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Não diga! Eu também…

“Desculpe, qual é mesmo o seu nome?”

“Estela. E o seu?”

Sim, o que ele merecia. Consagrando e consolidando seu caos de motivos siderais. O meu? Júlio. Muito bem. Fácil.

“Estela, me diga”, segurando aquela xícara enorme com as duas mãos. “Você costuma trazer estranhos para a sua casa?”

“Não. Mas vi que você era inofensivo.”

Júlio ouviu uma sirene de polícia a certa distância, provavelmente a alguns quarteirões dali, lá embaixo.

“Obrigado. Aceito a ironia. Não me importo.”

Um puta abraço, os dois

Ele tirou a capa de sua antiga máquina de escrever, anos sem uso, nem serviria mais para nada, claro. Claro que não. Porque agora... Agora as teclas enchiam seus ouvidos, a vertigem fazia desfilar páginas arrancadas do cilindro com felicidade, os textos prontos, os estampidos sequenciais de uma metralhadora louca sobrepostos no tempo, registrando com fúria amostras de sua confusão e de seus ideais perdidos para sempre...

Enquanto seu ônibus não vem

Regina tinha os lábios finos mas tentadores. Com a mesma nitidez daquelas noites, o rosto dela aproximava-se para mais um delicioso beijo, sempre um delicioso beijo – o nariz pequeno, as maçãs do rosto, os cabelos curtos e loiros soltando pontas irregulares ao redor das orelhas, o contorno de seu rostinho quadrado desaparecendo conforme os olhos de Danilo finalmente se fechavam, antes tentando adiar ao máximo a visão da proximidade dela, e então aquela boquinha firme, decidida a possuir a dele, primeiro com pequenos toques e pegadinhas leves, que não duravam muito.

Os mocinhos da matriz

Foram a uma cidade próxima, a trabalho, acompanhando um gerente que tinha muita esperança no futuro deles. (Ah, se ele soubesse...)

As meninas da filial, que eles estavam a poucos quilômetros de conhecer, representavam, para alguns, uma agradável esperança. Para Danilo, certamente. Acreditava no destino, sabia que mais cedo ou mais tarde encontraria a mulher de sua vida, embora não tivesse tido ainda uma namorada sequer.

Um dia, você abriu o jornal…

“Mas você a subestimava mesmo, não? Olha só, como ela era sensível! Puxa, acho que só as mulheres se entendem afinal. Essa das conchinhas... Estou gostando dela, cada vez mais. E se ela estivesse viva, eu estaria preocupada agora, me contorcendo de ciúmes.”

Danilo sorriu com o cantinho da boca, vaidoso. Mas baixou os olhos para sua taça.

O segredo das conchas

“Não importa se você vai rir de mim, não importa mesmo.”

“Ora, Ana, imagine...”

Ela remexia a bolsa. Buscava uma coisa. Algo se prendeu, depois se soltou, em meio a algum ruído de chaves ou qualquer outra quinquilharia de metal.

Todos nós, de vez em quando…

Cris e seus periquitos australianos. Eram dos pais dela, melhor dizendo. Ela morava com eles – com os pais e com os periquitos. Havia um grande viveiro na área externa do apartamento, que tinha o privilégio de ser no térreo. Cris convidara Danilo e mais uma colega a estudar inglês em sua casa naquela tarde, além de traduzir umas letras de música porque queriam – no fim, foi só o que fizeram, isso das letras de música.

A foto deles dos Beatles

Os Beatles também concordaram em expulsar um ou outro baterista, tudo em nome da estética, da arte, da posteridade, do sucesso. E porque, mesmo parecendo rebeldes, obedeciam ao empresário, seu patrão. Queremos ser como o americano (Presley), declaravam, pretensiosos. Queremos ser os palhaços do mundo. Querem ser todas as coisas.