
O fim (e seu avesso)
Muitas vezes pensamos que tudo está sob controle. Que estamos a salvo e imunes. Só então é que as coisas de fato acontecem.
Textos literários por Perce Polegatto
Textos literários por Perce Polegatto

Muitas vezes pensamos que tudo está sob controle. Que estamos a salvo e imunes. Só então é que as coisas de fato acontecem.

Um homem está sendo julgado. A mulher bem vestida (entendo mais tarde que é a promotora de justiça) se levanta, com o dedo em sua direção, pronunciando frases intensas. O réu parece contrair-se no encosto, amedrontado. Um ambiente austero, vigas de madeira escura, divisórias envernizadas. Mas curiosamente as paredes parecem em chamas, entre fortes tons de amarelo e vermelho. Aquilo tudo parece ser muito importante, não compreendo por quê. Subo umas escadas laterais para assistir a este extraordinário julgamento de outro ângulo, de um balcão mais alto. Quando chego ao andar superior, a corte está vazia. Não há mais ninguém lá embaixo. A justiça e a injustiça já haviam entrado e saído, tendo frequentado todas as salas de audiência do mundo. E agora não eram mais nada. É que o tempo havia passado.

Conheci Ester no balcão de uma cantina – pelo menos, foi quando nos vimos. Não sei, mesmo hoje, se cheguei a conhecê-la como se espera conhecer alguém. Costumávamos almoçar ali, separadamente, quando não existíamos. Da primeira vez, iniciou-se uma conversa por acaso. Ela era educada, levemente arrogante. Da segunda, toquei seu ombro antes de me sentar – era morno, convidativo. Na terceira beijei-lhe o rosto, pele clara e bem tratada. E nos dias que se seguiram... Não, não havia nada menos casual do que nossos encontros na cantina.

Todos os livros que uma vez abri nunca mais se fecharam, e guardaram-se por trás de meus olhos como quando os lia antes de me deitar e os levava abertos minha noite adentro, Lice talvez me compreendesse afinal, ela que também vivia seu plano mágico: que faço minhas todas as palavras, que a morte só virá para mim quando eu não mais puder abrir e fechar livros antes de me deitar e não mais puder guardá-los por trás de meus olhos, levá-los abertos meu país adentro.

A manhã pelos vidros do laboratório não o afasta da noite anterior, quando se dera a dolorosa confirmação de que vinha sendo traído, e o pior: com o último homem que ele acreditaria capaz de despertar desejos em uma mulher.…

Todo artista compreende um dia, ainda que se deixe classificar como criativo ou mesmo que continue fingindo-se inocente, que nunca foi senão o resultado da convergência de inúmeros outros que ele próprio elegeu. Vivemos entre os invisíveis limites de um mistério que se deixa entrever por espasmos, como cristais guardados só para alguns momentos, nas frestas de umas estranhas revelações que talvez se tenham dado a uns e a outros.

Você se levantou e não pôde evitar o dia. Você se desvia do espelho que também encontrará em pouco, mas não deve admitir que seu rosto esteja inteiramente arruinado. Afinal, bem perto de onde vive, e por grandes extensões de terra, seus semelhantes compartilham misérias tão mais graves que as suas, embora de outro gênero. Tão mais urgentes são tais necessidades, tão exaustiva a marcha diária por conseguir o tão pouco que almejam, tão perverso o silêncio dos que os mantêm sob tais condições e sob controle, isso de tempos imemoriais até cercá-lo hoje, são tragédias pessoais e secretas, desde já riscadas da história...

Ela me ajuda com a calça, tira-me pelas pernas o que até há pouco impedia-me a nudez. Em troca, abro-lhe o vestido, o sutiã, desço-lhe a calcinha aos joelhos que se dobram, um após outro, tornozelos simultâneos. Não nos agrada a breve união que facilmente aproxima o orgasmo. Sempre nos lembra algo em que participe o perigo, o estranhamento, o não nos reconhecermos por um momento ou por certo tempo parecermos outros.

Quando se olha por uma janela e se observa o mesmo panorama, com os mesmos recortes de telhados, através dos mesmos vidros, por entre a mesma moldura, tanto no dia de ontem como no dia de hoje, o pensamento alonga-se como se espreguiçando, que as coisas todas parecem não passar nunca, e a nossa janela e os nossos dias estão sempre aí, ao alcance dos olhos.

O primeiro sai algo banana ou salsicha. Outro toma forma de um camelo, duas corcovas oblongas. Ora, sim, um zepelim um tanto tímido. Murcho como uma fruta. Disforme feito um sonho.