Categoria A seta de Verena

O Arcádio do Conselho Editorial

Antes de ir até lá, eu havia telefonado para confirmar a entrevista. Ela me deixara esperando por um tempo razoavelmente longo, pois fora o bastante para despertar-me o tédio, enquanto a gravação no aparelho entoava: Há um mundo bem melhor, todo feito pra você..., aquela incrível canção com a qual tentam nos motivar desde as trevas da infância.

Passeio (forçado) com Mônica

Mônica esperava em meu quarto. Sentada na cama, curvada para a frente, a mão direita apoiando o queixo, os últimos dedos mordiscados entre os dentes, a outra esquecida no colo. Pernas cruzadas, um pé como solto no ar desenhando voltas sobre si mesmo, depois refazendo o giro a girar no sentido contrário.

“Então? Vamos?”

Entregou-me a chave.

“Vamos.”

Noções de origem

Por uma questão de dignidade, eu queria continuar contando mentiras bem elaboradas, e nunca passar à frente nenhuma mentira que não fosse de minha própria autoria. Sim, isso me animou em muitas fases difíceis da vida. E talvez me motive sempre. Ah, como é bom escrever. Como é bom mentir.

Dilemas inofensivos, obsessões horrendas

Como me irritam pessoas que leem tudo tão rápido. De uma enfiada, elas dizem. Bem-humoradas, contentes com essa capacidade boba. Como já disse, sou lento para ler (ou lerdo, o que melhor servir), devo reprimir uma faísca de inveja dos rápidos. Não sei se é só isso. Você fica cinco anos escrevendo um livro, relendo e organizando etapas, desclassificando personagens, enriquecendo outros, angustiando-se com dúvidas gramaticais, e ela lhe diz, toda alegre, hiperativa: “Li o seu livro numa única tarde, numa enfiada.” Ah, é assim? Numa enfiada, depois de tudo o que eu fiz? Ela vai ver só a enfiada.

Beckett lhe dá as boas-vindas

Cheguei mesmo a impedir que ela se apoderasse de uns exemplares meio carcomidos, que poderiam destroçar-se de vez – porque eu guardava umas edições muito velhas, de um papel que teria sido branco noutro século, tão antigas que, ao lerem-se alguns de seus parágrafos em voz alta e com alguma boa vontade, seriam capazes de despertar uma múmia em outra parte do mundo.

Consumação mínima

Ela fez questão de mencionar a última vez que estivemos num restaurante. Um sujeito simpático, meio garçom, meio porteiro, não sei, sorria às pessoas que entravam e saíam, desejando-lhes boa noite, bom apetite, bom isto, bom aquilo. Abriu-nos a porta de vidro e um sorriso que não o impedia de nos radiografar dissimuladamente, tanto quanto eu, por minha vez, também o observava, em silêncio, agindo assim.

Meu amigo poeta-patriota

Glauco Pinheiro de Pádua, engenheiro civil, emprego público, Prefeitura Municipal. Poeta por prazer – ou necessidade? Às vezes aparece para trocar ideias, sua tal expressão, na verdade não é uma troca de ideias, ele nunca me dá ideias. De minha parte, evito anunciar-lhe as minhas – não que mereçam qualquer segredo, mas porque normalmente ele não as aprova. E traz seus poemas. Como qualquer pessoa de meia-idade ou aposentada, não consegue disfarçar um estranho contentamento em declarar-se extremamente ocupado, lamentando a terrível falta de tempo. Ele tem trinta e dois anos.

Duas linhas, literalmente

O jornal dedicou-me duas linhas, literalmente, numa de suas colunas mais estreitas, o tópico cultural. E não que merecesse mais do que isso. Aquele era, sem dúvida, um de meus contos mais execráveis: convencional, descritivo, tinha até uma mensagem. Escrevi muitos contos ruins, e quase todos foram premiados. Por sorte, nem todos foram publicados, e eu pude extraviá-los mais tarde.