Projeto esvanecendo-se. Das coisas todas

Marjorie era uma caçadora. Disfarçada pela etiqueta.
Encoberta pelas vantagens dos bons modos.
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1-lorraine-christie-doce-rendicao-detalhe-inferiorQuando conheci a Marjorie, ela me encantou com sua educação, com seus sorrisos e não sorrisos na hora certa, suas expressões faciais agradáveis e convidativas. Sentados, conversando. As cadeiras de madeira escura do café, umas plantas em volta. Então, ela ergueu lentamente a mão direita, em minha direção. Olha, um pernilongo aqui, na sua camisa. Era mesmo. Mal tive tempo de vê-lo: o minúsculo pernilongo subiu ao ar delicadamente rapidamente imprudentemente, e eu nunca me esqueço de como a Marjorie o liquidou certeira, batendo as palmas da mão uma única vez. E os olhinhos dela, quase arregalados e vesgos, concentrados como os de um felino. Seu rosto todo parecia o de um felino, surpreendentemente. Os lábios presos, as linhas exatas de seu queixo, suas mandíbulas, e aqueles olhos castanhos, escuros, quase cor de amoras, um brilho rápido de êxtase ao dar como certo, num estalo, o assassinato bem-sucedido. Tornou a olhar-me de frente, outra vez mulher. Sorrisinho de boca fechada, como se dissesse: viu só? E algum alívio, um sutil relaxamento. Marjorie era uma caçadora. Disfarçada pela etiqueta. Encoberta pelas vantagens dos bons modos.

… para o ator Willem Dafoe, devemos ser mais animais, menos racionais, sem nos importarmos muito com as expectativas. Ouviu isso, Joss Stone?…

Você trabalha com aulas, não é? Trabalho com aulas? É, eu… dou aulas. Leciono. A Marjorie, curiosa e afável. Franja de cabelos negros cobrindo-lhe quase toda a testa, um repartido curvo separando-lhe o resto da cabeleira, que caía mais de um lado que do outro – isso, no momento, me pareceu acidental. Nós dois compartilhando aquela situação maravilhosa de nos conhecermos melhor, por enquanto não tão melhor assim, e ainda bem. Eu respondia e perguntava, também afável, é claro, mas achava estranho que alguém falasse assim, trabalhar com aulas, não sei por quê. Não sei muito bem por que isso me incomoda. Uns meses depois, convivendo com uns conhecidos da Marje, entendi que era mais ou menos assim que eles se comunicavam. Eles não perguntam o que você faz, qual é a sua profissão, eles perguntam onde você trabalha e complementam querendo saber qual é a sua parte. Minha parte? Como assim, minha parte? – foi isso que pensei, mas não falei, quando um desses amigos dela quis saber sobre esse tipo de coisa. É que muitos deles são sócios, proprietários, microempresários, até acionistas, portanto eles sempre têm… uma parte. Ah, você trabalha na… ? E qual é a sua parte? Na ocasião, eu disse que lecionava, e não comecei a resposta com: minha parte é… Sempre é prudente evitar dizer o que se pensa. Porque o que pensei foi que minha parte era ensinar, ao máximo, como é a gente se libertar de padrões, paradigmas, frases feitas, ideias feitas e ciladas feitas. Talvez para diminuir um pouco a preponderância desse tipo de pessoa que, situada em camadas consistentes da cadeia alimentar, entendem que sua visão de mundo é o melhor que se pode passar adiante.

A Marjorie, agora minha namorada, ia me apresentando a seus amigos suas amigas seus conhecidos seus parentes, enquanto meus amigos, que já eram poucos e dispersos (colegas eu tinha muitos), iam desaparecendo naturalmente de meu convívio. Já tínhamos uns meses de casados quando, na festa de casamento de uma amiga dela – uma não tão amiga assim, daí porque ela, a Marje, que já se portava com certa formalidade em ocasiões dessas, naquela noite parecia mais atenta às aparências conveniências obediências do que em outras –, eu cometi o erro de acreditar que poderia ser espontâneo. Coitada, sei que nem sempre eu fui o que ela esperava, mas não era por mal. Nunca foi por mal. Tenho verdadeiro carinho por ela, embora ela não perceba – ou não se importe muito com isso. Enfim, uma ou outra manifestação de espontaneidade minha a fazia desconfortável, porque ela tinha as coisas todas mais ou menos previstas, não se sentia bem se algo não se saía bem, o que parece simples de entender. Nessa festa, como dizia, bebi um pouco mais que o normal. Só isso. Nada sério. Todos ali, pelo que eu observava, beberam mais que o normal. Eu estava alegre, solto. A gente já tinha dançado, e tantos ainda dançavam e se divertiam com umas bobagens típicas e piadinhas relacionadas aos noivos, quando então eu simulei uns passos de dança meio idiotas, como num ritual de acasalamento, meio dobrando os joelhos e beijando a mão dela, afastando-me e me aproximando outra vez, fazendo-me subitamente apaixonado por minha própria esposa, que estava elegante e linda, cabelos presos, sandálias altas, mas acontece que ela sorria quase um sorriso fixo, e eu entendia que ela não estava gostando muito do rumo que as coisas vinham seguindo. Eu me deitei no chão liso da pista, meu blazer azul-marinho aberto, fechei os olhos, sorrindo, via tudo em flashes, sons luzes risos e o teto, e a Marjorie se aproximou, agachou-se ao meu lado. Que foi? Tudo bem? Está passando bem? Tudo bem sim. Tudo bem, minha linda. Eu estava feliz. Feliz. Levanta daí então. Vem. A Marjorie algo carinhosa, mas incisiva. Eu sorrindo, de olhos fechados, o álcool provocando sensações avulsas suaves gostosas, eu então disse a ela que amava a vida. Acho que amo a vida. Quase sem ênfase, mas quase em estado de graça também. Marje, eu acho que… eu amo muito a vida. Que isso, imagina! Ela lançava os olhinhos rápidos ao redor, mantendo o sorriso lindo enquanto os outros provavelmente riam ou estranhavam tudo. Vem, para com isso. Sempre sem deixar de sorrir, para que os outros vissem que era apenas uma brincadeira. Sim, esses gestos dela são recorrentes. Para que todos sempre vejam que tudo não passa de uma brincadeira, que mesmo o fato de eu amar a vida também não passa de uma brincadeira inofensiva. Está tudo bem. Tudo bem mesmo. Seu sorriso dizia a todos que eles não precisavam se preocupar.

Projeto esvanecendo-se

4. Eu não queria que isso acontecesse – anterior

6. Uma garota como outras – só que não – posterior

Guia de leitura

Imagem: Lorraine Christie. Doce rendição (detalhe inferior).

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Projeto esvanecendo-se. Uma coisa tão simples

Eu não tinha pressa, mas não queria ficar ali, escutando arengas.
Detesto encontrar esses ex-colegas pelo motivo simples de que são todos uns chatos.
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carl-spitzweg-o-hipocondriaco-detalhe-inferior-1865Quando fui convocado a esse encontro-conversa-cilada (um e-mail da secretaria relacionada ao Wellington), era inevitável suspeitar que algo assim, como o fim de meus dias por lá, fosse a pauta principal. Misteriosamente, subsistiu em mim, até uma boa altura da conversa, um ranço de surpresa. É mais ou menos quando não se quer acreditar que um boato idiota somado a uma situação idiota gerando uma burocracia idiota possa chegar a um ponto tão delimitado e drástico, sem retorno. Mas era a agenda de final de ano, o cardápio do dia. E fim.

… a eternidade não é um tempo longo, fora de nós, que um dia iremos encontrar. Ela é o tempo único de nossa consciência hoje. Ela é o tempo todo que transcorre. Não existe vida no passado, e todos sabem disso. Mas é preciso exercitar essa constatação para que não fique comprometida nossa lucidez…

Foi no ano passado, mas bem perto, poucas semanas, que encontrei um colega de outros tempos, o Jorginho Vecchi. Nós dois trabalhamos juntos, em nossos vinte, vinte e um anos, em uma mesma empresa que foi comprada por outra, depois por outra e hoje não existe mais. Nos primeiros anos após essas negociatas e fusões, era comum encontrar ex-colegas, e todos eles criticavam, ressentidos, o desfecho infeliz daquelas tramoias todas. Quanto a mim, não queria mais ficar ouvindo aquelas pontuações nostálgicas e lamentações, aquelas condicionais fantasiosas de que se tivesse sido feito assim ou assado ou frito ou cozido, toda a história teria sido diferente, portanto nós todos, afinal de contas… – e patati patatá. Só que o passado não existe. Por algum motivo misterioso, meus colegas parecem não saber disso. E que ironia encontrar esse meu semelhante numa agência bancária em frente à velha esquina em questão. Eu não tinha pressa, mas não queria ficar ali, escutando arengas. Detesto encontrar esses ex-colegas pelo motivo simples de que são todos uns chatos. O Jorginho ficou ali, de pé, sorrisinho triste, olhando tudo, lembrando coisas. Então, em algum momento, eu o interrompi. Não fique aqui, Jorge. Não volte aqui. Esta esquina não existe mais. Ele sorriu, levemente desconcertado, talvez duvidando de minha lucidez. Que isso? Do que você está falando? Fiz um movimento com o braço direito, algo parecido com o gesto que ilustrou para a Adelaide meu alívio em meu último dia na universidade, no corredor da saída, antes da última porta transparente, estendendo o gesto para a esquina toda, sugerindo um elegante giro panorâmico. Esta esquina não existe mais, entendeu? Nosso passado acabou. Não volte mais aqui. Ele sorriu, manteve o sorriso fixo tímido nervoso, me olhando de frente. Ele é um desses caras que costumam ficar muito tempo sem piscar, é o natural dele. Balançou levemente a cabeça. Nosso passado não existe, Jorge. Olha, eu tenho que ir. Bati de leve em seu ombro. Não volte, não venha mais aqui. Ele não entendeu, eu vi. Não entendeu uma coisa tão simples.

Projeto esvanecendo-se

10. Um último aceno por nada – anterior

12. Cintilações que não podem ser – posterior

Guia de leitura

Imagem: Carl Spitzweg. O hipocondríaco (detalhe inferior). 1865.

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Projeto esvanecendo-se. Um último aceno para nada

 Ela tentou um último aceno.
Professor, só entre nós. Eu tive acesso a muitas informações sobre seu trabalho e…
 

paul-klee-ad-parnassum-1932-1Depois de consumado meu desligamento da universidade, com minha assinatura em três vias e minha indiferença em quatro dimensões, a Adelaide me acompanhou até a porta, lembrando, piedosa, que o dia seguinte seria, como sempre tem sido, outro dia. Fica firme. Amanhã é outro dia. E como eu não regia não respondia não revidava, como eu apenas andava ao seu lado ajeitando a alça de minha maleta a tiracolo, ela puxou uma conversa a meio tom, perguntando se eu estava bem e se eu queria saber de mais algum detalhe sobre aquele processo idiota todo. Não. Está tudo bem. Está tudo bem de verdade, fique tranquila. É um alívio que isso tudo tenha acabado. Ela apenas tocou meu ombro mansamente. Isso tudo o quê? Paramos junto à última porta de vidro. Percebi que ela tentava me dizer alguma coisa, em particular, dava para notar que ela sentia certa pena de mim. Em sua posição de coordenadora pedagógica e braço direito da reitoria, ela sabia de praticamente tudo que acontecia de concreto e de fictício na universidade. Por isso, ela sabia também quem eu era e o que de fato estaria motivando a emboscada em que me liquidaram. Você pergunta “isso o quê”, Adelaide? Isso aqui, olha… Fiz um gesto estendendo o braço, girando um pouco o corpo, olhando ao redor. Isso aqui tudo. É melhor assim, que tenha acabado de uma vez. Ela baixou os olhos, compreensiva. Tornou a me olhar. Você quer saber o que a professora Silvana nos contou ontem, na reunião fechada? Fiquei, por um momento, paralisado. Mas foi piscar os olhos, minha mobilidade toda voltou. Sem raiva. Sem ressentimento. Aliviado. Era isso, de fato. Um alívio acima de qualquer outro sentimento mal definido. Não tem importância o que a professora Silvana falou, está tudo bem. Você não quer mesmo saber? Você já sabia? Não, não quero. Não sabia. A Adelaide é uma mulher de porte rígido, ainda assim delicada, serena em sua maneira de falar, uma mulher em seus sessenta, quando já se deformam as proporções do rosto, e seu nariz arqueado, agora mais fino e pontudo, e as orelhas alongadas de estátua budista, quase certamente não são os mesmos de seus tempos de moça. Por mais que se cuide da pele, há alguma estranheza nas linhas do queixo, um incômodo na observação de uma série de minúsculas pregas acima do lábio superior, além de uma fina penugem, muito bem disfarçada, nessa região sob as narinas. Eu percebia, sem intenção e distraidamente, enquanto falava com ela, a pele nos antebraços sutilmente granulada. Seus olhos me faziam pensar que eu estava, ao mesmo tempo, diante daquele brilho característico dos globos oculares dos galináceos e da secura das pálpebras das serpentes. Nunca tive nenhuma desavença com ela, nenhum problema. A Adelaide sempre foi uma profissional respeitada e honesta, até onde sei. Aposentada na ativa, dessa geração mutante que acreditou e passou a pregar a todos que não se deve parar nunca, desistir nunca, e trabalhar até o dia de seu próprio enterro. Mesmo influenciado por sua atitude formal e aparentemente neutra, eu ainda tinha alguma afeição por ela, considerando todas as vezes em que  conversamos nesses anos e algumas, em especial, quando ela me atendeu, prontificando-se a resolver uma ou outra burocracia que me atormentava. Ela tentou um último aceno. Professor, só entre nós. Eu tive acesso a muitas informações sobre seu trabalho, sobre sua conduta, por meio dos coordenadores, eu tive que me informar, tive que vir bem informada para participar dessa comissão e… acho que você poderia procurar ajuda com um advogado. Isso pode dar o que fazer, você tem seus direitos. Pode conseguir alguma coisa. Mas, pelo amor de Deus, não diga a ninguém que eu lhe falei isso, ouviu? Seus olhos secos de cobra pareciam ter pena de mim. Soltei a porta automática, fui saindo. Não digo, fique tranquila. E não vou fazer nada disso.

Projeto esvanecendo-se

09. Por causa de uma noite de chuva – anterior

11. Uma coisa tão simples – posterior

Guia de leitura

Imagem: Paul Klee. Ad Parnassum. 1932.

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Projeto esvanecendo-se. Por causa de uma noite de chuva

Os boatos tomaram a frente de tudo que se pretendesse interessante nos corredores da escola.
Só eu não sabia dessa falação.
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jackson-pollock-sem-titulo-1950-1Eu sabia muito bem o motivo de minha demissão. E não era esse. Não era digressão nem coisa nenhuma desse tipo. Era por causa da Silvaninha. Isso mesmo. E isso mesmo eu só percebi tarde demais. O motivo era a Silvana Mello Reinhardt Mendes Lobo, professora de Marketing e Plano de Negócios no curso de Administração de Empresas. Vinte e cinco anos, novata, formada há pouco. Loirinha de cabelos desprendendo-se ao redor do rosto e do pescoço, sensual, olhos grandes vivos verdes, sorriso de boca pequena comprimindo as linhas que iniciam as bochechas, pele bonita, de um branco corado de sol, andava apressada, a passinhos curtos, parecia divertir-se com isso. Eu lhe dei carona duas vezes, ao fim das aulas. Só isso. Aliás, foi ela quem pediu. Apenas isso, mais nada. E os boatos tomaram a frente de tudo que se pretendesse interessante nos corredores da escola. Só eu não sabia dessa falação. As historinhas cresceram e fermentaram entre a rotina de todos nós, eu entrando e saindo das aulas, subindo e descendo escadas, circulando sobre o piso frio dos saguões e de alguns trechos do pátio interno, inocente e alheio a um canto da cantina, alguma barra de cereais suco de pêssego em lata um croissant, enquanto o invisível inaudível indizível soprava de uma janela a outra da universidade, às minhas costas. Foi meu colega, o Valério, professor de Matemática Financeira, quem me explicou: a Silvaninha era amante do reitor, o doutor Washington. Uma delas. Era por isso que ela estava ali. Protegida dele.

Eu não podia contar isso à Marjorie de jeito nenhum. Mesmo sendo inocente. Ela não iria acreditar, é claro que não. Como eu poderia fazê-la acreditar? Por isso, passei a ela a mesma versão oficial que preenchia os termos que assinei, a digressão. Pois é assim que funciona: uma suspeita dessas, mesmo sem nenhuma evidência que a sustente, mesmo sem nenhum fundamento real, é o bastante para pintar de sombra a história de uma relação. E sem nenhuma evidência contra mim, rápida e surpreendentemente perdi meu trabalho meus cursos minhas aulas.

… um conto árabe tratava de três homens exatamente iguais. Quando passavam por trás de uma cortina escura e voltavam, um a um, em tempos diferentes, o sultão que assistia ao espetáculo, na cidade de El-Katif, duvidou e exigiu que os três homens se apresentassem ao mesmo tempo para provar que a exibição não era uma fraude. O apresentador mandou subir a cortina, e lá estavam os três, idênticos, um ao lado do outro. Então veio a lição. Quando os gêmeos passaram à vista do sultão separadamente, eram de fato três indivíduos distintos, exatamente iguais uns aos outros. Quando se ofereceu ao monarca a imagem dos três juntos, era um só, multiplicado por um truque de espelhos

Isso da digressão, que de fato era muito comum em minhas aulas, porque afinal eu sou assim, fragmentado, com interesses diversificados, discursos que vão e voltam, períodos longos, noções pessoais da importância de certos tópicos em relação a outros, com certo entusiasmo sobre algum tema que eu não havia esgotado ainda em mim mesmo, depois a substituição de uma coisa por outra, outra ideia qualquer que eu julgava ter esgotado meu interesse e sobre a qual não mais valia a pena falar, não era, nem de longe, o motivo de minha demissão. Qualquer um dos coordenadores podia ter conversado comigo e ter me advertido sobre isso. Nenhum de meus colegas jamais foi demitido por digressão por distração por omissão, por coisa alguma que diz respeito às aulas em si mesmas e que nunca fizeram a menor diferença para os sócios proprietários da universidade, muito menos para o doutor Washington, que nunca se incomodou com o mínimo do que bem ou mal estava sendo ensinado em qualquer dos pavimentos de sua instituição.

Mas admito que isso eles premeditaram muito bem. Eu poderia ter me defendido da suspeita de um caso com a Silvaninha (que afinal, dado seu caráter particular, não poderia constituir motivo formal de exclusão do quadro docente), mas não conseguiria defender-me da digressão. Foi bem pensado, sim. E eu, sempre distraído. Somando tudo a minha súbita indiferença e a meu desinteresse, eles me acertaram em cheio. Fiquei como picado por algum inseto que me transmitisse uma paralisia um torpor uma preguiça doentia. Não tinha a menor vontade de me defender.

A Silvaninha é dessas pessoas que eu poderia ter conhecido numa das festas na Maga. Ela vem de repetidas uniões entre famílias tradicionais que, com esse malabarismo de entendimentos e fusões, acabam se sustentando em sua classe social por mais tempo, talvez para sempre, apesar da incompetência de boa parte dos representantes masculinos, que costuma perder-se em farras que vêm a público e cafajestagens milionárias. Por isso ela tem esses sobrenomes sobrepostos – que afinal não são tantos, admito. Quanto mais essas famílias se unem, mais extenso fica o nome completo do ente querido, porque nenhuma das partes quer abrir mão de sua heráldica carcomida, sua marca registrada no mundo, como se isso tudo não fosse relativo ilusório inútil.

Na segunda vez que a Silvaninha me pediu carona, era uma noite de chuva. Ela, como alguns outros, parada sob a ampla marquise frontal, me viu chegando, saindo da sala dos professores, de guarda-chuva querendo abrir, pegou-me pelo braço, brincalhona e chorosa. Ah, eu estou sem carro de novo. Me leva, me leva com você? Os alunos mais próximos, que esperavam por ali, observavam tudo. Eu também sorri, compactuando com a brincadeira. Claro, menina linda, quer ir comigo, vamos? A Jaque, do atendimento, e o Dema, segurança da entrada, nos viram descer as escadas e sair na chuva, juntos e apertados, um guarda-chuva para os dois, ela enlaçando meu braço, tentando andar depressa, sapatos de saltinho, rindo de quase ter resvalado no último degrau um instante atrás. E como um escândalo, mesmo em pequena escala, é sempre um serviço à comunidade, essa foi a semente dos boatos que alegrariam os enrustidos desafetos do reitor e seriam o ponto de partida das próximas más notícias para mim, surgidos da noite para o dia entre o efeito Doppler dos gracejos da Silvaninha e de minhas respostas animadas, passando pelo público ocioso desse fim de noite, seguindo a passos menos desencontrados que os nossos, multiplicando-se num calendário sem números, ecoando entre silêncios furtivos, germinando com as chuvas. Isso foi em setembro.

Projeto esvanecendo-se

8. Como contar a ela? – anterior

10. Um último aceno para nada – posterior

Guia de leitura

Imagem: Jackson Pollock. Sem título. 1950.

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Projeto esvanecendo-se. Como contar a ela?

Certo, ela tinha razão.
Quando estou irritado, estendo mais do que devo o que tenho a dizer, sempre torcendo tudo a meu favor, é claro.
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chelsea-james-sylvia-2009-1A Marjorie apenas repetiu a palavra. Digressão – e comprimiu os lábios em seguida, estendendo à frente o inferior mais que o superior, fazendo beiço a alguém invisível, simulando surpresa e admiração. Tudo isso sem olhar para mim. Passando por mim. Digressão… Deu a volta à mesa, sem deixar a garrafa de vinho, que segurava firme na mão esquerda. Faltava o saca-rolhas, pelo jeito. É, digressão. Os alunos alegavam aos coordenadores que eu não me importava em acompanhar a matéria. Digressão. Assim como perversão delação sedição felação, seja lá a porcaria que for. Com esse ar formal e idiota de alguém anunciando algum tipo de contravenção ou crime. (Como a Marjorie trabalha num escritório de advocacia, ela sabe mais dessas nomenclaturas do que eu.) Eles pareciam satisfeitos com essa coisa toda, assim, como se tivessem chegado a um diagnóstico, entende? Precisava ver como se sentiam inteligentes importantes concludentes, só porque fecharam o processo todo em uma palavra. Deixaram para anunciá-la quase no final da segunda parte da conversa, que eu nem sabia que era uma segunda parte da conversa. Mas eles adoram essas divisões e classificações, como se estivessem construindo um texto, um relatório com subtítulos, um… A Marjorie ergueu e desceu a mão no ar, impaciente, enquanto andava para um lado e outro. Sei, sei, já entendi, não seja exagerado de novo, não precisa complicar a coisa toda. Certo, ela tinha razão. Quando estou irritado, estendo mais do que devo o que tenho a dizer, sempre torcendo tudo a meu favor, é claro. Pois é, Marje. Pelo jeito, a primeira parte da conversa eu mal identifiquei, porque no começo ficaram só me enrolando. Digressão, entende? A Marjorie ficou quieta. Talvez estivesse mais irritada do que eu. Mas quieta. Era só esperar que eu falasse, não precisava forçar muito. Imaginei que ela estivesse, além de irritada, chocada com a notícia. Nervosa. Com raiva de mim. Devia estar. Mas fingia tranquilidade normalidade naturalidade. Ela é muito boa nisso. Um autocontrole nojento. “Na primeira parte deste nosso encontro…”, era assim que falava o Sydney, com seus oclinhos de Himmler e seu bigodinho horizontal grisalho, seu papel à mão, demonstrando sabedoria e calma, imagine a cena. Primeiro me elogiaram, falaram da minha empatia com as turmas, da minha pontualidade, do meu conhecimento geral e essas coisas bestas. Conhecimento geral! E daí? E eles com isso? E disseram que não tinham nenhuma outra, nenhuma outra!, reclamação sobre o meu trabalho. Então, o que eles chamaram de segunda parte da conversa era a parte em que se revelava a única reclamação, pelo jeito gravíssima, que sua análise cuidadosa classificou como… digressão. Dá pra acreditar, Marje? Ela achou o saca-rolhas. Estava na segunda gaveta, mais ou menos escondido. Eu fiquei surpreso, claro, mas você sabe como sou prático nessas horas. Saí de lá tranquilo racional inteiro. Prático… Ela de novo, repetindo em voz baixa. Forçou a rolha com um último movimento. Não dava nenhum sinal de arrumar a mesa para o lanche. Nem pedia que eu o fizesse. Nenhum de nós estava pensando em comida. Faltava pegar copos, taças. Aquela iria ser uma noite diferente. Escurecida por uma emergência. Limítrofe. Pesada.

Projeto esvanecendo-se

7. Dias antes, dias depois – anterior

9. Por causa de uma noite de chuva – posterior

Guia de leitura

Imagem: Chelsea James. Sylvia. 2009.

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Projeto esvanecendo-se. Dias antes, dias depois

Todo dia nasce alguém. Este dia é o primeiro dia de alguém. Todo dia morre alguém. Este ainda em curso é o último dia de alguém.
Para mim, mais um dia infinito. De não nascer e de não morrer.
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mark-rothko-sem-titulo-detalhe-inferior-1946Minha vida tinha se tornado estranha ociosa incerta opressiva, mas pela primeira vez interessante. Por causa dela, da Joss Stone. Do que eu julgava ser interessante, aplicada essa qualidade a minha vida, considerando-se todas as fases anteriores, todas extintas, por lógica. Logo em nosso primeiro encontro, contei a ela de como havia perdido o emprego. Sabia? Não, não sabia. É? Que chato. Não sabia. Que aconteceu? Eu me senti muito bem depois de lhe contar a história da minha agourenta demissão, de como fui conduzido assessorado encurralado pelo Sydney, pelo Wellington e pela Adelaide, até por fim assinar um termo escrito que eu nem li. Muito bem mesmo. Estranhamente bem. Quase feliz. Isso foi logo no primeiro encontro, não sei se já disse isso, o primeiro encontro mesmo, não considerando aquela tarde de luz e sombra do dia da carona. O primeiro encontro combinado medrosamente entre nuvens, entre meias palavras e subtons. Pode ser? Você me espera? Espero. Quase não nos dizíamos. Quase não nos definíamos. Quase nada combinávamos que não ficasse a meio passo entre nós, a meio passo do que se interrompia e continuava entre rostos nervosos em instantes próprios, nós dois desviando os olhos para nos poupar da culpa. Mais ou menos quando. Está bom assim. Toco duas vezes? Não precisa. Eu desço para abrir. Fui a casa dela. Eu começava a ser feliz..

Depois que fui demitido, voltando da universidade, entrei em meu escritório e lancei mansamente os olhos sobre os livros abertos as apostilas as cópias xerográficas as lapiseiras marca-textos encadernações de plástico canetas brochuras velhas brochuras novas grampeador potinho de clipes, tudo me pareceu angustiante e cansativo. Deixei no chão minha pasta negra de alça minha quase maleta disforme minha magra mochila que costumava usar a tiracolo, deixei-a no chão ao meu lado ali mesmo. Todo dia nasce alguém. Este dia é o primeiro dia de alguém. Todo dia morre alguém. Este ainda em curso é o último dia de alguém. Para mim, mais um dia infinito. De não nascer e de não morrer. Perdi meu emprego, que todos já consideravam pouco, mesmo que nunca tenham dito isso diretamente, porque essa gente que conheço não diz nada diretamente. Essa gente quem? Vamos, vamos. Não fique aí parado, bancando o ultrarromântico. Não queira ser o herói da depressão. Isso tudo aí, esses objetos tão úteis e papéis em todos os formatos, isso que o incomoda neste momento nesta hora neste dia pode não ser mais do que um amontoado meio solene de intelectualidade capenga. De pretenso profissionalismo acomodado. Isso tudo pode ser apenas as ruínas de inúmeros trabalhos pelos quais você, bem ou mal, já foi pago. Isso tudo pode ser um discreto monte de lixo. Um lixo.

A Marjorie chegou do trabalho. Ouvi o carro, o crepitar dos cascalhos lá fora. Porta do carro. Porta da casa. Eu de camiseta, bermuda, descalço. Nessa minha camiseta lia-se “You are your only limit”, de quando eu achava isso bonito, ciladas motivadoras da era new age, que já definhava, coisas que não me serviam mais. Normalmente, nesse horário, eu estava pronto para comer algo com a Marje, antes de sair para as aulas noturnas.

 para o historiador Michel Pastoureau, coisas como a estrutura do dia, o ritmo do tempo e das cidades, tomaram forma durante a Idade Média. Muito de nosso cotidiano ainda é medieval, e não o percebemos claramente. Ele tem razão. Eu só odeio saber disso…

Os olhinhos escuros dela, os olhinhos cor de amora inquietos vivos despertos perguntavam. Ela estava de cabelos presos, repartidos ao meio, uns fios de franja em intervalos bem planejados. Não adianta, eu sempre me sinto atraído por ela, não consigo detestá-la completamente. Como isso não é recíproco, ela é livre para me detestar, como tantas vezes percebo. Um mínimo oscilar de seu queixo demandava qualquer explicação. Seu rosto rígido bonito simétrico a minha frente. O momento de um desenho animado em que o personagem move a cabeça para um lado e outro, no caso dela em um tempo irrisório invisível imperceptível. Um movimento mínimo sutil pequeno. Sua expressão se fez meiga, eu sei que ela gosta de bancar a mocinha silenciosa, como se não percebesse o efeito que causa, um leve ar de surpresa inocente, como ela usou quase o tempo todo quando lhe apresentei o Nilson del Lama, quando nos reunimos e bebemos pela primeira vez, rapaz, como eu adoro isso nela. Quase aceito a rendição imediata, um masoquista preguiçoso. Fui demitido, Marje. Ela quase riu. Parou, com a boca aberta, em posição de riso, como nas fotos de pessoas rindo com a boca aberta, as arcadas dentárias distantes umas das outras. Piscou os olhos três ou quatro vezes, sem se mover. Sério? Então ela passou por mim como sempre faz nessa hora. Deixou a bolsa sobre o sofá. Seus sapatos de salto ecoavam discretos em nosso piso frio enquanto ela passava à cozinha, sem sair de minha vista. Vai, pelo menos, me dizer por quê? Será que ela não pode dispensar essas ironias bobas numa hora assim? Pelo menos! Por que isso? Abriu um armário, fechou. Abriu uma gaveta, fechou. Eu não me dispunha a perguntar o que ela estaria procurando. Essa movimentação toda era um disfarce. Mas ela não parecia alterada. Era a Marjorie de sempre, sob ótimo controle. Nesse dia, agora sem as aulas, eu não tinha pressa alguma em lanchar. E ela não tinha mais que sair de casa. Por isso eu não tinha me adiantado com a preparação da mesa do lanche das bebidas. Podíamos ter uma noite tranquila sem horários sem agendas sem pressa, como já disse, eu sei que já disse. Voltou à sala com um vinho tinto. Vamos comemorar alguma coisa, Marje? Claro que não. O outro acabou, não viu? Joguei a garrafa hoje, depois do almoço. Ah, sei. Vai me contar ou não? Que aconteceu? Fui acusado de digressão.

Projeto esvanecendo-se

6. Das coisas todas – anterior

8. Com contar a ela? – posterior

Guia de leitura

Imagem: Mark Rothko. Sem título (detalhe inferior). 1946.

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O poeta e a coca-cola, fracos sem vez, carta do pai Queirós

1-irmaos-coenO slogan “Primeiro estranha-se, depois entranha-se” foi criado em 1929 pelo poeta Fernando Pessoa para uma campanha publicitária da Coca-Cola. Pessoa, lembrado por seus geniais heterônimos, com estilos e biografias distintas, trabalhava à época na agência Hora, à qual foi encomendada a campanha. Nada disso funcionou. Desmotivada por razões políticas, a Coca-Cola só entrou no mercado de bebidas português muito tempo depois – e o slogan não chegou a ser usado.

* * *

O filme Onde os fracos não têm vez, dirigido pelos irmãos Joel e Ethan Coen, é baseado no romance homônimo de Cormac McCarthy, um dos mais importantes escritores norte-americanos de sua geração. O título da obra, no original, No country for old men, é uma referência a um poema de W. B. Yeats, “Sailing to Bizantium”, que abre com os versos:

That is no country for old men. The young
In one another’s arms, birds in the trees,
– Those dying generations – at their song…

O romance Desonra, de J. M. Coetzee, que trata, entre outros temas, do envelhecimento do personagem central, o professor Lurie, também menciona os versos de Yeats.

* * *

O clássico romance O primo Basílio não agradou muito ao pai do autor, que o entendeu um tanto ousado e vulgar e lhe escreveu isto, em uma carta:

No ponto de vista da escola realista que te domina, o romance é uma obra de arte perfeita. Entretanto eu creio que, mesmo nessa escola, há um ponto além do qual não é permitido. Ou pelo menos não é conveniente passar. Pode-se mostrar a chaga, e o realismo está nisso; mostrar porém toda a podridão não dá mais caráter à escola realista e leva ao exagero, que é um defeito em todo gênero de composição.”.”

.Mais curiosidades literárias: O bom ladrão, os dentes da caveira, atentado em Paris, cômico por ter sido sério

Imagem: Joel e Ethan Coen durante as filmagens de  Onde os fracos não têm vez (2007).

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