Projeto esvanecendo-se. Das coisas todas

Marjorie era uma caçadora. Disfarçada pela etiqueta.
Encoberta pelas vantagens dos bons modos.

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… por que, em minha instabilidade mental emocional sazonal, por que, enfim, recordo um ponto ou outro, mesmo não estando à procura de tal ou qual memória? Um personagem de Coetzee pensou em castrar-se para evitar novos casos com mulheres e para poder pensar melhor na morte. Pensar melhor na morte? Não, não, mas eu sabia, eu o entendia: isso se traduz por considerar filosofar tentar compreender. À parte esse estúpido drástico ridículo pensamento, valeria a pena, mesmo metaforicamente, trocar uma coisa por outra?…

Quando conheci a Marjorie, ela me encantou com sua educação, com seus sorrisos e não sorrisos na hora certa, suas expressões faciais agradáveis e convidativas. Sentados, conversando. As cadeiras de madeira escura do café, umas plantas em volta. Então, ela ergueu lentamente a mão direita, em minha direção. Olha, um pernilongo aqui, na sua camisa. Era mesmo. Mal tive tempo de vê-lo: o minúsculo pernilongo subiu ao ar delicadamente rapidamente imprudentemente, e eu nunca me esqueço de como a Marjorie o liquidou certeira, batendo as palmas da mão uma única vez. E os olhinhos dela, quase arregalados e vesgos, concentrados como os de um felino. Seu rosto todo parecia o de um felino, surpreendentemente. Os lábios presos, as linhas exatas de seu queixo, suas mandíbulas, e aqueles olhos castanhos, escuros, quase cor de amoras, um brilho rápido de êxtase ao dar como certo, num estalo, o assassinato bem-sucedido. Tornou a olhar-me de frente, outra vez mulher. Sorrisinho de boca fechada, como se dissesse: viu só? E algum alívio, um sutil relaxamento. Marjorie era uma caçadora. Disfarçada pela etiqueta. Encoberta pelas vantagens dos bons modos.

… para o ator Willem Dafoe, devemos ser mais animais, menos racionais, sem nos importarmos muito com as expectativas. Ouviu isso, Joss Stone?…

Você trabalha com aulas, não é? A Marjorie, curiosa e afável. Trabalho com aulas? É, eu… dou aulas. Leciono. Franja de fios negros cobrindo-lhe quase toda a testa, partindo de uma linha curva a separar-lhe os cabelos, que caíam mais de um lado que de outro – isso, no momento, me pareceu acidental. Interessante, admiro professores. Nós dois compartilhando aquela situação maravilhosa de nos conhecermos melhor, por enquanto não tão melhor assim, e ainda bem. E aqueles olhos dela, castanhos escuros sensíveis astutos. Para mim, naqueles primeiros encontros, eram olhos potencialmente eróticos, por causa de seus movimentos mínimos, esquadrinhando meu rosto, buscando enquadrar meu rosto como um todo, enquanto eu falava de uma coisa e outra.

A bem da verdade, como dizem os fingidos, e mesmo tendo em mente que não é preciso comentar isso, a essa altura eu já pensava na Marjorie como uma potencial fêmea a meu dispor a minha mercê na cama a meu serviço. Criava, como sempre fizera desde que minha soturna adolescência entrara em cena, todas as imagens e falas dessa garota exata disciplinada e bem cuidada que, misteriosamente, parecia interessada em mim. A Marjorie era agora o foco e o fogo de meu bruto interesse masculino. Minha musa corpórea. Meu ícone erótico, como os de Alex Portnoy. Sobrepunha-se às outras, reinava. Dominava-me. Despia as roupas e os calçados que eu bem entendia e escolhia, levando-me quase às portas da polução noturna, o que eu me esforçava por conter, administrando meu tempo meu ritmo meu ritual profano, que é o de todos os homens hormonalmente normais: a sagrada masturbação.

… o Portnoy, de Philip Roth, nos desafia com sua sinceridade, e a jornalista perguntava ao autor por que falar tanto sobre sexo, o que me parece uma pergunta desnecessária, mas, sim, claro, podemos falar de qualquer outra coisa…

Eu estava com ela no carro, fim de noite, deixando-a em casa, a rua arborizada e escurecida onde morava com o pai e o irmão, quando recordei essas palavras, pensava: isso de estar apaixonado… Eu não conseguia parar de abraçá-la, de olhar para ela, de beijá-la, beijá-la outra vez e outra vez. Como é possível caber tanta coisa em nós, quero dizer, por que eu não conseguia parar? Não haveria um limite para esse fascínio? Ela riu. Claro que sim. O orgasmo.

Mas isso viria depois. Estávamos no café onde ela havia matado um pernilongo. Uma coisa e outra atravessava nossa conversa, como todas as coisas que acontecem no mundo deveriam atravessar as conversas de todos, embora ninguém se importe. Eu respondia e perguntava, também afável, é claro, mas achava estranho que alguém falasse assim, trabalhar com aulas, não sei por quê. Não sei muito bem por que isso me incomoda sutilmente. Dias depois, convivendo com uns conhecidos da Marje, entendi que era mais ou menos assim que eles se comunicavam. Eles não perguntam o que você faz, qual é a sua profissão, eles perguntam com o que você trabalha e complementam querendo saber qual é a sua parte. Minha parte? Como assim, minha parte? – foi isso que pensei, mas não falei, quando um desses amigos dela quis saber sobre esse tipo de coisa. É que muitos deles são sócios proprietários microempresários empresários, até acionistas de alguma empresa, portanto eles sempre têm… uma parte. Ah, você trabalha na… ? E qual é a sua parte? Na ocasião, eu disse que lecionava, e não comecei a resposta com: minha parte é… Os mais sábios (que eu nunca sei quem são) nos lembram que sempre é prudente evitar dizer o que se pensa, embora isso me cheire a mais uma modalidade empolada de covardia. Mas dessa vez segui esse conselho covarde e me escondi. Porque o que pensei foi que minha parte era ensinar, ao máximo, como é a gente se libertar de padrões paradigmas frases feitas ideias feitas e ciladas feitas, talvez para diminuir um pouco a preponderância daquela casta de pessoas que, situada em camadas consistentes da cadeia alimentar, entende que sua visão de mundo é o melhor que se pode passar adiante.

Em alguma parte de nossas primeiras conversas, ela disse que me achava… diferente. Diferenciado. Mais especificamente, ela educada culta agradável e me conhecendo ainda, foi a palavra que usou em seguida, aperfeiçoada: diferenciado. Eu já tinha ouvido algo assim antes, de outras pessoas, mas não sabia se isso era bom ou não, se me faria feliz ou infeliz, que diferenciado pode ser o antissociável ressentido ou o psicopata ansioso que gosta de ler os clássicos, o que, por bem ou por mal… Bem, isso não importa mais. Não é uma daquelas coisas que-eu-mais-tenho. E não pretendo ser diferenciado coisa nenhuma. Isso acaba sendo uma impressão alheia, uma definição derivada, talvez, de meu interesse especial por leitura – o que afinal não é tão incomum assim.

Nada de mais. Por essa época, eu ainda cultivava leituras intoxicantes, vivia entusiasmado com a descoberta de novas (para mim) peças de música clássica. Perseguia a beleza das coisas. Enternecia-me com a bondade, com a poesia, e já era tempo de eu ter outra impressão do amor, mas como disse, ou acho que disse, nunca fui precoce quanto a tais percepções. Eu havia escrito em meu diário, na parte inferior de uma página direita, que “não se emocionar com alguma coisa é uma perda, não um ganho. É um esquecimento, não uma conquista.”. À época, coisas que-eu-mais-tinha. E isso tudo, como parece claro, já devia ter se esfumado evaporado esvanecido lá no definhar de minha pobre adolescência, que ninguém adivinhava dura, com um último sorriso triste. Mas não. Eu tinha vinte e três anos quando conheci a Marjorie. É sério. Foi durante uma onda de calor, estacionada na região por influência de fenômenos climáticos distantes, desses que se formam no aberto dos oceanos e ganham nomes em espanhol. Uma onda de calor opressiva e nauseante, ainda na primavera, por isso era comum que nos víssemos com os rostos um pouco suados, quase cintilantes. Isso foi em novembro.

De qualquer forma, eram dias mágicos, quando começávamos a pensar um no outro com inegável interesse, desejando mais encontros e mais próximos e ansiosos e urgentes, quando aquela impressão intensa do encantamento começa a subverter as marcações do relógio e gerar um descompasso com as situações diárias conhecidas, com as outras atividades da vida prática. Quando nossa noite acabava, seguíamos em meu carro, eu ia deixar a Marje em sua casa, e era difícil nossa despedida. Nossos beijos consumiam todo o tempo, todo o batom. O gosto das salivas trocadas também resultava dessas tempestades biológicas. Ficávamos ainda uma meia hora grudados, até um pouco mais tarde, em meu carro, como já expliquei, o confortável Chevette hatch 84 branco de assentos reclináveis, torno a dizer, quase em frente à janela do andar de cima, e eu imaginava que seu pai ou seu irmão podiam respirar de longe nosso calor, o cheiro de nossos hormônios fervendo sob a lua.

A Marjorie, agora minha namorada, ia me apresentando a seus amigos suas amigas seus conhecidos seus parentes, enquanto meus amigos, que já eram poucos e dispersos (colegas eu tinha muitos), iam desaparecendo naturalmente de meu convívio. Já tínhamos uns meses de casados quando, na festa de casamento de uma amiga dela – uma não tão amiga assim, daí porque ela, a Marje, que já se portava com certa formalidade em ocasiões dessas, naquela noite parecia mais atenta às aparências conveniências obediências do que em outras –, eu cometi o erro de acreditar que poderia ser espontâneo. Coitada, sei que nem sempre eu fui o que ela esperava, mas não era por mal. Nunca foi por mal. Tenho verdadeiro carinho por ela, embora ela não perceba – ou não se importe muito com isso. Enfim, uma ou outra manifestação de espontaneidade minha a fazia desconfortável, porque ela tinha as coisas todas mais ou menos previstas, e não se sentia bem se algo não saía bem, o que parece simples de entender. Nessa festa, como dizia, bebi um pouco mais que o normal. Só isso. Nada sério. Todos ali, pelo que eu observava, beberam mais que o normal. Eu estava alegre, solto. A gente já tinha dançado, outros tantos ainda dançavam, e se divertiam com umas bobagens típicas, piadinhas relacionadas aos noivos e à conhecida condição de casados, quando então eu simulei uns passos de dança meio desencontrados, como num ritual de acasalamento, dobrando os joelhos e beijando a mão dela, afastando-me e me aproximando outra vez, imitando aqueles personagens de luvas do cinema mudo, movendo lábios sem som, mostrando-me subitamente apaixonado por minha própria esposa, que estava elegante e linda, cabelos presos, vestido justo, sandálias altas, mas acontece que a Marjorie sorria quase um sorriso fixo, e eu entendi que ela não estava gostando muito do rumo que as coisas estavam tomando. Então eu me deitei no chão liso da pista, blazer azul-marinho aberto, fechei os olhos, sorrindo, via tudo em flashes sons luzes risos e o teto, e a Marjorie bem próxima, curvando a parte superior de seu corpo em minha direção, isso sem dobrar as pernas rígidas, mãos apoiadas nos joelhos. Que foi? Tudo bem? Está passando bem? Tudo bem sim. Tudo bem, minha linda. Eu estava feliz. Feliz. Levanta daí então. Vem. Ali estava a minha mulher linda em meio ao caos. Algo carinhosa, mas incisiva. E eu sorrindo, de olhos fechados, o álcool provocando sensações avulsas suaves gostosas, então eu disse a ela que amava a vida. Acho que amo a vida. Quase sem ênfase, mas quase em estado de graça também. Marje, eu acho que… eu amo muito a vida. Que isso, imagina! Ela lançava os olhinhos rápidos ao redor, mantendo o sorriso aberto enquanto os outros convidados provavelmente riam ou estranhavam aquilo tudo. Estendeu-me a mão. Vem, anda, para com isso. Sempre sem deixar de sorrir, para que vissem que era só uma brincadeira. Sim, esses gestos dela são recorrentes. São toques de mestra. Para que todos compreendam que tudo não passa de uma brincadeira. Que mesmo o fato de eu amar a vida também não é mais do que uma brincadeira inocente. Insignificante. Dispensável. Está tudo bem. Tudo bem mesmo. Seu sorriso dizia a todos que eles não precisavam se preocupar.

Projeto esvanecendo-se

6. Uma garota como outras – só que não – sequência

4. Eu não queria que isso acontecesse – anterior

Guia de leitura

Imagem: Lorraine Christie. Doce rendição (detalhe inferior).

O anjo de ficar

Mas isso da primeira vez que estive ali.
Depois, era como se as paredes se deslocassem naturalmente ao meu redor, meus passos não pensavam mais, o espaço andava por mim.
 

Primeira vez na Josie. A Joss Stone de meu agourento ano novo. Nos primeiros dias de 2005, ainda em janeiro, essa trilha de pólvora serpenteando até a rua onde ela mora. Retângulos calculadamente agrupados. Bairros quarteirões condomínios. A pequena sala-cubo-entrada podia ser vencida com três ou quatro passos tranquilos – retângulos, três e quatro fizeram-me pensar tolamente em uma foto 3 x 4, comparada a uma imagem de maior tamanho, um imóvel mais amplo. A cozinha, quatro passos curiosos. E a entrada do quarto de dormir-pensar-sonhar, tão próxima tão sugestiva tão inspiradora, antecipava-me não sei quantos passos ansiosos. Mas isso da primeira vez que estive ali. Depois, era como se as paredes se deslocassem naturalmente ao meu redor, meus passos não pensavam mais, o espaço andava por mim. Não era muito diferente nas outras divisões desse seu modesto apartamento alugado, e eu nunca pensei, sinceramente, que uma pessoa precisasse de mais do que isso para viver. Somente o dormitório fazia um retângulo-quase-quadrado algo mais espaçoso, significando uma cama de casal (por que ela tem uma cama de casal?) encostada a duas paredes, fechando o vértice desse recorte como os tantos recortes se fecham em infinitas plantas de infindáveis imóveis empilhados estendidos construídos diariamente em nossa cidade, estruturas pelas quais meu amigo Nilson del Lama era em parte responsável e culpado. Por causa da posição da cama, sobravam ali dois espaços-corredores estreitos, limitados a uma parede com um espelho e a um armário de roupas embutido. A janela ao lado da cama (porque era a cama, é claro, que estava ao lado da janela) remetia a umas ilustrações de casas europeias em que as janelas partem de um pequeno balcão onde se pode sentar e observar o ambiente externo, mas isso, isso que ninguém perceberia fora de mim, porque os arquivos de imagens sépia e bico de pena eram todos meus, foi só uma faísca pueril de memória, pois não havia balcão nenhum ali, como se imagina, e essa janela, como as outras, seguia rente à parede, molduras finas de alumínio, exata e cirúrgica, sem relevos ou desvios. De qualquer forma, essa janela permitindo que, sentados na cama, assistíssemos invisíveis ao mundo lá fora já parecia algo muito atraente e especial para mim. Tudo nesse apartamento discreto, nesse cantinho pequeno e limpo, era aconchegante e sedutor. O caso era que eu me apropriava mentalmente do lugar. Isso, como disse antes, logo na segunda vez, a partir da segunda vez que o penetrei. Com a insensatez de um namorado potencial. A familiaridade rapidamente instalada. Uma parte da cama. Do colchão, dos lençóis. O espaço feminino acolhedor de seus colhões, a um homem imprudente e frágil, covardemente impetuoso, a caminho de ser o que só ele sabia possível a partir de si mesmo: um amante perigoso e egoísta. E esse autorreconhecimento oculto silencioso intransferível refazia suas forças. O que pode haver de mais poderoso que um segredo?

Ela parece à vontade até o momento de entrar no quarto. Agora quase gagueja, cor de rosa nas maçãs do rosto. Aqui é… o meu cantinho, a minha… cama e… Não sabe o que fazer com os braços. Mais um instante e começará a tremer. Antes que isso aconteça, o personagem eu, atuando enquanto o recordo em mim, vai até ela protetor carinhoso decidido, ganha um abraço morno e firme de quem se entrega para não cair – ou encerra essa breve encenação conseguindo o conforto esperado. Foi a primeira vez que se abraçaram, a primeira vez que se fizeram permissivos, a primeira vez de todas as outras primeiras vezes. Não, não era uma encenação. Ele tinha toda certeza disso. Não era mesmo. Seu corpinho suado a denunciava. Se esse homem com mais de trinta afogava-se em ansiedade como um adolescente nesse abraço carregado de hormônios, imagine-se ela, mais jovem e mais próxima dessa fase perdida.

Fica mais. Só mais um pouquinho. Preciso de você, não tá vendo? E você não tem que ir agora, não é? Carinhos horizontais. Mão em meu rosto, beijo em meu pescoço. Eu sei, linda, mas eu… eu preciso mesmo ir. Eu me sentia bem ali, é verdade que sim. Mas no fundo tentava aproveitar um momento meu desprovido de forças físicas para me obrigar a voltar para casa, pensando num jeito rápido de me despedir e encerrar tudo no minuto seguinte. Até mesmo de sair de lá correndo. A preocupação com o risco que eu me impunha, que eu me impunha tanto a preocupação quanto o risco, se é que não ficou claro, subia e descia, como num gráfico de oscilações, desaparecia por um tempo, voltava como o toque de um sino num campanário distante, com um anjo consciente aconselhando-me a voltar enquanto outro anjo (a Josie), este verdadeiro, com cheiro de pele, cabelos de areia, presença aromática morna insinuante, convidava-me a ficar.

Projeto esvanecendo-se

 – sequência

24. Quando nós ainda… – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Edgar Degas. Mulher com uma toalha. 1898.

Projeto esvanecendo-se. Quando nós ainda…

O que de fato contava era que ela acreditava em mim.
Considerava meu potencial de entrelinhas meu bom humor involuntário minhas ironias benignas.
 

Eu e a Marjorie fomos felizes por um tempo, um bom tempo, claro que sim, eu me lembro. Unidos próximos cúmplices, compartilhando especificidades e caprichos entre aquelas coisas que-só-nós-mais-tínhamos, como certas canções tristes, de querer morrer, e momentos cinematográficos de arrepiar a nuca e estrangular o esôfago, de tão sensíveis e impactantes. Eu engasgava com a saliva. Nossa, que foda essa cena, hein? Ela, em parte sensível, em parte gratificada com sua própria atuação dramática. Ai, olha, vou chorar de novo com essa cena, olha….

Nos primeiros meses nesta nossa casa aqui, cedida por meu sogro de alto escalão a sua filha merecedora e responsável, nossos dias de folga eram mais leves, nossas noites mais intensas. Nada de incomum nesse casal jovem, em meio a tantos outros sortudos mundo afora – eu com vinte e cinco, ela vinte e sete anos. Não era difícil entender e explicar a mim mesmo o tesão que eu sentia pela Marjorie. Mas não ficavam claros os motivos do tesão dela por mim. Não podia ser algo apenas físico, era o que eu concluía. Algo envolvendo o que eu era, talvez, com as coisas que-eu-mais-tinha. Ela dizia brincando, no fundo em tom sério e assertivo, que eu seria ainda o autor de qualquer coisa importante, mas nem eu nem ela adivinhávamos do quê, embora ela insinuasse a perspectiva de algum trabalho acadêmico ou algo como uma teoria científica ou filosófica ou, enfim, nem sei mais, mas como isso não passava de uma ilusão mal agendada, pouco me importava que porcaria de grande trabalho autoral seria esse. O que de fato contava era que ela acreditava em mim. Considerava meu potencial de entrelinhas meu bom humor involuntário minhas ironias benignas. E tentava erguer-me pontualmente de meu comodismo e de uma conveniente congênita modéstia, tentando ativar meu ego preguiçoso como se me cutucasse com um tição. Tinha esperanças, digamos, intelectuais em mim. Talvez uma aposta em algumas daquelas coisas que-eu-mais-tinha, como disse, por conta de minhas paixões como leitor ou como apreciador de música e de pintura, pois eu não fingia, vivia apaixonado e encantado pela arte pelo texto pelo fogo libertador e opressivo das ideias.

Numa dessas noites, em meio ao estágio entorpecente alienante de nosso sono profundo e interrompendo a viagem da lua, um estrondo deflagrou um clima inesperado de terror. Despertamos ansiosos e sussurrantes, temendo que alguém houvesse invadido a casa. Ficamos sob a influência de um silêncio suspeito após o ruído forte e repentino de algo sendo destruído no andar de baixo. Desci para ver. Era o relógio de parede, da cozinha, em queda livre e autônoma – um desses relógios Herweg, que prometem durar toda uma vida, mas, no caso, por falta de habilidade minha em fixá-lo a contento, finou-se jovem e desastrosamente, espatifando-se com um som cristalino e apavorante, e o vidro que antes protegia o mostrador claro limpo conciso craquespalhava-se no piso da cozinha, como se ali houvessem chovido grãos lascas e miçangas transparentes.

Comprei outro relógio na Avenida da Saudade, numa loja de quinquilharias para o lar. Quadrado, cantos arredondados, mostrador branco, no centro o desenho estilizado de uma galinha em alto contraste, pezinhos em movimento, simpática altiva e sempre em frente, como se cacarejasse keep walking enquanto o ponteiro-agulha vermelho dos segundos avançava sem dó. Quis surpreender a Marjorie, achei que ela adoraria, que ela quedaria encantada com aquela galinha positiva determinada autoconfiante e me brindaria com um belo beijo. Que isso, Pepo! Que coisa brega, meu Deus! Onde você achou isso? Vamos pôr isso na parede? Eu estava feliz assim mesmo, e ria. Marje, olha só essa galinha, não é demais? A Marjorie parecia bem-humorada também, e suas imprecações simulavam as de uma comediante consciente. Ah, não, você está de brincadeira comigo! Está ou não está? Mas por que não, Marje? Você sempre gostou de galinhas. Você tinha até um pijama de galinhas, lembra? Você às vezes parecia uma galinha. (O pijama dela era amarelo-claro estampado com inúmeras minúsculas galinhas, umas azulzinhas outras pretinhas outras branquinhas…) O quê? Eu parecia uma galinha? É, quando sua franja se arrepiava de manhã, quando acordava com os cabelos desfiados apontando pra cima. Palhaço! Me solta! Vem cá, minha cocó linda… Corria atrás dela. Para com isso, me larga, tenho mais o que fazer! Ela torcia o corpo entre os móveis, agitando os braços, brincando de se livrar de mim. Eu não vou pôr isso aí na parede, já falei! Ai, me solta! A Marjorie é forte, e eu tenho que ser firme quando quero prendê-la. Depois percebo que ela não faz tanta força assim, está se divertindo também. O relógio nos serviu por um bom tempo. Eu e a Marjorie fomos felizes por um bom tempo. Nossa juventude, transuberando de erotismo, sempre nos garantia um bom tempo, mesmo sob os ventos eventuais de alguma situação nublada. Aliás, já ia me esquecendo de dizer que, depois daquele susto pavoroso com o relógio espatifado, voltei para a cama, e nós nos pegamos com toda força gosto e vontade, em meio à mesma viagem da lua. Nosso casamento aconteceu no auge do verão e reuniu apenas parentes próximos e uns raros amigos íntimos. Eu tinha vinte e cinco anos, caso não tenha contado ainda. Ela, vinte e sete. Isso foi em janeiro.

Projeto esvanecendo-se

25. O anjo de ficar – sequência

23. As festas na Maga. Pequenos atrevimentos – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Chelsea James. Cômoda branca. 2009.

Projeto esvanecendo-se. Os rapazes, os homens, a guerra

Um mundo de mapas e guerras sempre foi traçado pela impetuosidade masculina, comunicação rudimentar, walk talk entre trincheiras, interconexão global, adivinhando objetivos semelhantes, voltando em busca de mais uísque, compartilhando sua reciprocidade evidente e seu corporativismo velado.
E é assim, em grupos, que os homens planejam seus atos aniquiladores.

2001, uma terça-feira. No ar do planeta, no ar nas TVs, a conturbada fumaça negra do evento catalisador. Na sexta-feira, na área externa da Maga, a festa seguia como antes, como sempre, avançando na noite clara. Alguns comentavam a notícia mais surpreendente de nossas vidas, considerando-se nossa idade média e o fato de todos ali serem nascidos muito depois dos ataques atômicos a Hiroshima e Nagasaki. Vocês viram? O que foi aquilo, hein? Os homens mais próximos, scotch à mão, um deles como se marcasse o tempo com seu cigarro que subia e descia da altura do queixo à altura do peito, sabiam tudo de guerra. Não vai alterar nada pra nós. Como você sabe? Não vai, porque eles não precisam de nossa ajuda, não precisam de nós, o nosso país nunca se envolve diretamente numa coisa dessas. Não sei não, sempre tem como envolver mais gente nisso.

…a especulação e a expectativa quanto à resposta dos americanos agitava a ansiedade geral, e todos tinham uma opinião muito certa sobre aquela confusão toda – foi assim que conheci o Alex, o Victor e o Guilherme…

Você é o marido da Marjorie, não é isso? O Victor acrescenta a seu charme um estilo francamente interiorano. É isso. E você, da Amanda? Isso aí, e já vi que ela sumiu de vista. O Alex é o mais bem-humorado, também o mais sensato. Prazer, o meu fardo é a Daniela, aquela de saia prateada ali, está vendo? Os outros dois puxaram a reação que eu, simpaticamente, imitei. Ahahah… Apertei a mão do Guilherme. Nem me fale, estou separado há um ano e meio, nem me fale naquela vaca, velho, agora ela quer tudo que eu tenho. Seus olhinhos atentos oscilantes rápidos não se demoram em fixar qualquer coisa, e ele parece conhecer uma técnica de nunca sorrir, de não dilatar os lábios para além de um traço de sarcasmo silencioso. A céu aberto, ao sul da piscina, perto das grandes plantas que escureciam os muros altos da residência admirável da Maga, que, mesmo incrustada em um condomínio bem vigiado, assemelhava-se a uma fortaleza, nós nos afastávamos por uns minutos da agitação intermitente, música vozes risos ruídos, que ocupava toda a enorme sala a varanda o tablado e a área gramada entre os quiosques. Que nada: o presidente vai a público, lamenta as vítimas, aí vem a nota oficial de pêsames, ele fala que nosso país está do lado deles, e toda aquela lengalenga de sempre. Guilherme Luís Romano. Grande coisa, só faltava dizer que está contra. É o óbvio, o de sempre, ele não tem saída. Victor Osório Campos. E vão pedir o quê? Ajuda das Forças Armadas? Dinheiro? Nossa participação é sempre mínima, quando não é totalmente nenhuma. Guilherme, sua voz outra vez. E agora, o que vocês acham que eles vão fazer? Qual vai ser a reação deles, no que vocês apostam? Alexandre Macedo. A reação? Sei lá, velho, nós não sabemos ainda, mas pode ter certeza que vai ser devastadora. O Guilherme era o único que fumava. Vão envolver o mundo inteiro nisso, pode apostar. Não vão não. É tudo consequência de políticas deles, nós não temos nada a ver com isso. Mas que santa ingenuidade, velho. Não importa que seja por causa das políticas deles, eles querem, e podem, envolver todo mundo nisso assim mesmo. Chegou correndo e rindo uma garota morena, cabelos compridos, bem maquiada, camiseta larga branca de mangas curtas e nó lateral, calça amarela justa, tênis azuis, esbarrando em nós, dando voltas por trás de um e de outro, brincando de estar fugindo de um sujeito magro de cabelos lisos, espinhas nas bochechas, passando por um adolescente tardio, se é que não fosse mesmo um adolescente agora. Socorro, ele quer me sequestrar! Aaaai… Escondeu-se atrás de mim, segurando-me os quadris, depois atrás do Guilherme, quase lhe tirando o equilíbrio, o que piorou o mau humor habitual dele, e disparou a correr como viera, pela lateral leste da piscina, seguida de perto pelo magrelo risonho que supostamente prestava-se a capturá-la viva. O Guilherme afastou o cigarro da boca. Quem é essa palhaça? O Alex a observou pelas costas enquanto ela se distanciava. Veio com o Márcio Belques, eu acho. Idiota, criançona… Essa gente não está nem aí pra porra nenhuma. Verdade, a maioria é assim. E enquanto isso a geopolítica mundial entra em outro parafuso, outro cenário de colapso anunciado. Não exagere, velho, a gente não sabe, vamos esperar pra ver no que vai dar. Quem sabe isso tudo não coloque o mundo em ordem outra vez, no seu norte. Não, mas não é questão de estar em ordem ou não estar em ordem, não é isso. Não estava em ordem até terça-feira passada? Essa conversa nossa é meio inútil, por falta de informações, entendem? Mas como inútil? É assim que se formam opiniões, que se acompanha a história… E achavam que o fim da Guerra Fria tinha resolvido tudo, que loucura. Quer saber? Eu tenho saudades da Guerra Fria – pelo pouco que eu sei dela. Bobagem, velho. A Guerra Fria transformou o mundo numa grande armadilha, coisas de traição e delação, espionagem, execuções. Agora a bronca é com o Oriente Médio, com os muçulmanos. Vamos pegar outro uisquinho lá dentro? Vamos. O Alex, quase se justificando, rodou o resto do gelo no copo, voltou-se também, a passos lentos. Mas não é que eu não queira curtir a festa, é que esse assunto realmente me interessa. Claro, me interessa também. Vamos lá então, pegar mais. O Afeganistão é só o começo, vocês vão ver. O Iraque já está na mira deles. O Guilherme, um pouco mais baixo que nós, expressão facial permanente de quem está pronto a ironizar algo, quase uma careta pré-instalada, boca só o bastante aberta para mostrar parte dos incisivos superiores, como um roedor que fareja, sugerindo desconfiança e astúcia. Eles que arrebentem o Iraque, que se foda o Iraque! Eu e os outros não o acompanhávamos nesses repentes exagerados e maldosos. O Alex fez um gesto com o braço que segurava o copo. Sua torcida não adianta nada, velho. Vocês vão ver, é só uma questão de tempo. Eles já queriam invadir o Iraque no tempo do Clinton, para desviar a atenção do escândalo sexual, lembra? Lembro. Tinha aquele pessoal carregando placas nos protestos: “Não matem os iraquianos por causa de Monica!”. É, eu lembro. A essa altura, enquanto a gente conversa, o Wolfowitz já deve ter tirado os mapas da gaveta. Só levar pra mesa do Bush. E o tal terrorista, deve estar fazendo seu caminho de rato pelos fins de mundo do Afeganistão. Não vão pegar nunca. Como é o nome dele mesmo? Olha a Maga, está vindo pra cá. Vamos voltar, nossas mulheres estão perdidas por aí. Ei, Maga, linda noite, hein? E você está linda, viu? Ah, esses quatro aí, andam fugindo da festa, estou de olho em vocês. Não seja injusta, nós vamos lá dentro pegar mais bebida, só isso. O Victor a conduziu pelo ombro, afetuoso, percorríamos a lateral oeste da piscina. Eu quero um single malt agora, você tem lá, na sua cristaleira? A Maga rendia-se facilmente às brincadeiras e ao sotaque forte do Victor, caipirão gentil. Nós sempre apoiávamos secretamente qualquer homem que conseguisse manipular uma mulher. Um single malt, caubói? Sério? Amenidades e o atávico entendimento entre os homens, caçadores grupais, sintonizados em frequências de mesma amplitude, um mundo de mapas e guerras sempre foi traçado pela impetuosidade masculina, comunicação rudimentar, walk talk entre trincheiras, interconexão global, adivinhando objetivos semelhantes, voltando em busca de mais uísque, compartilhando sua reciprocidade evidente e seu corporativismo velado. E é assim, em grupos, que os homens planejam seus atos aniquiladores. Esse encontro foi há alguns anos, na área externa da Maga, se é que já não disse isso. Em setembro.

Projeto esvanecendo-se

16. Pequena deusa simples – sequência

14. Matéria básica e um resto de vinho – anterior

 Guia de leitura

Imagem: Jackson Pollock. Número 27. 1950.

Jacques Boucher de Perthes

Um pioneiro da Pré-História

Jacques Boucher (de Crèvecoeur) de Perthes

(Rethel, 1788 – Abbeville, 1868)

Arqueólogo francês, filho de um botânico de certa projeção no período napoleônico, ele inicialmente pretendia ser escritor, mas seus interesses eram amplos e diversificados. Em 1838, na região de Somme, norte da França, desenterrou machados grosseiramente moldados que, dada sua posição nas camadas escavadas, sugeriam ter muitos milhares de anos – eram os primeiros sinais do homem da Idade da Pedra. Boucher publicou o resultado de suas cuidadosas observações sobre tais artefatos, o que causou uma verdadeira revolução, pois o homem era visto como um ser muito recente, e Cuvier e suas teorias catastrofistas ainda tinham muitos seguidores. As teses catastrofistas admitiam a idade dos fósseis, supondo que a Terra, periodicamente, sofria grandes e súbitas mutações drásticas, mas rejeitavam qualquer sinal de ancestralidade remota do ser humano, que seria uma criatura jovem, não podendo, portanto, ultrapassar em idade mais do que 6 mil anos – até porque uma datação diversa contradiria os relatos bíblicos, tidos como verdadeiros. Entendendo que não conseguiria convencer seus contemporâneos, Boucher continuou seus trabalhos sozinho e acabou descobrindo novas evidências da ancestralidade humana. Em pouco tempo, outros arqueólogos conseguiram mais dessas evidências, o que chamou a atenção de alguns cientistas ingleses, entre eles o renomado geólogo Charles Lyell, que foram à França conhecer a região onde Boucher fizera seus achados. Lyell passou a apoiar abertamente seu colega francês e escreveu um livro sobre o tema. Com isso, a Royal Society britânica aceitou oficialmente a nova antiguidade do homem. Boucher ainda observou distinções no que se referia à manufatura de certos objetos, feitos em sílex, sendo alguns lascados, outros polidos. Chamou o período das pedras lascadas de antediluviano (nomenclatura em desuso), dado que à época acreditava-se no Dilúvio como fato, não como lenda. Não apenas Boucher havia encontrado utensílios remontando a muitos milhares de anos, como também descobriu restos de algumas espécies extintas, como o mamute, e de seres humanos de espécies diferentes da homem moderno. Isso desencadeou uma linha de pesquisa que iria estabelecer uma teoria revolucionária sobre um ponto polêmico e muito sensível: a ascendência do homem. Era o surgimento da Pré-História como área de conhecimento da ciência.

As definições Paleolítico e Neolítico foram criadas posteriormente pelo naturalista inglês John Lubbock, autor de Prehistoric times, para distinguir as divisões da Idade da Pedra. Esse livro foi um sucesso de público e despertou o interesse de novas gerações de cientistas e amadores pela Pré-História.

Textos associados: James Hutton, o investigador da idade da Terra

Conheça mais pessoas e suas vidas em Referências biográficas

Projeto esvanecendo-se. As festas na Maga. Pequenos atrevimentos

Eu sabia que algumas garotas ali não aprovavam a ideia, mas não protestaram.
Afinal era uma festa. Nem sempre fazemos festas. Afinal éramos todos humanos. Afinal a vida exige momentos de descontração e de subversão entre os dias e as noites.

Perto da meia-noite, alguém sugeriu que uma das convidadas mostrasse os seios. Ela estava próxima ao bar, que fica um degrau acima do piso da área externa, como um palco estendido entre dois quiosques, pouco antes da primeira fileira de mesas plásticas ao longo da borda da piscina. A Mig era quem estava eventualmente no centro das atenções. Ela devia ter uns vinte, vinte e um anos, não mais do que isso. Ela é Miguelita Herrera Bim, filha de um proprietário de supermercados de bairro e de uma engenheira química, e eu não me lembro de uma dessas noites na casa da Maga em que ela não estivesse presente. Não mesmo. Desde que comecei a frequentar, com a Marjorie, essas festas combinadas ou improvisadas de sua amiga Maga, sempre vi a Mig entre nós. A Marjorie a tem em boa conta porque ela promete seguir os passos do pai nos negócios, enquanto cursa Administração de Empresas – não sabemos, claro, se ela cumprirá a promessa ou se mudará de ideia. E o pedido seguia valendo. E a Mig ali, hesitante sorridente vaidosa, repetindo nãos enquanto se divertia com o tom de súplica de um rapaz que eu não conhecia, que parecia ter vindo com a Rafaela Brittes e uma de suas primas, não sei, eu não sabia, não tinha certeza. Mostra pra gente, vai, faz esse carinho. A Mig o afastava com um tapinha à toa. Não, Fred, que isso, tá louco? Outros engrossaram o coro e passaram a incentivar a brincadeira. Ao fundo, Lou Bega cantava seu “Mambo n. 5”. A essa hora da noite, soprava um ventinho gostoso e vivo, vindo dos descampados próximos ao condomínio. Vai, mostra rapidinho, vamos ver, que que custa, que que tem de mais? A Mig levou a mão à testa, cobrindo o rosto enquanto sorria. Gente, não. Tô com vergonha. Preciso de mais um drinque. Drinque, no caso, claramente um eufemismo – ela parecia ter tomado umas boas batidas de frutas bem a seu gosto. A Rose Levy deu-lhe um copo alto de vodca gelada, fatia de limão presa à borda. A Mig então tomou meio copo de uma vez, engasgando enquanto ria. Mesmo assim, indecisa teatral maliciosa, ameaçava a todos com a desistência e a frustração. O Gilberto Roma, marido da Verônica Braga, que estava ali, a meio passo de mim, acima do peso, caminhando para a calvície, mãos grossas prontas a aplaudir, convocou-me à ação. Fala alguma coisa, Pepo. Você é bom nisso. Fala. Eu sorri, toquei o braço dele em sinal de que prestasse atenção ao que eu diria em seguida. Vamos lá, Mig. Você sabe que é bonita. E está entre amigos. Isso dá um tom a nossa festa. E muitos pontos pra você. Homens e mulheres riram. Apoiaram arremedaram aplaudiram, sem tirar os olhos de cima dela. A Queen, num vão entre uma e outra pessoa, olhava-me especialmente. Séria ou apenas curiosa, não sei. (Uma observação: a Marje não comentou nada sobre isso, em nenhum momento. Eu nem sabia onde ela estava quando isso aconteceu – isso, eu digo, a minha fala incentivadora. O resto ela viu. Nem uma palavra. Mesmo. Nem na viagem de volta. Nem quando apaguei a última luz, em nosso quarto, ao fim de tudo. Nada.) Como parte de uma esperada encenação, a Mig tornou a cobrir a testa com uma das mãos enquanto com a outra fazia descer delicadamente pelo braço a alça esquerda de sua blusinha cor de vinho. Um murmúrio quase infantil de admiração e felicidade ocupou o espaço ali, partindo de diversos pontos, vozes masculinas e femininas, atravessando-nos a todos com um entusiasmo alternado entre uma ansiosa perspectiva de silêncio e um possível clamor de glória. Eu sabia que algumas garotas ali não aprovavam a ideia, mas não protestaram. Afinal era uma festa. Nem sempre fazemos festas. Afinal éramos todos humanos. Afinal a vida exige momentos de descontração e de subversão entre os dias e as noites. Afinal, não era algo tão absurdo assim. Era só uma brincadeira sensual, um capricho de momento. Afinal… não era nada. A Mig fez um charme de um instante e pôs à mostra um de seus peitinhos, um peitinho de agradável proporção, jovem e pronto, ligeiramente voltado para o lado externo do torso, aréola pequena castanho-clara coroando a forma macia que ela sustentava com a mão colada ao corpo, como apontando seu lindo seio, à prova de críticas, em nossa direção. Lou Bega cantava: … a little bit of Rita is all I need, a little bit of Tina is what I see… Fez um sinal para a Rose, pegou de volta a vodca, girou um dedo no líquido gelado e tocou-se no mamilo, arrepiando-se do próprio susto e provavelmente fazendo-o eriçado instantaneamente, o que eu não podia ver de onde estava. Risos e aplausos esparsos dirigidos à estrela do momento, que parecia nos dominar com seu feitiço enquanto a voz do cantor, sobrepondo-se às nossas, lembrava: you can’t run, you can’t hide, you and me gonna touch the sky. Isso não se estendeu por um minuto inteiro. A Mig subiu a blusa, guardou o seio.

Desde então, a festa parecia outra. Nossa memória dessa noite era outra. Nosso tempo cronológico não podia mais vencer o efeito desse capricho, desse encantamento, dessa magia simples. A Mig nunca mais foi a mesma para nós. Ela nos brindou com a libertação. Como eu previra, isso contou pontos para ela: todos passaram a simpatizar mais com ela, principalmente nós homens, tocados por um inconfessável sentimento de gratidão. Eu via esse gesto de ousadia malícia música e álcool como uma superação das culturas repressivas, um fator de redenção do que jazia estancado em nós mesmos, em nosso invisível ressentimento, uma conquista de todos. A estrela nascida do instante etílico, inspiradora de ansiedade e risos, realizando nossa reintegração à condição legítima de nossos hormônios. O momento de fazermos as pazes com o melhor de nossa natureza. A fêmea representativa, a musa da vez. A renovação dos votos de todos com nosso próprio senso de liberdade, com nossos caprichos sublimados, com nossa permissividade contida, com nossa inocência.

Projeto esvanecendo-se

 24. Quando nós ainda… – sequência

22. O jardim do hoje – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Fabián Perez. Sabá com copo de vinho tinto

Frutas, cores, pedidos de socorro

Mayday, o pedido de socorro, em inglês, é uma forma corrompida do francês m’aider ou m’aidez, que significa “me ajude”.
Nos tempos do telégrafo, era usado o S.O.S., uma sigla cujas letras em código Morse correspondiam a três pontos, três traços e três pontos.

As cores das frutas e das flores exercem um efeito marcante sobre nossa percepção visual, e esse pode ser o motivo de algumas cores serem denominadas a partir dos nomes de frutas e flores.

Algumas frutas

abacate, do náuatle awakatl, posteriormente através do espanhol. O náuatle (náhuatl, harmoniosa) é uma família linguística uto-asteca, de povos que habitavam o México antes da chegada dos saqueadores espanhóis.

abacaxi, do tupi-guarani i’bá, fruto, ká’ti, recendente, e açaí yasa’i.

abóbora, do latim hispânico apopores.

acerola, do árabe az-zu’rur, através do espanhol acerola.

banana, de origem africana.

caqui, do japonês kaki.

lima (lima[t]) e limão (laymūn) vieram do árabe.

mamão vem do português mesmo, de mama, pela semelhança com um seio.

 

A fruta, a flor e a cor

laranja: como a cor deriva da fruta, o que vale é a origem da fruta, que inicialmente era naranga, do sânscrito, passando pelo persa narrang e chegando até nós através do árabe naranja.

rosa: do latim rosa.

violeta, também do latim: viola + eta, forma diminutiva, talvez pela semelhança das pétalas com esse instrumento em sua forma antiga, particularmente tendo como modelo uma das inúmeras espécies, a Viola odorata, que significa viola cheirosa.

 

Algumas cores

amarelo (baixo-latim hispânico amarellus, diminutivo de amarus, amargo).

azul (árabe-hispânico lazurdii, do persa lazward, e finalmente a forma arcaica azur).

branco, do germânico blank, brilhante, luzidio, referindo-se à lâmina de uma espada ou faca. Daí também deriva a expressão arma branca (adagas, espadas, sabres) diferenciando-se de arma de fogo, aquelas que usam pólvora.
marrom, do francês marron, castanho.
preto, como já visto, tem origem duvidosa. Alguns pesquisadores sugerem que tenha derivado do arcaico despretzo (desprezo), referindo-se à maneira como os antigos europeus tratavam os mouros do norte da África. Mas, enquanto não se apresentam provas, ninguém aposta nada.

Todas do latim

roxo, de russeu, da cor vermelha. No passado, já foi roixo.
verde, de viride, da cor das ervas.
vermelho, de vermiculu, pequeno verme, mas referindo-se à cochonilha, de que se extraía esse pigmento.

 

Outras curiosidades

Átomo significa sem partes. Por extensão, indivisível. (É comum verem-se coleções de livros classificadas em Tomo I, Tomo II, etc.) Demócrito acreditava que, se a matéria pudesse ser dividida infinitamente, todo o universo se diluiria, não podendo nunca constituir-se.

Galáxia significa círculo leitoso. Via Láctea, caminho de leite.

Pakicetus, o fóssil ancestral da baleia, é composto por Paquistão, país onde foi descoberto, e a palavra latina cetus, origem de cetáceo, que significa peixe grande.

Têxtil deriva do latim textile, que por sua vez se refere a textu (texto), significando tecido, trama – por extensão, enredo, alguma coisa tramada, que se articula formando uma unidade revestida de sentido.

 

S. Francisco de Assis se chamava João

Seu nome era Giovanni di Pietro di Bernardone, e Giovanni deriva de Johannes, antiga forma latina que deu origem a Johann, João, Jean, John, Gian… – por isso, o nome da dupla formada pelos músicos Gian e Giovani se traduz como João e João.

Voltando ao assu… Voltando ao santo. Francisco (Francesco, no italiano) foi um apelido dado por seu pai, que o considerava “afrancesado”, talvez em razão do gosto de Giovanni pela literatura de língua francesa ou porque teria voltado de uma viagem à França encantado com os costumes locais.

 

Pedindo socorro

O pedido de socorro, em inglês, nos casos de emergência envolvendo a navegação aérea ou marítima, é mayday, que significa “dia de maio”, certo? Não. É uma forma corrompida do francês m’aider ou m’aidez, que significa “me ajude”. Nos tempos do telégrafo, era usado o S.O.S., uma sigla cujas letras em código Morse correspondiam a três pontos, três traços e três pontos. Além de ser fácil de se memorizar e de se transmitir, era um arranjo muito incomum na língua inglesa o aparecimento dessas três letras nessa sequência, o que, por si só, fazia ver que alguma coisa podia estar errada. Mais tarde, atribuíram significados ao velho S.O.S, como “Save our souls” (salvem nossas almas) ou “Save our seamen” (salvem nossos marinheiros). Essas versões são adaptações posteriores, configurando uma daquelas ciladas etimológicas que não correspondem à verdadeira origem do termo em questão.

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P. S.: Post scritptum (Pós-escrita)

Imagem: Paul Cézanne. Natureza morta com maçãs e peras. 1891.