Um carinho enorme por esta lembrança

Percebi, emergindo de um sono breve e profundo, que estava amanhecendo.
Eu retornava de uma noite de sonho. Vivia ainda um sonho estendido.
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James Whistler. Noturno em cinza e ouro. Ponte de Westminster. 1871.
Baile de formatura de um amigo, o Nivaldo Capretz. A Marina, de nossa turma, viera com uma convidada, conterrânea de sua pequena cidade distante. Nós nos conhecemos, conversamos, dançamos juntos, nos atraímos. Ela era discreta, bem-educada, sorria pouco. (Seu nome está protegido.) Queixo pequeno, rosto triangular. Morena clara, cabelos negros, encaracolados, cheios, cobrindo a testa e os ombros, à moda de nossa juventude. Um vestido bege ou salmão (nunca tenho certeza dos nomes dessas cores), também sóbrio, até os joelhos, sem sinais de sensualidade.

As horas passaram por nós, rolando sobre a música e os ruídos humanos. Ofereci à estrangeira levá-la a sua casa, que até o dia seguinte seria a república da Marina – ela estava com a Marina, não tinha as chaves, mas não, não me importavam detalhes assim, isso não era calculado enquanto acontecia. No fundo, o que eu não queria era deixá-la. Pensava em beijá-la em algum momento, e não sabia como. Talvez não acontecesse. Mas já era muito agradável tê-la por perto, estar com ela. Eu pensava na noite lá fora e me esforçava por conter meus sonhos de adolescente tardio. Minha ansiedade masculina me denunciava. Tentava disfarçar o desejo que crescia em meu sangue, queria afastá-lo de mim. Queria que ela soubesse que eu podia ser o que quisesse ser, um homem determinado e consciente. Entre uma e outra palavra, entendi que era virgem. E por que não seria? Não importa a cidade. Não importa nada disso. Eu próprio havia perdido minha virgindade havia pouco tempo, de maneira constrangedora, com alguém mais experiente. Então, eu lhe fiz uma proposta. E uma promessa. Ela concordou.

Era tarde dessa noite, uma noite calma. Por algum motivo, uma noite calma. Percorríamos a cidade deserta em meu Chevette de pintura metálica, do qual eu me orgulhava secretamente – por ser meu primeiro carro, comprado com meu próprio dinheiro. No caminho, ela disse que era como se me conhecesse há muito tempo. Eu sentia o mesmo. Coisas que nos ocorrem em noites assim mágicas.

No motel, relaxamos e deixamos para trás todos os ruídos de um passado mínimo, como também as canções que nos aproximaram nas últimas horas, nos minutos que há pouco estavam ali, ao nosso redor, antes dessa última porta definindo o tempo.

Tirei os óculos, não me importava mais ser míope – que ela também parecia não se importar com isso. Continuamos conversando, convenientes e cautelosos, como já vínhamos fazendo, agora sentados na cama, mais ou menos inclinados, mais ou menos improvisados. Então, um beijo lento, tímido. Sem avanços. Próprio a dois estranhos, em um acordo. Dois estranhos em justa sintonia. (Era uma vez uma princesa, de um reino distante…) Beijei seu pescoço, seu ombro. Um animal sedento dava sinais de assumir o controle. Ela delicadamente me lembrou do que eu havia prometido.

Era tarde dessa noite, dessa noite na penumbra – uma luz macia, vinda de um recorte junto à entrada, cuidava de nossos gestos. Minha parceira viajara durante o dia, estava exausta. Tirou os sapatos, deitou-se de lado. Seus cabelos quase cobriam todo o travesseiro baixo. Logo ela adormeceu. Eu também estava cansado. Tirei meus sapatos, deitei-me ao lado dela. Acariciei sua testa, sua fronte, um pouco de seus cabelos, seu queixo… – foi só assim que eu a toquei.

Percebi, emergindo de um sono breve e profundo, que estava amanhecendo. Eu retornava de uma noite de sonho. Vivia ainda um sonho estendido. O silêncio no motel era o de um reino adormecido. Dava para ouvir um trem, muito longe. Ela despertou, me fez um carinho. Foi ao banheiro, se arrumar. Ouvi o som de seu xixi. Fechei os olhos, feliz com essa impressão infantil de intimidade. Trocamos outro beijo, firme e carinhoso, abraçados ante a porta aberta. Ela me agradeceu por tudo. E eu lhe agradeci por nada – que esse nada me faria grato a ela por toda a vida.

Deixamos o motel, percorrendo a cidade ainda quieta, querendo ser manhã. Eu a deixei na frente da república da Marina – uma república modesta para abrigar uma princesa distante.

Seu nome está protegido, ela toda está protegida em mim. Minha memória volta a ela e a uma canção que havíamos compartilhado no baile, com a delicadeza de seu corpo tocando o meu enquanto dançávamos: “We’re all alone”, cantada por Rita Coolidge.

… por algum tempo, estes versos soaram fortes em mim: “Let it out. Let it all begin.”…

Não houve sexo. Ela confiou em mim. Eu a respeitei. Foi uma noite de amor.

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Imagem: James Whistler. Noturno em cinza e ouro. Ponte de Westminster (detalhe). 1871.

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Sonho 3457. Acompanhando Camila

Subitamente, fui tomado por uma impressão incômoda de que podiam ser os vestidos de três mulheres mortas.
Talvez tivessem sido enterradas ali, sob o piso da sala, e inexplicavelmente teriam descido ao fundo da terra sem que lhes acompanhassem suas roupas.
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Amadeo de Souza-Cardoso. Cozinha da casa de Manhufe, 1913.Eu voltava com ela de algum lugar, não sabia qual. Mas sabia que estávamos, até então, conversando em alguma parte da noite na cidade, e eu a estava acompanhando até sua casa. Era algo como os princípios de um namoro, algum ritual de aproximação. Talvez (pois eu não tinha certeza) já tivéssemos nos beijado.

Entramos por uma passagem estreita, seguida à porta da frente, que levava a uma sala mais larga e a outros espaços maiores, externos e internos, porém indefinidos para mim. A casa parecia vazia, mas, mesmo assim, entendi que era hora de me despedir de Camila e deixá-la.

“Você pode ficar mais”, ela me disse. “Fique mais um pouco. Vamos ficar mais um pouco.”

Eu olhava seu rosto bonito. Havia alguma neutralidade, uma espécie de tristeza disfarçada em suas expressões faciais, quase imperceptíveis. Quase nada. Mas eu percebia.

Então surgiram duas mulheres envelhecidas, com roupas de serviçais, lenços prendendo os cabelos, uma delas com um pano de limpeza entre as mãos – esta saída da cozinha, a outra tendo atravessado uma das paredes. A que me pareceu mais velha tinha um rosto amarelado e rígido, como uma daquelas puritanas inglesas que eu conhecia das ilustrações de livros. A outra, mais baixa e morena, vinha logo atrás, seguindo a primeira.

“Você pode ficar mais, se quiser”, disse a mulher que estava à frente. “Ela está sozinha. E está triste. Fique um pouco mais.”

Moveram a cabeça, um mínimo aceno respeitoso, e entraram pela porta da cozinha, sugerindo com isso que se dedicariam, em seguida, a algum tipo de serviço doméstico.

“Vou pegar umas bebidas”, disse Camila sem sorrir.

Correspondendo e querendo agradá-la, eu lhe disse que pegaria bebidas também.

Ali perto, em um canto obscuro da sala, vi três vestidos estendidos paralelamente, como para secar ao sol. Mas isso não era possível, pois estavam no chão, um chão de lajes escuras e frias. Como podiam estar ali para secar ao sol?  Subitamente, fui tomado por uma impressão incômoda de que podiam ser os vestidos de três mulheres mortas. Talvez tivessem sido enterradas ali, sob o piso da sala, e inexplicavelmente teriam descido ao fundo da terra sem que lhes acompanhassem suas roupas. Não, era absurdo, eu não podia aceitar o que me passava essa impressão insólita e ridícula, por isso desviei-me dessa conclusão imatura, quase infantil, e ao mesmo tempo perturbadora.

“Não pode ser…”, murmurei a mim mesmo.

Entre um vestido e outro, próximo ao rodapé da parede, encontrei o que estava procurando: bebidas. Havia uma lata de refrigerante, rótulo vermelho, e um copo. Abaixei-me para pegá-los, voltei-me para Camila, a uns passos de dali. Abri a latinha de coca-cola, despejei seu conteúdo no copo e verifiquei, surpreso, que aquilo era cerveja.

“Nosso contrabando vai ser um sucesso”, brinquei.

Algumas pessoas que eu não conhecia acharam isso engraçado. Mas logo misturaram seus risos a outros ruídos e vozes, e não era possível saber do que estavam rindo de fato. Olhei ao redor, e agora estávamos entre muitas mesas festivas, com famílias e crianças, um dia de sol, à margem da piscina. Ninguém percebia minha presença, e Camila não estava mais comigo. Intrigado, girei a cabeça, girei o corpo, procurando por ela. Um dos meninos, de uma mesa próxima, olhou para mim e disse, erguendo um pouco a voz para destacar-se das outras muitas vozes:

“Ela não está mais aqui! Deve ter entrado!”

Permaneci em silêncio, sem reação, sem agradecer ao menino que tentava me ajudar. Voltei-me para a casa novamente, a uma larga porta lateral que separava, dos limites da casa, o terraço onde se dava essa festa familiar ruidosa, e era a entrada para outra grande sala que eu não conhecia.

Em contraste com as cores das paredes, de umas cortinas aparentemente sem função, uns enfeites e vasos ornamentais, em contraste com tudo que se via nitidamente sob a claridade do sol, o interior da casa era escurecido, cinzento e azulado, cheio de poeira. Cheguei mais perto, fiquei à entrada por um instante e então passei a caminhar lentamente em direção ao interior.

“Camila…”, chamei em voz baixa. “Onde você está? Estou com as bebidas. Quero ficar um pouco mais.”

Havia ferramentas no chão, espalhadas com certa desordem. Também mesas toscas, improvisadas, e pedaços de tábuas irregulares, como se a casa estivesse passando por alguma reforma. Havia também teias de aranha e pontos negros nas paredes, que podiam ser insetos de alguma espécie. Tudo opaco, empoeirado e sem brilho. Entendi que não se tratava de um trabalho de reforma. Era uma casa abandonada há muito tempo. Em ruínas.

Leia mais registros de impressões oníricas: Sonho 3415. A barricada das assassinas

Imagem: Amadeo de Souza-Cardoso. Cozinha da casa de Manhufe. 1913.

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Projeto esvanecendo-se. Eu não queria que isso acontecesse

Ela é uma menina bonita, um pouco baixa, pequena, covinhas ao lado do sorriso.
As gengivas superiores sempre aparecem um pouco quando ela sorri.
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Chelsea James. Lençóis pela manhã. 2007Meu envolvimento com a Joss Stone começou por acaso. Mas não que eu seja inocente. Não disse isso. Não sou. Disse apenas que começou por acaso, e isso é verdade. Claro, eu não pretendi que acontecesse, não planejei nada. Nem mesmo a considerava de alguma maneira especial. Ela era a secretária do doutor Stabile.

Conhecia a nós dois, à Marjorie e a mim. Ela nos atendia como a todos, perguntando e respondendo, marcando e sugerindo horários, abrindo a agenda de páginas pardas, papel reciclado, manejando uma fitinha azul, pegando e devolvendo nosso cartão de crédito, enfim, rotinas. Foi a Marjorie quem insistiu que eu começasse a terapia, depois que fiquei desempregado e comecei a pensar nas coisas. Ela já fazia as sessões dela há uns dois anos e pouco. Elogiava o doutor Stabile, sem mencionar, claro, seus olhos de mocho silencioso. Mas isso é coisa minha. Isso que eu disse sobre pensar nas coisas é mais ou menos isso. Minha imaginação é um pouco agitada. Um pouco, não muito. Minha mente está sempre em atividade, eu querendo ou não. Às vezes tenho dificuldade (ou preguiça) de distinguir da realidade as imagens que invento. Sei que exagero em algumas descrições. O doutor Juan Stabile é um homem bonitão, com todos os cabelos na cabeça, certo tom grisalho, pelo jeito bem calculado, talvez luzes invertidas, não deve haver uma mulher no mundo que não o olhe pelo menos duas vezes. Tenho trinta e cinco, e ele deve ter… uns dez anos mais, imagino. Não chega a cinquenta, ou isso no máximo. A Marjorie é fã dele. Ela diz que se deu muito bem na terapia. Mesmo assim, eu não vejo muita mudança na Marje, a não ser que se sente mais segura e altiva. E isso, pelo que me recordo, ela sempre foi. Em parte, posturas e trejeitos herdados de meu sogro, carreira militar, hoje aposentado, que a criou e ao irmão dela com as coisas certas da vida: disciplina, determinação, honra e coragem. Mesmo assim, ela se casou comigo.

Como disse, eu não enxergava a Joss como alguém especial. Não mesmo. Mas passei a vê-la assim a partir desse dia. Esse dia. As estações vinham se mostrando imprevisíveis. Uma frente fria invadira a cidade desde a véspera, em meio ao verão esperado, dessas que fazem as pessoas sem assunto dizer que o tempo está ficando louco e que o mundo deve estar no fim. Esse dia. O dia em que eu a encontrei por acaso, no ponto de ônibus, a dois quarteirões do consultório. Esse dia. Passei a percebê-la, a pensar nela. E isso só podia mesmo piorar. Ela é uma menina bonita, um pouco baixa, pequena, covinhas ao lado do sorriso. As gengivas superiores sempre aparecem um pouco quando ela sorri. (Depois, na cama, eu não me cansava de dizer a ela como era linda. Como você é linda. Como é linda essa menina… Não sou uma menina, bobo. Já tenho vinte e quatro anos. Tô ficando velha… – sorriso de covinhas e gengivas.) Mas nesse dia não, ela não estava sorrindo. Até estranhei que estivesse tão triste. Ela estava triste, realmente triste. Quieta e triste. Essa era uma tarde nublada e, por nenhum motivo, eu sempre achei pensei senti que os dias nublados eram mais silenciosos. No ponto de ônibus, perto dela, uma mulher quase obesa, sentada de tal maneira que me parecia achatada, como nos efeitos especiais de algum desenho animado, e um rapaz, alto e magro, camiseta com um desenho incompreensível, de linhas brilhantes, jaqueta preta aberta, fumando tranquilo, demonstrando neutralidade. Mas eu vi que ele observava tudo ali com silenciosa atenção – seus olhos quase se fechavam, a meio caminho de pálpebras. Dava um pouco de medo olhar muito para ele. A Joss estava ali, entre eles. Ei, eu disse a ela curvando-me um pouco, sem estender-lhe a mão. Ei, ela retornou. Estranhei que estivesse esperando um ônibus àquela hora, deviam ser umas três da tarde, expediente pela metade, como dizem os burocratas. Eu tinha acabado de sair de uma sessão com o doutor Stabile, geralmente percorria aquele trecho a pé, deixava o carro a umas cinco quadras do consultório, prefiro assim, gosto de andar e também gosto de não ficar forçando estacionar em locais muito disputados. O doutor Stabile foi quem abriu a porta, gesto simpático, convidando a entrar, e antes que eu perguntasse alguma coisa, adiantou que estava sozinho nesse dia. Vamos entrar, por favor. A moça não está aí hoje. Ah, sei. Dá licença. É que a Joss tinha sido demitida.

Eu não queria que isso acontecesse. Não pensava em ter uma amante. Nem essa palavra fazia parte de meu universo-mundo-bairro. Não queria ser o adúltero, o marido infiel, não procurei isso. Penso na Marjorie, em seus olhinhos negros e vívidos, e em como, apesar de toda a sua inteligência, ela não desconfia de nada. Porque, como eu disse, não sou do tipo mulherengo caçador sedutor azarador, não sou mesmo, por isso é muito compreensível que ela não desconfie de mim. De nenhuma mudança em mim. De nenhuma eventual necessidade que eu possa vir a ter nesse sentido, de me sentir atraído por outra mulher, além do normal.

… um estudo mostra que a atração sexual é mais importante nas escolhas de parceiros extraconjugais do que na escolha dos próprios cônjuges. Faz sentido, porque envolve riscos. Tem que valer a pena…

O que aconteceu foi motivado por uma confluência de sentimentos fortes contraditórios ansiosos desafiadores. Eu estava há quase um mês sem trabalhar. Duas semanas e pouco, vinte dias, algo assim. Não gosto de fazer essas contas. O fato é que ainda assimilava essa condição malograda, aparentemente sem solução em um futuro próximo, quando a Joss aceitou carona até sua casa. Uma situação muito simples, muito trivial, à luz do dia, oferecer carona a alguém que eu já conhecia e que esperava um ônibus naquela tarde cinzenta. Ela foi me guiando até seu bairro, seu apartamento de abelha. No percurso, nós dois, tímidos, iniciávamos um assunto qualquer que logo se encerrava, sumindo entre as claridades alternadas que atravessavam os vidros do carro, sob as árvores das avenidas próximas. Eu queria falar do céu fechado e das nuvens que não esperávamos, das coisas assim, que não sabemos muito bem, mas achei que isso soaria um pouco esquisito com uma estranha. Falei que naquela semana o governo iria anunciar uma reforma fiscal. Ela começou a chorar. Eu quase chorei também, por me sentir tenso e um pouco desorientado. Em vez disso, tive apenas a sensação de que o sangue me pressionava a garganta, corria com força por todo o corpo, tornando-me superaquecido e vulnerável. Fiquei firme. Prestava atenção ao volante, ao trânsito. Se eu puder ajudar, por favor, me fale. Se eu souber de alguma coisa, eu… Pode deixar, brigada. Brigada mesmo. Suspirou, como se gaguejasse, contendo as lágrimas. Eu me desviava da direção, em rápidos intervalos, só para observar disfarçadamente seu nariz pequeno, seu queixo bem delineado, como só os mais jovens têm. Compreendi que a admirava. Que minha vontade de estender essa visão e esses minutos era natural legítima sincera real. Como resultado de outro arranjo diabólico, eu tinha acabado de ouvir do doutor Stabile que deveria ser mais decidido em meus propósitos, mesmo que não os identificasse perfeitamente, mesmo que não contasse com um objetivo claro, de qualquer forma exercitar isso, envidar esforços para identificar e alcançar qualquer coisa que me atraísse, em suma, lutar por minha felicidade.

… ninguém nunca vai admitir, entre suas convicções e ideais, que a felicidade possa estar tão fortemente associada ao sexo. Mas está sim…

Voltando ao ponto de ônibus, voltando à Joss ali sentada quieta triste nublada, na verdade eu quase passei por ela, distraído. Ergui a cabeça quase sem motivo e num instante a identifiquei. Teria quase passado por ela, sem mesmo me dar conta de que havia pessoas ali, esperando um ônibus. Teria passado então por uma porção de coisas. Teria passado por minha oportunidade de tê-la conhecido melhor. Por minha confusão sentimental e sexual dos próximos meses. Por minha vida desse dia em diante, agora em parte clandestina. Por minhas dificuldades pessoais e de relacionamento com a Marjorie, agora um pouco mais complicadas. Por minha real felicidade. Só porque ergui a cabeça num instante. Sem motivo.

Que ônibus é o seu? O Jardim Zara. O único que passa aqui. Quase sorriu. Ah… sei. Eu não sabia nada de ônibus. Ela usava uma de suas blusinhas de alça, escondida por uma jaqueta marrom. Calça jeans justa em suas pernas curtas e bonitas. Mocassins claros, com franjinhas, do tamanho exato de seus pés. Eu sabia seu nome, mas pensava, para mim mesmo, que aquela era a Joss Stone. A irmã mais nova dela. Ela própria há alguns anos. Ela a minha frente, com seus cabelos de areia, sua pele de areia, seus olhos de areia. Minha imaginação não tem importância, por isso não tem limites. Era um dia cinzento, sob a frente fria. Um dia extenso, horizontal, um dia abrangente, orientado por nuvens. Eu nunca, nunca me esquecerei desse dia.

.Projeto esvanecendo-se

3. O sonho com a jovem calva – anterior

Guia de leitura

Imagem: Chelsea James. Lençóis pela manhã. 2007.

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A realidade desafiando a ficção – o incrível caso de Steven Avery

Steven Avery

Steven Avery

O documentário em série, Making a murderer (algo como “construindo um assassino”), produzido pela Netflix, foi uma das matérias que mais me impressionaram ao longo dos últimos anos. Ele me lembra, de maneira desafiadora, que a realidade pode superar qualquer obra de ficção. Se algum autor tivesse inventado uma história assim, qualquer um de nós, em seu bom senso, diria: “Ei, que absurdo, que exagero. Não, não pode ser.” Mas é. E é por isso que me engajei nos comentários, nas petições, assinando, compartilhando, tentando trazer mais pessoas para conhecer o caso e, previsivelmente, indignar-se com ele.

O talento das realizadoras Laura Ricciardi e Moira Demos, que escreveram e dirigiram esse trabalho, nos conduz ao conhecimento do extraordinário processo do estado de Wisconsin contra Steven Avery de maneira fascinante, com a habilidade dos que dominam a difícil técnica da narrativa, pontuando o tempo cronológico e não cronológico, os depoimentos e as manifestações da imprensa, envolvendo o espectador de maneira irreversível no que parece ser, desde já, um caso histórico – como também se poderia dizer desse documentário, dada sua repercussão imediata a partir de seu lançamento, em dezembro de 2015.

Com isso, já chegaram petições ao presidente Barack Obama e ao governador Scott Walker, com centenas de milhares de assinaturas, além de uma atividade permanente de milhões de apoiadores de Steven Avery, clamando por sua liberdade e por uma investigação federal, isenta, que possa reiniciar o processo e identificar todas as responsabilidades.

Se ainda não viu, assista ao trailer:

 
E veja a série toda na Netflix, clicando aqui.
 
E se já viu, seguem as minhas impressões (Atenção: contém SPOILERS). Aqui, declaradamente, deixo minha visão sobre os verdadeiros vilões da história.
  1. O verdadeiro assassino, Ryan Hillegas, ex-namorado de Teresa. Ele não tem álibi para a hora do crime, apagou as últimas mensagens do celular dela (provavelmente marcando onde encontrar-se com ela ou algo similar, o que certamente o comprometeria). Ele é traiçoeiro, mentiroso e espertalhão, e conseguiu enganar facilmente Mike Halbach, irmão de Teresa, que é um bobalhão ingênuo, com o estado emocional vulnerável por causa da morte da irmã, unindo-se a ele nas equipes de busca. Ao ser interrogado sobre a hora aproximada em que viu Teresa viva pela última vez, Ryan respondeu que não, não saberia dizer a hora… aproximada (!). O advogado Jerry Butting perguntou então se, pelo menos, era manhã, tarde ou noite, e ele respondeu que… não se lembrava!
  2. James Lenk e Andrew Colborn, que planejaram e forjaram “provas” para incriminar Steven.
  3. O promotor Ken Kratz e outros “comprados”, que sabiam que Steven, solto, seria um problema, processando o estado e, com isso, trazendo à tona a atitude vergonhosa e corrupta das autoridades com relação a sua primeira condenação. Aliás, não posso nem ver a cara desse canalha que é Ken Kratz. Alguns anos depois do julgamento de Steven, ele foi desmascarado em um escândalo sexual, pois exigia de algumas mulheres, a quem estava defendendo, favores sexuais, entre ações coercitivas e ameaças. Fico indignado em pensar que homens desse tipo andam de terno e gravata, sendo advogados, homens da lei, respeitados aonde vão.
Richard Mahler

Richard Mahler

 Participando desses grupos, tive a honra de receber uma solicitação de amizade no Facebook, vinda de alguém que eu tinha acabado de ver na tela, entre os últimos capítulos da série: Richard Mahler (Rick Ray), um dos jurados no julgamento de Steven Avery. É claro que eu aceitei. Fazemos parte do mesmo grupo que apoia Steven Avery, pedindo sua liberdade, por isso nos conectamos. Conversamos particularmente, por mensagens, na rede social, e estamos compartilhando notícias atualizadas sobre esse caso estarrecedor. Se você, leitor, acredita na Justiça (e principalmente se não acredita), não deixe de ver esse trabalho notável que é Making a murderer. Será que você consegue ficar indiferente depois disso?

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Brincadeira com bichos

O que achei de fato interessante foi o bicho escolhido, um escorpião. Achei interessante mesmo.
E era um rapaz anêmico, olhos fundos, parecia doente.
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Cassio Polegatto. Gato preto. 2015.Sempre detestei ter de participar do que quer que fosse. Sempre mesmo, desde que me entendo por gente. Mesmo em criança, isso me parecia repulsivo. Tinha a impressão de ser forçado a ser como os outros, de pensar como pensa um grupo, agir conforme o já esperado, para que fosse sempre um como eles. Por isso. E não é pouco, convenhamos. Depois, por que haveria de ser como eles? Festinhas no escritório, por exemplo. Pessoas sem nada em comum, vidas separadas, hipocrisia diária… Não vou falar sobre isso, assim já é demais.

O fato de não pertencer a nenhum partido, ordem ou religião poupa-me de defender ideias alheias e torna-me sempre mais livre em minhas opiniões. Eis aí algo que me interessa, sim, a liberdade. A liberdade, por exemplo, de poder dizer qualquer coisa fora de propósito num momento em que todos se sintam unidos por algum tipo de… Muito bem. Já me sinto livre por interromper-me, sem dar trela a novas conclusões. Ah, sim! Muito bem. Isto vale mencionar, a última vez em que participei de alguma coisa, que me lembre.

Meu único interesse, quando me inscrevi, era conhecer o Liceu de Artes e a Pinacoteca do Estado, um programa barato, planejado a partir das linhas do metrô e de suas estações, perto das quais se localizavam os pontos a serem visitados. Formavam-se normalmente grupos de umas dez pessoas, acho, e íamos todos seguindo duas funcionárias uniformizadas em coletes cor de laranja que mais lembravam salva-vidas. Não, não exageremos. O programa não era propriamente um naufrágio. Acontece que, num certo intervalo entre uma andança e outra, uma das guias propunha que formássemos um círculo, e ficávamos todos ali, olhando a cara um do outro, tentando entender para que diabos serviria aquilo.

“Para que isso?”, perguntei a uma delas, a que estava bem ao meu lado.

“É uma brincadeira de integração”, ela sorriu.

Sim, só podia ser. Uma brincadeira. Principalmente nesse caso, tratando-se de pessoas que não se encontrariam pela segunda vez em toda a vida. Mesmo assim, a outra pediu que cada um de nós representasse com gestos um bicho de sua preferência, e o resto do grupo teria de adivinhar que bicho era aquele, claro. Ela lembrou que aquilo servia para exercitar a criatividade que existe em cada um de nós, que todos nós tínhamos criatividade, só o que faltava era desenvolvê-la etc. e tal. Falava sério.

“Todo ser humano é um artista”, concluiu. Disse isso com tal convicção que alguns moveram a cabeça como se de fato acreditassem.

Apesar das esperanças da moça, e só para se ter uma ideia, alguns imitaram cães, pássaros, cavalos e outros animais tão óbvios que levariam ao tédio uma criança de três anos. E o fizeram com a mímica mais evidente possível, como de propósito para contrariar as palavras da guia. Mas não creio nisso. Eles me pareceram, inclusive, bem à vontade. Mesmo assim, quando o grupo decifrava o bicho em questão, quase ao mesmo tempo em que o imitador se punha a gesticular, a guia mostrava-se excitada: “Muito bem!” Parece incrível, não é? Eu estava lá e vi – vi, com estes olhos! Enquanto os animais se repetiam, eu me perguntava desconsolado: será que isso tudo é mesmo necessário?

“Um peixe!”

“Muito bem!”

Para não dizer que foi tudo tão previsível, um sujeito ali imitou tão mal sua mascote que manteve o grupo intrigado por mais tempo. O que achei de fato interessante foi o bicho escolhido, um escorpião. Achei interessante mesmo. E era um rapaz anêmico, olhos fundos, parecia doente. Tive vontade de sair de meu lugar e cumprimentá-lo, nem sei por quê.

“Muito bem”, tornou a guia sem dar-lhe mais atenção.

Os outros iam lembrando mais bichos sucessivamente até que chegou minha vez e… Muito bem: eu me recusei. Isso mesmo. Muito bem. Disse a todos que não estava disposto a imitar bicho nenhum e só o que queria era conhecer a Pinacoteca. Alguns olharam-me com antipatia, eu sei.

“Não custa nada”, resmungou alguém.

Não, é verdade, não custa. Também não lhes custaria nada deixar-me passar a vez. A maioria não suporta que alguém não queira participar.

“Pelo menos fala o nome de um bicho”, insistiu a guia sem alterações em seu humor. “Só o nome.”

“Mas por quê?”, perguntei quase choramingando. Eu realmente não compreendia que necessidade todos tinham de coisas assim. “Por quê?”

“Ah, vai, fala…”, pediu uma das nossas, uma moreninha que vinha me observando especialmente, como pude notar, desde a primeira estação. “Fala, vai…”, pedia como num lamento.

“Só pra participar”, ajuntou a outra guia.

Era justamente isto o que ela não assimilava de minha atitude: a ideia de não participar, de forma alguma. O que me obrigava? Eu não me havia inscrito naquela excursão para uma coisa dessas. E me aborrece que alguém fale em participar, tanto que, quando ela disse aquilo, eu me tornei ainda mais arredio.

“Não, droga, não falo bicho nenhum. Acho isso tudo um…”

“Mas que que custa?”

“Fala um e pronto.”

“Ah, vai… Fala…”, repetiu a mesma garota, a bonitinha, ênfase mais suplicante.

“Camelo!”, gritei de repente.

Todos se assustaram.

“Muito bem!”, fez a guia, vitoriosa. “Camelo, muito bem.”

Ia dizer camaleão, mas esse bicho nunca me agradou muito, e o que saiu foi camelo, talvez pela proximidade de sons. Os outros aplaudiram, satisfeitos. A moreninha ficou muito contente. Camelo, Camila. Pior: camaleão. Isso resolve tudo, não é? O fato de eu ter dito camelo e a necessidade alheia de sermos todos semelhantes integrou-me à força naquela brincadeira inútil. Acabou-se o intervalo, e as guias nos levaram a conhecer outros itens do roteiro, uma à frente do grupo, outra entre os últimos de nós, em seus coletes salva-vidas, conduzindo o rebanho. Pronto. Está aí relatada uma de minhas raras experiências em integração.

Outra coisa que tive vontade de fazer, quando insistiram: deixar todos ali, naquele círculo idiota, e ir para qualquer outro lugar. O que poderia impedir-me? No máximo, diria algo como: “Isto não me interessa absolutamente. Não, absolutamente. Com licença. Isto não me interessa…” Mas eu me conheço e sei que não sou tão forte..

 Quarta-feira (A conspiração dos felizes)

Como desviá-los de si mesmos? – anterior

 – sequência

Guia de leitura

Imagem: Cassio Polegatto. Gato preto. 2015.

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Projeto esvanecendo-se. O sonho com a jovem calva

Queria saber sobre a sensação de ser beijado daquela forma. O que aquilo significava? Quem poderia ser ela?
Pense com calma. Não tem que responder agora.
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Johanna Kirsch. Sono profundo.Ele queria saber quem era a jovem nua e careca que estava me beijando com tanto gosto e sinceridade. O doutor Stabile é um homem corpulento, robusto, um pouco, só um pouco, mais alto do que eu. Ele tem olhos grandes, de certa forma realçados por olheiras naturais, dois arcos sob as pálpebras, o que me lembra de umas ilustrações que eu via na infância, mostrando corujas e mochos preocupantemente silenciosos.

… uma surdez, uma dormência, um medo infantil do silêncio que esses bichos não pretendiam romper…

Mas ele é silencioso quando quer, apenas. No mais, é um homem simpático urbano estudioso atualizado sedutor. Faz parte do que chamam segredo do sucesso – um desses segredos que nunca foram secretos, que todos fazem questão de contar uns aos outros, um pouco orgulhosos e um pouco solidários, passando-nos as dicas de ouro, por vezes uma série de breves premissas, quando não em palestras e em livros. Deve ser. Todos esses bem-sucedidos profissionais se mostram, seja em que porcaria de área atuem, simpáticos e motivados. E eu já andava cansado, cansado mesmo, de ver gente assim, ao vivo, na TV e em capas de revistas. Principalmente ao vivo. Talvez o fato de eu estar sem trabalho, o que naturalmente é visto como um sinal de fracasso, aumentasse minha aversão por essa mitologia infantiloide do sucesso.

Nesse dia, nessa tarde, nesse fim de tarde, o doutor Stabile me perguntou, muito calmamente, se eu sabia quem era a jovem nua e careca que estava me beijando. As cortinas brancas, que não são exatamente brancas, mas de um desses matizes que me fogem, que me confundem, que só as mulheres conseguem identificar, sugerem algum movimento às vezes. Mas acho que não estão, não, em movimento. É como se minha atenção se voltasse para elas de vez em quando, percebendo alguma mínima oscilação. Não sei. Algo como uma ilusão de óptica. Lateral, furtiva. Quase convincente. As janelas ficam fechadas, e o ar-condicionado nem sempre produz brisas. Não sei. Não é o caso agora. De qualquer forma, essas digressões fazem parte de mim. São boas para mim. Não me importo de ser coerente e focado, não me importo de me perder. Num instante, o caso de as cortinas se agitarem, quase imperceptivelmente ou não, passa a ser importante, como se houvesse alguém invisível ali, como se eu tivesse nascido só para desvendar esse mistério ridículo, essa dúvida inútil. Quem é ela?, ele me pergunta com paciência, respeitando o tempo de meu silêncio introspectivo. Quem é a garota nua, calva, que beija você? Meu tempo, meu silêncio. Minha boca se abre e fecha, mas pouco, muito pouco, um soltar os lábios, bem pouco, também como uma ilusão de óptica, imperceptível. Não digo nada. Eu sei quem é. Entendo que só pode ser quem eu penso que é. Mas eu me demoro, não para buscar outra resposta. É porque não quero lhe passar esta resposta, a minha resposta. Porque não vou lhe contar nada. Não sei, não tenho certeza. Não tem certeza, ele observa, e isso quer dizer que você tem uma hipótese, pelo menos. Tem uma hipótese? Um ou outro palpite? Meu silêncio agora planejado, fingindo ser mais tenso do que é, mais preocupado do que é. Não. O doutor Stabile me olha com atenção enquanto estou de cabeça baixa, eu percebo isso. Fica muito tempo sem piscar, e essa característica natural dele me impressionou um pouco no começo, admito. Olhos grandes, bonitos, com olheiras. Sem piscar. Algum palpite? Não sei. Eu lhe contei o sonho há três semanas, mais ou menos. Duas mulheres nuas, contra um fundo neutro. Eu não via paredes ou pisos definidos. Uma delas deitada de bruços no chão, aparentemente dormindo. Talvez morta. Talvez não. Ela dorme ou jaz de vez. Não sei. Sem nenhum sinal de violência, nenhum sinal da morte. Mas talvez morta mesmo, suavemente. A outra, como se tivesse acabado de se levantar, antes ajoelhada ou talvez agachada ao lado da primeira, dá um passo em minha direção, passando gentilmente por sobre o corpo de sua gêmea inerte, os pés cuidadosos buscando apoio no espaço estreito entre uma perna e outra dessa que se estende no chão, pernas de lado, dobradas de maneiras diferentes, de bruços quanto ao resto do corpo, como já disse. Então essa que está de pé, atravessando com dois passos pequenos o espaço próximo, aproxima-se e me beija suavemente. Deliciosamente. Lábios um pouco moles, fáceis de pegar com os dentes, fáceis de conduzir, dominar. Um daqueles momentos em que o mundo se apaga a nossa volta, em que somos invadidos controlados neutralizados capturados pela soberania irresistível da beleza. Eu sei quem é. Entendo que só pode ser quem eu penso que é. Por causa de seu rosto, que só eu sei. Ela tem um sorriso hesitante. Olhos carinhosos, cor de areia.

… lembrança de uma sensação maravilhosa, como poucas vezes na vida…

Que eu buscasse na memória alguma razão para aquela cena. Que eu tentasse associar com algo apreendido no dia a dia, que eu tentasse responder a mim mesmo, e alguns pontos entendi como identificados, até mesmo facilmente. Eu tinha visto, no dia anterior ao sonho, imagens de uma campanha contra o câncer, uma menina que havia perdido todos os cabelos. O doutor Stabile entende que eu associei uma coisa com outra. Com algo que estivesse me incomodando como uma doença. Como se as duas, a garota deitada, inerte (a Marjorie) e a que me beijava dócil decidida lenta submissa amorosamente (a Joss Stone) fossem de alguma forma uma doença em minha vida, cada uma a seu modo. Queria saber sobre a sensação de ser beijado daquela forma. O que aquilo significava? Quem poderia ser ela? Pense com calma. Não tem que responder agora. Eu revisitava o sonho, tornava a repassar a cena toda, e aqueles lábios moles e úmidos, a nudez que senti com tanta realidade ao abraçá-la, um instante antes de despertar. Tive outra vez a impressão de que as vastas cortinas claras haviam respondido a alguma mínima vibração. Da última vez que eu estivera ali, o doutor Stabile, com seus olhos paternais de mocho indecifrável, conduzira a conversa para outro plano. Ele havia me perguntado se eu já tinha pensado em matar aquela moça antes. Você já tinha pensado em matar essa moça antes?

.Projeto esvanecendo-se

2. Um stone outra vez a caminho – anterior

4. Eu não queria que isso acontecesse – sequência

Guia de leitura

Imagem: Joanna Kirsch. Sono profundo.

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  • A seta de Verena

    Perce Polegatto é professor na área de Letras, com especialização em literatura. A metalinguagem, a busca da ­identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos.

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