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Última chance com incêndios

As crianças que se perseguiam, de risos e vozes que eu assimilava como à distância, passaram entre mim e as chamas interrompendo meu estado de fixação involuntária. Que era isso? Uma maneira de concentrar-me? Distrair-me?

Essa noite trazia algo de abandono. Meus olhos haviam perdido os contornos da fogueira em movimento, a nitidez das fagulhas que se desgarravam, enquanto eu aceitava ser absorvido pelo cerne do que me consumia longamente até o coração do fogo. Não mais assistia ao espetáculo das centelhas que as chamas lançavam ao céu e o vento punha a dispersar na noite sobre todos nós, eu e os que festejavam.

Mirna e a viking de tranças

De bruços na cama, eu acompanhava os esforços de Mirna das Selvas em suas aventuras solitárias, atento às expressões de seu rosto, tantas vezes ligado por uma trilha de pequenos globos brancos a um balão-nuvem no qual se organizavam espaços e curiosos sinais. Olhos cintilantes perdidos no horizonte das grandes clareiras. Brincos, braceletes de couro. Armas rudimentares. Cabelos negros, longos e revoltos. Agachando-se por alguma estranha pegada. Eu lia em seu rosto suas decisões. E seus silêncios.

Preço justo

O que mais me admira no espetáculo do mundo, demarcado por longos estios e chuvas devastadoras, é esse inconcebível potencial de fugacidade e aniquilação, um sol escuro, nem benigno nem maligno, que a um tempo extingue e renova tudo o que existe, preservando a vida à custa de exterminar justamente os que vivem, com isso propondo que tudo continue sob o preço de que nada permaneça.

Sete anos em Manhattan

Por vezes não sabemos por que fazemos algo. Mas um dia alguém descobre por nós. E quantos, como eu, não teriam buscado respostas para a vida? – o que afinal significa buscar respostas para si mesmos. Tenho a sorte de reter muitas lembranças, o que tanto me serviu quanto me prejudicou.