Tag literatura

Estudo com paredes / … / Estudo com ferramentas

Viu horrorizado que a machadinha empastada de sangue subia e descia em golpes sucessivos sobre seu peito. Pareceu-lhe uma infinidade de pancadas surdas ainda que uma só delas pudesse abrir-lhe o tórax ou separar-lhe a cabeça do corpo, e ainda que o jovem empunhando a perigosa ferramenta, um moreno escuro de físico débil, rosto de zigomas, bigode por vingar, costeletas desiguais e olhar traiçoeiro, não demonstrasse tanto vigor e habilidade.

Café com neblina imprevista

O caminho para o trabalho, os dias úteis, calendário. Supõe-se a agulha de um disco gigantesco, percorrendo as mesmas faixas conhecidas, o mundo à frente. Mesma rua, algumas quadras, quem diria. Quem diria? Estela: “Ora, somos vizinhos de serviço”, ela…

Não diga! Eu também…

“Desculpe, qual é mesmo o seu nome?”

“Estela. E o seu?”

Sim, o que ele merecia. Consagrando e consolidando seu caos de motivos siderais. O meu? Júlio. Muito bem. Fácil.

“Estela, me diga”, segurando aquela xícara enorme com as duas mãos. “Você costuma trazer estranhos para a sua casa?”

“Não. Mas vi que você era inofensivo.”

Júlio ouviu uma sirene de polícia a certa distância, provavelmente a alguns quarteirões dali, lá embaixo.

“Obrigado. Aceito a ironia. Não me importo.”

Vanda pela manhã

Júlio entendeu pela metade o que vinha sendo escrito em suas costas. Julgou que a última palavra fosse tesão. Deixou de sentir o movimento do dedo sobre sua pele. Fingiu que dormia para que ela prosseguisse, ela não prosseguiu, ele então fingiu que acordava. Ao abrir os olhos, a primeira impressão foi a de não estar em sua própria cama. Antes que o tempo escorregue por nossos dedos. Pensou ter sonhado com essas palavras.

Um puta abraço, os dois

Ele tirou a capa de sua antiga máquina de escrever, anos sem uso, nem serviria mais para nada, claro. Claro que não. Porque agora... Agora as teclas enchiam seus ouvidos, a vertigem fazia desfilar páginas arrancadas do cilindro com felicidade, os textos prontos, os estampidos sequenciais de uma metralhadora louca sobrepostos no tempo, registrando com fúria amostras de sua confusão e de seus ideais perdidos para sempre...

Anões na interpretação de textos

Roman Jakobson, um dos formalistas russos e pioneiro na análise estrutural da linguagem, procurava valores nos textos literários que pudessem justificá-los em si mesmos, independente de seu contexto histórico ou social. Tomando como modelo o poema O corvo, de Edgar Allan Poe, ele viu nessa obra sinais representativos desses valores, tanto sob uma perspectiva formal quanto semântica. Bom, mas o que é isso tudo?

Enquanto seu ônibus não vem

Regina tinha os lábios finos mas tentadores. Com a mesma nitidez daquelas noites, o rosto dela aproximava-se para mais um delicioso beijo, sempre um delicioso beijo – o nariz pequeno, as maçãs do rosto, os cabelos curtos e loiros soltando pontas irregulares ao redor das orelhas, o contorno de seu rostinho quadrado desaparecendo conforme os olhos de Danilo finalmente se fechavam, antes tentando adiar ao máximo a visão da proximidade dela, e então aquela boquinha firme, decidida a possuir a dele, primeiro com pequenos toques e pegadinhas leves, que não duravam muito.

Os mocinhos da matriz

Foram a uma cidade próxima, a trabalho, acompanhando um gerente que tinha muita esperança no futuro deles. (Ah, se ele soubesse...)

As meninas da filial, que eles estavam a poucos quilômetros de conhecer, representavam, para alguns, uma agradável esperança. Para Danilo, certamente. Acreditava no destino, sabia que mais cedo ou mais tarde encontraria a mulher de sua vida, embora não tivesse tido ainda uma namorada sequer.

Um dia, você abriu o jornal…

“Mas você a subestimava mesmo, não? Olha só, como ela era sensível! Puxa, acho que só as mulheres se entendem afinal. Essa das conchinhas... Estou gostando dela, cada vez mais. E se ela estivesse viva, eu estaria preocupada agora, me contorcendo de ciúmes.”

Danilo sorriu com o cantinho da boca, vaidoso. Mas baixou os olhos para sua taça.

O segredo das conchas

“Não importa se você vai rir de mim, não importa mesmo.”

“Ora, Ana, imagine...”

Ela remexia a bolsa. Buscava uma coisa. Algo se prendeu, depois se soltou, em meio a algum ruído de chaves ou qualquer outra quinquilharia de metal.