Projeto esvanecendo-se. Cintilações que não podem ser

Ela estava me contando coisas de suas experiências nas ilhas britânicas, onde tudo parecia ser melhor do que o que temos por aqui, pelo visto.
Duvido. Não existem lugares sem tristezas.
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Natalia Goncharova. A floresta verde e amarela. 1912.Nosso casamento era afetado por coisas pequenas, que a Marjorie invariavelmente exagerava. Numa das noites alegres na casa da Maga, houve uma vez em que a Queen eu estávamos conversando, de pé, perto da porta larga da varanda, por onde entravam e saíam nossos amigos, nossos menos amigos e uns amigos mais ou menos exclusivos da Maga. Era verão. Tudo ao ar livre parecia melhor. Nós ali, entre a saída lateral da casa e o espaço da piscina, entre um ambiente e outro, sem pensar em nada disso, é claro. Uns falando alguma coisa com a gente enquanto saíam e voltavam, outros passando reto, entre brincadeiras mal identificadas e outros interesses imediatos. Eu segurava meu uísque, ela sua cuba-libre. A Queen era Josiane, Josiane Bracchio Malverti. Filha de um empreiteiro. Com intercâmbio, tinha morado um ano na Inglaterra (mas não em Londres), e foi assim que ganhou esse apelido meio irônico meio prático meio feminino meio patético, enquanto ainda estava lá, nas ilhas, sob o frio e a chuva norte-europeus. Ela tem cabelos castanhos muito lisos, desses que um vento desmancha completamente mas que também se reorganizam completamente em seguida, caindo sempre na vertical. Não são longos. Tocam seus ombros, no máximo. Nessa noite, ela se mostrava em uma camisa branca solta até os quadris, calças azul-marinho justas, desenhando acompanhando revelando suas pernas esguias, e umas sapatilhas creme claras cor de sua pele. A Queen é de um rosto estreito, nariz fino, queixo pequeno. Por isso, quando sorri, todo esse arranjo se reposiciona, equilibrando-se agradavelmente, e ela parece ser a mulher mais linda do mundo. Uma mocinha simpática, é assim que ela se faz socialmente fingidamente inocentemente em festas como aquela, entre nós. Umas conhecidas já disseram que não se pode e não se deve confiar muito nela. Não sei por quê. Nunca perguntei nada a alguém sobre isso. Nem sei se a Marjorie sabe disso. Não importa.

Chega uma hora, nesses encontros, em que todos nós estamos ao mesmo tempo descontraídos pelo álcool, pelas vodcas e caipirinhas, pelos vermutes e uísques, e é por isso mesmo que fazemos festas. Um vento fresco, próprio do verão, soprava por entre os coqueirinhos do muro lateral da Maga enquanto eu confessava à Queen umas coisas da infância, ligadas à Escócia, que eu encontrava em álbuns de figurinhas e ilustrações de livros, que tanto me fascinavam desde sempre – isso porque ela estava me contando coisas de suas experiências nas ilhas britânicas, onde tudo parecia ser melhor do que o que temos por aqui, pelo visto. Duvido. Não existem lugares sem tristezas. Mas o fato é que nessa noite ela usava um rímel azulado, que sempre ficava bem com sua cor de pele e de cabelos, e nossa conversa estava muito, muito gostosa. Só isso. Mais nada.

Eu dirigia na volta. A Marjorie parecia lúcida e sóbria em seu mau humor, quando lembrou o tempo que eu fiquei ali, de pé, conversando à toa com a Josiane-Queen. Foi ridículo, todo mundo viu! Viu o quê, Marje? Viu o quê? Vocês estavam encantados. Apaixonados. Não paravam de olhar um para o outro, todo mundo viu. (O importante para a Marje não é propriamente o fato de estarmos apaixonados, eu e a Queen. O importante é se alguém viu ou não viu.) Eu também não estava de melhor humor ao volante. Voltávamos para casa, a rodovia quase deserta. Marje, que história é essa? Ah, que história é essa, sei! Preciso dizer? Preciso? Ela olhava para a frente, para a rodovia em perspectiva, pelo jeito. Fiquei quieto. Sabia que ela tinha razão, que a Queen e eu, em um daqueles momentos não planejados, aqueles acasos circunstanciais e mágicos, caímos um pouco encantados sim,  eu senti que tentava agradá-la, brisa no verão, uísque e cuba-libre, sorrindo entre amenidades e olhando brilhantemente radiosamente cintilantemente nos olhos um do outro, enquanto eu contava a ela de meu fascínio pela Escócia – claro, aproveitando o pretexto da coisa toda da Inglaterra. A Marjorie resmungou. Fascínio pela Escócia, nossa, que coisa mais infantil.

Todos nós acabávamos cansados, como sempre, sempre que deixávamos um desses encontros na casa da Maga. A Marje poderia relaxar, cochilar um pouco no carro, chegar em casa e esquecer-se na cama, como eu também só queria mergulhar no sono. Afinal, a Queen era uma das muitas pessoas de nossa convivência, eu não queria nada com ela, e acredito que ela também não pretendia nada comigo. Foi só um daqueles momentos singulares, noite morna, álcool no sangue, alinhamento de planetas. Só isso. Um homem e uma mulher se desconectam do ambiente ao redor e deixam florescer o que há de mais natural instintivo hormonal intuitivo, com a cumplicidade silenciosa da noite aberta. Cúmplices, cumplicidade. Era esse o problema. Todo mundo viu. Uma impressão cinzenta de que até esses mínimos acontecimentos são proibitivos e podem ser duramente punidos. Eu sei, claro, pelo fato de eu ser casado. Sei também que é pelo potencial de desdobramento de um desses rituais atávicos que vão se consolidando na troca de olhares e agrados e conversas, com ou sem intenções premeditadas, ingenuidades à parte e malícias também à parte. A natureza é nossa mãe austera, aceitemos ou não esse subterfúgio.

Não falei com a Marjorie, não nos falamos desde a última saída da rodovia em direção a nossa casa. Não, eu não queria mesmo mais nada além de me entregar ao silêncio e ao alheamento do reino dos sonos cansados. Mas antes de adormecer rapidamente confortavelmente indefensavelmente, vencido por mim mesmo, vi com surpreendente nitidez os olhos castanhos da Queen e seu rímel azul.

Projeto esvanecendo-se

Guia de leitura

Imagem: Natalia Goncharova. A floresta verde e amarela (detalhe central). 1912.

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Por sua vez

Jackson Pollock. Sem título.O faraó viveu muito, foi embalsamado;
o servo viveu menos, foi enterrado –
de qualquer forma, o tempo passou.
 
Os arqueólogos que tudo isso entenderam
também desapareceram, por sua vez.
 
O que isto escreve, o que isto lê
perderão seu tempo.
 
 
 

Leia mais poemas e sobre poemas: O recurso da relva

Rapsódia em cinza

Imagem: Jackson Pollock. Sem título.

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O bom ladrão, os dentes da caveira, atentado em Paris, cômico por ter sido sério

Hamlet 1964Machado de Assis pagava pela publicação de seus livros. Conta-se que o editor, Baptiste Louis Garnier, acabava ficando com parte dos lucros das vendas (poucas, na época), além de usar parte do capital do autor para outros fins não declarados. Mas como ele incentivava Machado a publicar sempre mais, era conhecido, por causa das suas iniciais, B.L., como o Bom Ladrão Garnier.

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Na cena em que Hamlet segura uma caveira e observa o encaixe de seus dentes, Shakespeare faz referência a um tipo de documento feito à época – pelo menos no século 13, na Dinamarca. O contrato, escrito à mão, sem cópia, era rasgado em duas partes: uma ficava com o proprietário, outra arquivada no equivalente a um cartório, uma entidade oficial do reino. Um papel rasgado aleatoriamente é como uma impressão digital. Só os verdadeiros donos das duas partes poderiam juntá-las perfeitamente quando fosse preciso.

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Aos 32 anos, Samuel Beckett foi esfaqueado por um mendigo em Paris, que depois declarou não saber por que tinha feito aquilo – diz uma versão que foi pelo fato de o autor ter-lhe recusado uma esmola.

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No prefácio da quinta edição portuguesa do romance Amor de perdição, Camilo Castelo Branco afirma ironicamente: “Eu não cessarei de dizer mal desta novela que tem a boçal inocência de não devassar alcovas, a fim de que as senhoras a possam ler nas salas, em presença de suas filhas ou de suas mães, e não precisem de esconder-se com o livro no seu quarto de banho. Dizem, porém, que o Amor de perdição fez chorar. Mau foi isso. Mas agora, como indenização, faz rir: tornou-se cômico pela seriedade antiga […]. E por isso mesmo se reimprime. O bom senso público relê isto, compara com aquilo, e vinga-se barrufando com frouxos de riso realista as páginas que há dez anos aljofarava com lágrimas românticas.”

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.Mais curiosidades literárias: Ossos do Quixote, metamorfoses, Fabiano e Baleia, Pompéia na noite de Natal

Imagem: Anastasia Vertinskaya e Innokenty Smoktunovsky em cena do filme Hamlet (1964), dirigido por Grigori Kosintsev.

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Sapatinhos vermelhos, o ermitão, voyeurismo, fracasso de Bambi

O mágico de OzCansado de contos de fadas e historinhas moralistas, o público leitor do final do século 19 ansiava por histórias para crianças que fossem apenas entretenimento. Quem soube muito bem farejar essa tendência foi L. Frank Baum, que em 1900 lançou O maravilhoso mágico de Oz (no cinema, apenas O mágico de Oz), um sucesso de vendas em uma época de escasso mercado editorial para o público infantil. Mas, como nada é de graça, os críticos viram na obra de Baum alusões quase evidentes à realidade de seu país e de seu tempo. Ele era do Partido Populista (que depois deixou de existir, integrando-se ao Republicano), e como sua turma andava pregando investir na prata para quebrar o monopólio do ouro, Dorothy ganha sapatinhos prateados com os quais caminha sobre a estrada de… tijolos amarelos. amarelos. (Oz é abreviatura de onça, unidade de massa com a qual se pode avaliar o peso de algum material, inclusive ouro e prata.) O espantalho era o homem do campo, que não tinha voz, mas gostaria de ter. O homem de lata era o lenhador do norte, alienado pelo trabalho semiescravo. E o leão covarde era Bryan, líder de seu partido, que falava muito bem em público, mas que, na última hora, nunca ganhava eleição alguma. (No cinema, Dorothy ganhou sapatinhos vermelhos, porque os filmes em cores eram ainda uma novidade fascinante e exploravam ao máximo esses recursos.)

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Bernardo Guimarães foi o primeiro escritor regionalista brasileiro, com o romance O ermitão de Muquém.

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O mais antigo texto conhecido dos primórdios de nossa língua chama-se “Cantiga da Ribeirinha”, escrito por Paio Soares de Taveirós. As datas são incertas, mas sempre são apontadas duas: 1189 ou 1198. Coincidência? Ou a dezena final foi trocada por erro? É um poema centrado no voyeurismo, em que o eu lírico se apaixona e se incomoda depois de ver, secretamente, a jovem Maria Ribeira se trocando. Nossa literatura começou com essa pequena sacanagem.

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O escritor austríaco Felix Salten escreveu, sob pseudônimo, o romance erótico Josephine Mutzenbacher, de 1906, baseado nas experiências de uma prostituta de Viena. Com a anexação da Áustria pelos nazistas, Salten, que era judeu, exilou-se na Suíça, onde morou até a morte. Seu trabalho mais conhecido é Bambi, uma vida na floresta, de 1923, vendido por mil dólares à Walt Disney Productions, que lançou a animação em 1942. Apesar de bem-sucedido nas bilheterias, Bambi não conseguiu cobrir seus custos de três anos de produção. O cartaz original do filme era a imagem de um livro. Um xará, Perce Pearce, foi um dos roteiristas.

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Mais curiosidades literárias: Alice, a bagaceira, o sonho de um homem ridículo

Imagem: Judy Garland em cena do filme O mágico de Oz (1939), dirigido por Victor Fleming e George Cukor.

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Ossos do Quixote, metamorfoses, Fabiano e Baleia, Pompéia na noite de Natal

O homem de La ManchaDom Quixote pôs fim aos ciclos de novelas de cavalaria, populares durante a Idade Média. Cervantes estava consciente de que decretava, com seu romance, o fim de uma era. Tanto que escreveu:

“Só para mim nasceu D. Quixote, e eu para ele: ele para praticar as ações e eu para as escrever. Somos um só, a despeito do escritor fingido que se atreveu a contar as façanhas do meu valoroso cavaleiro […] e a esse advertirás, se acaso chegares a conhecê-lo, que deixe descansar na sepultura os cansados e já apodrecidos ossos de D. Quixote […] e eu ficarei satisfeito de ter sido o primeiro que gozou inteiramente o fruto de seus escritos, como desejava, pois não foi outro o meu intento, senão o de tornar aborrecidas dos homens as fingidas e disparatadas histórias dos livros de cavalarias, que vão já tropeçando com as do meu verdadeiro D. Quixote, e ainda hão de cair de todo, sem dúvida.”

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Metamorfoses é de autoria de Ovídio; A metamorfose, de Franz Kafka.

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Fabiano e Baleia, de Vidas secas (Graciliano Ramos), são considerados os personagens mais conhecidos da literatura brasileira, seguidos de Bentinho, de Dom Casmurro, e Brás Cubas (Machado de Assis), do romance inovador que consagrou o autor internacionalmente. Harold Bloom considera Machado de Assis um dos maiores autores da literatura ocidental. Em algumas edições de língua inglesa, Memórias póstumas de Brás Cubas é conhecido como Epitaph of a small winner (Epitáfio de um pequeno vencedor), e “Quincas Borba” foi publicado com o título Philosopher or dog? e também The dog and the philosopher.

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O ateneu, de Raul Pompéia, é claramente baseado em suas memórias do colégio interno. Todas as decepções e sofrimentos vividos, durante a adolescência, nesse lugar, foram muito fortes para um menino sensível e esperançoso. Raul Pompeia suicidou-se em uma noite de Natal.

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Mais curiosidades literárias: Dezena invertida, apontando lápis ao amanhecer, o bom aluno na África

Imagem: Peter O’Toole e James Coco em cena do filme O homem de La Mancha (1972), dirigido por Arthur Hiller.

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Bellow – Herzog

Saul Bellow

Ele se tornou o que parecia improvável para um imigrante judeu e pobre: um dos mais importantes escritores norte-americanos do século 20. Seus heróis são homens comuns, por vezes um tanto intelectualizados, lutando para manter sua integridade em um mundo devastado pelo materialismo, pelo consumismo, pela arrogância e pelas atitudes egoístas visando à ascensão social. Com Herzog, romance autobiográfico, escrito num período em que se angustiava com a dissolução de seu casamento, depois de constatar que sua esposa (Madeleine, na ficção) o estava traindo com seu melhor amigo, alcançou notável popularidade e firmou-se como um dos autores mais representativos de sua geração. Bellow ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1976.

No trecho escolhido, observa-se a habilidade do autor em localizar no tempo e no espaço algo tão drástico quanto um pedido de divórcio, em meio à beleza contagiante de reflexos e cores a partir de objetos simples.

Na estante de prateleiras de vidro, erguia-se uma coleção ornamental de garrafinhas de vidro, venezianas e suecas. Vieram com a casa. O sol agora batia nelas. Eram atravessadas pela luz. Herzog viu as ondas, os filamentos de cor, as barras transversais espectrais, e em especial um grande borrão de branco flamejante no centro da parede acima de Madeleine. Ela estava dizendo: “Não podemos mais viver juntos.”.
 

Saul BellowHerzog.

Leia sobre curiosidades literárias: Alice, a bagaceira, o sonho de um homem ridículo.

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