Categoria Romance

A bela e as esferas

Foi então que, abrindo os olhos, voltando dessa experiência mística, esse meu rápido e estúpido transe, me aconteceu perceber o interesse de uma jovem púbere, de agradável semblante, que a mim observava discretamente de sua mesa, relativamente próxima. Estava com os pais – veja-se se isto são lugares para se levar uma garota dessas numa noite de sexta-feira! Uma ninfeta de pelo menos treze anos, que o inverno fizera calçar botinhas e estreitar-se em malhas justas, reveladoras de formas em transição. Magrinha, delicada, cabelos lisos que um enfeite discreto desviava para o ombro esquerdo, seu pescoço parcialmente emoldurado pelo capuz do casaco, que lhe caía dos ombros às costas como formando uma ligeira corcunda. Uma graça. Um doce. Um pecado.

Perdemos o fim da missa

Eu olhava ao fundo o retrato de Machado de Assis, menino de morro, ascensão social e exemplo que querem os outros como encarnação de seus métodos de controle, este à minha frente, eu considerava, se não finge tanto quanto eu, espera como todos que eu escreva por ele, que eu veja o que ele ainda não vê, que esclareça algo do ridículo mistério do qual somos parte, nós dois, agora mesmo, eu a ser cumprimentado, ele a cumprimentar-me, também de pé sobre a vida, sem suspeitar talvez de que eu era, como ainda sou, incapaz, tragicamente incapaz, de atinar com a mais simples das respostas.

Retrato de meu hábitat quando jovem

Voltei para casa, mas sem grandes preocupações. No caminho, havia decidido levar adiante meu projeto, mesmo que não pudesse editá-lo. Deve ser algum distúrbio, eu sei. Cheguei menos cansado que o normal, suspirando assim mesmo, olhei com má vontade a pasta com meus textos sobre a escrivaninha (eu pretendia levá-los à editora, mas no último momento optei por não mostrar nada daquilo). Espantei uma barata cascuda que sugava minha xícara do dia anterior. Tranquei-me no quarto. Estava em casa.

O Arcádio do Conselho Editorial

Antes de ir até lá, eu havia telefonado para confirmar a entrevista. Ela me deixara esperando por um tempo razoavelmente longo, pois fora o bastante para despertar-me o tédio, enquanto a gravação no aparelho entoava: Há um mundo bem melhor, todo feito pra você..., aquela incrível canção com a qual tentam nos motivar desde as trevas da infância.

Passeio (forçado) com Mônica

Mônica esperava em meu quarto. Sentada na cama, curvada para a frente, a mão direita apoiando o queixo, os últimos dedos mordiscados entre os dentes, a outra esquecida no colo. Pernas cruzadas, um pé como solto no ar desenhando voltas sobre si mesmo, depois refazendo o giro a girar no sentido contrário.

“Então? Vamos?”

Entregou-me a chave.

“Vamos.”

Noções de origem

Por uma questão de dignidade, eu queria continuar contando mentiras bem elaboradas, e nunca passar à frente nenhuma mentira que não fosse de minha própria autoria. Sim, isso me animou em muitas fases difíceis da vida. E talvez me motive sempre. Ah, como é bom escrever. Como é bom mentir.

Sonho 811. O livro que falta

A coleção consistia de quatro livros ilustrados, uma enciclopédia adaptada para adolescentes, com artigos sobre inúmeros assuntos. Com o tempo, algumas imagens desapareceram de suas páginas, e eu nunca mais as encontrei – um menino deitado sob uma groselheira, o rosto malvado de um corsário e uma jovem grega portando uma ânfora. Talvez eu as tenha sonhado. Talvez tenham desaparecido de fato.

Dilemas inofensivos, obsessões horrendas

Como me irritam pessoas que leem tudo tão rápido. De uma enfiada, elas dizem. Bem-humoradas, contentes com essa capacidade boba. Como já disse, sou lento para ler (ou lerdo, o que melhor servir), devo reprimir uma faísca de inveja dos rápidos. Não sei se é só isso. Você fica cinco anos escrevendo um livro, relendo e organizando etapas, desclassificando personagens, enriquecendo outros, angustiando-se com dúvidas gramaticais, e ela lhe diz, toda alegre, hiperativa: “Li o seu livro numa única tarde, numa enfiada.” Ah, é assim? Numa enfiada, depois de tudo o que eu fiz? Ela vai ver só a enfiada.