Categoria Os últimos dias de agosto

Páginas claras, penumbra

Seus sentidos já pressentem o que há de vertigem sob esta superfície, e assim prossigo. Sei que contar não ajuda muito. Contar é já fazer esquecer. Ainda assim, preciso que me ouça. Você também provou de um veneno infalível, tornando-se…

O nome dela era Vanda

Após tê-la conhecido de perto, sentiu que se fazia, a corça, muito mais inalcançável, mais do que antes, quando não passava de uma sombra indefinida, e como se desde o primeiro momento ele desejasse, sem saber, alcançá-la. Ousadias avulsas. Resultado de superfície. Cansativos rituais de acasalamento. Mas no momento incerto, depois tornado certo, o desejo é maior do que o mundo.

Assim são as festas

A desconhecida voltou à sala, acenou a uns amigos, o que fazia ver que não estava na festa até então. Especialmente abraçou outra garota. Perguntou por ela e por alguém mais, antes de iniciar o ritual de trocar beijos contados à altura da orelha ou estalados em falso, no ar, com uns rapazes que aparentemente a conheciam. Um deles, desviando o rosto, beijou-a na boca, ela não se importou e sorriu.

Vanda vence a água e as nuvens

Mal podia vê-la, a roupa que fosse, eu chegando ao apartamento, já a desejava com toda a saliva a sufocar-me a garganta, essa sensação inconfundível que precede e já desencadeia os estados de grande excitação, e isso me cegava, impedia-me considerá-la ainda como pessoa, mal tinha tempo de pensar em qualquer outra coisa caso ela não me refreasse algumas vezes...

Sonho 811. O livro que falta

A coleção consistia de quatro livros ilustrados, uma enciclopédia adaptada para adolescentes, com artigos sobre inúmeros assuntos. Com o tempo, algumas imagens desapareceram de suas páginas, e eu nunca mais as encontrei – um menino deitado sob uma groselheira, o rosto malvado de um corsário e uma jovem grega portando uma ânfora. Talvez eu as tenha sonhado. Talvez tenham desaparecido de fato.

Nas escadas, mas não muito

“Ora, Júlio, você é livre. Livre para tudo. Pois não vai o tempo dissolvê-lo como a todos, não é esse o jogo do futuro? Do que então podem ameaçá-lo?”

“Não sei, Pablo. Ainda falta algo. Não compreendo. Ainda não. O que acha, Cândido?”

“Vendo você aí, sentado nos degraus da escada, como se tudo estivesse bem, como se sua tranquilidade não servisse a disfarçar graves turbulências, eu diria que devesse apenas prosseguir com calma.”

“Com calma. O que quer dizer isso?”

“Envolver-se com o trabalho sem ficar imaginando coisas. Ficar com essa moça mesmo. Afinal, não se pode encontrar alguém na justa medida para nossas arbitrariedades.”

Papéis com imagens, ossos para não esquecer

Quinze anos. Violentada pelo cunhado. Perdera o filho de um mês. Sombras de família. Segredos, escândalos. Foto-grafada no pomar, sorri em meio às laranjas. Saudável, cati-vante, pernas e pés à mostra convidando a um ato brutal de volúpia. O sorriso, o pomar de laranjeiras. O que busca a natureza afinal? Momentos de violento desejo gerando cria-turas frágeis e delicadas como os recém-nascidos não pare-cem participar da mesma sucessão de fenômenos. Ora, que dizer da morte? A mesma imagem ainda o desafia. A jovem o olha de frente. Sorri. Em meio às laranjas.