Projeto esvanecendo-se. Das coisas todas

Marjorie era uma caçadora. Disfarçada pela etiqueta.
Encoberta pelas vantagens dos bons modos.

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Quando conheci a Marjorie, ela me encantou com sua educação, com seus sorrisos e não sorrisos na hora certa, suas expressões faciais agradáveis e convidativas. Sentados, conversando. As cadeiras de madeira escura do café, umas plantas em volta. Então, ela ergueu lentamente a mão direita, em minha direção. Olha, um pernilongo aqui, na sua camisa. Era mesmo. Mal tive tempo de vê-lo: o minúsculo pernilongo subiu ao ar delicadamente rapidamente imprudentemente, e eu nunca me esqueço de como a Marjorie o liquidou certeira, batendo as palmas da mão uma única vez. E os olhinhos dela, quase arregalados e vesgos, concentrados como os de um felino. Seu rosto todo parecia o de um felino, surpreendentemente. Os lábios presos, as linhas exatas de seu queixo, suas mandíbulas, e aqueles olhos castanhos, escuros, quase cor de amoras, um brilho rápido de êxtase ao dar como certo, num estalo, o assassinato bem-sucedido. Tornou a olhar-me de frente, outra vez mulher. Sorrisinho de boca fechada, como se dissesse: viu só? E algum alívio, um sutil relaxamento. Marjorie era uma caçadora. Disfarçada pela etiqueta. Encoberta pelas vantagens dos bons modos.

… para o ator Willem Dafoe, devemos ser mais animais, menos racionais, sem nos importarmos muito com as expectativas. Ouviu isso, Joss Stone?…

Você trabalha com aulas, não é? A Marjorie, curiosa e afável. Trabalho com aulas? É, eu… dou aulas. Leciono. Franja de fios negros cobrindo-lhe quase toda a testa, partindo de uma linha curva a separar-lhe os cabelos, que caíam mais de um lado que de outro – isso, no momento, me pareceu acidental. Interessante, admiro professores. Nós dois compartilhando aquela situação maravilhosa de nos conhecermos melhor, por enquanto não tão melhor assim, e ainda bem. E aqueles olhos dela, castanhos escuros sensíveis astutos. Para mim, naqueles primeiros encontros, eram olhos potencialmente eróticos, por causa de seus movimentos mínimos, esquadrinhando meu rosto, buscando enquadrar meu rosto como um todo, enquanto eu falava de uma coisa e outra. Eu respondia e perguntava, também afável, é claro, mas achava estranho que alguém falasse assim, trabalhar com aulas, não sei por quê. Não sei muito bem por que isso me incomoda sutilmente. Unas semanas depois, convivendo com uns conhecidos da Marje, entendi que era mais ou menos assim que eles se comunicavam. Eles não perguntam o que você faz, qual é a sua profissão, eles perguntam com o que você trabalha e complementam querendo saber qual é a sua parte. Minha parte? Como assim, minha parte? – foi isso que pensei, mas não falei, quando um desses amigos dela quis saber sobre esse tipo de coisa. É que muitos deles são sócios proprietários microempresários empresários, até acionistas de alguma empresa, portanto eles sempre têm… uma parte. Ah, você trabalha na… ? E qual é a sua parte? Na ocasião, eu disse que lecionava, e não comecei a resposta com: minha parte é… Sempre é prudente evitar dizer o que se pensa. Porque o que pensei foi que minha parte era ensinar, ao máximo, como é a gente se libertar de padrões paradigmas frases feitas ideias feitas e ciladas feitas, talvez para diminuir um pouco a preponderância desse tipo de pessoa que, situada em camadas consistentes da cadeia alimentar, entendem que sua visão de mundo é o melhor que se pode passar adiante.

Em alguma parte de nossas primeiras conversas, ela disse que me achava… diferente. Diferenciado. Mais especificamente, ela educada culta agradável e me conhecendo ainda, foi a palavra que usou em seguida, aperfeiçoada: diferenciado. Eu já tinha ouvido algo assim antes, de outras pessoas, mas não sabia se isso era bom ou não, se me faria feliz ou infeliz, que diferenciado pode ser o antissociável ressentido ou o psicopata ansioso que gosta de ler os clássicos, o que, por bem ou por mal… Bem, isso não importa mais. Não é uma daquelas coisas que-eu-mais-tenho. E não pretendo ser diferenciado coisa nenhuma. Isso acaba sendo uma impressão alheia, uma definição derivada, talvez, de meu interesse especial por leitura – o que afinal não é tão incomum assim.

De qualquer forma, eram dias mágicos, quando começávamos a pensar um no outro com inegável interesse, desejando mais encontros e mais próximos e ansiosos e urgentes, quando aquela impressão intensa do encantamento começa a subverter as marcações do relógio e a gerar um descompasso com as situações diárias conhecidas, com as outras atividades da vida prática.

A Marjorie, agora minha namorada, ia me apresentando a seus amigos suas amigas seus conhecidos seus parentes, enquanto meus amigos, que já eram poucos e dispersos (colegas eu tinha muitos), iam desaparecendo naturalmente de meu convívio. Já tínhamos uns meses de casados quando, na festa de casamento de uma amiga dela – uma não tão amiga assim, daí porque ela, a Marje, que já se portava com certa formalidade em ocasiões dessas, naquela noite parecia mais atenta às aparências conveniências obediências do que em outras –, eu cometi o erro de acreditar que poderia ser espontâneo. Coitada, sei que nem sempre eu fui o que ela esperava, mas não era por mal. Nunca foi por mal. Tenho verdadeiro carinho por ela, embora ela não perceba – ou não se importe muito com isso. Enfim, uma ou outra manifestação de espontaneidade minha a fazia desconfortável, porque ela tinha as coisas todas mais ou menos previstas, não se sentia bem se algo não saía bem, o que parece simples de entender. Nessa festa, como dizia, bebi um pouco mais que o normal. Só isso. Nada sério. Todos ali, pelo que eu observava, beberam mais que o normal. Eu estava alegre, solto. A gente já tinha dançado, e tantos ainda dançavam e se divertiam com umas bobagens típicas e piadinhas relacionadas aos noivos, quando então eu simulei uns passos de dança meio idiotas, como num ritual de acasalamento, meio dobrando os joelhos e beijando a mão dela, afastando-me e me aproximando outra vez, imitando aqueles personagens de luvas do cinema mudo, movendo os lábios sem som, fazendo-me subitamente apaixonado por minha própria esposa, que estava elegante e linda, cabelos presos, vestido justo, sandálias altas, mas acontece que a Marjorie sorria quase um sorriso fixo, e eu entendia que ela não estava gostando muito do rumo que as coisas vinham seguindo. Então eu me deitei no chão liso da pista, blazer azul-marinho aberto, fechei os olhos, sorrindo, via tudo em flashes sons luzes risos e o teto, e a Marjorie se aproximou, curvou a parte superior de seu corpo em minha direção, sem dobrar as pernas rígidas, mãos apoiadas nos joelhos. Que foi? Tudo bem? Está passando bem? Tudo bem sim. Tudo bem, minha linda. Eu estava feliz. Feliz. Levanta daí então. Vem. Ali estava a minha mulher linda em meio ao caos, algo carinhosa, mas incisiva. Eu sorrindo, de olhos fechados, o álcool provocando sensações avulsas suaves gostosas, eu então disse a ela que amava a vida. Acho que amo a vida. Quase sem ênfase, mas quase em estado de graça também. Marje, eu acho que… eu amo muito a vida. Que isso, imagina! Ela lançava os olhinhos rápidos ao redor, mantendo o sorriso lindo enquanto os outros convidados provavelmente riam ou estranhavam aquilo tudo. Ela estendeu-me a mão. Vem, para com isso. Sempre sem deixar de sorrir, para que vissem que era apenas uma brincadeira. Sim, esses gestos dela são recorrentes. Para que todos sempre vejam que tudo não passa de uma brincadeira, que mesmo o fato de eu amar a vida também não passa de uma brincadeira inofensiva. Insignificante. Dispensável. Está tudo bem. Tudo bem mesmo. Seu sorriso dizia a todos que eles não precisavam se preocupar.

Projeto esvanecendo-se

6. Uma garota como outras – só que não – sequência

4. Eu não queria que isso acontecesse – anterior

Guia de leitura

Imagem: Lorraine Christie. Doce rendição (detalhe inferior).

As festas na Maga. Pequenos atrevimentos

Eu sabia que algumas garotas ali não aprovavam a ideia, mas não protestaram.
Afinal era uma festa. Nem sempre fazemos festas. Afinal éramos todos humanos. Afinal a vida exige momentos de descontração e de subversão entre os dias e as noites.

Perto da meia-noite, alguém sugeriu que uma das convidadas mostrasse os seios. Ela estava próxima ao bar, que fica um degrau acima do piso da área externa, como um palco estendido entre dois quiosques, pouco antes da primeira fileira de mesas plásticas ao longo da borda da piscina. A Mig era quem estava eventualmente no centro das atenções. Ela devia ter uns vinte, vinte e um anos, não mais do que isso. Ela é Miguelita Herrera Bim, filha de um proprietário de supermercados de bairro e de uma engenheira química, e eu não me lembro de uma dessas noites na casa da Maga em que ela não estivesse presente. Não mesmo. Desde que comecei a frequentar, com a Marjorie, essas festas combinadas ou improvisadas de sua amiga Maga, sempre vi a Mig entre nós. A Marjorie a tem em boa conta porque ela promete seguir os passos do pai nos negócios, enquanto cursa Administração de Empresas – não sabemos, claro, se ela cumprirá a promessa ou se mudará de ideia. E o pedido seguia valendo. E a Mig ali, hesitante sorridente vaidosa, repetindo nãos enquanto se divertia com o tom de súplica de um rapaz que eu não conhecia, que parecia ter vindo com a Rafaela Brittes e uma de suas primas, não sei, eu não sabia, não tinha certeza. Mostra pra gente, vai, faz esse carinho. A Mig o afastava com um tapinha à toa. Não, Fred, que isso, tá louco? Outros engrossaram o coro e passaram a incentivar a brincadeira. Ao fundo, Lou Bega cantava seu “Mambo n. 5”. A essa hora da noite, soprava um ventinho gostoso e vivo, vindo dos descampados próximos ao condomínio. Vai, mostra rapidinho, vamos ver, que que custa, que que tem de mais? A Mig levou a mão à testa, cobrindo o rosto enquanto sorria. Gente, não. Tô com vergonha. Preciso de mais um drinque. Drinque, no caso, claramente um eufemismo – ela parecia ter tomado umas boas batidas de frutas bem a seu gosto. A Rose Levy deu-lhe um copo alto de vodca gelada, fatia de limão presa à borda. A Mig então tomou meio copo de uma vez, engasgando enquanto ria. Mesmo assim, indecisa teatral maliciosa, ameaçava a todos com a desistência e a frustração. O Gilberto Roma, marido da Verônica Braga, que estava ali, a meio passo de mim, acima do peso, caminhando para a calvície, mãos grossas prontas a aplaudir, convocou-me à ação. Fala alguma coisa, Pepo. Você é bom nisso. Fala. Eu sorri, toquei o braço dele em sinal de que prestasse atenção ao que eu diria em seguida. Vamos lá, Mig. Você sabe que é bonita. E está entre amigos. Isso dá um tom a nossa festa. E muitos pontos pra você. Homens e mulheres riram. Apoiaram arremedaram aplaudiram, sem tirar os olhos de cima dela. A Queen, num vão entre uma e outra pessoa, olhava-me especialmente. Séria ou apenas curiosa, não sei. (Uma observação: a Marje não comentou nada sobre isso, em nenhum momento. Eu nem sabia onde ela estava quando isso aconteceu – isso, eu digo, a minha fala incentivadora. O resto ela viu. Nem uma palavra. Mesmo. Nem na viagem de volta. Nem quando apaguei a última luz, em nosso quarto, ao fim de tudo. Nada.) Como parte de uma esperada encenação, a Mig tornou a cobrir a testa com uma das mãos enquanto com a outra fazia descer delicadamente pelo braço a alça esquerda de sua blusinha cor de vinho. Um murmúrio quase infantil de admiração e felicidade ocupou o espaço ali, partindo de diversos pontos, vozes masculinas e femininas, atravessando-nos a todos com um entusiasmo alternado entre uma ansiosa perspectiva de silêncio e um possível clamor de glória. Eu sabia que algumas garotas ali não aprovavam a ideia, mas não protestaram. Afinal era uma festa. Nem sempre fazemos festas. Afinal éramos todos humanos. Afinal a vida exige momentos de descontração e de subversão entre os dias e as noites. Afinal, não era algo tão absurdo assim. Era só uma brincadeira sensual, um capricho de momento. Afinal… não era nada. A Mig fez um charme de um instante e pôs à mostra um de seus peitinhos, um peitinho de agradável proporção, jovem e pronto, ligeiramente voltado para o lado externo do torso, aréola pequena castanho-clara coroando a forma macia que ela sustentava com a mão colada ao corpo, como apontando seu lindo seio, à prova de críticas, em nossa direção. Lou Bega cantava: … a little bit of Rita is all I need, a little bit of Tina is what I see… Fez um sinal para a Rose, pegou de volta a vodca, girou um dedo no líquido gelado e tocou-se no mamilo, arrepiando-se do próprio susto e provavelmente fazendo-o eriçado instantaneamente, o que eu não podia ver de onde estava. Risos e aplausos esparsos dirigidos à estrela do momento, que parecia nos dominar com seu feitiço enquanto a voz do cantor, sobrepondo-se às nossas, lembrava: you can’t run, you can’t hide, you and me gonna touch the sky. Isso não se estendeu por um minuto inteiro. A Mig subiu a blusa, guardou o seio.

Desde então, a festa parecia outra. Nossa memória dessa noite era outra. Nosso tempo cronológico não podia mais vencer o efeito desse capricho, desse encantamento, dessa magia simples. A Mig nunca mais foi a mesma para nós. Ela nos brindou com a libertação. Como eu previra, isso contou pontos para ela: todos passaram a simpatizar mais com ela, principalmente nós homens, tocados por um inconfessável sentimento de gratidão. Eu via esse gesto de ousadia malícia música e álcool como uma superação das culturas repressivas, um fator de redenção do que jazia estancado em nós mesmos, em nosso invisível ressentimento, uma conquista de todos. A estrela nascida do instante etílico, inspiradora de ansiedade e risos, realizando nossa reintegração à condição legítima de nossos hormônios. O momento de fazermos as pazes com o melhor de nossa natureza. A fêmea representativa, a musa da vez. A renovação dos votos de todos com nosso próprio senso de liberdade, com nossos caprichos sublimados, com nossa permissividade contida, com nossa inocência.

Projeto esvanecendo-se

 – sequência

21. O jardim do hoje – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Fabián Perez. Sabá com copo de vinho tinto

Frutas, cores, pedidos de socorro

Mayday, o pedido de socorro, em inglês, é uma forma corrompida do francês m’aider ou m’aidez, que significa “me ajude”.
Nos tempos do telégrafo, era usado o S.O.S., uma sigla cujas letras em código Morse correspondiam a três pontos, três traços e três pontos.

As cores das frutas e das flores exercem um efeito marcante sobre nossa percepção visual, e esse pode ser o motivo de algumas cores serem denominadas a partir dos nomes de frutas e flores.

Algumas frutas

abacate, do náuatle awakatl, posteriormente através do espanhol. O náuatle (náhuatl, harmoniosa) é uma família linguística uto-asteca, de povos que habitavam o México antes da chegada dos saqueadores espanhóis.

abacaxi, do tupi-guarani i’bá, fruto, ká’ti, recendente, e açaí yasa’i.

abóbora, do latim hispânico apopores.

acerola, do árabe az-zu’rur, através do espanhol acerola.

banana, de origem africana.

caqui, do japonês kaki.

lima (lima[t]) e limão (laymūn) vieram do árabe.

mamão vem do português mesmo, de mama, pela semelhança com um seio.

 

A fruta, a flor e a cor

laranja: como a cor deriva da fruta, o que vale é a origem da fruta, que inicialmente era naranga, do sânscrito, passando pelo persa narrang e chegando até nós através do árabe naranja.

rosa: do latim rosa.

violeta, também do latim: viola + eta, forma diminutiva, talvez pela semelhança das pétalas com esse instrumento em sua forma antiga, particularmente tendo como modelo uma das inúmeras espécies, a Viola odorata, que significa viola cheirosa.

 

Algumas cores

amarelo (baixo-latim hispânico amarellus, diminutivo de amarus, amargo).

azul (árabe-hispânico lazurdii, do persa lazward, e finalmente a forma arcaica azur).

branco, do germânico blank, brilhante, luzidio, referindo-se à lâmina de uma espada ou faca. Daí também deriva a expressão arma branca (adagas, espadas, sabres) diferenciando-se de arma de fogo, aquelas que usam pólvora.
marrom, do francês marron, castanho.
preto, como já visto, tem origem duvidosa. Alguns pesquisadores sugerem que tenha derivado do arcaico despretzo (desprezo), referindo-se à maneira como os antigos europeus tratavam os mouros do norte da África. Mas, enquanto não se apresentam provas, ninguém aposta nada.

Todas do latim

roxo, de russeu, da cor vermelha. No passado, já foi roixo.
verde, de viride, da cor das ervas.
vermelho, de vermiculu, pequeno verme, mas referindo-se à cochonilha, de que se extraía esse pigmento.

 

Outras curiosidades

Átomo significa sem partes. Por extensão, indivisível. (É comum verem-se coleções de livros classificadas em Tomo I, Tomo II, etc.) Demócrito acreditava que, se a matéria pudesse ser dividida infinitamente, todo o universo se diluiria, não podendo nunca constituir-se.

Galáxia significa círculo leitoso. Via Láctea, caminho de leite.

Pakicetus, o fóssil ancestral da baleia, é composto por Paquistão, país onde foi descoberto, e a palavra latina cetus, origem de cetáceo, que significa peixe grande.

Têxtil deriva do latim textile, que por sua vez se refere a textu (texto), significando tecido, trama – por extensão, enredo, alguma coisa tramada, que se articula formando uma unidade revestida de sentido.

 

S. Francisco de Assis se chamava João

Seu nome era Giovanni di Pietro di Bernardone, e Giovanni deriva de Johannes, antiga forma latina que deu origem a Johann, João, Jean, John, Gian… – por isso, o nome da dupla formada pelos músicos Gian e Giovani se traduz como João e João.

Voltando ao assu… Voltando ao santo. Francisco (Francesco, no italiano) foi um apelido dado por seu pai, que o considerava “afrancesado”, talvez em razão do gosto de Giovanni pela literatura de língua francesa ou porque teria voltado de uma viagem à França encantado com os costumes locais.

 

Pedindo socorro

O pedido de socorro, em inglês, nos casos de emergência envolvendo a navegação aérea ou marítima, é mayday, que significa “dia de maio”, certo? Não. É uma forma corrompida do francês m’aider ou m’aidez, que significa “me ajude”. Nos tempos do telégrafo, era usado o S.O.S., uma sigla cujas letras em código Morse correspondiam a três pontos, três traços e três pontos. Além de ser fácil de se memorizar e de se transmitir, era um arranjo muito incomum na língua inglesa o aparecimento dessas três letras nessa sequência, o que, por si só, fazia ver que alguma coisa podia estar errada. Mais tarde, atribuíram significados ao velho S.O.S, como “Save our souls” (salvem nossas almas) ou “Save our seamen” (salvem nossos marinheiros). Essas versões são adaptações posteriores, configurando uma daquelas ciladas etimológicas que não correspondem à verdadeira origem do termo em questão.

Leia mais sobre o tema: Fortuna, damas, desastre

Mais curiosidades em: Origem das palavras

Leia mais sobre palavras, textos, escrita: Você, que não queria ler isto

P. S.: Post scritptum (Pós-escrita)

Imagem: Paul Cézanne. Natureza morta com maçãs e peras. 1891.

Projeto esvanecendo-se. A primeira tarde de areia e mel

Seu sorriso de covinhas parecia radiante dessa vez.
Foi a primeira imagem que me afetou, o que primeiro me chamou a atenção, de olhos meus diretos em seu rosto.

Fui à casa da Joss Stone. Eu começava a ser feliz. Parecia, sim, que começava a ser feliz, como disse. Era uma expectativa, uma impressão. Não importa. No dilatado instante dessa impressão avulsa, eu me senti verdadeiramente legitimamente naturalmente um homem feliz. Preocupado também. Acho que nunca fui completamente feliz. Não bastassem os problemas que eu fingia não flutuarem por perto, ao meu redor e à minha sombra, talvez crescendo surdamente a cada dia, eu seguia por um caminho que quase colocava placas de alerta sob meu nariz. Não, eu não estava raciocinando muito bem. Isso de concordar comigo mesmo em merecer alguma felicidade não parecia marcar o compasso do que eu estava vivendo desde dois meses antes e só poderia piorar as coisas. Até mesmo piorar as coisas me parecia algo bom e necessário, como se isso fizesse surgir alguma resposta por obrigação, algum recurso inesperado e irrefreável, alguma solução catalisadora, nem de longe prevista até então.

Apertei o botãozinho azul, meio ovalado, do interfone protegido por uma grade frágil e sem pintura, calculada para ser de seu tamanho exato. Eu estava na calçada, nervoso indeciso ansioso, à frente de um portão estreito, esmalte marrom vencido, barras verticais em parte descascadas, mais escuras em certos pontos, onde normalmente nossas mãos alcançam. Meu coração agitava-se como o de alguém que aceita participar de seu primeiro crime. Era a primeira entrada do condomínio. Um clique em seguida, fundo de ruídos rascantes longínquos, quase inaudíveis. Quem é? Oi, sou eu. Ah! Já vou abrir. Fiquei parado, quase envergonhado, mesmo que ninguém soubesse que eu estava li, a não ser três crianças que brincavam atrás de mim, do outro lado da rua, e um casal de idosos passando lentamente pela calçada, sem se incomodar com minha presença quieta. De onde eu estava, sob um telhadinho baixo, uma laje envelhecida que mal poderia proteger alguém de uma chuva fraca, medida para cobrir nada mais que essa entrada, e a estreita moldura de alvenaria que delimitava o portãozinho de grade, não era possível ver nada além de um trecho à frente, dando a uma parede encardida de cor bege, que era a cor da fachada toda. A entrada coberta para o prédio ficava à direita, fora do alcance da visão, e eu entendi que isso era interessante do ponto de vista da segurança. Mas não tinha certeza. Não havia câmeras, pelo que notei. Ninguém podia ver quem estava ali na frente, à espera. Podia ser perigoso do mesmo jeito. Ouvi uns passos, chegando perto, mas não era ela. Uma mulher alta, com um lenço na cabeça, bolsa a tiracolo, saindo. Destravou o portãozinho por dentro, plec!, eu me afastei um pouco, cordial e sem graça, ela passou por mim, trancou-o de novo. Cabeça baixa, olhou-me muito brevemente, sem sorrir. Boa tarde. Boa tarde. Esperei mais um pouco. Ouvi outros passos se aproximando, agora era ela. Oi. Seu sorriso de covinhas parecia radiante dessa vez. Foi a primeira imagem que me afetou, o que primeiro me chamou a atenção, de olhos meus diretos em seu rosto. Oi. Ela separou uma chave, errou, depois acertou enfiá-la em algum ponto que não se via pelo lado de fora. Plec… Plect! E eu entendi que todos tinham de destrancar esse tal portão por dentro, não havia outro tipo de controle que pudesse ser acionado a distância, sem sair dos apartamentos. Alguém tinha mesmo que descer, ir até a entrada, receber o visitante. Um lugar simples. Entra. Passei pelo portão aberto, estendi-lhe a mão direita, ela respondeu quase ao mesmo tempo, dando-me a sua. Tudo bem? Do mesmo jeito que a gerente do banco me cumprimentava. Por iniciativa dela, um costume automático, eu sei, trocamos um beijo rápido no rosto, quase sumido no ar. Entra, vem cá. Dá licença.

Fui andando ao lado dela, um mínimo atrasado, conservando firme minha fingida naturalidade. Ela carregava chaves, uma delas a do portão, sem dúvida, fazendo um fundo sonoro agitado mas singelo, um tilintar constante e quase cadenciado, enquanto entrávamos pelo primeiro corredor coberto, uma espécie de saguão estreito modesto retangular, aberto dos dois lados, iluminado pela oblíqua luz do dia, passando a impressão de que as lâmpadas do teto estivessem queimadas, e também enquanto subíamos, nós dois, os dois andares de escadas.

Aqueles pés, subindo pouco à frente, apoiados em calçados simples, supostamente rústicos, solado, duas tiras trançadas e um enfeite, revelavam-me uma fragilidade sólida, uma espontaneidade determinada, uma rusticidade delicada ou uma delicadeza rústica. No momento em que isso ocorria, enquanto avançávamos nos degraus, enquanto essa visão momentânea e duradoura fascinava e comprometia minha intelectualidade adestrada nas certezas e na busca pelas melhores palavras, eu reconhecia uma confluência de impressões que mais tarde entendi serem parte de tudo que a Josie significava para mim. E isso abalava meu mundo, no qual as coisas eram definidas de certa maneira, melhor dizendo, de maneira certa, sendo ou rústicas ou delicadas. Se o demônio está nos detalhes, isso mais uma vez se confirmava.

… certas memórias avulsas e despretensiosas nunca, nunca me deixaram. E são parte de uma coleção acidental de pequenos cristais que me motivam misteriosamente…

O demônio está nos detalhes. Aula de Semiótica. Eu tinha acabado de mostrar a cena de um filme em que a falsa estrela, caída do céu, se chamava Sirius. Pedia que os alunos associassem essas intromissões vocabulares com o tom da narrativa toda, lembrando que havia outros sinais de que tudo não passava de uma grande farsa. Vocês já ouviram isso de o demônio estar nos detalhes, eu sei. Agora, pensem nisso na prática. O divino também pode estar nos detalhes. Não na grandiloquência dos crepúsculos ou das sinfonias no auge da instrumentação. Não na opulência das grandes catedrais, mas talvez nos degraus em ruínas de uma trilha esquecida no bosque. Pensem nisso. Ruínas, uma trilha esquecida, degraus. O que será que deixamos passar em nossos caminhos de gente, em nossos processos civilizatórios, que pode ter nos afastado de coisas singelas, a que podemos chamar divinas, que pode ter nos afastado da beleza? Demônios, anjos e coisas divinas, isso tudo são elementos significativos, representativos, envolvendo personagens míticos, como um deus e seus antagonistas, e espaços imaginários, como Céu e Inferno, sem contar muitos outros, de outras culturas, diferentes da nossa. São elementos da literatura, da mitologia e, portanto, gerados por necessidades de nosso psiquismo. Nada disso existe fora de nossa imaginação, é claro. Vocês são adultos, sabem disso. Não, nem todos sabiam. A turma dos religiosos foi fazer uma reclamação à coordenadora do curso. Eu havia gerado um problema para ela. Um problema para todos eles. Um conflito filosófico-religioso-teológico-ridículo. Para minha sorte, isso não passou de um incidente sem maior importância. Ser antipatizado por alguns não muda muita coisa. A Maria Cláudia, coordenadora do curso de Arte, apenas me pediu que evitasse tocar nesses assuntos em sala de aula. Estes assuntos: significados e representatividade de elementos literários e mitológicos. Em uma aula de Semiótica.

Ainda lá fora, sob o sol, a Josie apertava os olhos enquanto me olhava de frente e sorria. Eu também fazia isso, embora ela é quem estivesse francamente contra a luz. Observei com gosto, com alguma alegria quase infantil, sua camiseta azul-clara larga solta e sem cintura, manchas intencionais na estampa, disfarçando magnificamente quaisquer relevos, sua bermuda jeans, que não chegava aos joelhos, seus chinelinhos de couro em forma de V, tirinhas trançadas à moda hippie, muito simples e mínimos, com um nozinho despontado em forma de flor no vértice dessas duas tiras, logo acima dos dedos, entre o primeiro e o segundo. Ela seguia ao meu lado nas escadas, mas um pouco a frente, atitude impensada de anfitriã orgulhosa, querendo apresentar o caminho, os lugares novos ao visitante. Faz tempo que você mora aqui? Quase dois anos. Conforme subíamos, deixando que ela mantivesse a vantagem de um ou dois passos sobre mim, eu ia admirando, dissimulado, suas pernas pouco menos que claras, levemente morenas, movimentando-se quase à altura de meu rosto, e seus pezinhos ativos, bem proporcionados. O som de seus chinelinhos na ardósia escura marcava meu arquivo de sensações não planejadas casuais acontecidas, com que minha memória costuma gratificar-se mais tarde. Mais um, já estamos chegando. A cada passo, eu vivia o encantamento do impossível, de uma realidade em andamento que pouco diferia de um sonho nítido, pelo tempo de umas horas de sol, de uma tarde alheia aos ofícios externos, um lapso de tempo em que meu coração se traía, por sorte em silêncio, absolutamente inescrutável, longe do alcance de quem quer que me conhecesse até então. A cada passo, acompanhando as pernas curtas da Josie, eu me orgulhava de minha pequena coragem. A ansiedade e a discrição que eu vinha ensaiando tinham que funcionar em equilíbrio. Talvez nós apenas conversássemos, e quem sabe eu poderia ajudá-la a encontrar algum trabalho. Nada mais. Talvez ela me seduzisse. Talvez ela não estivesse pensando em me seduzir, e apenas lhe seria interessante a amizade com alguém de outro meio, que pudesse lhe prover informações úteis, contatos, oportunidades. Eu, sempre exagerado e excessivo no plano de minhas associações imaginárias e memórias de livros, revia involuntariamente trechos de sagas e narrativas míticas, especialmente aquela em que a jovem conduzia o forasteiro perdido. “É ali o meu castelo. Venha, vou lhe dar abrigo. Está frio, e você pode se perder na floresta.”. O viajante percebe, depois, que a jovem está mudada, ela agora é uma feiticeira. Só que ele não sabe mesmo o caminho de volta. “É ali o meu castelo”, ela repete. “Venha, vou lhe dar abrigo. Veja, a noite caiu. Não há mais luz. E você não tem como voltar. Está frio, e você pode se perder na floresta. Venha. Você não sabe mais como voltar.”

Pobre Josie. Ela jamais passou perto de ser ou parecer uma feiticeira astuta e dissimulada. Aquilo tudo estava em mim. Minha imaginação agitada, meus exageros dramáticos, era tudo por minha conta. As imagens decorriam de eu ser como era, e talvez um dia eu não soubesse mesmo como voltar. Pobre Josie: do ponto de vista intelectual, uma menina inocente. (Que garota abençoada, diria um colega religioso.) Nem fazia ideia do que eu tinha em mente, de como eu ridicularizava a mim mesmo com aquelas encenações abstratas, tendo-a como personagem mítica, em uma espécie de continuidade paralela ao que de fato se realizava. Eu próprio me provocava com certas fantasias. E me encantava com as pernas dela, com o corpo jovem dela, promissor e propenso à unanimidade do gosto masculino. Era isso, em parte. Um pouco e tudo. Havia sim uma sensação nova, de estar sendo recebido acolhido auxiliado. A cada passo, eu subia mais e mais em minha excitação contida. E a cada passo eu assumia, quase conscientemente, os sinais mal definidos de uma anunciada sonora aromática irresistível decadência. Ela escolheu uma chave, destrancou a porta. É aqui. Entra.

Projeto esvanecendo-se

20. Nossa juventude em fatias de espaço-tempo – sequência

18. Dos primeiros dias inúteis – anterior

  Guia de leitura

Imagem: John  Singer Sargent. Escadaria em  Capri (detalhe inferior). 1878.

Projeto esvanecendo-se. Dos primeiros dias inúteis

Não queria ressentimentos.
Não queria ficar assistindo a imagens do passado no cinetoscópio precário da memória.

1-manha-de-neblina-dos-primeiros-dias-inuteis-2016-1

Já em janeiro, mal me adaptando à nova rotina ociosa e fora dos chamados dias úteis, passei a observar com mais apuro o mundo ao redor. O mundo ao redor, nesse caso, eram as ruas próximas de casa. E também as menos próximas. Os limites de nosso bairro, o Parque Industrial, por onde eu caminhava e corria, querendo fazer sair de mim, com a rápida expulsão do ar pela boca e com o suor manchando a velha camiseta cinzenta, as toxinas de meus pensamentos mal formulados. Eu sentia meu corpo como há tempos não o experimentava. A exaustão me devolvia vida. O ar que entrava com força em meus pulmões passava a existir de verdade. De verdade, digo, porque ele está aí o tempo todo, esquecido, esperando ser inspirado por alguém, com a violência que faça dele uma entidade também viva.

Mas meu corpo não tem nenhuma função fora de si mesmo. Ele se energiza, se fortifica, para depois entregar-se, sem defesa, à própria destruição. Não importa seja a pessoa mais privilegiada do mundo ou a mais desafortunada, porque são como eu, também com seus corpos, e por isso, por essa mesma razão que a minha, não têm nenhuma chance de sobrevivência no futuro. Mas eu não queria carregar comigo esses pensamentos tóxicos traiçoeiros semitrágicos, embora simples e verdadeiros. Não queria carregar o que havia acontecido comigo recentemente. Nem o que havia acontecido comigo antigamente. Não queria ressentimentos. Não queria ficar assistindo a imagens do passado no cinetoscópio precário da memória. Queria correr, suar. Dar força a mim mesmo.

… eu existo hoje porque meus ancestrais morreram. A vida se sucede, é herdada, repassada, mas os indivíduos deverão desaparecer. Nascemos para ser órfãos e para deixar órfãos outros como nós, atravessando o tempo. Para Helena Cronin, somos arquivos autênticos dessa ancestralidade; nossos corpos e nossa inteligência, monumentos vivos dos raros sucessos daqueles que bravamente nos antecederam. Somos a prova de que eles conseguiram. Não, mas eu não acho que esteja raciocinando bem…

Nossa casa fica na parte leste do bairro, onde as fábricas não entram. É que essa região foi formada ao acaso, um lote após o outro, delimitada por um córrego quase invisível, não mais que uma valeta seguindo ao longo das ilhas da última avenida. Os prédios comerciais se detêm pouco antes da rodovia que leva ao sul do estado, uma entre as vias que se cruzam nesse ponto. Outra, que nasce de uma bifurcação, leva à região oeste de Minas Gerais. Tudo isso envolvendo um confuso emaranhado de saídas e desvios, acima e abaixo de uns pontilhões e viadutos que custaram caríssimo à prefeitura, ao que disseram. Por muitas e muitas extensas quadras, quase inteiramente desenhadas por muros e cercas, estende-se uma sequência de construções, em maioria baixas: galpões, estacionamentos, pátios antigos e novos, caracterizando a geografia das empresas que por aqui se instalaram desde uns cinquenta anos antes, quando essa parte da cidade nada mais era que a última porção urbanizada antes das várzeas nativas e dos campos cultivados – enfim, o limite da cidade. Quando crianças, vínhamos aqui perto, eu e meus primos, trazidos por meu pai e por um tio, para empinar pipas e observar alevinos agitando-se em alguns pontos junto à margem do riacho de águas claras, meio escondido pelo capim alto, que hoje não existe, por ser subterrâneo, sob placas de concreto. Em outra fase da história particular desse ponto mínimo do planeta, nas proximidades de todas essas fábricas e distribuidoras, os namorados vinham de carro esconder-se dos pais e da sociedade entediante que fingia não saber desses condados obscuros onde se exercia anonimamente a liberdade.

O tempo passou, a cidade cresceu. E esses casais se tornaram seus pais, livres das desconfortáveis condições da clandestinidade. Alguns bairros emendaram-se uns com outros irregularmente, sem planos definidos, e se fundiram se fundaram se moldaram à paisagem própria do lugar, que não é a melhor sugestão que nos pode passar a palavra paisagem.

Projeto esvanecendo-se

19. A primeira tarde de areia e mel – sequência

17. Do que eu era – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Manhã de neblina no Parque Industrial. 2016.

Projeto esvanecendo-se. Do que eu era

De qualquer forma, isso sempre produzia algum efeito.
Eu via pelas expressões dos rostos, aparentemente neutras, mas provendo olhares atentos.

1-aldo-balding-dialogo-silencioso-1Eu me orgulhava de minhas aulas quando conheci a Marjorie. Intuía, sem declarar a ninguém, que cada aluno representava a possibilidade de continuação das ideias contidas em minha mente. Cada um que assimilasse minha influência e compreendesse o que eu tinha a dizer estaria ajudando a mover o mundo a uma nova fase de reajustes e acertos. Uma correia de transmissão que eu acreditava apoiar-se no vigor de minhas convicções e de minhas propostas dialéticas. Podia constatar o efeito de tudo que dizia, tudo que construía no ar. Até mesmo caminhar pela sala de aula enquanto falava, procedimentos simples que despertavam olhares curiosos e giros de cabeça, parecia incomum. Um professor é avaliado a todo momento, meus colegas sabem disso. Enquanto fala, enquanto anda, enquanto respira.

Compreensão de textos. Por que Geppetto, o pai adotivo de Pinóquio, não se anima a sair da barriga da baleia? Quem não quer ser livre? Eu passava por trás da última carteira, seguia devagar de volta à lousa. Será que as circunstâncias de sua vida eram maiores do que ele? A baleia não seria o conjunto de fatores que o desmotivava e o tornava acomodado, apático, sem esperanças? Isso só podia piorar as coisas para o menino, que se esforçava para ser reconhecido pelo pai, buscando ser um menino de verdade. É um momento grave, observe, em que Geppetto parece estar desistindo da vida, portanto desistindo de seu filho também. Para compreender textos, você precisa participar deles. Precisa levar a sério as coisas mais absurdas. Não é mesmo? Alguns se mostravam interessados, outros pareciam abatidos e entediados.

De qualquer forma, isso sempre produzia algum efeito. Eu via pelas expressões dos rostos, aparentemente neutras, mas provendo olhares atentos. Afinal eu os provocava a pensar em algo fora da rotina, até mesmo fora do que esperavam do curso. Momentos digressivos. Que eu considerava úteis. Escutem isto: “Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de sonhos intranquilos, viu que se transformara, durante a noite, numa espécie de inseto monstruoso.”. O que acontece com esse personagem é algo tão absurdo e miraculoso que nós não desejamos nem para… Bem, talvez o desejemos a alguns, não importa. (Esses acréscimos, pretendendo ser bem-humorados, às vezes provocavam reações simpáticas – não de todos, é claro.) O que nos chama a atenção é o fato de essa metamorfose ser relatada sem nenhum espanto, sem nenhuma surpresa. Nenhum ponto de exclamação. Nenhuma palavra em tom de lamento. Nenhum comentário ansioso querendo rasgar a garganta. É como se o autor nos dissesse: “Gregor Samsa despertou, sentou-se na cama e escovou os dentes.”, o que também seria curioso, isso de escovar os dentes sentado na cama, não é mesmo? Mas não, nada se compara a uma transformação desse nível: tornar-se um inseto. Ou qualquer outro animal que seja, vamos admitir, não importa a espécie. E tudo começa pela manhã, à frente de um novo dia, o que torna tudo mais terrível. A expectativa foi invertida, pois temos como noção cultural, provavelmente arquetípica, comparar algo bom à luminosidade, e seu oposto. “Quando Gregor Samsa despertou…” É assim que começa o pior sonho para ele. Eu passava pela última fileira de carteiras, começava a voltar pelo mesmo caminho. A prosa de Kafka tem esse poder de nos direcionar a um absurdo como sendo cotidiano, como se coisas estranhas e impensáveis acontecessem normalmente ao nosso redor, o que, sob certo aspecto, é verdade. Mas nada de casarões escuros e portas que rangem. Não. O terror se manifesta sem suspense. Sem silêncios amedrontadores. Sem sustos. Sem gritos. E seguem-se os desdobramentos desse primeiro evento, sem dúvida impossível de se realizar. Seguem-se sem ênfase, sem notas de perplexidade. O absurdo a nossa volta, a começar por nossa manhã. O pesadelo à luz do dia.

Alguns alunos deixavam claro, com sua impaciência, movimentando-se na carteira, que não viam a hora de isso tudo acabar, de passar por isso tudo que eu mostrava e voltar a uma aula normal, isto é, sem problemas. Sem desvios para seu pragmatismo inercial, que apenas almejava um certificado ao final do curso. O Daniel me interrompeu. Se isso é impossível, o que nós temos com isso? Impossíveis de se realizar, sim, foi o que eu disse, mas só fisicamente. Então que coisa estranha é essa, algum palpite? A Sara, sem ironias. Ele enlouqueceu, professor. Ficou doido. Será mesmo, Sara? O texto não confirma isso. Gregor continua pensando, refletindo, consciente do incômodo que causa à família. Inicialmente, ele é incapaz de sair da cama e enfrentar o dia. Não consegue deixar o quarto, não consegue sair para o trabalho, não consegue explicar a si mesmo a razão de todos esses atos. Isso se chama depressão. O pior é que todos passam a evitar Gregor Samsa, a sentir repulsa por ele, passam a ter nojo dele. Portanto, o que contava mesmo era sua aparência, seu aspecto físico, era isso? O que é ele então?

 … certa vez eu pontuei que Cinderela não era uma história de amor, mas de casamento por interesse. E que a pequena sereia escolheu morrer por não suportar encarar o pai e as irmãs após haver fracassado em seu intento. Coisas assim tanto causavam admiração quanto antipatia, eu sei. Aula após aula, a realidade contada sob disfarces ficcionais ia minando as crenças que ainda sustentavam alguns. Eu não tinha o direito de mexer com suas crenças, foi o que me disseram…

Agora, quando me lembro dessas aulas, imagino um daqueles alunos indignados erguendo um braço e gritando: “Digressão!” E me consolo imaginando uma daquelas alunas bem-educadas, de quem me lembra perfeitamente o rosto bonito, alertando-me em particular: “Professor, tenha cuidado com essas digressões.”.

Eu seguia com minhas aulas, com orgulho de minhas aulas, contava sobre elas à Marjorie em nossos primeiros encontros, na época em que ainda nos encantávamos de verdade um com o outro. Ela parecia admirada, mas logo me direcionava a outras coisas também interessantes, que são aquelas coisas-que-mais-temos quando namoramos, a intimidade, as funções sensoriais, nossos beijos loucos. Nós, homens, nos prendemos muito a isso, mas temos uma percepção de tempo diferente e desencontrada em relação à das mulheres. Queremos tudo de uma só vez. No fundo, não temos planos estendidos, somos imediatistas. Caçadores atávicos. Muito do que fazemos, sob a tirania de nossos hormônios, visa a algo breve e satisfatório. Os hormônios delas atuam em outro sentido: tentam nos desarmar e a nos convencer a ficar por perto.

Como professor, um jovem professor afinal, que isso tudo eu já colocava em prática desde os primeiros meses de trabalho, essas provocações intelectualizadas e contextualizadas, em grande parte certamente consolidadas antes de meus trinta anos, eu pressentia estar dinamizando um processo que só poderia ajudar a melhorar as condições do mundo civilizado, vencendo o tédio e estimulando a curiosidade. Nem pensava nos outros. Só em meu trabalho. Só em minhas técnicas de interpretação, minha didática própria, e na alegria de passá-las adiante. Tudo isso se desfez em meia hora de reunião, com minha assinatura em um papel que não me interessava.

Eu era aquele (adolescente, mais ainda) de quem o mundo dependia para continuar a preservação do pensamento claro, da memória crítica, dos valores da honestidade e da ciência, superando a superstição e o medo. Eu era aquele de quem a humanidade dependia, mesmo que infimamente mesmo que anonimamente mesmo que invisivelmente para mudar a história, para fazer acelerar ou frear o curso perigoso da civilização, que no fundo não passa de uma persistente tentativa de impedir surtos de barbárie e de perversidades enrustidas. Minhas aulas, caracterizadas por questionamentos que eu julgava positivos, difamadas por alguns sem que eu soubesse, criticadas por serem digressivas, eram a minha maior contribuição para despertar os valores da intelectualidade e da sensibilidade. Dependendo do que fosse tratado, envolvendo situações trágicas e inconsoláveis, talvez sugerissem intenções suicidas em indivíduos mais sensíveis. Eu não queria isso, é claro. Mas não podia prever as consequências de tantas ideias mal formadas, depois formadas, depois descartadas, por vezes explosivas, mas sem som. Era um trabalho dentro de outro trabalho, de superfície. Um trabalho sem nome. Que nascia e crescia em mim mesmo. Nem sempre direcionado, admito, e bem pouco pragmático, comparado com o de meus colegas. Mas o fato de eu me orgulhar discretamente de minhas aulas e o entusiasmo que me movia enquanto as administrava eram claramente notados pelos alunos e também por alguns colegas, os menos indiferentes. Eu sentia e sabia fortemente que era um homem bom. Sem complicações quanto a isso. Sem polêmicas conceituais quanto ao que se entenda por ser bom. Eu apenas me sentia assim, pensava assim sobre mim mesmo, com toda certeza. E quanto mais eu lia, e eu lia quase compulsivamente (quase, eu disse), minha consciência de mundo crescia, admitindo-se serem verdadeiras as informações que chegavam até mim, e minha responsabilidade parecia aumentar naturalmente inercialmente proporcionalmente. Também, quanto mais elevadas essas responsabilidades, maiores se mostravam as chances reais de eu sofrer. Eu próprio me atribuía isso tudo, que não queria ser um medíocre atravessando o tempo. E não me importava de sofrer, se fosse o caso. Sim, esta era então uma das coisas-que-eu-mais-tinha: não me importava de sofrer. Meus ancestrais italianos, camponeses pobres, imigrantes famintos, meus parentes mortos, mesmo os mais antigos, ficariam orgulhosos de mim.

Projeto esvanecendo-se

18. Dos primeiros dias inúteis – sequência

16. Liberdade à força – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Aldo Balding. Diálogo silencioso (detalhe central).

Projeto esvanecendo-se. Liberdade à força

Mas não procurei nenhum deles. Não lhes enviei e-mails, não telefonei.
Deixei que dezembro, com seus dias espessos, passasse.

michael-goldberg-abajur-e-vaso-1963-1Minha vida agora era outra. A Marjorie saía para trabalhar. Eu ficava em casa o dia todo. Mesmo quando lecionava, dispunha de algumas manhãs livres. Mas agora tinha de me acostumar com todas as manhãs livres. Todas as tardes. Todas as noites. Não é bom viver assim, tão livre. Não enquanto a Marjorie passa o dia nesse escritório de advocacia onde, por todas as referências, ela personifica uma perfeita competente admirável secretária assistente. Perfeita e preocupada. Proativa, que eu também sei que ela é. Tudo que um líder empreendedor patrão pode desejar. Para um advogado, nem se fale. Além disso, confiável. A toda prova. Eu também me considerava confiável e a toda prova até o dia em que o Valério da Matemática deixou-me a par de todos os boatos excitantes contra mim. Até então, eu era mesmo confiável, que os boatos não eram fatos. Depois, quando me sentia o próprio portador heroico da verdade, o sobrevivente ressentido da resistência moral, prejudicado por gente esperta e aproveitadora, conheci, sob aquele dia de nuvens, a garota triste que seria, em pouco tempo, minha improvável amante. Minha felicidade nervosa e renovada. Minha mentira mais linda.

Eu não sabia ainda o que fazer para voltar à ativa. Tinha perdido minhas conexões, que já eram pouquíssimas. Dificilmente encontraria aulas naquela época do ano, quando já se encontrariam fechados os contratos, organizados os horários e definidos os corpos docentes. Como eu trabalhava nisso há muito tempo, sem interrupção, sem precisar me preocupar em procurar aulas em parte alguma, e como nos últimos anos, para piorar, vinha me dedicando com exclusividade a uma única instituição, eu me via completamente fora de forma quanto à maratona de procurar trabalho. Tinha que procurar frutas escondidas no alto das copas. A árvore toda caiu.

… Jean-Paul Sartre postulava que deveríamos encontrar um sentido para nossas vidas, já que a vida não apresenta sentido algum. Albert Camus defendia que isso era desnecessário: que a vida não tinha sentido mesmo e que simplesmente deveríamos aceitar isso…

Pensei em colegas que poderiam me ajudar com uma vaga de docente em escolas de ensino médio, talvez numa dessas cidades próximas, já que a disputa aqui costuma ser agressiva e medíocre. Mas não procurei nenhum deles. Não lhes enviei e-mails, não telefonei. Deixei que dezembro, com seus dias espessos, passasse. Eu quase adivinhava que esses colegas que me vinham à mente, entre imagens rápidas, nem sabiam do que tinha acontecido comigo. Que eu, um dos professores mais ativos e atarefados da instituição, com uma laboriosa diversidade de matérias, desde a mais comum, Compreensão de textos, aplicada a quase todos os cursos, até a específica Semiótica, com mínima carga horária no curso de Educação artística, estava drasticamente parado. A não ser que fossem próximos de um desses tipos muito bem informados, de preferência maledicentes, não teriam ainda essa notícia, no mínimo curiosa, sobre mim. Imagino que reagiriam com alguma interjeição de surpresa, talvez um palavrão inofensivo, desses que não valem mais nada, mas que nos agrada e alegra pronunciar, bem-humorados e autoconfiantes. Que bosta, não é?

Minha forçada ociosidade fez surgirem hábitos aos quais eu me dedicava enquanto ainda percebia, em silêncio, dissimuladas vibrações de culpa. Caminhar e correr. Mexer no jardim. Internet por mais tempo. Ler mais, o que era só o agravamento de um entranhado hábito em curso – em curso desde que aprendi a decifrar o código absurdo que usamos para registrar e repassar ideias. Convivia em tempo integral com a asseada Coco Chanel, que aliás preferia alienar-se docemente, sabendo-me seguro e próximo, indo se acomodar a algum canto, a deixar-se adormecida boa parte do tempo. Seguro. No aconchego do lar. Na casa que pertence a meu sogro.

Enquanto essas atividades me ocupavam, minhas caminhadas e meus grifos em páginas novas, eu não conseguia evitar uma incômoda impressão de que minhas funções como professor profissional e pessoa não eram e não seriam mais as mesmas. Eu tinha de voltar a trabalhar, fosse como fosse. Com janeiro a meio, o verão entrecortado por tons arroxeados no céu, entre o entardecer e as primeiras estrelas, nas proximidades do bairro industrial, preparei cópias de meu currículo, cuidando de esperanças mais ou menos mortas. Eu olhava esses papéis, um cego de olhos esgazeados. Sem nenhum interesse. Olhava-os, por nada. Há pouco mais de dez anos, com frescas lembranças de minha formatura e de meus colegas de faculdade, eu entregava meu breve histórico profissional em finas pastas de plástico de cores discretas. Esse cuidado ingênuo, quando revisto, inspirava-me uma patética desagradável amargurada pena de mim mesmo.

Projeto esvanecendo-se

17. Do que eu era – sequência

15. Pequena deusa simples – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Michael Goldberg. Abajur e vaso. 1963.