Categoria Lisette Maris

A casa e a célula

Claro que eu não poderia, nem deveria, aproximar-me de tal pensamento. Mesmo porque não o havia procurado, ele é que chegava até mim por meio das conclusões dela, que por sua vez pareciam ter-se originado de um sonho – para outros, talvez, um pesadelo. Na verdade, preocupam-me tentações desse gênero porque sei que sou capaz de experimentá-las. Ter um dia vivido certas experiências por minha própria vontade é o que mais sustenta meus receios secretos hoje.

Cães de caça entre a Lira e Leão Menor

Eu olhava o cadáver: que fazer com esses restos? “Que fazer de vocês?”, eu o olhava.
Trouxera-o de fora ao jardim dos fundos, já não podia voltar atrás. Terra ainda úmida, não seria difícil abrir uma cova precária, nem aquilo merecia mais. Logo voltariam a relva, as ervas rasteiras e umas flores inúteis, sempre casuais e ridículas.

Cores, sombras: aquarela de passagem

Minha lancheira encardida, ela com seus cadernos de classe empoeirados pelas quadras de terra que afastam a pequena escola, um galpão tosco e sem recursos que fica para mim tão longe, longe... É apenas o caminho de volta. Mas, aos seis anos, tudo é fascinante em qualquer caminho.

Cenas infantis

“É preciso ter coragem, lembra?”

“Lembro, claro que sim. Mas parece que a coragem é uma qualidade dos sórdidos.”

“Não importa. É preciso ter coragem de qualquer maneira. Noite alta, as casas fechadas. Sou apenas um corpo que anda. Por que a noite me aflige assim?”

“Como posso saber? O que será para você talvez um prêmio poderá ser para mim um castigo.”

“Certa vez sonhei com a glória. De outra vez, sonhei com o amor. Nas duas vezes, acordei sozinho.”

Engenho de limites

O luar quebrava o último ângulo dos ladrilhos. Na cama, eu aguardava o sinal sem fim das ausências, a bruma quase irreal que sucede as agitações em marcha, os pesadelos e os grandes conflitos, protegendo-me sob o cobertor como um menino se guarda sem seus anjos antes que volte vibrando, amplo e benigno, o trem da manhã.

Das afinidades familiares

Outra noite, com amigos. Fomos os últimos. Chovia, e começávamos a nos desejar – eu, que nunca sorria. 1 Meu pai, depois de sepultado, passou a parecer-se ainda mais comigo. No sofá da sala, era o meu duplo, um espelho…

Autorretrato 23 (conto)

A desconhecida que me devassava atraiu-me também. Entre suas companheiras, outras não menos cativantes, não se destacava pela beleza. Eu via algo em sua figura e em seus gestos, uma vaga ansiedade.

Carta com sarcófagos

Quarto-e-sala é como chamam esta cela. A palavra estrangeira soa um pouco mais alegre, mas claro que não a liberta nem altera seus limites. Nada há de especial neste cubículo onde às vezes sonho ou interpreto minhas solidões, exceto por uma porta extra no fundo da saleta em L. Que eu saiba, é o único apartamento com esse inútil apêndice.

Noite no jantar dançante

Outros homens me viram passar pela porta lateral do salão de festas. Sei que me observaram de seus secretos desejos quando saí para o jardim aberto. Sentei-me sobre uns degraus de ardósia entre dois gramados, de altura conveniente. Tirei da bolsa o batom, revi meu rosto no pequeno espelho, meu pequeno rosto.