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Três mulheres, um talismã

Todos os livros que uma vez abri nunca mais se fecharam, e guardaram-se por trás de meus olhos como quando os lia antes de me deitar e os levava abertos minha noite adentro, Lice talvez me compreendesse afinal, ela que também vivia seu plano mágico: que faço minhas todas as palavras, que a morte só virá para mim quando eu não mais puder abrir e fechar livros antes de me deitar e não mais puder guardá-los por trás de meus olhos, levá-los abertos meu país adentro.

Micro-organismos

A manhã pelos vidros do laboratório não o afasta da noite anterior, quando se dera a dolorosa confirmação de que vinha sendo traído, e o pior: com o último homem que ele acreditaria capaz de despertar desejos em uma mulher.…

A seta de Verena. Abertura 2 (Meigos pastores, secretos assassinos)

Todo artista compreende um dia, ainda que se deixe classificar como criativo ou mesmo que continue fingindo-se inocente, que nunca foi senão o resultado da convergência de inúmeros outros que ele próprio elegeu. Vivemos entre os invisíveis limites de um mistério que se deixa entrever por espasmos, como cristais guardados só para alguns momentos, nas frestas de umas estranhas revelações que talvez se tenham dado a uns e a outros.

A seta de Verena. Abertura 1 (Guardo-o como quero)

Você se levantou e não pôde evitar o dia. Você se desvia do espelho que também encontrará em pouco, mas não deve admitir que seu rosto esteja inteiramente arruinado. Afinal, bem perto de onde vive, e por grandes extensões de terra, seus semelhantes compartilham misérias tão mais graves que as suas, embora de outro gênero. Tão mais urgentes são tais necessidades, tão exaustiva a marcha diária por conseguir o tão pouco que almejam, tão perverso o silêncio dos que os mantêm sob tais condições e sob controle, isso de tempos imemoriais até cercá-lo hoje, são tragédias pessoais e secretas, desde já riscadas da história...

Clara sob luz amena

Ela me ajuda com a calça, tira-me pelas pernas o que até há pouco impedia-me a nudez. Em troca, abro-lhe o vestido, o sutiã, desço-lhe a calcinha aos joelhos que se dobram, um após outro, tornozelos simultâneos. Não nos agrada a breve união que facilmente aproxima o orgasmo. Sempre nos lembra algo em que participe o perigo, o estranhamento, o não nos reconhecermos por um momento ou por certo tempo parecermos outros.

Bom dia, ontem

Quando se olha por uma janela e se observa o mesmo panorama, com os mesmos recortes de telhados, através dos mesmos vidros, por entre a mesma moldura, tanto no dia de ontem como no dia de hoje, o pensamento alonga-se como se espreguiçando, que as coisas todas parecem não passar nunca, e a nossa janela e os nossos dias estão sempre aí, ao alcance dos olhos.

As cinco estações

Privilegiado pelas árvores, o bosque à janela de meu quarto, de onde migravam brisas aromáticas como filtradas por estames novos, canto de cigarras entre outros, quando a natureza revia seu sofisticado universo: as vastas manhãs da adolescência pareciam mais lânguidas na primavera.

O capitão na corte dos cadáveres

Respiro, ao entrar, o silêncio hostil desses que me aguardam na sala do general. Caminho com segurança mas sem presunção. Sei que deste último confronto dependem minha vida e minha morte. O que tenho feito nos últimos meses, cada lance como sobre um vasto tabuleiro de xadrez, desde as ações de bravura até meus romances clandestinos, imperfeitos e obscenos, tudo me conduziu, ao que parece, a este momento cabal e inevitável, o que provo hoje. Há olhares e silêncios. E tudo se parece com meu fim.