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| Perce Polegatto é autor de Lisette Maris em seu endereço de inverno, volume de contos, e dos romances A seta de Verena e Os últimos dias de agosto. |
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O mundo é feito principalmente dos que não puderam realizar-se.
Sempre vivenciamos muito mal nossos verdadeiros tesouros, por isso um dia acabamos por perdê-los.
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| Sei dos que traíram, dos que tramam trair. Estão todos aqui. Dos que acreditam e dos que viram a verdade mais difícil. São os de trás, os da frente, os de pé no centro, sentados à esquerda e à direita, ansiosos ou somente à espera. São estes e aqueles. Não há outros. |
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SUA CANÇÃO DE ENGANAR Da primeira vez que a viu, lembra-se de um avião que passou. Sempre associava, como bem lhe convinha, um evento a um fascínio, que era de fato como se sentiu ao confrontá-la e ao sorriso dela naquele dia. E pregava a si mesmo: “Sim, está escrito nas estrelas. Eu tinha de vir aqui e encontrá-la. Estava lá, escrito.” Hoje, deixa que ela lhe torne a contar alguns de seus sonhos. Afinal, estiveram vocês tantas vezes juntos, já é possível admitir que os que se encontram, de alguma maneira, no fundo sempre sabem que sonham.
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NAS ESCADAS, MAS NÃO MUITO E as crises de tantos, sobre as quais não se redigirá nenhum relato? Mas não que isso seja indispensável, como também não importa que Júlio tenha existido, a menos que se encontre não sua pessoa e sim sua memória, que depois da morte a lembrança e o esquecimento são feitos do mesmo aço, ainda que fundido e amalgamado nas milhões de vozes entre um dia e outro, entre um ano e outro, década e outra, outra vez o tempo, eis o que nos esmaga verdadeiramente. E nos faz desabar cada um sobre si mesmo.
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O CAVALEIRO DO SÉCULO Alguém, não me lembro quem, disse que eu não passaria desta noite. Mas não é por isso que me encontro imobilizado nesta cama. Não é por isso que não me levanto daqui. Eu nem estou doente. Não passaria desta noite... Não me lembra quem.
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RAPSÓDIA EM CINZA Sol em teu passado, mesmo que hoje atravessa teus olhos.
Mesmo o inverno. Dias de chuva.
E teu sonho.
Este o dia, e não outro – emoldurando teu espelho em curso.
Lendas de estações mal esquecidas, narrações de fadas extraviadas:
não há outro Egito, outra Grécia,
outra Roma – não há outra tua infância.
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A MENTIRA TEM PERNAS CULTAS Começa com o Papai Noel, lembra? Eles nos enganavam, nós enganamos nossos filhos e ajudaremos a enganar os nossos netos. Depois, com a cara mais estúpida do mundo revelamos, piedosos e encantados pela inocência das crianças: “Não existe, meu bem. É de mentirinha.” Só não temos a dignidade de acrescentar: “Fomos nós que enganamos vocês. Nós mentimos.”
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