa branca, mangas compridas enroladas no antebraço. Esmalte claro nas unhas. Uma pulseira delicada, que eu já conhecia. Toquei sua pulseira, também de maneira delicada. Ela baixou a cabeça, acompanhando com os olhos meu gesto simples. Sua femilidade, como tantas vezes eu lhe dissera, é muito forte e independe de adereços. Mesmo assim, tudo contribuía para essa convergência, esse vértice que me atraía irresistivelmente ao seu centro.

“Você, sempre linda.”

“Não sou não”, ela sorriu com leveza.

Tendo a manhã avançada, durante nossa conhecida fase de amenidades, eu me apoiei na lateral de um balcão de alvenaria e descerrei um pouco a cortina curta que protegia uma janela estreita, horizontal, com dois vidros corrediços lisos. Um pouco da claridade do céu nublado invadiu a penumbra calculada da suíte.

“Feche”, ela pediu, piscando os olhos. “Alguém pode ver.”

“Aqui, no andar de cima, ninguém pode ver”, eu a tranquilizei.

De fato, a visão dessa pequena janela alta sobrepunha-se aos telhados próximos. Só do alto de algum edifício alguém poderia ver. Eu não me importava com isso. Mas voltei a cortina à posição anterior, conservando o ambiente aconchegante de nossos olhos acostumados. Em meio a uma e outra carícia, toquei seus cabelos, seguindo com dois dedos um arranjo logo acima da orelha.

“Quem arrumou seus cabelos hoje?”

“Minha filha.”

Abri uma lata de cerveja, outra de refrigerante que estendi a ela.

“Me pega um chocolate também”, pediu.

Nessa fase, trocávamos notícias de pessoas próximas e até mesmo, com menor ênfase, de certos conflitos em alguma outra parte do mundo.

“Eu  adoro essa parte do seu corpo, você sabe.”

“Eu sei”, ela sorriu. “Desculpe ter achado isso engraçado daquela vez.”

“Não tem importância. Estar com você é a única coisa importante.”

A certa altura, ela comentou:

“Não choveu como eu esperava. Não choveu do jeito que a gente gosta.”

Sim, nós gostávamos de deslizar de carro sob a chuva, rumo ao nosso refúgio preferido ou com o pretexto de tomarmos um café em alguma discreta confeitaria do centro. Ela declarava assumidamente alguns de seus caprichos, sonhando em caminhar de mãos dadas comigo sob a chuva, algo que associava a um momento romântica, uma das coisas que eu não compartilhava com ela.

“Não, não choveu. Essas nuvens parecem próximas, mas não prometem nada.”

Uma de minhas recordações com ela dera-se mesmo em um dia chuvoso de inverno, quando a deixei no ponto de ônibus da primeira praça da avenida D. Pedro I. Ela se despediu sem me beijar, como combinado. Nesse dia, usava um casaco que ia até os joelhos, mais longo que seu vestido, e umas botas marrons de salto médio. Vi pelo retrovisor que uma lufada inesperada de vento fez inclinar seu guarda-chuva, e ela se molhou um pouco antes de se juntar às outras pessoas que aguardavam sob o abrigo de teto estreito. Cheguei a ouvir sua voz, a pouca distância, sempre muito feminina e característica, quando ela emitiu uma interjeição de susto sob a chuva fina. Parti, ainda contemplando, nos espelhos retrovisores, sua figura se deslocando e se ajustando ao grupo de usuários, sua figura bem proporcionada, tão conhecida, tão atraente e, à parte qualquer outra definição, absolutamente especial para mim.

“Fique assim, mais um pouco”, pedi. “Gosto de ouvir sua voz.”

“Também gosto de ouvir a sua. Mas deve ser tarde.”

Perguntou as horas, eu lhe dei uns números significando que nossa manhã já avançava imperceptivelmente para o fim.

“Quando vou ver você de novo?”

“Não sei. Você também não sabe. Nunca sabemos.”

Passamos pela guarita, ganhamos a estrada vicinal e em pouco tempo saímos pelo desvio que levava à rodovia.

“Será que ainda vai chover hoje?”, ela perguntou em voz baixa, segurando a bolsa sobre as pernas.

“Que diferença faz isso agora?”, eu disse, sem tirar os olhos do volante, mas tentando ser simpático. Intuía que ela agora imaginava uma de suas cenas sob a chuva possível.

“Porque é uma coisa que a gente gosta.”

Eu imaginava que ela, assim como eu, estivesse se sentindo bem e realizada. Esses momentos carregavam, para mim, um ranço incontestável de felicidade. Seguimos pela rodovia até a entrada de uma nova vicinal que nos levaria de volta à parte urbanizada da cidade. Ela trocava comigo palavras em voz baixa, tranquila e aparentemente já ocupada com outras coisas, enquanto verificava mensagens em seu celular. Sobre nós, um céu que não se decidia. Sem acesso a qualquer sinal de azul. Sem vento. Como se alguma coisa viva e latente estivesse suspensa por nossa causa. Ela guardou o celular. Olhou o céu de nuvens. Flutuante e baixo. Tão espesso e silencioso quanto antes.

“Não choveu como a gente gosta.”

Não. Tudo encoberto ainda. Um céu que não se decidia.

Quando chegamos, estendia-se um céu de nuvens. Flutuante e baixo. Quando partimos, outras (ou as mesmas) nuvens, amplas, compactas, estagnadas, faziam o céu tão espesso e silencioso quanto antes. Como se alguma coisa viva e latente, nessa manhã de outono, estivesse suspensa por nossa causa.

Uma discreta voz feminina se fez ouvir por trás do vidro escuro. Querendo saber do espaço e do tempo.

“Um quarto no andar de cima”, respondi. “Por três horas.”

Silencioso porque não havia vento. Espesso porque amplamente encoberto. Um céu que não se decidia. Que não assumia sua própria densidade enquanto não permitia a visão de qualquer mínima porção de azul.

Nossos movimentos dentro da suíte tornaram-se repetitivos, previsíveis: ela seguia direto ao banheiro para se trocar; eu ajustava o ar-condicionado à nossa temperatura ideal. Depois de abrir a camisa e descalçar os sapatos, eu me sentava na beirada do colchão alto até que ela voltasse e se acomodasse ao meu lado, antes de se ajeitar, carinhosa e afável, sobre minhas pernas – outra série de movimentos previstos, quase um ritual estabelecido, como eram alguns de nossos outros rituais, arranjos e posições, a princípio apenas convenientes, mas que acabavam por se repetir, com isso cristalizando-se ao longo do tempo, e dos quais dizíamos algo como: “Ninguém lá fora imagina isso…” – com um nível de cumplicidade que sempre nos fazia mais próximos.

Nessa manhã de baixa claridade, iniciava-se outra vez uma nova sequência de momentos que marcaria nossa conhecida memória de nós mesmos, como das outras vezes, como havia sido sempre. Segurei seu rosto entre as mãos.

“Pensei que não fosse ver você por muito tempo.”

“Parecia que sim. Também pensei. Estava difícil. Você sabe.”

Ela usava uma camisa branca, mangas compridas enroladas no antebraço. Esmalte claro nas unhas. Uma pulseira delicada, que eu já conhecia. Toquei sua pulseira, também de maneira delicada. Ela baixou a cabeça, acompanhando com os olhos meu gesto simples. Sua feminilidade, como tantas vezes eu lhe dissera, é muito forte e independe de adereços. Mesmo assim, tudo contribuía para essa convergência, esse vértice que me atraía irresistivelmente ao seu centro.

“Você, sempre linda.”

“Não sou não”, ela sorriu com leveza.

Tendo a manhã avançada, durante nossa conhecida fase de amenidades, eu me apoiei na lateral de um balcão de alvenaria e descerrei um pouco a cortina curta que protegia uma janela estreita, horizontal, com dois vidros corrediços lisos. Um pouco da claridade do céu nublado invadiu a penumbra calculada da suíte.

“Feche”, ela pediu, piscando os olhos. “Alguém pode ver.”

“Aqui, no andar de cima, ninguém pode ver”, eu a tranquilizei.

De fato, a visão dessa pequena janela alta sobrepunha-se aos telhados próximos. Só do alto de algum edifício alguém poderia ver. Eu não me importava com isso. Mas voltei a cortina à posição anterior, conservando o ambiente aconchegante de nossos olhos acostumados. Em meio a uma e outra carícia, toquei seus cabelos, seguindo com dois dedos um arranjo logo acima da orelha.

“Quem arrumou seus cabelos hoje?”

“Minha filha.”

Abri uma lata de cerveja, outra de refrigerante que estendi a ela.

“Me pega um chocolate também”, pediu.

Nessa fase, trocávamos notícias de pessoas próximas e até mesmo, com menor ênfase, de certos conflitos em alguma outra parte do mundo.

“Eu  adoro essa parte do seu corpo, você sabe.”

“Eu sei”, ela sorriu. “Desculpe ter achado isso engraçado daquela vez.”

“Não tem importância. Estar com você é a única coisa importante.”

A certa altura, ela comentou:

“Não choveu como eu esperava. Não choveu do jeito que a gente gosta.”

Sim, nós gostávamos de deslizar de carro sob a chuva, rumo ao nosso refúgio preferido ou com o pretexto de tomarmos um café em alguma discreta confeitaria do centro. Ela declarava assumidamente alguns de seus caprichos, sonhando em caminhar de mãos dadas comigo sob a chuva, algo que associava a um momento romântica, uma das coisas que eu não compartilhava com ela.

“Não, não choveu. Essas nuvens parecem próximas, mas não prometem nada.”

Uma de minhas recordações com ela dera-se mesmo em um dia chuvoso de inverno, quando a deixei no ponto de ônibus da primeira praça da avenida D. Pedro I. Ela se despediu sem me beijar, como combinado. Nesse dia, usava um casaco que ia até os joelhos, mais longo que seu vestido, e umas botas marrons de salto médio. Vi pelo retrovisor que uma lufada inesperada de vento fez inclinar seu guarda-chuva, e ela se molhou um pouco antes de se juntar às outras pessoas que aguardavam sob o abrigo de teto estreito. Cheguei a ouvir sua voz, a pouca distância, sempre muito feminina e característica, quando ela emitiu uma interjeição de susto sob a chuva fina. Parti, ainda contemplando, nos espelhos retrovisores, sua figura se deslocando e se ajustando ao grupo de usuários, sua figura bem proporcionada, tão conhecida, tão atraente e, à parte qualquer outra definição, absolutamente especial para mim.

“Fique assim, mais um pouco”, pedi. “Gosto de ouvir sua voz.”

“Também gosto de ouvir a sua. Mas deve ser tarde.”

Perguntou as horas, eu lhe dei uns números significando que nossa manhã já avançava imperceptivelmente para o fim.

“Quando vou ver você de novo?”

“Não sei. Você também não sabe. Nunca sabemos.”

Passamos pela guarita, ganhamos a estrada vicinal e em pouco tempo saímos pelo desvio que levava à rodovia.

“Será que ainda vai chover hoje?”, ela perguntou em voz baixa, segurando a bolsa sobre as pernas.

“Que diferença faz isso agora?”, eu disse, sem tirar os olhos do volante, mas tentando ser simpático. Intuía que ela agora imaginava uma de suas cenas sob a chuva possível.

“Porque é uma coisa que a gente gosta.”

Eu imaginava que ela, assim como eu, estivesse se sentindo bem e realizada. Esses momentos carregavam, para mim, um ranço incontestável de felicidade. Seguimos pela rodovia até a entrada de uma nova vicinal que nos levaria de volta à parte urbanizada da cidade. Ela trocava comigo palavras em voz baixa, tranquila e aparentemente já ocupada com outras coisas, enquanto verificava mensagens em seu celular. Sobre nós, um céu que não se decidia. Sem acesso a qualquer sinal de azul. Sem vento. Como se alguma coisa viva e latente estivesse suspensa por nossa causa. Ela guardou o celular. Olhou o céu de nuvens. Flutuante e baixo. Tão espesso e silencioso quanto antes.

“Não choveu como a gente gosta.”

Não. Tudo encoberto ainda. Um céu que não se decidia.

Imagem: Claude Monet. Impressão nascer do sol (detalhe superior). 1872.

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