Crenças e ficções

A maior parte dos humanos tem alguma dificuldade em aceitar seu papel na natureza. Parece simples demais. Parece verdadeiro demais.
E partem em busca do Santo Graal, nos confins de seu inconsciente.

A antiga tese do catastrofismo, defendida pelo naturalista suíço Charles Bonnet, entre outros, tentava explicar os fósseis antediluvianos, sendo centrada sua ideia principal sobre a periodicidade das grandes catástrofes no passado, envolvendo a totalidade da Terra. Bonnet acreditava que, após cada um desses formidáveis eventos geológicos, as formas vivas subiam um degrau na escala da vida, daí a substituição dos dinossauros por novas espécies. Previu também um vasto cataclismo futuro que faria dos símios homens e dos homens, anjos.

Embora isso não tenha ainda se realizado – tornarmo-nos todos anjos –, pensamentos equivocados, ainda que vindos de um cientista, muitas vezes permanecem e atravessam o tempo mesmo depois de comprovada sua insensatez. É o caso das superstições e, em geral, de toda forma de misticismo. Causa espanto a qualquer pessoa lúcida constatar a ascensão e a propagação sempre maior dessas correntes anacrônicas, tendo em vista que não habitamos a Alta Idade Média e sim o desenrolar do tão esperado terceiro milênio.

A ciência do século 20 nos levou à Lua, lançou sondas ao infinito e hoje nos traz rotineiramente imagens de todas as partes do universo. Mas os místicos chegaram antes, com isso demonstrando – talvez não propriamente por sua intenção – quão frágeis são os homens diante de  constatações apenas racionais. A carência de explicações menos desconfortáveis para a existência e a necessidade de algo que nos justifique para além de nossa condição animal tem sido a mãe de todas essas invenções. É preciso admitir que não sabemos tudo. E nem por isso nos deixarmos arrastar pela primeira fantasia que aparece.

Que se contem histórias de fadas e de fantasmas às crianças, tudo isso é muito salutar. O que impressiona é identificar adultos, entre diversas classes sociais e intelectuais, inclusive leitores de livros, cultivando espadas mágicas, duendes, anjos da guarda e até povos do centro da Terra, vendo-os sob o prisma da realidade, quando só deveriam ser vistos como mitologia. Carl Jung chama a atenção para a necessidade do mundo intermediário da fantasia mítica, para que o indivíduo não se torne apenas presa do doutrinarismo. Porém, o interesse por um misticismo ou por correntes ideológicas fundadas sobre hipóteses não demonstráveis constitui um perigo para mentes fracas e sugestionáveis, que “poderão tomar esses pressentimentos por conhecimentos e assim hipostasiar fantasias.

Também foi Jung, conterrâneo de Bonnet, quem definiu a crença nos ovnis (antes atendendo pelo charmoso nome de discos voadores) como um fenômeno de histeria coletiva. Logo após a Segunda Grande Guerra e com o assombroso advento da Bomba, surgiram ficções baseadas na modernidade tecnológica, como se nossos semelhantes extraplanetários pudessem nos salvar de nossas próprias armas. Ou, no caso dos esperançosos mais amedrontados, nos destruir de uma vez.

As chamadas pseudociências, como a alquimia e a astrologia, são heranças ptolomaicas, cabíveis na época, pois quase nada se conhecia dos sistemas planetários ou da psicologia humana. Há algum sinal de enfraquecimento dessas tendências, hoje vistas principalmente com bom humor e como algo que sirva a nos divertir no cotidiano, embora haja também defensores de conceitos aparentemente sérios envolvendo relações zodiacais, mapas astrais e outros filhotes dos horoscopistas mais antigos.

No início do terceiro milênio, as religiões se fragmentaram, para não dizer que se estilhaçaram, em inúmeros templos menores, tal a necessidade de se variar sobre um mesmo tema e adaptá-lo à heterogeneidade dos grupos humanos e das diferenças ideológicas, grupos que têm em comum a procura de uma resposta mística que legitime sua existência. E assim o Advento do Anjo, a Salvação Penitencial, a Colisão Cósmica, a Seiva da Mandrágora e incontáveis outras ordens, cada qual reivindicando ser sua a verdade, multiplicam-se por um mundo e um tempo que os homens não puderam ainda organizar. Há pouco mais de um século, o poeta Rimbaud perguntava: para que serve um mundo de tantas modernidades se ainda se inventam tais venenos?

A maior parte dos humanos tem alguma dificuldade em aceitar seu papel na natureza. Parece simples demais. Parece verdadeiro demais. E partem em busca do Santo Graal, nos confins de seu inconsciente.

Leia mais sobre o tema: O Bom Velhinho vende

Inspiração: o que a ciência tem com isso

21 respostas para “Crenças e ficções”

  1. Caro Perce Polegatto
    Sempre encantada com seus textos, e grata por ser tão acessível a mim/nós que tanto te apreciamos.
    Religião, misticismo e afins estão cada vez menos anuviados, porque você intelectual e acima de tudo sábio, e com sua humildade que o torna acessível repito.
    Quando leio seus textos sou induzida, mesmo com o meu limitado conhecimento intelectual acompanhar seu raciocínio, então busco mais inerpretações e perguntas.
    Por exemplo: Sempre tive presentimentos, “achismos” presságios…questionava-me sobre, porque não encontrava respostas concretas que viriam do além.
    Mas “Déjà vu” seria a explicação para diversos fenômenos que assisti.
    Uma “anomalia” a nível cerebral, claro que não sei dizer em qual região do sistema límbico e/ou cognitivo, mas que as emoções ” ou aprendizados quando registrados e armazenados numa determinada área do sistema anátomo fisiológico do passado. Desencadeiam a sensação de que foram acontecimentos atuais.Será que o ” Homo sapiens sapiens” não teria tido vários “Déjà vu”?
    Fico tímida e desculpe se substimei, com esse meu comentário digamos um pouco simplista.

    1. Luh, muito obrigado pelas palavras. Você é que está me superestimando, pelo jeito. Não há nada de simplista em seu comentário, essas questões humanas são importantes para todos nós, cada um tem uma maneira de lidar com elas, e é assim que se forma o conhecimento que compartilhamos em nosso tempo, herdado de nossos curiosos ancestrais. Abraços, me escreva sempre, é uma honra.

  2. As pessoas fazem de tudo religião. As redes sociais. O próprio facebook é uma religião. A moda é uma religião, noticiários são a religião hoje. As pessoas absorvem o lixo noticioso como se fosse a mais absoluta das verdades. Existe até a religião dos ufólogos e anti-nova ordem. O próprio dinheiro é uma religião, e é a crença mais fanática e cega.
    A religião não saiu do povo, saiu da ambição e falta de escrúpulo dos mais espertos e sedentos de poder. Eles puseram medo na cabeça do povo e inventaram a necessidade de proteção de seres superiores sob ameaça de desgraça. Mas não existe erro em lugar nenhum. Os que falam em erro vivem sob influência da religião, mesmo falando contra ela. A droga é uma só, o ego, a crença na mentira de si mesmo, a vaidade intelectual, a presunção do conhecimento. E isso não foi a religião quem inventou. As universidades hoje são os maiores centros de tráfico dessa droga. Na alegoria bíblica Adão caiu do Paraíso por comer o fruto da árvore do conhecimento. Ainda não tinha religião.
    Depois nenhuma religião domina, hipnotiza e escraviza a mente do povo hoje quanto a ciência. Essa é a religião dominante, junto com o sistema econômico, é claro, pois trabalha pra ele.
    As pessoas hoje tem os médicos e cientistas na mesma conta em que tinham os sacerdotes antigamente. São reverenciados e até adorados da mesma forma alienante. Falam de Einstein como se estivessem
    falando de um deus absoluto do conhecimento. No entanto, os cientistas e médicos daqui a 100 anos rirão dos grandes conhecimentos que os cientistas de hoje orgulham ter. Há 150 anos não havia cientista, havia alquimista, o nome foi trocado por um mais chique. O mesmo ocorreu com o termo médico, esse nome não existia antigamente. Dentro de 100 anos, ou menos, os nomes cientista e médico de hj também deverão ser substituídos por outros, mais chiques.
    Por isso a presunção do conhecimento é a única e legítima grande droga que entorpece a mente da espécie humana e de outras inúmeras prováveis espécies de outros mundos paralelos.

  3. Muitos ficam indignados em como somos propensos ao misticismo, ao sobrenatural, mas o que nos induz a esta busca por algo maior é o fim certo de nossa consciência, do nosso eu, a inteligência se recusa a acabar em nada, este impulso de sobrevivência existe em todos os animais, ou seja, no nosso caso foi anda mais reforçado pela capacidade de prevermos o fim. Para os que pensam um pouco mais e que possuem um senso crítico mais apurado, só resta a conformação com o fim. Eu sempre penso que a morte, é apenas um nada, pois antes de nascermos também não existíamos, mas pensando bem, é um pouco diferente, já que agora temos uma história, centenas de relacionamentos sociais, conhecimento, vontades, objetivos, etc….
    Sei que tudo isto que escrevi não acrescenta nada ao conhecimento, mas seguindo esta linha de pensamento, eu me pergunto: A humanidade busca sempre a criação de novas tecnologias, desenvolve em ritmo acelerado todo tipo de conhecimento sobre o mundo, o universo, etc.., mas praticamente não se ocupa no que mais interessa à nossa existência: Uma forma de continuidade eterna da consciência, seja por meio biológico ou mesmo eletrônico. Sempre que converso sobre isso, as pessoas (intelectualizadas ou não) imediatamente dizem: Isto nunca poderá ser possível, isto não existe, mas o dizem num tom de inconformismo, como se não quisessem, será este mesmo o caso? Para o ser humano, viver para sempre seria o cúmulo do tédio, um verdadeiro pesadelo? Ou isto depende da forma como cada um vê sua própria existência?

  4. A mente que não suporta muitas dúvidas acabará por se tornar linhada à pensamentos místicos para se sentir conformado. Sábios são os que duvidam de suas próprias concepções, verdades e de sua inteligência. Esses se mostrarão inteligentes verdadeiramente. Dúvidar, questionar é a base para todo pensamento, mas, como tu costuma dizer, Perce, será que estamos fazendo as perguntas certas? Não há o que dizer disso, mas essa é uma questão que abre nossa mente para mais pensamentos maduros e sem medo da vida nem da morte, pois não são opostos e, sim, complementares, como dizia Lao Tse. No decorrer de nossa evolução como seres pensantes viemos buscando um conforto para sustentar nosso conformismo intelectual; isso é provado no século XXI com o quanto buscamos conforto e o quanto o conformismo domina nossa sociedade, como fala uma grande obra chamada O Ócio Criativo de Domenico de Masi. Não tenho autoridade para nem uma afirmação verdadeira e, concomitantemente, não vejo ninguém com essa autoridade. Nosso bem mais precioso, como dizia Einstein, é a ciência. Porém, esse bem tão precioso é uma peça para a falta de inteligência humana se denselvolver como estúpidos violentos, tanto que um país tem que estar armado para manter o equilíbrio da paz; a paz se tornou equilíbrio armamentista, e não consciencia e entendimento. Porem, acho eu, que além da ciência, o nosso bem mais precioso é a educação. Ciência e educação são as ferramentas para traser a paz sem mistificações, mas sim, com verdades, apodíticas e fidedignas.

  5. Olá, Perce! Permita-me rabiscar alguns comentários.
    Ao induzir uma discussão sobre as possíveis “desconfortáveis” explicações da existência, o que na verdade nem se quer chega sê-lo para algumas pessoas, que simplesmente não percebem o mundo, não se percebendo nele, o texto me chamou mais atenção à reflexão sobre a defesa que o homem procura para si mesmo: “como se nossos semelhantes extraplanetários pudessem nos salvar de nossas próprias armas”. Somos a nossa salvação ou perdição, mas e a necessidade de justificar isso também? Como aceitar ser a ameaça de si mesmo? O mundo reflete claramente a cada dia as consequências das nossas próprias armas, seja qual for o ângulo pelo qual o observarmos.
    O texto é de uma claridade tamanha, que dói um pouco os olhos ao término da leitura. Completo!

  6. Perce Polegatto

    Gosto muito dos seus textos e de uns tempos para cá venho me descobrindo cética e em paz com essa visao mais realista da vida. No entanto, algo que me intriga muito é da onde vem a força do pensamento, voce sabe o que a ciencia fala a esse respeito? Gostaria muito se houver possibilidade de um possivel esclarecimento sobre essa questao. Um grande abraco

    1. Cacau
      Como ser humano e dentro de meus limites, fico tão intrigado quanto você, sem dúvida.
      O que chamamos pensamento (assim como o que constitui a memória, o raciocínio lógico, a intuição e outras definições que usamos para discernir propriedades e aptidões do cérebro) é o resultado de complexas interações químicas, que modelam outras sutilezas. (Quando somos submetidos a um anestésico, por exemplo, perdemos os sentidos. E quando sonhamos, nosso inconsciente tenta harmonizar os elementos de nossa vida consciente para diversos fins, para nos gratificar ou nos alertar de algum perigo.)
      Nos anos 1990 foi muito grande o avanço das pesquisas nessa área. Nossa mente talvez seja o que há de mais complexo na natureza, pois como ressalta a neurocientista Suzano Herculano-Houzel, em entrevista, é “fascinante estarmos diante de um arranjo de moléculas que consegue… pensar !”
      Somos ainda pioneiros nesse campo, mas os resultados já são motivadores. Chamamos o cérebro humano de “a última fronteira”, mas talvez seja apenas mais uma pretensão inspirada por nosso entusiasmo. Talvez não haja fronteiras. Nem últimas coisas a serem descobertas.
      Quanto a desmistificar os deuses, compreendendo-os como projeções e personificações de nossas energias e necessidades mentais, penso que adquirimos mais autonomia, mais compreensão acerca de nossa existência, perdemos alguns medos que nos foram ensinados desde cedo, enfim, podemos, sim, ser mais felizes através dessa compreensão. Para Jung, o homem só será feliz quando compreender e aceitar os conteúdos de seu inconsciente. Eu tento associar todas essas ideias para também viver melhor.

  7. Perce Polegatto
    Você não consegue me surpreender, cada pagina, já sei algo entranhado de sua brilhante sensibilidade mental. Seus textos são a expressão máxima do convite a nossa reflexão, fica claro que tudo está em mutação, num crescimento geométrico da revolução evolucionista. A formação cultural, cujo fim precípuo é a transmissão de informações, das mais diversas correntes que vão penetrar no âmago de cada um, ensejando, assim, a verdadeira visão maior da ciência no mundo contemporâneo. Um abração.

  8. “A maior parte dos humanos têm alguma dificuldade em aceitar seu papel na natureza.”

    Esse é o “x” da questão! Nós somos parte da natureza, não superior e nem inferior. A felicidade reside nisso, em aceitar os fatos…

  9. Perce, agora que eu descobri que você tem blog. Vou te perturbar um pouquinho aqui tambem.

    Em relação ao texto, na minha opinião, o ser humano, em geral, tem a necessidade do fascinio pelo sobrenatural e pelo insondavel. O desconhecido nos fascina. Alguns se mantêm no equilibrio, outros descambam para o devaneio puro. Mesmo com o atual estado de conhecimento, ocorre o fenômeno da ascensão das pseudociências e das pseudorreligiões, que sob a máscara do conhecimento arrebanham os sujeitos para as suas hordas.
    Realmente não é encarar a realidade concreta. Montaigne, se não me engano, nos faz lembrar que a vida tem aspectos muito enfadonhos. Nessa perspectiva, todos nós precisamos de uma válvula de escape, ou até mesmo de uma fuga de vez em quando. Não se trata apenas de fugir do tédio, mas também de preencher a nossa necessidade de dar sentido a algo que talvez seja desprovido de sentido, como a nossa existencia fisica.

    Tambem é dificil para o ser humano encarar o fato que mesmo que o nosso planeta exploda, o universo vai continuar existindo de uma maneira ou outra. Em verdade vos digo (hahahaha! brincadeirinha!) que o ser humano se acha o ápice da criação (hahahaha!). Somos diferentes? Sim, mas só fazemos o nosso papel. O mundo não existe para nos agradar e, sim, existe ainda apesar do que fazemos com ele.

    Divagações tolas! Mas como dizia uma professora minha: Encarar a relidade é dificil! Pensar dói!

    1. Olá, Erivelton.
      O blog é novo, começou em julho.
      Divagações parecem tolas. Mas é por meio da observação de um inseto que um naturalista compõe todo o quebra-cabeça da natureza.
      Obrigado por enriquecer este tópico com seus comentários.

  10. Realmente é impressionante o número de pessoas em geral, entre diversas classes sociais, que alimentam sua crença em algo sobrenatural.
    A carência dos seres humanos é muito grande, tornando-os presas fáceis da fantasia.
    Querem fugir ao invés de encarar sua própria realidade!

  11. Sabe, vc me fez lembrar daquele filme “O incrível homem que encolheu”. É tão angustiante pensar que nós todos somos apenas um grão de poeira no universo e que tão pouco, quase nada, acho mesmo que nada, representamos nesta cadeia cósmica. Será que a esse vazio, o homem, desde sempre, deu o nome de crença?

    1. Tânia, somos pequenos fisicamente, mas não no sentido de nossa complexidade. Parodiando Pascal, somos um grão de poeira no universo, como você diz, mas um grão pensante. A evolução da vida em nosso planeta atingiu um estágio fascinante, chegando a seres como nós, capazes de contar esta mesma história. Talvez sejamos instrumentos de que o universo dispõe para interpretar a si mesmo.

Comentar