Um carinho enorme por esta lembrança

Percebi, emergindo de um sono breve e profundo, que estava amanhecendo.
Eu retornava de uma noite de sonho. Vivia ainda um sonho estendido.
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James Whistler. Noturno em cinza e ouro. Ponte de Westminster. 1871.
Baile de formatura de um amigo, o Nivaldo Capretz. A Marina, de nossa turma, viera com uma convidada, conterrânea de sua pequena cidade distante. Nós nos conhecemos, conversamos, dançamos juntos, nos atraímos. Ela era discreta, bem-educada, sorria pouco. (Seu nome está protegido.) Queixo pequeno, rosto triangular. Morena clara, cabelos negros, encaracolados, cheios, cobrindo a testa e os ombros, à moda de nossa juventude. Um vestido bege ou salmão (nunca tenho certeza dos nomes dessas cores), também sóbrio, até os joelhos, sem sinais de sensualidade.

As horas passaram por nós, rolando sobre a música e os ruídos humanos. Ofereci à estrangeira levá-la a sua casa, que até o dia seguinte seria a república da Marina – ela estava com a Marina, não tinha as chaves, mas não, não me importavam detalhes assim, isso não era calculado enquanto acontecia. No fundo, o que eu não queria era deixá-la. Pensava em beijá-la em algum momento, e não sabia como. Talvez não acontecesse. Mas já era muito agradável tê-la por perto, estar com ela. Eu pensava na noite lá fora e me esforçava por conter meus sonhos de adolescente tardio. Minha ansiedade masculina me denunciava. Tentava disfarçar o desejo que crescia em meu sangue, queria afastá-lo de mim. Queria que ela soubesse que eu podia ser o que quisesse ser, um homem determinado e consciente. Entre uma e outra palavra, entendi que era virgem. E por que não seria? Não importa a cidade. Não importa nada disso. Eu próprio havia perdido minha virgindade havia pouco tempo, de maneira constrangedora, com alguém mais experiente. Então, eu lhe fiz uma proposta. E uma promessa. Ela concordou.

Era tarde dessa noite, uma noite calma. Por algum motivo, uma noite calma. Percorríamos a cidade deserta em meu Chevette de pintura metálica, do qual eu me orgulhava secretamente – por ser meu primeiro carro, comprado com meu próprio dinheiro. No caminho, ela disse que era como se me conhecesse há muito tempo. Eu sentia o mesmo. Coisas que nos ocorrem em noites assim mágicas.

No motel, relaxamos e deixamos para trás todos os ruídos de um passado mínimo, como também as canções que nos aproximaram nas últimas horas, nos minutos que há pouco estavam ali, ao nosso redor, antes dessa última porta definindo o tempo.

Tirei os óculos, não me importava mais ser míope – que ela também parecia não se importar com isso. Continuamos conversando, convenientes e cautelosos, como já vínhamos fazendo, agora sentados na cama, mais ou menos inclinados, mais ou menos improvisados. Então, um beijo lento, tímido. Sem avanços. Próprio a dois estranhos, em um acordo. Dois estranhos em justa sintonia. (Era uma vez uma princesa, de um reino distante…) Beijei seu pescoço, seu ombro. Um animal sedento dava sinais de assumir o controle. Ela delicadamente me lembrou do que eu havia prometido.

Era tarde dessa noite, dessa noite na penumbra – uma luz macia, vinda de um recorte junto à entrada, cuidava de nossos gestos. Minha parceira viajara durante o dia, estava exausta. Tirou os sapatos, deitou-se de lado. Seus cabelos quase cobriam todo o travesseiro baixo. Logo ela adormeceu. Eu também estava cansado. Tirei meus sapatos, deitei-me ao lado dela. Acariciei sua testa, sua fronte, um pouco de seus cabelos, seu queixo… – foi só assim que eu a toquei.

Percebi, emergindo de um sono breve e profundo, que estava amanhecendo. Eu retornava de uma noite de sonho. Vivia ainda um sonho estendido. O silêncio no motel era o de um reino adormecido. Dava para ouvir um trem, muito longe. Ela despertou, me fez um carinho. Foi ao banheiro, se arrumar. Ouvi o som de seu xixi. Fechei os olhos, feliz com essa impressão infantil de intimidade. Trocamos outro beijo, firme e carinhoso, abraçados ante a porta aberta. Ela me agradeceu por tudo. E eu lhe agradeci por nada – que esse nada me faria grato a ela por toda a vida.

Deixamos o motel, percorrendo a cidade ainda quieta, querendo ser manhã. Eu a deixei na frente da república da Marina – uma república modesta para abrigar uma princesa distante.

Seu nome está protegido, ela toda está protegida em mim. Minha memória volta a ela e a uma canção que havíamos compartilhado no baile, com a delicadeza de seu corpo tocando o meu enquanto dançávamos: “We’re all alone”, cantada por Rita Coolidge.

… por algum tempo, estes versos soaram fortes em mim: “Let it out. Let it all begin.”…

Não houve sexo. Ela confiou em mim. Eu a respeitei. Foi uma noite de amor.

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Imagem: James Whistler. Noturno em cinza e ouro. Ponte de Westminster (detalhe). 1871.

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Ossos do Quixote, metamorfoses, Fabiano e Baleia, Pompéia na noite de Natal

O homem de La ManchaDom Quixote pôs fim aos ciclos de novelas de cavalaria, populares durante a Idade Média. Cervantes estava consciente de que decretava, com seu romance, o fim de uma era. Tanto que escreveu:

“Só para mim nasceu D. Quixote, e eu para ele: ele para praticar as ações e eu para as escrever. Somos um só, a despeito do escritor fingido que se atreveu a contar as façanhas do meu valoroso cavaleiro […] e a esse advertirás, se acaso chegares a conhecê-lo, que deixe descansar na sepultura os cansados e já apodrecidos ossos de D. Quixote […] e eu ficarei satisfeito de ter sido o primeiro que gozou inteiramente o fruto de seus escritos, como desejava, pois não foi outro o meu intento, senão o de tornar aborrecidas dos homens as fingidas e disparatadas histórias dos livros de cavalarias, que vão já tropeçando com as do meu verdadeiro D. Quixote, e ainda hão de cair de todo, sem dúvida.”

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Metamorfoses é de autoria de Ovídio; A metamorfose, de Franz Kafka.

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Fabiano e Baleia, de Vidas secas (Graciliano Ramos), são considerados os personagens mais conhecidos da literatura brasileira, seguidos de Bentinho, de Dom Casmurro, e Brás Cubas (Machado de Assis), do romance inovador que consagrou o autor internacionalmente. Harold Bloom considera Machado de Assis um dos maiores autores da literatura ocidental. Em algumas edições de língua inglesa, Memórias póstumas de Brás Cubas é conhecido como Epitaph of a small winner (Epitáfio de um pequeno vencedor), e “Quincas Borba” foi publicado com o título Philosopher or dog? e também The dog and the philosopher.

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O ateneu, de Raul Pompéia, é claramente baseado em suas memórias do colégio interno. Todas as decepções e sofrimentos vividos, durante a adolescência, nesse lugar, foram muito fortes para um menino sensível e esperançoso. Raul Pompeia suicidou-se em uma noite de Natal.

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Mais curiosidades literárias: Dezena invertida, apontando lápis ao amanhecer, o bom aluno na África

Imagem: Peter O’Toole e James Coco em cena do filme O homem de La Mancha (1972), dirigido por Arthur Hiller.

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Bellow – Herzog

Saul Bellow

Ele se tornou o que parecia improvável para um imigrante judeu e pobre: um dos mais importantes escritores norte-americanos do século 20. Seus heróis são homens comuns, por vezes um tanto intelectualizados, lutando para manter sua integridade em um mundo devastado pelo materialismo, pelo consumismo, pela arrogância e pelas atitudes egoístas visando à ascensão social. Com Herzog, romance autobiográfico, escrito num período em que se angustiava com a dissolução de seu casamento, depois de constatar que sua esposa (Madeleine, na ficção) o estava traindo com seu melhor amigo, alcançou notável popularidade e firmou-se como um dos autores mais representativos de sua geração. Bellow ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1976.

No trecho escolhido, observa-se a habilidade do autor em localizar no tempo e no espaço algo tão drástico quanto um pedido de divórcio, em meio à beleza contagiante de reflexos e cores a partir de objetos simples.

Na estante de prateleiras de vidro, erguia-se uma coleção ornamental de garrafinhas de vidro, venezianas e suecas. Vieram com a casa. O sol agora batia nelas. Eram atravessadas pela luz. Herzog viu as ondas, os filamentos de cor, as barras transversais espectrais, e em especial um grande borrão de branco flamejante no centro da parede acima de Madeleine. Ela estava dizendo: “Não podemos mais viver juntos.”.
 

Saul BellowHerzog.

Leia sobre curiosidades literárias: Alice, a bagaceira, o sonho de um homem ridículo.

Artistas da palavra

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Dezena invertida, apontando lápis ao amanhecer, o bom aluno na África

1984O verdadeiro nome de George Orwell era Eric Arthur Blair. Ele adotou o pseudônimo para não comprometer a família, que tinha origem em classes sociais tradicionais e abastadas. Nasceu na Índia, foi policial na Birmânia (hoje Myanmar) e jornalista na França. Lutou na Guerra Civil Espanhola, quando foi ferido no pescoço, o que tornou sua voz ligeiramente afeminada. Andava pelas favelas de Londres para conhecer o que seriam alguns cenários de seus romances, como para as expedições de Winston pelo bairro dos proles e para o esconderijo onde seu personagem se encontrava com Julia, no clássico 1984, romance publicado em 1949 mas terminado em 1948 – Orwell aproveitou o ano como título e inverteu a última dezena, assim chamando-o 1984 e localizando-o no futuro. No túmulo de Eric Blair, não há nenhuma referência ao pseudônimo que o consagrou.

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Graciliano Ramos, em determinada fase de sua vida, quase como num ritual diário, acordava antes do nascer do sol e punha-se a apontar lápis, alguns lápis, tranquilamente, longamente, que eram esses os seus instrumentos de trabalho. Nesse momento, segundo ele, é que tinha as melhores ideias para seus livros. Lápis, papel, ideias: um escritor não precisa de mais do que isso. Amanhece. Lápis apontados. Papel em branco. Um gênio começa seu dia.

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Fernando Pessoa, a quem associamos à imagem de um boêmio de vida instável, era bilíngue, foi educado na África do Sul, e desde menino um excelente aluno, destacando-se por seu desempenho brilhante. No Liceu de Durban, era um dos mais destacados e costumava ser aprovado com distinção nos exames. Seus primeiros poemas e seus primeiros contos (inacabados) eram escritos em inglês. Aos quinze anos, foi admitido na Universidade do Cabo com a melhor nota entre centenas de candidatos, razão pela qual recebeu o prêmio Rainha Victoria. Na juventude, leu quase todos os clássicos latinos e ingleses. Aos onze anos, com o pseudônimo de Alexander Search, enviava cartas para si mesmo. Sua obra poética principal, pela qual se tornou célebre, não foi publicada em vida.

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Mais curiosidades sobre literatura: Não me venham falar da Lua

Imagem: John Hurt e Suzanna Hamilton em cena do filme 1984 (1984), dirigido por Michael Radford.

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O especismo deve desaparecer

Os animais dependem de sorte […]. E nós, humanos, que dispomos de inteligência e consciência? Dependemos do quê, para mudar a sorte dos animais?
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Ativistas pela causa animal

Ativistas pela causa animal

Especismo é a ideia sem nenhum fundamento de que uma espécie viva seja superior a outra e, como você já adivinhou, de que a nossa espécie, particularmente, seja a espécie superior, com direito a explorar, torturar e matar outras espécies.

Isaac B. Singer

Isaac B. Singer

O escritor Isaac Bashevis Singer, prêmio Nobel de literatura, escreveu que, para os animais, todos os humanos são nazistas. (Ele também declarou que era vegetariano não por causa de sua própria saúde, mas por causa da saúde das galinhas.)

Massacre de cabras em Santa Maria Xochixtlapico, Oaxaca (México).

Massacre de cabras em Santa Maria Xochixtlapico, Oaxaca (México)

Por causa das religiões e das tradições, milhares de animais são sacrificados, sangrados, torturados mundo afora. A espécie humana, misteriosamente, não consegue libertar-se das religiões, da fé e da ignorância, e os nossos irmãos animais pagam o preço de nossa vergonhosa mediocridade.

Não precisamos ser tão radicais. Há muitas pessoas que são vegetarianas e veganas, e essa é uma tendência que só cresce, em parte pela facilidade de comunicação e divulgação de ideias de que dispomos hoje. Mesmo quem ainda é carnívoro, pode não tratar mal os animais, ter animais em sua convivência e atuar contra os maus-tratos e barbaridades instituídas, como as touradas e as vaquejadas.

Touro agonizando para satisfazer o entusiasmo dos espectadores das touradas

Touro agonizando para satisfazer o entusiasmo dos espectadores das touradas

Resumindo, nem todos somos nazistas para os animais. Mas claro que esse pensamento tem toda razão de ser, já que o abate (e a própria criação para o abate) constitui processos semelhantes a campos de extermínio, uma rotina de mortandade, guardadas as proporções com os mais diversos horrores promovidos pelos nazistas – felizmente extintos.

Augusto dos Anjos, em um de seus célebres poemas, lembra que o animal que urra nos bosques é, com certeza, seu irmão mais velho. Pensamentos assim são pós-darwinistas, assimilados pelo fato de sermos, todos os seres vivos, resultantes de longos processos naturais ao longo de muitos milhões de anos. E o escritor tcheco Milan Kundera, em seu A insustentável leveza do ser, conclui didaticamente que a ideia bíblica de que um deus criou o homem a sua imagem e semelhança está assim consolidada porque foi escrita por um homem, não por um cavalo. Não existem animais melhores ou animais piores. Não existem a beleza e a feiura na natureza, isso são critérios nossos. Não existe a espécie superior.

Desde menino, sempre percebi em mim uma sensibilidade especial com relação aos animais. Em geral, todas as crianças são assim. Mas eu me impressionava com canções como a do assum preto e perdia o sono imaginando que alguém furasse os olhos de um passarinho só para ouvi-lo cantar mais tristemente. Eram ideias inconcebíveis para mim. Pensava, como criança: “Por que fazer isso? Já existem discos, músicas tristes…” Eram pensamentos infantis e ingênuos, mas revelavam, de alguma forma, minha posição como adulto: somos capazes de nos superar em tantas coisas, criando arte e tecnologia, e não somos capazes de nos livrar de atitudes covardes e brutais como essa?

Fico pensando sobre o que os animais diriam de nós se pudessem falar. Além da dor física, por si só algo humilhante e insuportável, muitos animais devem sentir o desamparo, a sensação de injustiça, a solidão, o medo. Eles passam por tudo isso apenas por causa de nossos caprichos. Sim, vou repetir para que não fiquem dúvidas: caprichos. Em um festival anual na China, cerca de 10 mil cães, gatos e guaxinins são esfolados vivos ou mortos a pauladas – é uma tradição, como um esporte nacional. (Já vi fotos de filhotes sendo cozidos vivos em panelas e tachos, com a cabeça para fora, olhinhos fechados, quem sabe suportando que tipo horrendo de agonia.) Não se trata de fome, obviamente. Primeiro porque, para aplacar a fome, os animais poderiam ser mortos de forma indolor, com um só golpe, por exemplo, ou alguma técnica de execução rápida e eficaz – pois o que não nos falta, aos gloriosos humanos, é técnica, tecnologia e… nosso orgulho ridículo em razão de tais conquistas. Depois porque a agricultura foi inventada há mais de cem séculos, e não é necessário comer carne para viver com saúde.

Os animais dependem de sorte: a boa sorte de caírem em mãos de quem cuida deles e lhes dá abrigo e carinho; a má sorte de caírem em mãos de quem os maltrata, tortura e mata. E nós, humanos, que dispomos de inteligência e consciência? Dependemos do quê, para mudar a sorte dos animais?

À direita, cão esfolado vivo, na China, para que sua pele saia mais úmida. Isso também e feito com gatos e guaxinins. Essas peles são vendidas para o mercado da moda e para fazer pulseiras de relógios. Made in China. Mais barato. Ninguém se importa, é claro.

Quem somos nós para os animais? E para nós mesmos?

(À direita, cão esfolado vivo, na China, para que sua pele saia mais úmida. Isso também e feito com gatos e guaxinins. Essas peles são vendidas para o mercado da moda e para fazer pulseiras de relógios. Made in China. Mais barato. Ninguém se importa, é claro.)

Nós, humanos, sabemos que os animais são receptivos às nossas ações. Por causa de nossa superioridade do ponto de vista cognitivo e de nossa capacidade de domínio sobre as outras espécies, nossa responsabilidade é total, e todas as nossas ações devem ser guiadas pela bondade.

Claro que não é justo nem menos cruel praticar essas atrocidades tendo como vítima qualquer espécie animal, mas quando se trata de cães, particularmente, minha indignação se torna insuportável, porque eles são, instintivamente, fiéis a nós, com grande capacidade para perdoar, e acabam tristemente torturados, ainda conscientes, percebendo, além de todo o sofrimento que lhes é imposto, a execrável capacidade humana de traição contra aqueles que lhes são tão sinceramente dedicados.

E como eu meu autoconsolava? Imaginando que, ao fim do dia, todos aqueles animais sadicamente torturados já estariam mortos e livres da dor? O que mais eu podia pensar para acalmar a mim mesmo? No fundo, nada disso nunca foi suficiente. O que podia levantar meu ânimo era a atitude, a atividade, a luta para mudar isso, caindo no clichê muito útil e inspirador que era fazer deste mundo um mundo melhor.

Os que sofreram e morreram não existem mais. A dor acabou. Mas o que me pergunto é se conseguiremos, com nossa assumida e decantada inteligência, deter a nós mesmos quando falamos em praticar maldades. Novos sofrimentos estendidos ao futuro. Aos que nem nasceram ainda.

Eu acredito que as novas gerações terão vergonha de nós. Espero que elas não nos respeitem, que elas eliminem todas as maldades desnecessárias que cultivamos e praticamos hoje.

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Dica: assista ao filme Terráqueos (Earthlings), documentário de 2005, narrado por Joaquin Phoenix, ator engajado na causa animal.

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Naufrágio do Hermes, Boris sob censura, escritores sem escola

Dr. Jivago
Manuel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um sargento de milícias, foi quem deu ao jovem de 18 anos, Joaquim Machado de Assis, um emprego como aprendiz de tipógrafo. Joaquim aprendeu o serviço, passou a publicar artigos no jornal e depois livros que mudaram o curso da literatura de sua época. Ser mulato e pobre durante o regime escravagista não permitia melhores oportunidades de trabalho, por isso essa ajuda de Almeida pode ter sido decisiva na carreira de seu colega escritor. Almeida morreu aos 30 anos, uma das vítimas do naufrágio do vapor Hermes, nas costas do Rio de Janeiro.

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O romance Dr. Jivago, de Boris Pasternak, foi proibido na União Soviética. Uma cópia clandestina chegou até agentes literários italianos, que o publicaram. Os direitos autorais foram comprados pelos norte-americanos, que produziram o longa-metragem homônimo, hoje um clássico do cinema. As externas do filme foram rodadas no Canadá e nos arredores de Madri, com neve artificial, simulando Moscou – daí porque não se vê o vapor saindo da boca dos atores enquanto falam, em pleno inverno. (Os anos 1960 foram o auge da Guerra Fria, o que evidentemente impossibilitava que os produtores norte-americanos filmassem na União Soviética.) Pasternak ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, mas foi proibido de sair da URSS para ir buscá-lo. Foi o primeiro caso de um autor não poder receber esse prêmio. Pasternak era também um sensível poeta, hoje muito considerado em seu país. Os italianos se orgulham de terem sido os primeiros a publicá-lo.

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Machado de Assis nunca frequentou uma faculdade. José Saramago tinha o equivalente a um curso técnico (ele foi serralheiro e mecânico). Clarice Lispector mal conhecia teoria literária, e certa vez em que sua amiga Nélida Piñon a levou para assistir a uma palestra sobre o tema, saiu em poucos minutos, acendeu um cigarro lá fora e disse a ela: “Vamos embora daqui. Se eu continuar vendo isso aí, não vou conseguir escrever mais nada.”

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Mais curiosidades sobre literatura e outras artes: Gotas, goteiras, chá com bolinhos

Imagem: Omar Shariff e Julie Christie em cena do filme Dr. Jivago (1965), dirigido por David Lean.

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Alice, a bagaceira, o sonho de um homem ridículo

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Cena do filme Alice no país das maravilhas, de Tim Burton 1

Em 1865 foi publicado Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll. Ele era principalmente um matemático, apaixonado por charadas e ideias absurdas (nonsense). Tinha o estranho e discreto “hobby” de fotografar meninas nuas ou seminuas, com autorização de suas mães. Deixou instruções para que, após a sua morte, essas imagens fossem destruídas, temendo comprometer as meninas, que um dia seriam adultas, poderiam se constranger com isso e, quem sabe, ter problemas com seus futuros namorados ou maridos – lembrem-se de que estamos falando do século 19, Inglaterra vitoriana. Mesmo assim, cinco dessas fotografias sobreviveram. Inicialmente, seu clássico iria se chamar Alice debaixo da terra.

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A bagaceira, de José Américo de Almeida, publicado em 1928, foi o primeiro romance regionalista do Modernismo brasileiro, tratando do tema da seca no Nordeste. Na década seguinte, José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz elevariam o gênero à categoria de obra de arte.

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Na novela “O sonho de um homem ridículo”, de Fiódor M. Dostoiévski, o personagem que sonhou haver corrompido toda a humanidade desabafa: “Passei a amar a terra por eles profanada ainda mais do que quando era um paraíso, só porque nela surgia a desgraça. Infelizmente, eu sempre amei a desgraça e a dor, mas somente para mim mesmo, para mim mesmo, enquanto que por eles eu chorava e tinha pena.”

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Mais curiosidades sobre literatura e outras artes: Gotas, goteiras, chá com bolinhos

Imagem: Mia Wasikowska em cena do filme Alice no país das maravilhas (2010), dirigido por Tim Burton.

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  • A seta de Verena

    Perce Polegatto é professor na área de Letras, com especialização em literatura. A metalinguagem, a busca da ­identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos.

  • livros

    Ou leia online:

    A seta de Verena

    Lisette Maris

    Marcas de gentis predadores

    Os últimos dias de agosto

    A conspiração dos felizes