Categoria Conto

Brinquedos

Álbum de figurinhas com artistas e casais da tevê: por essa época, meus pais já não dormiam juntos. Banco imobiliário, enquanto oficiais de justiça chegavam para levar eletrodomésticos, objetos afins, valores penhorados.

Sonho 2117. A corte vazia

Um homem está sendo julgado. A mulher bem vestida (entendo mais tarde que é a promotora de justiça) se levanta, com o dedo em sua direção, pronunciando frases intensas. O réu parece contrair-se no encosto, amedrontado. Um ambiente austero, vigas de madeira escura, divisórias envernizadas. Mas curiosamente as paredes parecem em chamas, entre fortes tons de amarelo e vermelho. Aquilo tudo parece ser muito importante, não compreendo por quê. Subo umas escadas laterais para assistir a este extraordinário julgamento de outro ângulo, de um balcão mais alto. Quando chego ao andar superior, a corte está vazia. Não há mais ninguém lá embaixo. A justiça e a injustiça já haviam entrado e saído, tendo frequentado todas as salas de audiência do mundo. E agora não eram mais nada. É que o tempo havia passado.

Estudo com cristais. Ester (10/13)

Conheci Ester no balcão de uma cantina – pelo menos, foi quando nos vimos. Não sei, mesmo hoje, se cheguei a conhecê-la como se espera conhecer alguém. Costumávamos almoçar ali, separadamente, quando não existíamos. Da primeira vez, iniciou-se uma conversa por acaso. Ela era educada, levemente arrogante. Da segunda, toquei seu ombro antes de me sentar – era morno, convidativo. Na terceira beijei-lhe o rosto, pele clara e bem tratada. E nos dias que se seguiram... Não, não havia nada menos casual do que nossos encontros na cantina.

Três mulheres, um talismã

Todos os livros que uma vez abri nunca mais se fecharam, e guardaram-se por trás de meus olhos como quando os lia antes de me deitar e os levava abertos minha noite adentro, Lice talvez me compreendesse afinal, ela que também vivia seu plano mágico: que faço minhas todas as palavras, que a morte só virá para mim quando eu não mais puder abrir e fechar livros antes de me deitar e não mais puder guardá-los por trás de meus olhos, levá-los abertos meu país adentro.

Micro-organismos

A manhã pelos vidros do laboratório não o afasta da noite anterior, quando se dera a dolorosa confirmação de que vinha sendo traído, e o pior: com o último homem que ele acreditaria capaz de despertar desejos em uma mulher.…

Sonho 1081. A carruagem veloz

Há um grupo de homens uniformizados, com seus cavalos, bem à frente. Uns montados, outros de pé, apenas inertes ao lado de suas montarias, talvez aguardando ordens. Alguns desses homens caminham devagar enquanto olham o chão, como vistoriando o local, aparentemente de maneira aleatória, cruzando caminhos. Dois cães passeiam entre eles, também calmos, mas sem rumo. Um nevoeiro esconde as entranhas do bosque.

Clara sob luz amena

Ela me ajuda com a calça, tira-me pelas pernas o que até há pouco impedia-me a nudez. Em troca, abro-lhe o vestido, o sutiã, desço-lhe a calcinha aos joelhos que se dobram, um após outro, tornozelos simultâneos. Não nos agrada a breve união que facilmente aproxima o orgasmo. Sempre nos lembra algo em que participe o perigo, o estranhamento, o não nos reconhecermos por um momento ou por certo tempo parecermos outros.

As cinco estações

Privilegiado pelas árvores, o bosque à janela de meu quarto, de onde migravam brisas aromáticas como filtradas por estames novos, canto de cigarras entre outros, quando a natureza revia seu sofisticado universo: as vastas manhãs da adolescência pareciam mais lânguidas na primavera.