Projeto esvanecendo-se. As festas na Maga. Pequenos atrevimentos

Eu sabia que algumas garotas ali não aprovavam a ideia, mas não protestaram.
Afinal era uma festa. Nem sempre fazemos festas. Afinal éramos todos humanos. Afinal a vida exige momentos de descontração e de subversão entre os dias e as noites.

Foi uma semana ociosa difícil opressiva. Eu me comunicava com a Josie por e-mail e por mensagens na rede social à qual nos havíamos adicionado. Talvez estivéssemos mesmo nos viciando nesse nosso segredo ansioso. Mas isso era só o começo. Josie: meu motivo de atenção real por esses dias. Por todos esses dias, não sei quantos. Escrevíamos um ao outro manhã e tarde. Eu tentava dizer o mínimo a ela. Não queria que partisse de mim qualquer incentivo a um novo encontro. Combinamos não usar telefones. Não podíamos facilitar com nada, muito menos declinar à facilidade de certas armadilhas que nós mesmos ajudássemos a criar, esse era o erro de muitos amantes, que talvez procurassem mesmo, de maneira subconsciente, ser flagrados, até mesmo deflagrar uma comédia de conflitos que levasse à solução de sua clandestinidade, e eu começava a detestar essa palavra, amante. Celulares, só em caso de emergência. Certo. Melhor, não é? É, mas mesmo assim deixa o seu número. Um-hum… cinco… três dois… Pronto. O seu?

Mas não havia, nunca houve emergências entre nós, além daquelas que podíamos planejar e controlar até o último minuto de uma precária contagem regressiva, que eram não emergências mas urgências, dessas que irrompiam após reprimirem-se por uma ou duas semanas até que a Josie abrisse a porta de seu apartamento e ele a pressionasse contra a primeira parede da saleta um ato de assalto esperado compactuado por ela como um golpe ensaiado de artes marciais prendendo seus pulsos para o alto depois soltando-os entre beijos fortes entre falas sufocadas de bocas conhecendo-se ao máximo uma perna no cio subindo ao lado do corpo dele abrindo-se ao que pretendia às pressas gestos rápidos descendo as calças dele os shorts e a calcinha dela a enfiada forte ali mesmo empurrando essa garota para cima quase sustentando-a em suas virilhas tirando parte de seu peso em suas mãos cheias de sua bundinha uma das pernas dela abraçando-lhe a cintura outra estendida reta até o chão o pezinho rígido controlando o equilíbrio e os movimentos de subir e descer encaixada no eixo vivo em toda a sua tensão irrefreável em posição de ataque sem tempo nem espaço para hesitações preenchendo-a e dilatando-a enquanto a invasão se realiza com voracidade em seu ritmo de busca captura conquista o auge e o limite dessa urgência chega aos dois prazeciprocamente.

Vivendo essa situação evitável e inevitável, eu não sabia o que iria acontecer, é claro, o que significa que eu não sabia (ou evitava ou temia) o que eu pudesse fazer acontecer. Não lembro se já expliquei isso. Não sei. Acho que não. Acho que assim nem é explicar alguma coisa. Todas as coisas que se dizem podem não ser mais esclarecedoras do que todas as coisas que não se dizem. Enfim, não importa. Não sabia, eu disse, querendo dizer não previa não antecipava não visualizava. Bifurcações desdobramentos possibilidades e alternativas, poucas que se fizessem considerar. Ou… ou… ou um caso passageiro, em breve diluído na ocupação diária de cada um, minha e dela, da Josie, que provavelmente sairia dessa muito mais rápido que eu, muito menos desgastada jovem de próximos novos sorrisos, apoiada por sua amiga Quiel, lindas livres vidas pela frente sem muitas palavras sem grandes preocupações sem amarras intelectuais como essas que formam um lastro de massa cinzenta já instalado em caras como eu ou… ou… ou um pequeno escândalo determinando meu exílio, tanto da convivência da Marjorie quanto da (minha) casa do meu sogro. Coco Chanel: e ainda tem você.

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Assunto: ontem

Enviado em: 15/02/2005 | 9:31

De: <josieln24@altmail.com>

Para: <pprof@altmail.com>

Oi lindo.. pensando em vc… lembrando as coisas, lembrando de tudo…

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Minutos pensando antes de responder. Tique-taque mudo, dígitos abaixo à direita da tela. Desejando confessar-me. Dizer a ela que poderia arrancar-lhe a roupa agora mesmo, agarrar-lhe os cabelos cor de areia e empurrá-la para a cama com toda vontade. Não. Tranquilo e sob controle, enquanto minha ereção despertava automática e lenta, involuntários sinais de atividade vital natural real, só por visualizar a Josie e sua nudez retroativamente apetitosa. Não responda em meio a essa salivação de macho carente, esse gosto peculiar que todos nós homens reconhecemos de imediato e tão bem. Ela não sabe se você a está lendo agora. E-mails servem bem a tais covardias. Jamais, em toda a história humana, tivemos tantos brinquedos para nos distrair. E-mails, bem, isso ainda não é nada. Contenha-se, não é difícil. Espere um pouco mais.

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RE: Assunto: ontem

Enviado em: 15/02/2005 | 10:05

De: <pprof@altmail.com>

Para: <josieln24@altmail.com>

Oi, Josie. Tudo bem por aí?

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Assim. Muito calmo. Livre da ereção do homem real. Mas não era o que eu fazia sempre. É preciso dizer a verdade, melhor que se diga. Não era o que eu fazia sempre.

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Assunto: ontem

Enviado em: 24/01/2005 | 8:23

De: <josieln24@altmail.com>

Para: <pprof@altmail.com>

sem palavras o que aconteceu com a gente ontem. eu ri e chorei depois.. faz tempo que não aparece ninguém especial na minha vida. Adorei tudo adorei vc morder minha boca… mmm… Bj

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Linda linda linda ah como eu queria agora…

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RE: Assunto: ontem

Enviado em: 24/01/2005 | 8:26

De: <pprof@altmail.com>

Para: <josieln24@altmail.com>

Vc é encantadora. Muito encantadora. De verdade. Adorei tudo também. Desculpe ter mordido sua boca.

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Logo uma resposta dela, com toda certeza. Vamos ver. Vamos ver. Vamos ver…

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Assunto: ontem

Enviado em: 24/01/2005 | 8:35

De: <josieln24@altmail.com>

Para: <pprof@altmail.com>

Amo amei quero mais mordidas…

Diz que vem me ver logo… logo logo logo ♥ ♥ ♥

Vou por uma minissaia e dançar pra vc… bjs

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Todas essas coisas me enchiam de medo. Inclusive aqueles coraçõezinhos arrematando frases, que eu imaginava vermelhos, é claro, cartas de copas. Mas o que é que eu estava fazendo? Tantos lidam tão bem com isso. Eu é que não lido bem com nada. Ia assim me conduzindo e me repetindo, dramático exagerado definitivo, voltando àqueles momentos de forçada autopiedade que-eu-mais-tinha. Do que devo me livrar? da Josie? da Marjorie? do sexo? da perspectiva do amor? No momento em que acontece, o prazer sexual parece ser tudo que existe, tudo pelo que magnificamente procuramos o tempo todo sem saber, mas então, mesmo um pouco antes e um pouco depois dessas delícias, por que não nos sentimos sempre bem?

A semana continuou. A sexta-feira chegou. E nessa sexta a Maga nos convidava novamente, outra festa sem pretextos entre um mês e outro, contando com mais ou menos as mesmas pessoas – que já eram muitas, segundo meus critérios de tédio e sociabilidade. Encontrei o Alex, o Victor e o Guilherme, que nessa noite maldisse especialmente e com mais intensidade a ex-esposa, além de conseguir mais uma vez entrar no assunto guerra, que parecia ser o seu favorito. Eu não estava disposto a guerra nenhuma. Não queria ouvir seus argumentos sempre-os-mesmos. Tédio e sociabilidade. Exercícios de seguir a Marjorie, de estar com a Maga. Vamos lá, aguente firme ou caia fora de uma vez. Mas, por favor, mostrem a esse sujeito imagens de verdade das crianças mortas das famílias fugindo gemendo chorando, mostrem a ele a desgraça o medo o desamparo o Guernica, esse sonho de horror. Ah, Guilherme, tolo ressentido e inconsequente: é uma vergonha que você possa viver com toda essa segurança e imunidade.

Fiquei sabendo que você perdeu suas aulas, é isso? É isso. Tá fazendo o quê agora? Ahn… Refazendo meu currículo… Reorganizando minhas coisas… e… vou começar a estudar para uns concursos públicos. O Alex entendeu tudo, mas encerrou a conversa com palavras simpáticas. Ah, que ótimo. É por aí mesmo. Concurso público ainda é o que há de melhor neste país. Era nada. Não para eles. Para proletários como eu, sim. Mas ele não especificou. Eu é que andava crítico, impaciente – ele só quis agradar, eu sei. O Victor, também sem ironias, mostrou-se solidário, tentando ser motivador a sua maneira, com seu fraco arsenal de discursos, que eu até prefiro aos tipos prolixos e hipócritas, ele em sua linguagem própria acaipirada, revestida de autoconfiança e indiferente ao que diz (e como diz) e pensa a maioria letrada. É como eu falo: quanto mais a gente procura quanto mais a gente acha.

Nós quatro ocupávamos uma das mesinhas redondas sob os quiosques à margem da piscina. A certa altura aproximou-se animada a Rose Levy, pediu que sorríssemos, foto. Ela usava uma roupa que me pareceu extravagante, blusa muito larga com uns brilhos pontuando costuras, mangas bufantes enormes, calças também largas, sapatos incrivelmente altos, que condicionavam seu deslocamento, como se ela tivesse de pular de um pé ao outro em vez de andar. No geral, me lembrava uma bandeira ao vento, isso se o vento não aproveitasse para carregá-la convenientemente dali. Alex! Alex, olha pra cá! Você também. Isso, digam uísque… Erguendo copos, a mesma baboseira de sempre. Tict. Ai, que lindos! Valeu, gente. O Guilherme, que já nunca sorri por inteiro, propôs que fôssemos dar uma volta lá fora. Cadê meu cigarro? Essa gente muito animada me dá nos nervos, velho.

Não: o Alex, o Guilherme e o Victor não são meus amigos. São figuras de conveniência, acontecidas no contexto. Aparecem nesse teatro todo por meio de amigas e conhecidas da Marjorie, as esposas e uma ex-esposa deles – tanto faz de qual deles, pouco me importa que sejam casados separados fiéis adúlteros honestos sonegadores: não fazem parte da minha vida. Esqueço que existem. Destoam do que canto em segredo em certa frequência, inaudível a esse tipo de gente, e devemos ser, uns para os outros, melhor dizendo, eu para eles, uma espécie de tela consumida por ruído branco, sem qualquer significado real. Esses homens com quem convivo civilizadamente, em escassos momentos, não fazem parte de meu meio de meus afetos de meus interesses, aliás eis aí uma palavra que eles apreciam muito, interesses, cujo sentido primário pode parecer egoísta e questionável, e mesmo assim costuma ser bem-vista em qualquer roda de conversa, com o aval do consenso – sabendo usá-la de forma adequada, você até ganha pontos, não é mesmo? Mas eu não quero ganhar pontos. E não me importo com essa escalada toda, essa progressão calculada, essa hereditariedade protetora, e não, eu não os tenho como amigos. Só nos vemos na Maga, e acabamos nos aproximando apresentados por esta ou aquela pessoa que apresentaria mesmo um ao outro, do mesmo jeito como apresentaria, àquele ou a este, outro e um. (Mais de uma vez a Marjorie me disse, em tom crítico, que eu não me esforço para conquistar as pessoas, daí, por lógica, eu não ter amigos. Só que eu não me altero ao ouvir esse tipo de coisa. Se é assim… é assim.) Além de serem homens como eu, mesma idade mesma cidade mesma língua, temos pouco em comum. Se não me conhecessem e me respeitassem, eles seriam a parcela do mundo que escarneceria de minhas ideias e de minha relativa sensibilidade. Os três têm como origem e base de sua estreita formação aquela visão empresarial do mundo. Pertencem àquele clube disperso de empreendedores que, de uma maneira ou de outra, jamais serão empregados de alguém, mas sempre os investidores os gestores os detentores do negócio. Nunca fariam (e talvez nunca tenham feito, mesmo quando mais jovens) uma entrevista de emprego. Ou confeririam um comprovante de pagamento, atentos aos descontos em folha, ou se alegrariam aliviados ao verificar o crédito, o líquido de seus vencimentos, em sua conta bancária. Isso de eles serem assim não constitui problema algum, nem para eles nem para mim nem para o resto do mundo. Apenas não nos parecemos. Quando observo como eles se divertem com um e outro palavrão, como se os estivessem ouvindo pela primeira vez na vida, entendo que somos resultados de processos culturais distintos, como se ao longo da história natural da Terra, se nos coubesse identificar diversidades longínquas nas linhagens, houvéssemos emergido de pântanos diferentes. Sim, eu sei: eu sempre exagerado. Nenhum deles jamais diria isso.

Andando devagar, passamos pelo segundo poste baixo do jardim, com uma lâmpada pálido-amarelada, e paramos perto da terceira casa a partir da Maga, outra enorme residência no padrão de seu condomínio. Os sons da festa pareciam distantes ali, por caprichos da acústica. As alamedas eram praticamente desertas. Um ou outro morador passava pela curva da esquina, chegando com seu carro silencioso e confortável, virava à esquerda rumo à pequena rotatória gramada entre as ruas estreitas, e dirigia-se ao declive centro-sul dessa pseudocidade. Nessa noite, o Victor e o Alex usavam camisetas polo; o Guilherme, camisa de manga; eu, uma camisa de mangas compridas dobradas no antebraço, antes do cotovelo, como costumo usar. Olho para eles, tão tranquilos. Será que o que me falta é arregaçar as mangas? Não, não. Eu sabia que muitos ali faziam pouco e ganhavam muito. Essas minhas alusões avulsas definitivamente não faziam sentido. O Alex começou a nos contar que estava pegando a menina da faxina, que ia duas vezes por semana a sua casa – com seus horários de autônomo, conseguia driblar a esposa facilmente. O Guilherme baixou o cigarro e disse que nunca se sujaria com uma mulherzinha desse tipo. A chance de chantagem e de escândalos e de coisas piores era muito maior. O Alex sorriu. Porque você não viu a garota. Ela é muito, mas muito gostosinha. Você não viu, velho. Então o Victor contou de um caso recente dele, já terminado. Uma jovem empresária do agronegócio. Nenhum de nós desconfiava. Ele simplesmente (simples, como é simples, simplesmente…) não comentou nada a respeito enquanto a pegação acontecia. Esses caras sabem fazer as coisas. No fim, acabam todos respeitados, alguns até homenageados, uma salva de palmas para o homem do ano. Por um instante de uísque tive vontade de contar sobre a Josie. Mas entendi que estava apenas sendo influenciado pela pauta da conversa deles, e resisti bravamente. Eu havia jurado a mim mesmo que não contaria nunca a ninguém sobre a Josie Joss Stone jamais a ninguém nunca. Nós ali, muito próximos, tanto em frequências de ondas como fisicamente, admitindo-se essas tais ondas não como fenômeno físico mas como representações de nosso nível de afinidade e corporativismo, o Alex anunciou com discrição, voz em volume médio, que havia descoberto umas meninas de programa novinhas e com esquemas bem organizados. A gente podia combinar de um dia… Tem alguma moreninha baixinha, dessas que eu gosto? Ahah… Claro que sim. O Victor dirigiu-se a mim. Então, vamos nessa? Não, não, Vic. Valeu pelo convite. Eu não vou entrar nessa não. Elas não cobram muito caro, eu já me informei. Não, mas não é isso, Alex, é que eu quero evitar essas coisas, sério, que só podem me complicar depois. Ah, essa não, hein? Complicar o quê, velho? São profissionais, não vão te sacanear, não tem perigo. É isso aí, o Guilerme tem razão das coisas. (O Victor, quando não o tratava por Gui, ou quando falava sobre ele, pronunciava Guilerme.) Não, olha, alguém sempre comenta com alguém, alguém sempre fica sabendo, desconfia, é sempre assim… Tá certo, eu te entendo, já te conheço um pouco. De boa, mas se quiser ir com a gente… O Guilherme soltou um bloco suave de fumaça pela boca. Tranquilo, velho. Ninguém vai saber. Estamos todos de rabo preso, entendeu? O que se faz em Vegas permanece em Vegas. O Alex e o Victor riram ao mesmo tempo. Ahahah… Eu não topei, e eles não insistiram. Insistir, para quê? Pelo jeito, quem perdia era eu. Mesmo demonstrando compreensão, parecia claro para mim que eles não assimilavam o motivo de minhas hesitações, que era mesmo fraco. Já faz uma meia hora aqui, vamos voltar pra Maga, gente. Vamos? Vamos. Percorrendo devagar a diversidade dos jardins, deixando para trás uma e outra porção de sombra entre as árvores e os arbustos e as trepadeiras e uma solidão que, após uma brisa inspiradora ou a passagem de alguém, sempre voltava a cercá-las. Nós quatro sem pressa. Uns de cabeça baixa, mãos nos bolsos, outros não, uísque e cerveja no sangue, sensações tranquilizantes, nossa proximidade mansa, união entre os homens, paz na Terra aos homens e suas vontades. Enquanto caminhávamos de volta à festa, eu observava a beleza de inúmeros detalhes por ali, não apenas porque os jardins eram bem arranjados e harmônicos, mas também porque, em meio a qualquer dessas simulações de paraíso, eu conseguia adivinhar a fada má morando embaixo de uma pedra.

Perto da meia-noite, alguém sugeriu que uma das convidadas mostrasse os seios. Ela estava próxima ao bar, que fica um degrau acima do piso da área externa, como um palco estendido entre dois quiosques, pouco antes da primeira fileira das mesas plásticas ao longo da borda da piscina. A Mig era quem estava eventualmente no centro das atenções. Ela devia ter uns vinte, vinte e um anos, não mais que isso. A Mig é a Miguelita Herrera Bim, filha de um proprietário de supermercados de bairro e de uma engenheira química, e eu não me lembro de uma dessas noites na casa da Maga em que ela não estivesse presente. Não mesmo. Desde que comecei a frequentar, com a Marjorie, essas festas combinadas ou improvisadas de sua amiga Maga, sempre vi a Mig entre nós. A Marjorie a tem em boa conta porque ela promete seguir os passos do pai nos negócios, enquanto cursa Administração de Empresas – não sabemos, claro, se ela cumprirá a promessa ou se mudará de ideia. E o pedido seguia valendo. E a Mig ali, hesitante sorridente vaidosa, repetindo nãos enquanto se divertia com o tom de súplica de um rapaz que eu não conhecia, que parecia ter vindo com a Rafaela Brittes e uma de suas primas, não sei, eu não sabia, não tinha certeza. Mostra pra gente, vai, faz esse carinho. A Mig o afastava com um tapinha à toa. Não, Fred, que isso, tá louco? Outros engrossaram o coro e passaram a incentivar a brincadeira. Ao fundo, Lou Bega cantava seu “Mambo n. 5”. A essa hora da noite, soprava um ventinho gostoso e vivo, vindo dos descampados próximos ao condomínio. Vai, mostra rapidinho, vamos ver, que que custa, que que tem de mais? A Mig levou a mão à testa, cobrindo o rosto enquanto sorria. Gente, não. Tô com vergonha. Preciso de mais um drinque. Drinque, no caso, claramente um eufemismo – ela parecia ter tomado umas boas batidas de frutas bem a seu gosto. A Rose Levy deu-lhe um copo alto de vodca gelada, fatia de limão presa à borda. A Mig então tomou meio copo de uma vez, engasgando enquanto ria. Mesmo assim, indecisa teatral maliciosa, ameaçava a todos com a desistência e a frustração. O Gilberto Roma, marido da Verônica Braga, que estava ali, a meio passo de mim, acima do peso, caminhando para a calvície, mãos grossas prontas a aplaudir, convocou-me à ação. Fala alguma coisa, vai. Você é bom nisso. Fala. Eu sorri, toquei o braço dele em sinal de que prestasse atenção ao que eu diria em seguida. Vamos lá, Mig. Você sabe que é bonita. E está entre amigos. Isso dá um tom a nossa festa. E muitos pontos pra você. Homens e mulheres riram. Apoiaram arremedaram aplaudiram, sem tirar os olhos de cima dela. A Queen, num vão entre uma e outra pessoa, olhava-me especialmente. Séria ou apenas curiosa, não sei. (Uma observação: a Marje não comentou nada sobre isso, em nenhum momento. Eu nem sabia onde ela estava quando isso aconteceu – isso, eu digo, a minha fala incentivadora. O resto ela viu. Nem uma palavra. Mesmo. Nem na viagem de volta. Nem quando apaguei a última luz, em nosso quarto, ao fim de tudo. Nada.) Como parte de uma esperada encenação, a Mig tornou a cobrir a testa com uma das mãos enquanto com a outra fazia descer delicadamente pelo braço a alça esquerda de sua blusinha cor de vinho. Um murmúrio quase infantil de admiração e felicidade ocupou o espaço ali, partindo de diversos pontos, vozes masculinas e femininas, atravessando-nos a todos com um entusiasmo alternado entre uma ansiosa perspectiva de silêncio e um possível clamor de glória. Eu sabia que algumas garotas ali não aprovavam a ideia, mas não protestaram. Afinal era uma festa. Nem sempre fazemos festas. Afinal éramos todos humanos. Afinal a vida exige momentos de descontração e de subversão entre os dias e as noites. Afinal, não era algo tão absurdo assim. Era só uma brincadeira sensual, um capricho de momento. Afinal… não era nada. A Mig fez um charme de um instante e pôs à mostra um de seus peitinhos, um peitinho de agradável proporção, jovem e pronto, ligeiramente voltado para o lado externo do torso, aréola pequena castanho-clara coroando a forma macia que ela sustentava com a mão colada ao corpo, como apontando seu lindo seio, à prova de críticas, em nossa direção. Era inevitável que eu o comparasse, num relâmpago secreto da memória, aos peitinhos lindos da Josie e aos peitos consistentes fortes não menos lindos da Marjorie. No fundo acho que me encanto com todas a smulheres do mundo – mas isso já é a vodca. Lou Bega cantava: … a little bit of Rita is all I need, a little bit of Tina is what I see… Fez um sinal para a Rose, pegou de volta a vodca, girou um dedo no líquido gelado e tocou-se no mamilo, arrepiando-se do próprio susto e provavelmente fazendo-o eriçado instantaneamente, o que eu não podia ver de onde estava. Risos e aplausos esparsos dirigidos à estrela do momento, que parecia nos dominar com seu feitiço enquanto a voz do cantor, sobrepondo-se às nossas, lembrava: you can’t run, you can’t hide, you and me gonna touch the sky. Isso não se estendeu por um minuto inteiro. A Mig subiu a blusa, guardou o seio.

Desde então, a festa parecia outra. Nossa memória dessa noite era outra. Nosso tempo cronológico não podia mais vencer o efeito desse capricho, desse encantamento, dessa magia simples. A Mig nunca mais foi a mesma para nós. Ela nos brindou com a libertação. Como eu previra, isso contou pontos para ela: todos passaram a simpatizar mais com ela, principalmente nós homens, tocados por um inconfessável sentimento de gratidão. Eu via esse gesto de ousadia malícia música e álcool como uma superação das culturas repressivas, um fator de redenção do que jazia estancado em nós mesmos, em nosso invisível ressentimento, uma conquista de todos. A estrela nascida do instante etílico, inspiradora de ansiedade e risos, realizando nossa reintegração à condição legítima de nossos hormônios. O momento de fazermos as pazes com o melhor de nossa natureza. A fêmea representativa, a musa da vez. A renovação dos votos de todos com nosso próprio senso de liberdade, com nossos caprichos sublimados, com nossa permissividade contida, com nossa inocência.

Projeto esvanecendo-se

 25. Quando nós ainda… – sequência

23. O jardim do hoje – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Fabián Perez. Sabá com copo de vinho tinto

Dobal – O mundo revivido

Samuel Beckett declarava que a vida de um escritor não é importante, não tem nada de extraordinário, e o que conta é a sua obra. Até hoje tenho concordado com essa ideia. E isso apenas se reforça quando leio certos autores que conseguem tornar suas impressões da vida textos literários de atraente qualidade. Muitas vezes o que está contido na narrativa poética não é mesmo incomum, não tem mesmo nada de extraordinário, e o que se espera e o que se preserva é o resultado desse trabalho de palavras, isso tudo confirmando a opinião do grande artista irlandês. Alguns poetas conseguem, em uma única peça literária, impressionar-nos com sua estética, sua concisão, sua dramaticidade e, ao mesmo tempo, com a neutralidade técnica necessária para lidar com elementos que deflagram emoções e comoções profundas, principalmente quando envolvem diretamente, pessoalmente, o autor. Segue, como amostra, um belo soneto de H. Dobal (Hindemburgo Dobal Teixeira), poeta piauiense que integrava o chamado Movimento Meridiano, grupo literário que reunia diversos autores da linhagem modernista. Uma obra-prima, na medida certa entre o clamor e o silêncio.

Sobre esta casa e as árvores que o tempo
esqueceu de levar. Sobre o curral
de pedra e paz e de outras vacas tristes
chorando a lua e a noite sem bezerros.
Sobre a parede larga deste açude
onde outras cobras verdes se arrastavam,
e pondo o sol nos seus olhos parados
iam colhendo sua safra de sapos.
Sob as constelações do sul que a noite
armava e desarmava: as Três Marias,
o Cruzeiro distante e o Sete-Estrelo.
Sobre este mundo revivido em vão,
a lembrança de primos, de cavalos,
de silêncio perdido para sempre.

H. DobalO mundo revivido.

Leia algo sobre outro poeta nordestino.

Artistas da palavra

Projeto esvanecendo-se. Quase todo um reino adormecido

Quando a carcaça do peixe bateu à praia era só uma curiosidade para os turistas, enquanto todos os heróis invisíveis do mundo somam um caldo espesso no ar, resistindo ao sufocamento.

O corpo agora relaxado reconfortado, na penumbra da tarde mansa, nu sob meios lençóis, silêncio agradável de crianças distantes, vozes inocentes alegres, aqui os olhos fechados, respiração suave, quase um felino adormecido, quase todo um reino adormecido, mas há uma faixa ainda uma frequência uma ansiedade que se extingue desacelerada pela ação do tempo que não existe mais, então lentamente, lentamente, eu acho, o poema que iria declamar no evento da escola e que se esqueceu de levar, para decepção e ressentimento da professora que esse menino representa, lentamente talvez, esse menino, esse poema tímido seria a única coisa de que poderia se orgulhar e com a qual poderia conseguir, entre os muitos de seu grupo, algum afeto em troca, mas é que ele era esquecido e entendia errado, sim, muitas coisas ele entendeu errado, e isso mil vezes o fez sofrer e humilhar-se, lentamente, eu dizia, a trilha de terra esburacada mal cuidada percorrida de bicicleta quase diariamente porque, não importa o que dizem, é uma trilha querida, atraente por si mesma, em toda a sua irregularidade, escolhida por ele com base em seus próprios critérios de beleza e solidão, lentamente também, páginas lentamente folheadas, era isso também, os gibis que não podia comprar porque não tinha dinheiro, o pai endividado, ninguém diz o que todos sabem, e o que conta é que não lhe sobram moedas para essas aventuras literárias inúteis, lentamente eu posso, não, eu não posso, não era bom nos esportes, em nenhum deles, não tinha como ser bom nos esportes, e ficava por último ficava para trás ficava na lanterna, não era querido, é claro, tolerado quando muito, auxiliado por algum colega generoso, mínimo traço de piedade, e quando a desastrosa jogada ganhava corpo, sempre ouvia de alguém: desgraçado, por que você não morre?, lentamente se quebrou, que era vidro e se quebrou, chamado de caolho por causa de seus óculos de aros escuros, miopia progressiva, suficiente para servir de alvo, quando o cercam e lhe quebram os óculos e o obrigam a voltá-los ao rosto, aros retendo uns últimos cristais destroçados, aproveitam para renovar um escárnio sem reservas, dizendo-lhe que não enxerga porque não quer, toma, vai assim pra casa, pode ser psicológico, gargalhadas agressivas, ele retendo, entre um dia e outro, retendo lentamente, lentamente o que lhe custa dizer, não sabem que estão diante de um herói, um herói silencioso que vale sim a virtude de um herói manifesto, só por não ter procurado a morte em meio a essa agitação sem sentido que parece ter sido sua longa enorme vida, lentamente a música, parece que lentamente, copos de cuba-libre, a garota de quinze anos como ele, a graça que lhe inspira uma grande paixão, quase toda a festa conversando sem rumo para que outro a levasse a dançar e a beijasse tão facilmente tão rapidamente tão intensamente, lentamente vamos embora daqui, vamos embora desse lugar, para sempre, lentamente o que seria então, o aniversário de dezoito anos, o pai não percebe que era ali um rapaz, tão ingênuo como aos quinze, é verdade, mas agora já lhe cresce a barba, uns poucos amigos solidários comparecem, para que o mínimo parecido com uma festa aconteça, talvez não viesse ninguém, foi por pouco essa, mas tiveram música bebida piadas, e tudo acabou cedo, não havia motivo para mais, despedindo-se do último convidado lá fora, alguém pede ajuda aos vizinhos, uma idosa passando mal, na verdade está morrendo, precisam levá-la até o carro, o amigo participa, e eles carregam essa senhora agonizante, que geme e ronca, transportam o corpo pesado mole malcheiroso, e enfim tudo termina, você se despede desse bom amigo, agradece constrangido e sincero, agradece o quanto pode, por um instante pensa em lhe pedir perdão, perdão por tudo, perdão por ser assim, por sua festinha medíocre, pelo incômodo da morte, agora que tem dezoito anos completos não deve contar aos outros como chorou no escuro ao fim da noite, lentamente a trama se desenvolve e o cerca, a porta de vidro da universidade, um último ato de coragem antes que tudo desmorone em silêncio outra vez, que é vidro e se quebra, pensa que vão quebrá-lo também, não sabem que estão diante de um herói, você tem direitos, a Adelaide, mas não, mas eu, eu não vou fazer nada disso, chegou o tempo de não se render, quando a carcaça do peixe bateu à praia era só uma curiosidade para os turistas, enquanto todos os heróis invisíveis do mundo somam um caldo espesso no ar, resistindo ao sufocamento, hoje nu sob meios lençóis, na penumbra da tarde mansa, o corpo relaxado reconfortado, sem abrir os olhos, melhor assim. Imerso em si mesmo. Algo entre a redenção e o alívio sobre as coisas que não existem mais. E porque o tempo dispersará tudo de qualquer maneira. Melhor assim. E tudo deixará de existir um dia. Olhos fechados. Melhor assim. Sente a presença dela, próxima: movimentos cuidadosos a não incomodá-lo, a não despertá-lo, pensa que está dormindo, inerte. Ele a chama a mais perto, sem abrir os olhos, um toque frágil da mão. Fica assim comigo… – a Josie se aproxima, toca-lhe a testa com os lábios, deixa um beijo suave sobre uma pálpebra, breve de um instante sobre sua boca… – enquanto eu descanso um pouco.

Projeto esvanecendo-se

– sequência

– anterior

Guia de leitura

Imagem: Ludwig Sander. Verdes. (detalhe superior). 1970.

Diário contra o destino. Adicional

Mosca/vidro

A segunda estrofe sugere uma mosca indo e vindo, investindo contra uma linha imaginária à direita, batendo-se contra uma superfície sólida, porém invisível.

Canção de ser

Caminhando pelas ruas do centro velho, em minha cidade, percebi que aquele ambiente e o fato de eu estar sozinho inspiravam ideias literárias. Escrevi alguns poemas nascidos desses momentos simples, de certa forma tristes, de certa forma agradáveis “Canção de ser” é um desses momentos, quando uma intensa impressão de solidez no presente, influenciada pelas marcas de um distante passado nas fachadas ao redor, assaltou-me plenamente. É isso o que chamam experiência existencialista? Não sei. Existimos, de qualquer forma. E disso decorre tudo o mais.

Inconsistência dos retratos. Adicional

Sete anos em Manhattan

Eu havia reencontrado um amigo dos tempos de escola, numa livraria, mas ainda não fora esse episódio isolado, inicialmente desprovido de maior significado, o que deflagrou a ideia do conto. Em outro momento, fiquei pensando na vida de todos nós, filhos do capitalismo, das ilusões materiais e das ideologias que nos obrigam, desde cedo, a ser bem-sucedidos em alguma coisa. Criei essa metáfora de um reencontro, associando a lembrança de meu amigo distante, tendo como narrador-personagem um homem não propriamente bem-sucedido financeiramente, mas bem-sucedido no processo de construção de sua “casa”, isto é, sua pessoa, sua estrutura interna, enfim, sua vida – enquanto o outro, movido por todas as recompensas materiais e morais propostas pelas ideologias vigentes, não havia encontrado a si mesmo. Tento cultivar essa lição a partir de minhas próprias composições: a ilusão de ser um escritor famoso ou bem pago por seus livros não se compara à gratificação que um texto, bem-sucedido em si mesmo, pode proporcionar a seu autor. Não vale a pena ser um Hemingway, se o preço disso é suicidar-se vitimado pela angústia. Afinal, o que podemos aprender ou ensinar uns aos outros? Tomara que seja a verdade.

Um par de amigos, um caso ímpar e A prometida história de fantasma, com os mesmos personagens, seriam os primeiros contos de uma série tratando da amizade entre os homens, seu cotidiano, seus interesses, usando uma linguagem acessível, tons de bom humor e mencionando atualidades.

 

Schiavo, Quinlan, Aurora

Nos contos de fadas, podia-se dormir cem anos e voltar do coma.
Dava para esperar pelo príncipe prometido e finalmente por seu beijo – e não era o beijo da morte.

A esperança é a última que morre – porque os médicos ainda não puseram as mãos nela: ou a esperança estaria condicionada a algum aparelho e não morreria nunca. A esperança é uma característica humana, não há como negligenciar isso. Os casos sempre polêmicos de doentes terminais provocam nossa capacidade de julgamento, de argumentação, de senso crítico, o que nem sempre leva a alguma conclusão confortável.

Confortável até demais encontrava-se uma dessas vítimas, a americana Terri Schiavo, inconsciente e inerte durante quinze anos, até que se decidiu por sua morte natural. Se estivesse em estado vegetativo, como atestaram os médicos, claro que não deve ter sofrido por seu destino ou por sua morte virtual. Mas se pudesse compreender o que se passava, então sim, estaria sofrendo de fato, e talvez desejasse a própria morte. Mas quem responde por ela? Os exames. Os laboratórios. Os gráficos.

Há pouco mais de cinco décadas, não se deflagravam tais discussões, pelo menos não com tanta frequência, pois a medicina não dispunha senão de recursos precários para manter um paciente terminal em sobrevida. Era quase impossível sobreviver a um colapso cerebral. Hoje, admitindo-se francamente que o organismo humano assemelha-se a uma máquina, é possível compreender o que o mantém em funcionamento e com isso promover, artificialmente, a continuidade de suas funções. Fazer o quê? Mais um risco para todos nós.

Outra americana, também célebre por razões trágicas, a jovem Karen Ann Quinlan, havia entrado em coma devido a uma overdose. Internada em um hospital de New Jersey, recebeu, após alguns meses, o diagnóstico de que não mais retornaria a um estado cognitivo sapiente. O Comitê de Ética do Hospital St. Clair, criado especialmente para o caso, não sabia ainda como se portar. O juiz da Suprema Corte acreditava que todos os hospitais da América possuíssem um comitê como aquele, o que não existia até então. Desativado o aparelho que mantinha sua respiração, Karen só faleceu nove anos depois, sem nenhuma melhora em seu estado clínico, como previsto anteriormente.

Um caso semelhante, o de Nancy Beth Cruzan, legou-nos o primoroso epitáfio: “Nascida em 20.07.57. Morta em 11.01.83. Em paz em 26.12.90.”.

E qual de nós, quando crianças, não sentiu um frio na espinha ao imaginar a doce princesa Aurora, jovem e bela, adormecida por cem anos devido a uma maldição? Antes disso, observe-se: a roca que a princesa usava para fiar nada mais era que um mecanismo de tempo, cadenciado, imprimindo um ritmo aos seus dias, tecendo, articulando algo para o futuro, cuja demarcação se fizera pelo acidente que culminou com uma picada em seu dedo e o consequente estado de coma. (Será que os contistas previam as agulhas injetáveis e as drogas? As lendas com vampiros preconizavam a propagação da aids? Bem, não exageremos. Uma polêmica por vez.)

Nos contos de fadas, podia-se dormir cem anos e voltar do coma. Dava para esperar pelo príncipe prometido e finalmente por seu beijo – e não era o beijo da morte. O que tem isso com o resto da história? Pense por si mesmo. Afinal, não é você que se diz sempre consciente?

Imagem: Eliseu Visconti. Nu feminino. 1896.

Marcas de gentis predadores. Adicional

O fato de Danilo reencontrar Verne, no final da narrativa, e não outros de seus antigos amigos, este que era visto como o mais ingênuo da turma, é significativo porque suaviza uma falsa situação de tormento. O caso Ana Lúcia deixa de ser o pesadelo que aparentava ser. Tudo se dilui […].