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Você, que não queria ler isto

Quem de nós nunca experimentou uma sensação de impotência, quase de amargura, ao adentrar uma biblioteca ou grande livraria e tomar consciência da proliferação de títulos e autores ali acumulados, os textos à espera de olhos que os percorram, os autores de inteligências que os admirem e até, quem sabe, tanto quanto os livreiros, de compradores que os troquem por um dinheirinho? A sensação de que você não passa de um inseto alfabetizado passeando por uma floresta formada em diversos países durante dezenas ou mesmo centenas de anos, como também toda a produção anual de novos frutos, flores e até excrementos, a certeza de que jamais lerá um centésimo sequer dos poetas do mundo, que dirá dos prosadores e dos médicos que preferiram enriquecer com livros sobre ginecologia e combate ao estresse, tudo isso sem contar os psicografados, como se ainda nunca fosse suficiente o número de autores vivos disputando nas prateleiras seu lugar à sombra.

P.S.: Post scriptum (Pós-Escrita)

Os professores repreendiam-me, estranhavam que tanto eu pressionasse o lápis sobre o papel. Mais tarde, a caneta. Nunca soube escrever de outra maneira, e não me desenvolvi. O adolescente não podia evitar que os tipos datilografados perfurassem o papel – e os acentos, aspas, vírgulas e interrogações remetiam ao braile, não sem alguma alusão oportuna, minhas dúvidas e escuridão. Não me ocorre, mesmo hoje, a razão pela qual necessito firmar minha escrita, meu código de forças, minha ativa mão, meus dínamos em meio a um mundo insólito e perpassado pela indiferença, por mais que eu avance ferindo os papéis. O texto é meu objeto, meu homem de argila. E nenhum papel foi jamais suficiente para mim.