Projeto esvanecendo-se. Das coisas todas

Marjorie era uma caçadora. Disfarçada pela etiqueta.
Encoberta pelas vantagens dos bons modos.

. 1-lorraine-christie-doce-rendicao-detalhe-inferior

… por que, em minha instabilidade mental emocional sazonal, por que, enfim, recordo um ponto ou outro, mesmo não estando à procura de tal ou qual memória? Um personagem de Coetzee pensou em castrar-se para evitar novos casos com mulheres e para poder pensar melhor na morte. Pensar melhor na morte? Não, não, mas eu sabia, eu o entendia: isso se traduz por considerar filosofar tentar compreender. À parte esse estúpido drástico ridículo pensamento, valeria a pena, mesmo metaforicamente, trocar uma coisa por outra?…

Quando conheci a Marjorie, ela me encantou com sua educação, com seus sorrisos e não sorrisos na hora certa, suas expressões faciais agradáveis e convidativas. Sentados, conversando. As cadeiras de madeira escura do café, umas plantas em volta. Então, ela ergueu lentamente a mão direita, em minha direção. Olha, um pernilongo aqui, na sua camisa. Era mesmo. Mal tive tempo de vê-lo: o minúsculo pernilongo subiu ao ar delicadamente rapidamente imprudentemente, e eu nunca me esqueço de como a Marjorie o liquidou certeira, batendo as palmas da mão uma única vez. E os olhinhos dela, quase arregalados e vesgos, concentrados como os de um felino. Seu rosto todo parecia o de um felino, surpreendentemente. Os lábios presos, as linhas exatas de seu queixo, suas mandíbulas, e aqueles olhos castanhos escuros quase cor de amoras, um brilho rápido de êxtase ao dar como certo, num estalo, o assassinato bem-sucedido. Tornou a olhar-me de frente, outra vez mulher. Sorrisinho de boca fechada, como se dissesse: viu só? E algum alívio, um sutil relaxamento. Marjorie era uma caçadora. Disfarçada pela etiqueta. Encoberta pelas vantagens dos bons modos.

… para o ator Willem Dafoe, devemos ser mais animais, menos racionais, sem nos importarmos muito com as expectativas. Ouviu isso, Joss Stone?…

Você trabalha com aulas, não é? A Marjorie, curiosa e afável. Trabalho com aulas? É, eu… dou aulas. Leciono. Franja de fios negros cobrindo-lhe quase toda a testa, partindo de uma linha curva a separar-lhe os cabelos, que caíam mais de um lado que de outro – isso, no momento, me pareceu acidental. Interessante, admiro professores. Nós dois compartilhando aquela situação maravilhosa de nos conhecermos melhor, por enquanto não tão melhor assim, e ainda bem. E aqueles olhos dela, castanhos escuros sensíveis astutos. Para mim, naqueles primeiros encontros, eram olhos potencialmente eróticos, por causa de seus movimentos mínimos, esquadrinhando meu rosto, buscando enquadrar meu rosto como um todo, enquanto eu falava de uma coisa e outra.

A bem da verdade, como dizem os fingidos, e mesmo tendo em mente que não é preciso comentar isso, a essa altura eu já pensava na Marjorie como uma potencial fêmea a meu dispor a minha mercê na cama a meu serviço. Criava, como sempre fizera desde que minha soturna adolescência entrara em cena, todas as imagens e falas dessa garota exata disciplinada e bem cuidada que, misteriosamente, parecia interessada em mim. A Marjorie era agora o foco e o fogo de meu bruto interesse masculino. Minha musa corpórea. Meu ícone erótico, como os de Alex Portnoy. Sobrepunha-se às outras, reinava. Dominava-me. Despia as roupas e os calçados que eu bem entendia e escolhia, levando-me quase às portas da polução noturna, o que eu me esforçava por conter, administrando meu tempo meu ritmo meu ritual profano, que é o de todos os homens hormonalmente normais: a sagrada masturbação.

… o Portnoy, de Philip Roth, nos desafia com sua sinceridade, e a jornalista perguntava ao autor por que falar tanto sobre sexo, o que me parece uma pergunta desnecessária, mas, sim, claro, podemos falar de qualquer outra coisa…

Eu estava com ela no carro, fim de noite, deixando-a em casa, a rua arborizada e escurecida onde morava com o pai e o irmão, quando recordei essas palavras, pensava: isso de estar apaixonado… Eu não conseguia parar de abraçá-la, de olhar para ela, de beijá-la, beijá-la outra vez e outra vez. Como é possível caber tanta coisa em nós, quero dizer, por que eu não conseguia parar? Não haveria um limite para esse fascínio? Ela riu. Claro que sim. O orgasmo.

Mas isso viria depois. Estávamos no café onde ela havia matado um pernilongo. Uma coisa e outra atravessava nossa conversa, como todas as coisas que acontecem no mundo deveriam atravessar as conversas de todos, embora ninguém se importe. Eu respondia e perguntava, também afável, é claro, mas achava estranho que alguém falasse assim, trabalhar com aulas, não sei por quê. Não sei muito bem por que isso me incomoda sutilmente. Dias depois, convivendo com uns conhecidos da Marje, entendi que era mais ou menos assim que eles se comunicavam. Eles não perguntam o que você faz, qual é a sua profissão, eles perguntam com o que você trabalha e complementam querendo saber qual é a sua parte. Minha parte? Como assim, minha parte? – foi isso que pensei, mas não falei, quando um desses amigos dela quis saber sobre esse tipo de coisa. É que muitos deles são sócios proprietários microempresários empresários, até acionistas de alguma empresa, portanto eles sempre têm… uma parte. Ah, você trabalha na… ? E qual é a sua parte? Na ocasião, eu disse que lecionava, e não comecei a resposta com: minha parte é… Os mais sábios (que eu nunca sei quem são) nos lembram que sempre é prudente evitar dizer o que se pensa, embora isso me cheire a mais uma modalidade empolada de covardia. Mas dessa vez segui esse conselho covarde e me escondi. Porque o que pensei foi que minha parte era ensinar, ao máximo, como é a gente se libertar de padrões paradigmas frases feitas ideias feitas e ciladas feitas, talvez para diminuir um pouco a preponderância daquela casta de pessoas que, situada em camadas consistentes da cadeia alimentar, entende que sua visão de mundo é o melhor que se pode passar adiante.

Em alguma parte de nossas primeiras conversas, ela disse que me achava… diferente. Diferenciado. Mais especificamente, ela educada culta agradável e me conhecendo ainda, foi a palavra que usou em seguida, aperfeiçoada: diferenciado. Eu já tinha ouvido algo assim antes, de outras pessoas, mas não sabia se isso era bom ou não, se me faria feliz ou infeliz, que diferenciado pode ser o antissociável ressentido ou o psicopata ansioso que gosta de ler os clássicos, o que, por bem ou por mal… Bem, isso não importa mais. Não é uma daquelas coisas que-eu-mais-tenho. E não pretendo ser diferenciado coisa nenhuma. Isso acaba sendo uma impressão alheia, uma definição derivada, talvez, de meu interesse especial por leitura – o que afinal não é tão incomum assim.

Nada de mais. Por essa época, eu ainda cultivava leituras intoxicantes, vivia entusiasmado com a descoberta de novas (para mim) peças de música clássica. Perseguia a beleza das coisas. Enternecia-me com a bondade, com a poesia, e já era tempo de eu ter outra impressão do amor, mas como disse, ou acho que disse, nunca fui precoce quanto a tais percepções. Eu havia escrito em meu diário, na parte inferior de uma página direita, que “não se emocionar com alguma coisa é uma perda, não um ganho. É um esquecimento, não uma conquista.”. À época, coisas que-eu-mais-tinha. E isso tudo, como parece claro, já devia ter se esfumado evaporado esvanecido lá no definhar de minha pobre adolescência, que ninguém adivinhava dura, com um último sorriso triste. Mas não. Eu tinha vinte e três anos quando conheci a Marjorie. É sério. Foi durante uma onda de calor, estacionada na região por influência de fenômenos climáticos distantes, desses que se formam no aberto dos oceanos e ganham nomes em espanhol. Uma onda de calor opressiva e nauseante, ainda na primavera, por isso era comum que nos víssemos com os rostos um pouco suados, quase cintilantes. Isso foi em novembro.

De qualquer forma, eram dias mágicos, quando começávamos a pensar um no outro com inegável interesse, desejando mais encontros e mais próximos e ansiosos e urgentes, quando aquela impressão intensa do encantamento começa a subverter as marcações do relógio e gerar um descompasso com as situações diárias conhecidas, com as outras atividades da vida prática. Quando nossa noite acabava, seguíamos em meu carro, eu ia deixar a Marje em sua casa, e era difícil nossa despedida. Nossos beijos consumiam todo o tempo, todo o batom. O gosto das salivas trocadas também resultava dessas tempestades biológicas. Ficávamos ainda uma meia hora grudados, até um pouco mais tarde, em meu carro, como já expliquei, o confortável Chevette hatch 84 branco de assentos reclináveis, torno a dizer, quase em frente à janela do andar de cima, e eu imaginava que seu pai ou seu irmão podiam respirar de longe nosso calor, o cheiro de nossos hormônios fervendo sob a lua.

A Marjorie, agora minha namorada, ia me apresentando a seus amigos suas amigas seus conhecidos seus parentes, enquanto meus amigos, que já eram poucos e dispersos (colegas eu tinha muitos), iam desaparecendo naturalmente de meu convívio. Já tínhamos uns meses de casados quando, na festa de casamento de uma amiga dela – uma não tão amiga assim, daí porque ela, a Marje, que já se portava com certa formalidade em ocasiões dessas, naquela noite parecia mais atenta às aparências conveniências obediências do que em outras –, eu cometi o erro de acreditar que poderia ser espontâneo. Coitada, sei que nem sempre eu fui o que ela esperava, mas não era por mal. Nunca foi por mal. Tenho verdadeiro carinho por ela, embora ela não perceba – ou não se importe muito com isso. Enfim, uma ou outra manifestação de espontaneidade minha a fazia desconfortável, porque ela tinha as coisas todas mais ou menos previstas, e não se sentia bem se algo não saía bem, o que parece simples de entender. Nessa festa, como dizia, bebi um pouco mais que o normal. Só isso. Nada sério. Todos ali, pelo que eu observava, beberam mais que o normal. Eu estava alegre, solto. A gente já tinha dançado, outros tantos ainda dançavam, e se divertiam com umas bobagens típicas, piadinhas relacionadas aos noivos e à conhecida condição de casados, quando então eu simulei uns passos de dança meio desencontrados, como num ritual de acasalamento, dobrando os joelhos e beijando a mão dela, afastando-me e me aproximando outra vez, imitando aqueles personagens de luvas do cinema mudo, movendo lábios sem som, mostrando-me subitamente apaixonado por minha própria esposa, que estava elegante e linda, cabelos presos, vestido justo, sandálias altas, mas acontece que a Marjorie sorria quase um sorriso fixo, e eu entendi que ela não estava gostando muito do rumo que as coisas estavam tomando. Então eu me deitei no chão liso da pista, blazer azul-marinho aberto, fechei os olhos, sorrindo, via tudo em flashes sons luzes risos e o teto, e a Marjorie bem próxima, curvando a parte superior de seu corpo em minha direção, isso sem dobrar as pernas rígidas, mãos apoiadas nos joelhos. Que foi? Tudo bem? Está passando bem? Tudo bem sim. Tudo bem, minha linda. Eu estava feliz. Feliz. Levanta daí então. Vem. Ali estava a minha mulher linda em meio ao caos. Algo carinhosa, mas incisiva. E eu sorrindo, de olhos fechados, o álcool provocando sensações avulsas suaves gostosas, então eu disse a ela que amava a vida. Acho que amo a vida. Quase sem ênfase, mas quase em estado de graça também. Marje, eu acho que… eu amo muito a vida. Que isso, imagina! Ela lançava os olhinhos rápidos ao redor, mantendo o sorriso aberto enquanto os outros convidados provavelmente riam ou estranhavam aquilo tudo. Estendeu-me a mão. Vem, anda, para com isso. Sempre sem deixar de sorrir, para que vissem que era só uma brincadeira. Sim, esses gestos dela são recorrentes. São toques de mestra. Para que todos compreendam que tudo não passa de uma brincadeira. Que mesmo o fato de eu amar a vida também não é mais do que uma brincadeira inocente. Insignificante. Dispensável. Está tudo bem. Tudo bem mesmo. Seu sorriso dizia a todos que eles não precisavam se preocupar.

Projeto esvanecendo-se

6. Uma garota como outras – só que não – sequência

4. Eu não queria que isso acontecesse – anterior

Guia de leitura

Imagem: Lorraine Christie. Doce rendição (detalhe inferior).

Lisette Maris em seu endereço de inverno. Adicional

Em Lisette Maris em seu endereço de inverno, a estratégia escolhida para transcrever o livro que o menino lê antes de dormir foi a de confundir, como se confunde a percepção dos sinais sob o peso do sono, as palavras, sua forma e seu significado.

Espero que não haja também um traidor entre nós. Esses copos que se movem afinal          um traidor        isso não me engana e não significa          cães rebeldes prepar            nessa escuna e não poder part           

           ntre eles. Espero que não h             afinal os mares, que mares? Damares antes que os cães reb                     um      traid

Fecho os olhos e o livro. A escuridão alivia-me o cansaço, devolve-me imagens avulsas como aquele dia claro no flanco norte e os lábios úmidos de Damares. A um passo do tesouro, talvez. A rica vegetação, o que esconde.

 

Projeto esvanecendo-se. Adicional.

O ensaísta francês Joseph Joubert entendia que, para escrever bem, era preciso conciliar alguma facilidade natural com uma dificuldade adquirida. Isso se mostra rotineiramente no processo de criação literária. Alguns trechos partem de uma espontaneidade descritiva para depois encontrarem sua forma final, mais elaborada, e aqui se observam os sinais de dificuldade adquirida: voltar ao tom de espontaneidade inicial após todo o processo de elaboração. Fazer parecer que se acabou de vivenciar e contar algo, de um momento para outro, quando tal não aconteceu. Nesse caso, escolhi o recurso da imitação da sonoridade, frases curtas pontuando períodos mais longos e as falas das personagens soltas no texto, entre uma pequena descrição-narração e outra.

Ela separou uma chave, errou, depois acertou enfiá-la em algum ponto que não se via pelo lado de fora. PlecPlect! E eu entendi que todos tinham de destrancar esse tal portão por dentro, não havia outro tipo de controle que pudesse ser acionado a distância, sem sair dos apartamentos. Alguém tinha mesmo que descer, ir até a entrada, receber o visitante. Um lugar simples. Entra. Passei pelo portão aberto, estendi-lhe a mão direita, ela respondeu quase ao mesmo tempo, dando-me a sua. Tudo bem? Do mesmo jeito que a gerente do banco me cumprimentava.

A primeira tarde de areia e mel

Algum coloquialismo deve permanecer. Omissão de verbos, ausência de pontuação separando adjetivos em sequência por ser desnecessária para o entendimento do texto. Muita elaboração pode tornar a percepção das imagens artificial.

Era isso, em parte. Um pouco e tudo. Havia sim uma sensação nova, de estar sendo recebido acolhido auxiliado. A cada passo, eu subia mais e mais em minha excitação contida. E a cada passo eu assumia, quase conscientemente, os sinais mal definidos de uma anunciada sonora aromática irresistível decadência. Ela escolheu uma chave, destrancou a porta. É aqui. Entra.

A primeira tarde de areia e mel

 

 

 

 

 

Project fading away. Overture

Fritz Bultman. New York (detalhe inferior) Post. 1939

On the last day of 2004 I was faking hopes and a schedule of motivations that no longer existed in me. I had lost all my classes and I had no professional perspective, nothing in view for the next year. Marjorie’s brother bought fireworks. He and the rest of the family were all very excited because, after all, they were continually prospering, which for them always meant making money and having more and better … – no matter what, as expected. And it looked like, according to the natural order of things, they would continue to prosper in the coming year. Even my father-in-law, who does absolutely nothing, had bought a new car.

But other forces were at stake. Something neither of them noticed, and it was clear to me that they couldn’t notice it. By the time I was thirty-five, and what was affecting me with a considerable level of concern wasn’t exactly being out of work for a period of time, but it was my secret answers. They were kind of intensifying. That was the point. And my intuitive perception of the current situation, forging reactions that I didn’t seem to recognize as mine, which I kept in silence, which I protected in the shadow, which I hid between my teeth, but which I understtood strong enough not to remain ignored, was now the focus of my active attention. All completely invisible to them. No interesting at all. A collapse without a voice. A fall in slow motion, almost an orange alert. Tiny suspended signs – which only lit lamps inside myself.

Until such a short time ago, my dynamism my energy my dedication to the classes and to everything envolved in this fertile universe of shared ideas was as natural as if I couldn’t be different from that. But now I was. Until when, I didn’t know. For any length of time, something impossible to guess. Almost a decade ago, I was recovering from dangerous questions that were self-diluted and almost declined to the innocuous condition of playful ghosts when I met Marjorie and began to live with her. With her and with her practicality her proactivity her certainty of getting what she wanted – as if the essential issues that moved my restless thought didn’t have the slightest, yes, the slightest importance. And she wanted me.

 

 

Project fading away

Picture: Fritz Bultman. New York Post. 1939.

Projeto esvanecendo-se. O que ela faz durante o dia?

Nossa civilização não está pronta para isso.
E minha ociosidade não pode converter-se em frivolidade, algo assim sem rumo, não pode declinar à rendição.

O que ela faz durante o dia? Não pode ser que fique à toa na maior parte do tempo e em sua restrita dimensão de espaço, esperando que eu me prontifique a vê-la. Não existem dessas graças assim disponíveis, à mão de um oportunista hesitante que nem mesmo a sustenta. Não na vida real. Eu não me perguntava isso antes, porque não tinha nada a ver com a sua vida. Mas agora tenho. Então, o que ela faz durante o dia? Versão Josie: currículos em consultórios médicos dentários clínicas e similares, quer ser mais ou menos o que era antes, atendente secretária assistente meio telefonista meio sorrisos de covinhas, a sorte daqueles que a encontram e se alegram com seu rostinho de frente. Sabe atender sabe agradar sabe cobrar, débito ou crédito, via do cliente, agenda com fitinha azul, como não? Não. Não pode ser só isso. Entregar currículos? O dia todo? Todos os dias? Essa menina tem um currículo? Certificado do ensino médio, talvez. Ou nem tanto, será que ela terminou o curso? Mas pode ser que sim, já que ela pensa em fazer faculdade, é estranho… – lembrar de perguntar-lhe isso.

Por causa da solidão e da privacidade, será que ela anda nua pela casa? Ou seminua, que seja. Que diferença isso faz, se não estou lá para ver? Não importa. A curiosidade nos levou às estrelas. E minha curiosidade particular, com variações de voyeur adolescente, é apenas uma amostra sem futuro de tantas conquistas maravilhosas. A Josie seminua, melhor que nua. Fascínio de preliminares. Melhor que nua, sim, é o que sinto, o que penso. Vestida a cada novo encontro, quando me espera. Uma conquista maravilhosa. Acidental. Aconteceu de ser. Ela não fazia parte das metas. Não faz ainda hoje. E isso me encanta e gratifica justamente. O acidente o acaso a oportunidade me atraem. A intromissão na ordem esperada das coisas. Enquanto eu, o velho bom menino, aceito e obedeço, contido e conduzido pelo conjunto de decisões alheias, desde a voz mais próxima até as emanações quase abstratas de poderes inacessíveis, eu quase sucumbindo a um conformismo absoluto, acontece algo que desorienta os organizadores do mundo, que os surpreende, e, guardado em segredo, continuará desorientando ainda suas linhas traçadas nas tábuas nos códices nas pedras, desrespeitando suas projeções desafiando sua supervisão ameaçando sua ilusão episcopal de controle – sem que eles saibam! Que são as ações motivadas por fortelatentes sinais de vitalidade. Alheias às agendas. Golpeando seus projetos de construção social com a natureza provisória das situações improváveis que ocorrem entre os dias devidamente numerados, como os bemóis e os sustenidos cravam-se entre as teclas brancas e sua sequência lógica. Em minha imaginação de hormônios inquietos, auxiliares de minha desonra, a Josie passeia despretensiosa pela casa. Passa de uma divisão a outra, distraída. Em minhas noites brancas ela se move naturalmente à luz do dia em seu alvéolo, simples e silenciosa, com sua calcinha preta.

A Josie deve se sentir sozinha. Por muito tempo do dia. É assim quando estamos fora de alguma coisa do mundo. E… que mais? Ontem eu fui com a Quiel no centro. Ver umas coisas com ela, bater perna, comprar. Ver lojas, na Barão. Umas roupas. Coisas de maquiagem, de mulher. Só isso? Mas não todos os dias, suponho, e o dinheiro dela não vai durar sempre. Você quer ir comigo, lindo, vamos um dia lá no centro, nós dois, vamos, passear um pouco? Ah, eu ia amar você comigo, vendo lojas… Sim, eu sei que é espontâneo da parte dela, sei sim, pelo jeito falar, esse improviso, a entonação de voz, é algo de agora, não planejado, num instante ela me viu ao seu lado, centro da cidade, vagando ante as vitrines de umas ruas de vidro. Comprar-lhe um presente talvez. Comprar-lhe coisas, de vez em quando, pense nisso. Não. Não. Definitivamente não. Diga isso a ela, educadamente. Diga que não será seu companheiro de passeios de mulher. Mas calma, tenha paciência. Ela está sendo espontânea, só isso, não merece respostas bruscas. Imagine-se a cena, eu e a Josie, juntos por aí. Mãos dadas, quem sabe. Braços dados, à moda antiga. Não posso (versão real: não quero), de jeito nenhum. Não podemos. Nossa civilização não está pronta para isso. E minha ociosidade não pode converter-se em frivolidade, algo assim sem rumo, não pode declinar à rendição. Ainda estou inteiro, com tudo que fortemente penso.

Projeto esvanecendo-se

– sequência

27. Sonho com Josie na galeria – anterior

Guia de leitura

Imagem: Pintura de Scott Harding.

Projeto esvanecendo-se. Sonho com Josie na galeria

Ela não reage. Seu rosto parece sem cor. Talvez esteja morta.
Talvez seja apenas uma impressão, devida ao excesso de luz ambiente.

O sonho, Juan. Sentada ao meu colo, ela me beija fortemente, ao que correspondo com igual vontade, deliciado com esse privilégio. Estamos sobre uma mureta larga, de superfície lisa, pedra imitando mármore com manchas claras, em meio a uma galeria de lojas ou algum outro tipo de núcleo comercial de estética fria, mas limpa. Pessoas passam calmamente por nós, interessadas em outras mil coisas, e tudo indica que elas nos veem, não percebem nossa presença. Também sentado na mureta, a dois braços de distância, um homem grisalho, discreto e silencioso, nos observa e aos nossos beijos incontroláveis, porém com mínima curiosidade, alternando o foco de seu olhar entre nosso momento mágico e outra coisa qualquer ao redor, como se tudo fizesse parte de um mesmo contexto sem surpresas, declinando à neutralidade. Entre um beijo e outro, entre mechas soltas dos cabelos dela, que me obstruem a visão, identifico por um ou outro instante o teto muito alto e iluminado desse lugar, talvez todo estruturado em vidro, quase uma película nos separando a todos do céu claro logo acima. Deve ser um dia lindo, penso. Os cabelos dela têm a cor da areia, com mechas escuras irregulares, como se estivessem sujos. Algo me chama a atenção nessa coincidência de tons: as manchas na pedra lisa da mureta, a luminosidade, as manchas nos cabelos dela, algo alternando imagens limpas e sujas, claros e menos claros – mas nunca escuros. Ela tem as pernas bem delineadas sob a pressão da calça justa, camisa um pouco aberta no peito, seios no sutiã, cabelos despenteados por todos os movimentos que nos controlam, mais do que nós a eles. Em algum momento, vejo suas mãos bonitas, uns anéis pequenos mas encantadores, com detalhes coloridos. Também em algum momento, vejo seus pés, tão belos quanto suas mãos, em algum tipo de sandália baixa, com brilhantes. Então eu afasto seu rosto, subitamente preocupado com a situação, que só agora me incomoda, despertando-me uma preocupante ansiedade. Observo sua boca ainda úmida, refletindo o brilho desse ambiente amplo e iluminado. O homem grisalho ao nosso lado torna a nos inspecionar, rosto impassível, nenhum ar de crítica, apenas nos percebe ali, depois volta-se para umas vitrines ali perto, em frente a nós. Digo a ela palavras parecidas com estas: Ei, espere. Espere um pouco, escute… Nós estamos em público. Num lugar público. Está ouvindo? Essas pessoas todas, olhe. Veja você mesma. Ela não move a cabeça, apenas espera. É como se algo a imobilizasse. Continua de olhos baixos. Inerte. Só consigo ver suas pálpebras. Fico em dúvida se ela também está olhando minha boca ou algo à altura do meu peito ou, enfim, se está morta – o que, curiosamente e sem nenhum espanto, me parece o mais provável. O homem grisalho ergue um braço, apontando algo na vitrine à frente. Aqueles são os relógios!, com algum sinal de entusiasmo. Eu o considero, intrigado, olho para a vitrine que me aponta, mas não consigo identificar nada ali. Volto-me para ela, a garota agora quieta junto a mim. Veja, você mesma, essas pessoas todas. Está vendo? Ela não reage. Seu rosto parece sem cor. Talvez esteja morta. Talvez seja apenas uma impressão, devida ao excesso de luz ambiente. Nós estamos em público. Ouviu? Finalmente ela move a cabeça, concordando. Ainda sem olhos. Rosto voltado para baixo. Pálpebras de uma morta. Uma jovem morta. Mas eu continuo falando a ela. Me procure. Vamos sair juntos. Outro lugar. Um horário qualquer. Agora ela está de perfil, ainda sentada sobre minhas pernas, braços ao redor de meu pescoço, cabelos presos num rabo de cavalo – mas não entendo como, em que lapso de tempo, ela fez isso, prender os cabelos, se um instante atrás estava morta e com os cabelos soltos. Com o rosto de lado, como se avistasse algo a distância, no vértice das galerias, sem olhar para mim, finalmente escuto sua resposta. Não. É imprudente. É arrogante. O quê? Arrogante? Sim. Você acha que eu estou a sua disposição. Mas daqui a pouco não serei mais nada. E você nunca mais vai me ver. As chances se extinguem, não entende? Se extinguem para sempre.

Meus sonhos intrigam o doutor Stabile. É que eu não conto a ele mais do que isso, ficam faltando peças ao quebra-cabeça. Ele talvez desconfie, experiente, que essa garota se repete em algumas de minhas maravilhosas produções involuntárias em meio ao sono, interrupção inevitável da vigília. As peças que faltam, que sempre faltarão, é a Josie. Sobre quem ninguém, absolutamente ninguém, ninguém mesmo, pode saber.

Projeto esvanecendo-se

28. O que ela faz durante o dia? – sequência

26. O anjo de ficar – anterior

Guia de leitura

Imagem: Pablo Picasso. O guitarrista (detalhe). 1910.

Sonho 3588. Prokofiev à porta

Entenda, eu estava exausto.
Era um momento de minha vida em que as coisas estavam perdendo todo o significado.

O sonho é bem simples, Juan. Parece ser. Não sei. Uma conversa tranquila, sob as árvores lá da frente. Frente de casa. Prokofiev ali, ao portão. Calvo óculos olhos claros. Então, é aqui que você mora? Ele me entrega uma pasta fina, papéis dentro, vejo que são partituras amareladas mal arranjadas, margens escapando do retângulo verde-escuro que é a pasta. Eu lhe trouxe um último concerto. Um último concerto? Como? Não compreendo. Isso me fazia culpado, repentinamente. Culpado, constrangido. Olha, Sergei Senhor Prokofiev, é, foi assim mesmo que eu disse, coisa de sonho. Sou um grande admirador do seu trabalho, do seu trabalho magnífico intenso emocionante. Para o senhor ter uma ideia, a única coisa de que eu me arrependo em toda a minha vida foi daquela vez em que dormi durante um de seus concertos, particularmente o Número 2, para piano. É o mais lindo. O que mais me fascina. E eu adormeci. Eu estou em falta com muitas pessoas, com muitas coisas, comigo mesmo até, nem sei mais com que e com quem mais. Na verdade, eu cochilei apenas, sem defesa. Dois ou três minutos, quando muito. Sem defesa. Mas eu estava exausto, entenda. Entenda, eu estava exausto. Era um momento de minha vida em que as coisas estavam perdendo todo o significado. Em que eu não conseguia mais identificar as coisas que-eu-mais-tinha. E a sua música ainda era o que de melhor e mais humano eu podia identificar. Um último sinal de vida nas trevas. Quando eu era adolescente, sabe, sonhei que os Beatles é que tinham ido até minha casa. Mas eu cresci. E hoje é o senhor quem está aqui, comovendo-me sem saber, intenso. Prokofiev entrega-me a pasta, tranquilo neutro genial. Tome, fique com isso. Um último concerto. Um concerto sem número.

Leia mais sonhos: Sonho 1204 A estação orbital

Imagem: Sergei Prokofiev (1891-1953).