Categoria Marcas de gentis predadores

Os textos apresentados nesta categoria são fragmentos de um romance inédito. O tempo não segue trajetória linear no texto original, por isso as publicações podem, igualmente, aparentar uma sequência não convencional.

O romance trata de um casal – Danilo, quarentão, Liana, trinta e poucos anos. Eles acabaram de se conhecer, estão num motel “saboreando um período de encantamento de namorados, depois de uma trajetória de relacionamentos equivocados e mal sucedidos para cada um”. Muitos anos antes, uma ex-namorada de Danilo (Ana Lúcia) se suicidou e, conforme ele conta sobre isso à sua atual companheira, vai caindo em contradição a ponto de sugerir que foi ele quem a matou. Aos poucos, Liana vai ficando desconfiada e com medo dele. Começa então um jogo de gato-e-rato cheio de sutilezas, pois ele não tem certeza se ela está suspeitando dele ou não.

Um dia, você abriu o jornal…

“Mas você a subestimava mesmo, não? Olha só, como ela era sensível! Puxa, acho que só as mulheres se entendem afinal. Essa das conchinhas... Estou gostando dela, cada vez mais. E se ela estivesse viva, eu estaria preocupada agora, me contorcendo de ciúmes.”

Danilo sorriu com o cantinho da boca, vaidoso. Mas baixou os olhos para sua taça.

O segredo das conchas

“Não importa se você vai rir de mim, não importa mesmo.”

“Ora, Ana, imagine...”

Ela remexia a bolsa. Buscava uma coisa. Algo se prendeu, depois se soltou, em meio a algum ruído de chaves ou qualquer outra quinquilharia de metal.

Todos nós, de vez em quando…

Cris e seus periquitos australianos. Eram dos pais dela, melhor dizendo. Ela morava com eles – com os pais e com os periquitos. Havia um grande viveiro na área externa do apartamento, que tinha o privilégio de ser no térreo. Cris convidara Danilo e mais uma colega a estudar inglês em sua casa naquela tarde, além de traduzir umas letras de música porque queriam – no fim, foi só o que fizeram, isso das letras de música.

A foto deles dos Beatles

Os Beatles também concordaram em expulsar um ou outro baterista, tudo em nome da estética, da arte, da posteridade, do sucesso. E porque, mesmo parecendo rebeldes, obedeciam ao empresário, seu patrão. Queremos ser como o americano (Presley), declaravam, pretensiosos. Queremos ser os palhaços do mundo. Querem ser todas as coisas.

Lemuel

A máquina de escrever? Funcionando sim, barulhenta e produtiva. Enquanto os colegas repartiam cerveja e conceitos efervescentes, ele os observava, observava por algum momento a si mesmo em meio àquilo tudo, ruminava: não importa o que eles dizem, todos os dias e noites vão passar, tudo isso vai deixar de ser, todas essas ideias e discussões vão se perdendo no are no álcool, mas...