Da primeira vez, quando dormimos juntos (nossos encontros têm sido escassos, à sorte de oportunidades), Lis perdeu o sono antes de mim. O beijo umedecido, emergindo das trevas, tornava lábios o pântano e a névoa que me entorpeciam, trazia-me de volta à vigília, ao que eu era e me sentia sendo, à vida possível. Na faixa que ainda me retinha entre a inconsciência e a memória, via-me na véspera, à entrada da casa: o jardim e suas trevas, a campainha sob a gárgula, hera sobre as pilastras, uma escolta de plantas e palmas que o vento sem lua fazia oscilar, o caminho de pedras informes até a porta pesada de relevos, essa que me franqueava Lis, seu sorriso de encontro. Outra vez a camiseta branca, o detalhe à altura do seio, tênis e jeans, o que normalmente veste para ir à escola, e uma maquiagem talvez ostensiva, própria aos olhos azuis, aos cabelos finos, lisos, e a disfarçar o rosto quase infantil. Dormindo, revela alterações na frequência de sua respiração. Os mais jovens sofrem alterações mais rápidas. Palpitações. Pulsações.