Eurípides

O último autor trágico de Atenas

Eurípides

(Salamina, 480 a.C. (?) – Pela, capital da Macedônia, 406 a.C.)

O mais jovem e último dos três grandes autores trágicos da Grécia antiga. Escrevia sobre os vencidos e os marginalizados, que era como ele próprio foi visto durante sua vida, sofrendo críticas de seus contemporâneos, particularmente de Aristófanes, que o satirizava. Pouco se sabe sobre sua vida, e isso pode indicar que não tenha tido uma ascendência nobre, como era comum a outros homens letrados da época. Para ele, os mitos eram apenas representações que se substituíam no tempo, atualizando-se para suprir a necessidade de crenças mais antigas. Por isso suas peças tratavam dos homens reais, não de divindades, o que constitui uma peculiaridade notável no seu meio, num período em que se fazia quase obritgatório mencionar os deuses em obras de arte, como inspiradores ou homenageados. Nos dramas de Eurípides, personagens de nobres atuavam em conjunto com personagens de camponeses, vistos como seres humanos semelhantes na questão dos sentimentos e dos conflitos. Desiludido com a natureza humana, passou a viver recluso em idade avançada. É possível que tenha escrito mais de noventa peças, das quais somente dezoito sobreviveram. Ésquilo e Sófocles, seus contemporâneos, foram mais reconhecidos e famosos em vida. Mas, talvez por ter criado recursos dramáticos que viriam a influenciar outros gêneros surgidos posteriormente, como o melodrama e a novela, Eurípides é hoje mais conhecido do que seus colegas. Foi o primeiro homem, de que se tem notícia, a formar uma biblioteca individual.

De Ésquilo e de Sófocles, restaram somente sete peças completas da autoria de cada um. Grande parte de todas essas obras pode ter se perdido na destruição da famosa Biblioteca de Alexandria, onde haviam sido guardados os livros trazidos da Grécia pelos romanos. Com a anexação, o polo cultural do mundo antigo gradualmente se deslocou de Atenas para Alexandria.

Uma versão sugere que Eurípides teria sido estraçalhado pelos cães de caça do rei Arquelau.

Leia mais sobre pensadores e artistas em Referências biográficas

Conheça outros escritores e suas vidas: Franz Kafka

(Imagens de pessoas tão antigas não são confiáveis. Muitas vezes são representações de um tipo étnico, não correspondendo às feições reais do indivíduo retratado.)

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Não são fotos como as outras. 3

Ainda um guardião (com certa persistência ao longo de outros dias)

Assim como os mendigos e os inválidos, o homem do realejo deixou de me interessar. O mesmo não se deu com o velho arcado que eu via chegar pela manhã, sua mala de couro muito velha: o homem do sebo. Sua banca, na esquina de uma agência de seguros no centro comercial da metrópole. Tirava uns livros da mala surrada, punha-se a arranjá-los com os outros nas prateleiras. Impressionavam-me sua agilidade, a maneira como abria sua banca em meio ao movimento humano e, acima de tudo, sua determinação.

Quando se dava um dia de chuva forte, eu pensava no sebo e em seu dedicado livreiro: como estará ele agora? Terá tido tempo de recolher os livros? Um vento forte não terá invadido a banca? No dia seguinte eu suspirava com uma sensação infantil de alívio vendo-o ali, em meu caminho. Feliz porque a chuva torrencial não havia derrubado o sebo nem arrastado o homem com a banca, os livros e tudo. Ocupava-me disso à distância, cuidava do velho livreiro e do sebo sem que ninguém soubesse.

Apesar de meu zelo secreto, chegou – como chegam todos os dias – o dia em que ele deixou de aparecer. A banca permaneceu fechada por uma semana, e eu soube, pelo porteiro da seguradora, que o homem dos livros não resistira a um ataque cardíaco. Era bastante simples. Em outro dia desmantelaram o sebo – com livros cheios de histórias de tantas pessoas, de tantos lugares – e a esquina fez-se vazia, deserta como só as mãos do tempo saberiam deixá-la. Nos dias de chuva intensa, através das largas vidraças do escritório, eu assistia à paisagem azulada dos edifícios castigados, revia o velho livreiro e a mala de livros, as manhãs de sol. Como estará ele agora?

Os últimos homens do dia

Por toda parte as coisas continuam acontecendo pela única vez. Pouco antes do fim da tarde, os inválidos vão desaparecendo, resguardando-se da noite. As calçadas ficam vazias, e ninguém mais precisa ter piedade.

Na esquina onde se amontoa o lixo das lojas e dos cafés, eu os reconheço: homens em trapos que chegam antes dos caminhões de coleta e espantam os cães para que não rasguem as embalagens antes deles. Arregaçam o plástico negro e passam a remexer os restos à cata de comida, objetos ordinários. Por vezes disputam algo disforme, irreconhecível, mas que deve servir-lhes à fome. Duram até o dia seguinte, quando voltam a esmiuçar o que sobrou dos cafés.

Dormem sob os viadutos ou encostados às entradas de garagem cobertas. Infestam praças, galerias, escadas de edifícios, portas de igrejas. No verão, auxiliados pelo calor da madrugada, não morrem à noite. Quando volta o inverno, vão escasseando, mas ainda sobrevivem. Alguns, com mais sorte, não resistem ao frio, com isso nunca mais retornando ao lixo. Apesar dos velhos cobertores e papelões que os protegem do vento, os corpos perdem a temperatura devido às grandes baixas, e os indigentes expiram durante o sono, quem sabe interrompendo que sonhos. Deus dá o frio conforme o cobertor, repetem os convictos. Os cadáveres amanhecem úmidos de orvalho.

 Os últimos dias de agosto

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Imagem: Robert Richenburg. Pensamentos silenciosos. 1961

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Eu, um mentiroso crônico

Sou o que ninguém quer ser

Tornei-me um mentiroso crônico e devo isso a Verena. Foi ela quem fez esclarecer parte de minha aversão pelos meios literários, acadêmicos e outros de rotina não menos aborrecida. “Você é ou não é um artista?” Eu me acreditava poeta. Ela me ensinou Gauguin. Ajudou-me a vender quase todos os livros, e isso me fez mais livre, primeiro porque eu me via na obrigação de conservar aqueles volumes todos, zelar por todas aquelas resmas encadernadas. Também compreendi que a literatura subentendida no cinema e até nas histórias em quadrinhos era muitas vezes superior à dos livros. E não era o caso escrever, antes ter o que dizer, tendo antes tido o que pensar. Verena advertiu-me: jamais seria um verdadeiro escritor se continuasse lendo daquele jeito e, pior que isso, acreditando nas Letras como tábua de salvação para a humanidade. Ou para mim mesmo, afinal. O fato é que ela mudou tudo em minha vida.

Decidi ser um escritor e não mais trabalhar como escravo. Vivo sem dinheiro, é verdade. Mas o que escolhi. Conservei intacta minha inteligência, meu maior, meu, atualmente, único bem. Fracassei financeiramente, profissionalmente e até socialmente, o que menos me importa. Perdi oportunidades. Rompi contratos. Na verdade, nunca atentei aos dias marcados, aos calendários de vencimentos, aos cálculos de vantagens, aos meses propícios, aos planos bienais. Sempre fui inoportuno e desastrado, porém, estranhamente, essas perdas nunca me incomodaram muito. Sou a minha própria vida, a única, e descobri a morte – finalmente entendi isso. Sei que ninguém me inveja. Eu me importo com o que ninguém se importa. Sou o que ninguém quer ser.

Já me disseram que fiquei mais triste. Não se trata disso. Aos poucos, fui erradicando de minha vida o que se parecesse com alegrias momentâneas, fúteis e, assim, dispensáveis. Restou muito pouco. Quem já viu alguém assobiando enquanto trabalha ou cantarolando enquanto joga cartas perceberá prontamente o que digo. Da última vez que fiquei feliz por ter arranjado uma namorada – Verena, eu pensava – saí assobiando desse jeito. Depois, jurei desviar-me de qualquer situação que me fizesse parecer mais idiota.

A seta de Verena

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Imagem: Carl Spitzweg. O rato de biblioteca. 1850

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Fria manhã dos que se procuram

“Gosto muito de andar assim com você, conversando…”

“Também.”

Braços dados, por causa do frio. Os cabelos dela oscilam, sobem e descem pouca coisa, a cada passo. Retraindo o queixo, ele sopra para baixo de vez em quando – Fuffff… Mas vão tranquilos. Outro vento lateral, surpresa arrepiante. Corpos mais unidos, instinto de se protegerem. Golpe de vento.

“Au…”, apertando os olhos, virando-se para ela. “Só uma frente fria. Você vai ver. Vai passar.”

Ela rindo: “Claro que vai passar. Bobo.”

“Viu o noticiário? Blumenau está um gelo! Até Andradina… E a Serra Gaúcha então…”

“Nossa, quanto frio, hein? E o que eu tenho com isso, se eu moro aqui?”

“Gosto muito de andar com você…”, repetindo feito um sinal gravado, olhando para a frente.

“Um escritor diria: caminhar. Mais bonito.”

“Não estou escrevendo. Estou andando.”

“Você me falava da sua paixão por ciências. Não contou por que não quis estudar.”

“Lembro sim. Não contei? Era uma fase confusa, como a de todo mundo nessas idades. De todo mundo, não sei. Tinha um pessoal que sempre sabia o que queria fazer, eu nunca entendi isso. Pensei seriamente em estudar, seguir alguma área da ciência, ainda no terceiro ano. Mas, por essa época… eu já era triste.”

“Oh… Isso quer dizer… o quê?”

“Que… eu não tinha motivação para nada. Só pensava que o planeta continuava girando e que tudo um dia iria acabar, de um jeito ou de outro.”

“Uau. Difícil fazer qualquer coisa. Pensando assim… Nossa, mas que coisa. E aí?”

“E aí? Nada valia a pena. Estudar então…”

“Talvez estudar um jeito de fazer o planeta parar. Aí, então, valeria a pena alguma coisa, quem sabe.”

“Não. Que girasse à vontade. Nada valia a pena nessa época.”

“Hum… Sei. Acabou assim? O que mudou?”

“Algo natural. Impulsivo, sem controle. Instinto sexual.”

“Essa não…”, segurando o riso. “Essa não, inventa outra. Não vou cair nessa.”

“Conheci uma menina que me atraiu muito. As perguntas e as respostas se perdiam nela. Ela não sabia do que eu pensava, isso era segredo, imagine se eu iria sair dizendo pra alguém que o planeta estava girando e que nós todos iríamos morrer.”

“Não seria de bom-tom, como dizem.”

“Ahahah… Não. Não mesmo.”

“Bom, e essa namoradinha então fez o quê?”

“Não, não namoramos. Não era via de mão dupla. Ela não demonstrava qualquer interesse por mim além de um coleguismo sincero, quase uma amizade, quase. Ela me inspirava a estudar, a se interessar por coisas novas, era isso. Mas só funcionava, repito, porque ela me atraía muito. Não acha estranho?”

“Não. Não muito. É assim mesmo. As pessoas sempre nos salvam.”

“Não, não. Digo, se ela fosse de outro tipo, se fosse diferente do que era e não me atraísse sexualmente, não sei se eu daria atenção ao que ela… Ah, deixa pra lá, que tédio.”

“E ela inspirou você…”

“Não o bastante. Eu só desejava que ela estudasse por mim, que ela descobrisse alguma coisa nova por mim. Fiquei lendo poesia e me perdendo de tudo, procurando alento nesses poetas todos, no fundo tão fracos, tão sem energia para nada, por isso ficavam em casa escrevendo, escrevendo…”

“Você sabe que não é bem assim”, ela rindo de novo.

“Não sei até que ponto me libertei disso. De vez em quando lembro que o planeta gira, e é claro que isso desanima qualquer pessoa.”

“Ah, que isso, não fale pelos outros.”

“Isso não é triste pra você? Não parece que estraga tudo?”

“Hum… Não sei. Para alguns, pode ser um grande alívio. Já pensou?”

“Pensei.”

“Vem cá… Gostou desse beijo?”

Não pararam de andar em nenhum momento.

“Claro que sim. Por que não faz isso mais vezes?”

“Dessa vez foi só pra te mostrar que, se o planeta gira ou não, nós temos mais o que fazer. Olha, olha esse vento, nossa! Que friiio!”

“Uau! Outro golpe bem forte. Mas vai passar. Você vai ver…”

“Vai me pegar sexta-feira?”

“Vou. Gostou daquele motel? Quer voltar lá?”

“Gostei. Mas não sei. Vamos ver.”

“Prometo que dessa vez não derrubo você da cama. Não vamos brincar de nada, certo?”

“Não sei. Vamos ver.”

Marcas de gentis predadores

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Mas como isso começou? – sequência

Imagem: Jackson Pollock. Número 1. 1950

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Não são fotos como as outras. 2

Arautos do fim dos tempos

O mulato de bigodinho grisalho, terno escuro, bem passado, agourento, discursa agitando a bíblia que reabre periodicamente, vociferando, entre aleluias, ameaças e pragas coletivas. Parece alucinado com a eloquente profusão de seus disparates e não se envergonha de afirmar, bem perto da cega e dos inválidos, que Deus é misericordioso, justo e bom.

Por falta de qualquer reflexão, como é pregado pelas religiões em geral, costuma-se tagarelar de maneira edificante, sem se perceber que já se tomou um desvio das ideias mais sensatas, desprezando-se contradições em si mesmas, não se atenta mais às tolices de que são feitas essas pegajosas teias enredadas de palavras, das quais nos sentimos culpados apenas por querermos sair. Acreditei que não teria outra chance de presenciar ironias tão embaraçosas. Mas era muito jovem.

Outro caminho, o da praça. Homens de cabelos muito curtos e mulheres de cabelos muito compridos movem-se discretamente. Doutrinas evangélicas subdivididas em muitas facções, nomes com variantes, por vezes até derivando a logomarcas, embora cada congregação, cada grupo entenda ser o seu o escolhido. Pregam aos passantes mostrando-lhes livros e folhetos ilustrados com anjos.

“Posso falar com você um minutinho?”, sorriem à presa.

Explicam com paciência os planos devastadores de Deus para a humanidade, entre epidemias incontroláveis e catástrofes sem precedentes, o milagre da ressurreição da carne e outras histórias antigas de homens antigos com ideias antigas, que leem nos Testamentos e recitam de cor.

“Diante de Deus, tudo o mais é insignificante. E nada pode desanimar um homem de fé!”

Exceto a chuva. A praça fica vazia, mas não os censuro. Esses chuvisqueiros são mesmo muito incômodos.

Sei que tudo isso é apenas sofismático, poderia dispensar tais referências em meio ao que conto. Mas que importa? Esse é também o jogo deles. Falam e falam, pregam e aconselham. Mas Deus, como qualquer um de nós sabe, nunca diz nada.

Poderia continuar contando de outros alienados sem a pretensão de ironizá-los. Mas a lembrança de um inconveniente hare krishna, com seu costume de agitar um cordão de incenso no nariz dos cidadãos que, como eu, não sabem por que eles têm de pelar a cabeça daquele jeito, impede que eu prossiga. Uma pena.

Uma pena, não? Não. Não é.

A sorte segundo um periquito

Vêm de um passado cinzento o pitoresco, a melancolia das canções. O homem do realejo usa um boné por causa do sol e também tem que viver. As crianças chegam com os pais, o periquito condenado surge à entrada da gaiola, tira com o bico o cartão no qual é escrita a sorte dos que passam. Por isso ele está ali, com seu trabalho insignificante – falo do periquito –, torturado pela música diária, ruidosa, dissonante. De resto, ninguém lhe presta atenção. São todos gente, não pensam senão em suas vidas.

Graças à ignorância, à crença e ao amor fraterno que os ambulantes têm assimilado em seu caráter simplista, é que tratam com simpatia os filhos dos mais ricos sem suspeitar, ao agradecer-lhes o troco dispensado, que mil vezes mais são roubados por mecanismos inacessíveis ao seu entendimento. Que isso vem do tempo dos realejos e persistirá ainda nas mãos de novas e sucessivas gerações, articuladoras do destino – e também fora de seu alcance.

O sol de março parece consumir mais intensamente os cidadãos. O homem de boné gira a manivela, mecanismo que lhe é conhecido, a música soa indiferente e antiga. Na gaiola que lhe é destinada, sorte que não pôde escolher, o periquito tem que separar os cartões da fortuna, suportar o sol, a música e a vida dos homens.

Um réprobo

Trinta anos talvez, precocemente envelhecido. Põe-se a gritar:

“Olha, gente! Que que eu faço?”

Cabelos lisos, de um loiro encardido, repartidos de lado e formando aneizinhos desgrenhados na nuca. Um ombro mais baixo que o outro, um braço pendente, sem ação.

“Estão vendo isto aqui?”, grita girando os olhos ao redor, apontando o braço paralisado. “É derrame! Derrame, estão ouvindo? Já tive dois derrames!”

Tenta encarar as pessoas, elas passam ao largo, evidentemente. Continua intimando a todos, grita para que o escutem, camisa aberta, calças muito gastas, sapatos como recobertos de areia. “Três meses que estou nesta cidade! E não consigo emprego! Estão ouvindo? Três meses! Já tive dois derrames. Meu dinheiro acabou, não tenho onde dormir hoje à noite! Que que eu faço? Gente, olha!”

A cidade comporta figuras à margem de tudo, gente em busca de uma vida nova. Vida nova, sem dúvida. Não propriamente melhor que a anterior. Afinal, todos nós nos consideramos especiais e eternos, só o tempo sabe que não o somos. De longe observo como esse homem se esforça para ser ouvido e como o público, do qual faço parte, prossegue passando com indiferença. Viver é difícil, velha novidade. E aqui estamos todos.

Os últimos dias de agosto

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Não são fotos como as outras. 3 – sequência

Imagem: Willem de Kooning. Meio-dia. 1947

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Um último projeto em ruínas

Logo compreendi que não estava lidando com um homem comum, isto é, não apenas um estudioso de renome, um erudito de cultura acumulada em muitas áreas ou um compilador de tratados filosóficos. Arnowitz tinha seu próprio caminho. Embora não tenha fundado nenhuma nova corrente, seu gênio crítico transformou os conceitos de algumas delas, demolindo-as ou renovando-as, com isso abrindo sendas a um plano de pensamento inclusive integrado à realidade social dos povos. Homens como Leon Arnowitz têm o talento de pensar.

Encontrei mais sobre ele no dia seguinte, vasculhando os arquivos do Correio da Nação. Curiosamente, o destaque que

Opções:

Correio da Tarde
Folha Periódica
Enciclopédia Novo Universo

e sim por haver entrado no terceiro dia de minhas pesquisas. Nessa mesma noite fiquei pensando no fato de ele estar morto e de ter sido alguém, assim ter vivido, viajado, dormido e copulado como eu. Acendi um cigarro. Arnowitz começava a me impressionar.

Mas eu já havia abandonado isso e prometera a mim mesmo que não lançaria mão de outros filósofos fictícios. Tais impulsos são do tempo em que eu frequentava a Biblioteca Pública e incomodava o bibliotecário irritadiço com pedidos, empréstimos e consultas. Era um rapaz em início de carreira que certamente me odiava, pois eu vivia lhe perguntando se conhecia este ou aquele autor, se já havia lido tal e tal livro, e ele desejava apenas ser um funcionário como os outros. Naquele tempo eu não percebia tais coisas. Era ingênuo e sincero, estava longe ainda de conhecer Verena e de tornar-me definitivamente um mentiroso crônico.

(Aqui termina o Cadernos I, as tentativas do personagem-narrador de organizar seus textos inacabados. Em seguida, finalmente, Verena.)

A seta de Verena

Leia mais desta história: O capitão na corte dos cadáveres – anterior

Eu, um mentiroso crôonico – sequência

Imagem: N. C. Wyeth. Ilustração para Robinson Crusoe. 1920

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Borboletas com relógio ao fundo

“Bercedes!”, gritou a velha. “Bercedes!”

A moça chegou em seguida, trazendo-lhe o chá. Desde que fora trabalhar naquela casa, Mercedes passara a renunciar a certas

Técnicas esgotadas. Truquezinhos baratos. Que tédio.

A morte não tem fim. Isso pensava Serafim Vital enquanto ia pelas ruas. Não se lembrava do que acreditava para depois. Mal podia recordar situações recentes. Tinha ido ao banco. O caixa lhe dissera alguma coisa desagradável e grosseira, irritado com sua surdez, algo que o havia magoado. Não há mais velhos neste mundo, resmungava ao esbarrar nos jovens apressados. Invejava os jovens aidéticos. Ele há muito deixara de ir à farmácia, não tomava remédio algum. Tinha vontade de dizer a todos: “Desculpem. Me desculpem. Que posso fazer? Não consigo morrer. A morte não tem fim.”

(ainda entre os jovens:) Um dia fui um desses príncipes.

e decidira deixar-se morrer desde que o médico lhe dera um ano de vida quatro anos atrás. Já havia desmaiado de fome numa praça esvaziada pela noite de inverno, aos pés do busto de Bilac. “Oh imortal!”, pensou dizer como evocando a morte. Acordou ali na manhã seguinte, pássaros e sol, presságio de primavera, gente transitando por toda parte. Levantou-se, encarou o poeta de bronze: “Imortal! Oh imortal!” Bateu a poeira do casaco. “Imortal, não é?” Saiu andando. “Mas morreu.”

Há alguns dias tinha ido

Aonde teria ido Serafim?

tinha ido visitar a filha. Levara um presente para o neto de cinco anos, um joguinho próprio para crianças de oito.

Explicando:

Há tempos não via a filha, que morava em outro estado. Ouvia deles, pelo telefone, que o garoto era precoce e habilidoso, inteligente demais para sua idade, como se diz de todas as crianças, mas com tal ênfase que o pobre Serafim de fato acreditara em tudo. Foi uma visita constrangedora e infeliz, pois o brinquedo inadequado não agradou ao genro, muito menos ao neto.

O personagem deve manter o leitor dividido entre o riso e a piedade. Bons personagens são os que manipulam e confundem.

…e havia sonhado com cães. Eles o estraçalhavam entre os dentes, e tudo ia ficando escuro, escuro. Ah, que doce sensação de fraqueza! A dor e o sangue, a embriaguez da morte… A vertigem…

e cada cão que lhe aparecia reanimava suas esperanças. “É você! Sei que é você! Chegou a hora!” O cão, negro como a noite, passava por ele ignorando-lhe as súplicas, deixando-o à mercê da vida. A morte não tem fim.

E Serafim prosseguia

Com esse nome? Convenhamos.

O escritor recria o que vive, sente e pensa, embora o essencial não seja escrever. O que de fato importa é viver, sentir, pensar. Depois, é como se deixasse um bilhete à porta fechada do tempo: “Estive aqui.”

Outra recaída. Que será de mim?

OUT SETAGO

Que é isso? Novela de ficção futurista? Batalhas estelares, saga de heróis, traidores e príncipes, povos e gerações de personagens que ninguém aguenta mais? Nada disso. É só o calendário que vejo a um canto da escrivaninha. Sim, deste ano. Tão distante dos tais futuros.

O HORIZONTE VISTO DA CRUZ

Que título! E todo livro sacrílego vende bem, há muitos cristãos que sabem ler. Na verdade, eu já tinha um trecho pronto em que Jesus escala a montanha e inicia um de seus sermões ante a turba ansiosa. Lentamente, o céu se carrega de nuvens, pondo a desabar uma chuva torrencial que faz dispersar a multidão. Jesus, assessorado por seus apóstolos, busca abrigo numa espécie de caverna escura entre as rochas. No dia seguinte, ele (Ele) volta à montanha e retoma o discurso mais ou menos de onde se lembrava havê-lo interrompido. A conjugação de verbos no tempo presente reforça a ideia de participação do leitor numa realidade remota, uma realidade em que… Bem, deixemos Jesus com seus problemas. Arcádio Raposo vai dizer que isso já foi feito, e é verdade. Outro cristo humano é mais do que os cristãos convictos podem suportar. E, no Ocidente, a maioria é cristã, pelo que sei.

BORBOLETAS COM RELÓGIO AO FUNDO

A tragédia de duas colegiais que se amavam, mas contraíram a síndrome da… A tragédia de duas jovens amantes que enfrentam os preconceitos do mundo e… Duas mulheres que… Não consegui desenvolver o tema. Também não posso escrever algo sobre borboletas de verdade só para aproveitar o título. Mais tarde condenei-me por outras covardias desse tipo.

A seta de verena

Leia mais desta história: Passeio (forçado) com Mônica – anterior

O capitão na corte dos cadáveres – sequência

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Sonho 1741

Sentada ao meu colo, ela me beija fortemente, ao que correspondo com igual vontade, deliciado com esse privilégio. Estamos sobre uma mureta larga, de superfície lisa, pedra imitando mármore com manchas claras, em meio a uma galeria de lojas ou algum outro tipo de núcleo comercial de estética fria, mas limpa. Pessoas passam calmamente por nós, interessadas em outras mil coisas, e parecem não nos ver. Também sentado na mureta, a uns dois braços de distância, um homem grisalho, discreto e silencioso, nos observa e aos nossos beijos incontroláveis, porém com mínima curiosidade, alternando o foco de seu olhar entre nosso momento mágico e outra coisa qualquer ao redor, como se tudo fizesse parte de um mesmo contexto sem surpresas, declinando à neutralidade.

Entre um beijo e outro, entre mechas soltas dos cabelos dela, que me obstruem a visão, identifico por um ou outro instante o teto muito alto e iluminado desse lugar, talvez todo estruturado em vidro, quase uma película nos separando a todos do céu claro logo acima. Deve ser um dia lindo, penso.

Os cabelos dela têm a cor da areia, com mechas escuras irregulares, como se estivessem sujos. (Algo me chama a atenção nessa coincidência de tons: as manchas na pedra lisa da mureta, a luminosidade, as manchas nos cabelos dela, algo alternando imagens limpas e sujas, claros e menos claros – mas nunca escuros.) Ela tem as pernas bem delineadas sob a pressão da calça justa, camisa um pouco aberta no peito, seios no sutiã, cabelos despenteados por todos os movimentos que nos controlam, mais do que nós a eles. Em algum momento, vejo suas mãos bonitas, uns anéis pequenos mas encantadores, com detalhes coloridos. Também em algum momento, vejo seus pés, tão belos quanto suas mãos, em algum tipo de sandália com brilhantes.

Então eu afasto seu rosto, subitamente preocupado com a situação, que só agora me incomoda. Olho sua boca ainda úmida, que reflete o brilho desse ambiente amplo e claro. (O homem grisalho ao nosso lado torna a nos inspecionar, rosto impassível, nenhum ar de crítica, apenas nos percebe ali, depois volta-se para umas vitrines ali perto, em frente a nós.) Digo a ela palavras parecidas com estas:

“Ei, espere. Espere um pouco, escute… Nós estamos em público. Num lugar público. Essas pessoas todas, olhe. Veja você mesma.”

Ela não move a cabeça, apenas espera. É como se algo a imobilizasse. Continua de olhos baixos. Inerte. Só consigo ver suas pálpebras. Fico em dúvida se ela também está olhando minha boca ou algo à altura do meu peito ou, enfim, se está morta – o que, curiosamente e sem nenhum espanto, me parece o mais provável.

O homem grisalho ergue um braço, apontando algo na vitrine à frente: “Aqueles são os relógios”, ele diz, com algum sinal de entusiasmo. Eu o considero, intrigado, olho para a vitrine que me aponta, mas não consigo identificar nada ali. Volto-me para ela, a garota junto a mim:

“Veja, você mesma, essas pessoas todas. Está vendo?”

Ela não reage. Seu rosto parece sem cor. Talvez esteja morta. Talvez seja apenas uma impressão, devida ao excesso de luz ambiente.

“Nós estamos em publico. Ouviu?”

Então ela move a cabeça devagar, concordando. Ainda sem olhos. Rosto voltado para baixo. Pálpebras de uma morta. Uma jovem morta.

“Me procure”, eu lhe digo. “Vamos sair juntos. Outro lugar. Num horário qualquer.”

Agora ela está de perfil, ainda sentada sobre minhas pernas, braços ao redor de meu pescoço, cabelos presos num rabo-de-cavalo – mas não entendo como, em que lapso de tempo ela fez isso, prender os cabelos, se um instante atrás estava morta. Com o rosto de lado, como se olhasse algo à distância, no vértice das galerias, e sem olhar para mim, ela diz:

“Não. É imprudente. É arrogante.”

“O quê? Arrogante?”

“Sim. Você acha que estou à sua disposição. Mas daqui a pouco não serei mais nada. E você nunca mais vai me ver. As chances se extinguem, não entende? Se extinguem para sempre.”

Imagem: Michel Keck. A festa acabou.

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Não são fotos como as outras. 1

Tome. Não são fotos como aparentam à primeira vista. Trago-as também em minha memória de palavras. Sei o que lhe ocorre, isso de um quadro e mil palavras, vá lá. Não, nunca foi assim. Se eu nada dissesse, você se perderia. São imagens de primeiros dias, inseridas em minha rotina, parte de meu caminho para o trabalho, se é que me entende. Títulos provisórios, prescindíveis. Mas que as identificam, só isso. No início, podia distinguir meu diário do indivíduo que eu era. Também não pensava em recriar-nos a ambos, é verdade. Não sei ao certo o que aconteceu.

Especialmente a cega

Hoje eu a vi outra vez. Na mesma calçada onde os aleijados e os velhos pedintes se multiplicam.

No começo, eu sofria a acusação das mãos estendidas, buscava em meu íntimo uma resposta, uma razão para que sofressem. Não me ocorria nada menos ingênuo do que as explicações alheias, umas perfeitas, outras plausíveis, outras aceitáveis, até descobrir que estavam todos enganados. O verdadeiro motivo de seus sofrimentos revelava-se diariamente com nítida e espantosa simplicidade, e era o que os fazia sofrer. Via um leproso enrolado em trapos – o motivo de seu sofrimento era a lepra –, pensava: que brinquedos teria tido na infância? quem teria sido sua primeira namorada? Uma mulher com elefantíase. Um retardado mental. Um homem sem pernas. Outro sem mãos. Alguns, lacerados por mais de um mal, acumulavam desgraças: tipos que não pareciam possíveis, mas eram de fato – não apenas possíveis. Um deles dedilhava de maneira dissonante e desafinada uma pequena harpa de colo, um instrumento muito precário, quase infantil, o que fazia ver que não o contentava merecer esmolas em troca de seu dia, porém era preciso realizar algo, que era sua música, e assim tornar-se menos indigno, por que não dizer mais digno, afinal? Pois, sim, surpreendentemente era isto: ele ainda queria dar-nos algo em troca.

À margem de outras mais relevantes, de minha infância emerge a imagem que me constrange hoje: quando subia com minha mãe a ladeira próxima à nossa casa, passávamos por um hospital infantil que era também uma entidade assistencial a crianças deficientes. Era comum verem-se, entrando ou saindo, meninos paraplégicos, em cadeiras de rodas, muitas vezes de minha mesma idade. Minha mãe aconselhava que eu agradecesse a Deus por ter pernas saudáveis, por poder andar. Eu nada lhe perguntava, mas intrigava-me que Deus me houvesse privilegiado e não a outros, não a todos. Sonhava, à noite, que passava sozinho diante do hospital e via nas janelas uma série de cabeças decepadas, cabeças de crianças decepadas por Deus, e isso me enchia de horror.

Mas era da cega que eu contava, era ela a figura que muito me incomodava. Essa mulher gorda e fedorenta, morena e meia-idade, agita um desgastado prato de estanho, com isso fazendo girar umas moedas ordinárias. Sua súplica parece ilustrada por sons metálicos, ferindo o rumor do tráfego, o calor das horas. Placa de material leve pendurada em seu pescoço:

 
 AJUDE A QUEM NÃO VÊ
A LUZ DO DIA
 

Sol e moedas brilham. Dia de intensa claridade. Nunca o bastante para atenuar-lhe a escuridão.

Nos primeiros dias isso me perturbou, confesso. Fiz secretas minhas lágrimas de buscar o chão à frente de meus pés, os meus que podiam andar. Talvez devesse tomar outro caminho, concordo. Mas não podia evitá-la. Se não a visse todos os dias, acabaria por vê-la onde não estivesse, em qualquer rua ou esquina. Ela existia. Era o bastante para que eu a visse em qualquer parte. Para que a reencontrasse à frente de meus olhos, meus olhos negros como o dia.

A placa e o dia de luz. A pele grossa, curtida de sol, própria a resistir às intempéries e permitir que vivesse muito ainda, exalando odores intoleráveis.

Pensei que me comoveria toda vez que passasse por ali. Primeiro, um soluço contido. Mais tarde o que me apertasse a garganta. Senti que já pensava nela sem alterar-me e avaliando sua presença cotidiana. Habituado ao caminho, irritava-me o som rascante das moedas. Sequer dava alguma atenção aos inválidos que esmolavam ao longo daquelas calçadas. Na esquina principal da praça. Na mureta do largo. Junto à grade do viaduto. Escadarias do teatro. Conheço bem o caminho. Passo como os outros, um cidadão integrado a seu mundo. Nenhum remorso. Nenhum dó. Um ser humano finalmente normal.

Os últimos dias de agosto

Leia mais dessa história: Era ela, a minha maior inimiga – anterior

Não são fotos como as outras. 2 – sequência

Imagem: Anna Uhr Delia. Sofrimento. (Baseado num desenho de Käthe Kollwtz)

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Yuri Gagárin

O voo do pato selvagem

Yuri (Alekseyevitch) Gagárin

(Gzhatsk, região de Smolensk, 1934 – Kirzhach, região de Vladimir, 1968)

Cosmonauta soviético, filho de um carpinteiro, nascido em uma fazenda coletiva, foi o primeiro homem no espaço. Teve de interromper a escola primária para fugir com seus pais da invasão nazista. Após a guerra, especializou-se em trabalhos de fundição. Na Escola Superior da Força Aérea Soviética chegou a tenente, destacando-se com louvor, e passou a atuar como piloto de provas. Em 1961, aos 27 anos, escolhido para tripular a nave Vostok (que significa Oriente), permaneceu em órbita por cerca de 90 minutos a uma altura de 250 quilômetros e a velocidades que chegavam a 28000 km/h, perfazendo uma volta completa ao redor da Terra. Entre as transmissões radiofônicas desse voo pioneiro, registram-se trechos como: “Eu vejo a Terra. A visibilidade é boa. Ouço vocês perfeitamente.” Só isso já seria emocionante, considerando-se que era aquela a primeira vez que o nosso planeta era visto por alguém. Mas as palavras que se tornaram históricas, embora até hoje sua veracidade seja discutível, foram: “A Terra é azul. Como é maravilhosa. Ela é incrível!” (Durante a Guerra Fria, muitas informações eram classificadas como segredo de Estado, e era comum, tanto aos Estados Unidos quanto à União Soviética, manipularem frases de efeito incorporadas à sua propaganda oficial.) Gagárin ejetou depois de reentrar na atmosfera, completando o percurso de descida utilizando um paraquedas. Quando chegou ao solo, após esse feito heroico, não havia ninguém à sua espera: um erro de cálculo fez que a nave caísse a mais de 300km do local do lançamento. Gagárin morreu vítima de um acidente aéreo com um MIG-15, que nunca foi devidamente esclarecido, apenas um ano antes de a Apollo 11 levar os primeiros homens à Lua.

No mesmo ano, os soviéticos bateram o recorde de permanência no espaço, com a Vostok II, tripulada Gherman Titov, até hoje o mais jovem cosmonauta da história. Ele pegou no sono, já que os controles eram automáticos, tornando-se assim o primeiro ser humano a dormir no espaço. Foi também o primeiro a sentir enjoo em órbita.

O lançamento do Sputnik (que significa amiguinho ou companheiro), em 1957, foi o marco da chamada Corrida Espacial: o primeiro satélite artificial da Terra.

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