Disney nos deixou órfãos

Nós, adolescentes, em algum momento, nos damos conta de que estamos perdidos na floresta.
E preferimos assim.

cinerella

Nas longínquas terras da Califórnia, enquanto as equipes de um estúdio mágico trabalhavam em um ousado projeto que viria a se chamar Fantasia, o bem-sucedido visionário Walter Elias, após muito insistir, conseguira convencer sua mãe a conhecer seu estúdio, com a intenção de mostrar-lhe, em sessão particular, o Branca de Neve. Os pais desse artista-empresário, que viria a ser chamado O mago da tela, não conheciam seus filmes e pareciam não se importar muito com a carreira do filho, que havia saído de casa, ainda adolescente, para se perder na floresta das novas oportunidades. Auxiliado por seu irmão mais velho, Roy, que se tornaria seu braço direito no estúdio, a necessária cabeça pensante voltada para o mundo perigoso das finanças, esse jovem aspirante a desenhista e a diretor de cinema foi agraciado pela boa estrela da sorte, que acabou coroando seu esforço incansável na busca pela perfeição e pelas inovações técnicas: até hoje, Walter Elias Disney é uma lenda do cinema.

Flora, sua mãe, nunca tinha entrado em um cinema. Filha do mundo sem encantamentos do interior dos Estados Unidos, ela não conseguia ver um longa-metragem inteiro, por isso Walter exibiu Steamboat Willie, primeiro curta-metragem sonoro do estúdio, que havia projetado e popularizado o simpático ratinho Mickey. Ao ver o filme, do qual Walter se orgulhava com razão, ao contrário de toda a dinâmica da sucessão de imagens, a mãe não pareceu muito animada. O astro do estúdio, que protagonizaria em seguida um dos episódios mais marcantes de Fantasia, “O aprendiz de feiticeiro”, era ninguém menos que Mickey Mouse – criado, a pedido de Walter, pelo animador Ub Iwerks, seu amigo, depois seu rival, depois seu amigo de novo. O camundongo mais famoso das telas tornara-se um alter ego de Walter, além de seu personagem favorito e mais rentável. “O aprendiz de feiticeiro” tinha como fundo musical o belíssimo poema sinfônico de Paul Dukas, o que não impedia que Mickey dissesse alguma coisa de vez em quando.1 Walter perguntou à mãe o que ela havia achado, afinal. “Não está tão mau”, ela teria respondido. “Mas seria melhor mudar a voz desse ratinho. A voz dele é horrível e parece a de uma menininha!” – ela não sabia que o próprio Walter era o entusiasmado dublador de Mickey.

Esse homem de quase 40 anos entristeceu-se de maneira anormal. Ficou abatido. Deprimiu-se. Passou uns dias dormindo no estúdio, sem querer falar com ninguém. Flora morreu nesse mesmo ano. Walter mandou cortar as falas de seu personagem principal. O filme foi lançado com essa versão. Mickey estava mudo.

Quem nos conta esse episódio é o biógrafo Marc Eliot no seu Walt Disney, o príncipe sombrio de Hollywood. Príncipe de Hollywood: seja como for, que bela expressão! Mas esse fim de mundo próximo a Los Angeles nada tinha de um reino encantado. E foi outro mestre da sobrevivência, Charles Chaplin, quem aconselhara o jovem produtor: “Aqui, em Hollywood, todos querem tomar tudo de todos.” Apesar de toda a dura experiência de vida nesse ambiente selvagem, entre fracassos arrasadores e espasmos de sucesso, eis que a crítica à voz de seu simpático ratinho, proferida por uma senhora interiorana, quase aniquila a autoconfiança desse poderoso empresário.

Walter nunca tivera um bom relacionamento com os pais, marcado pela ausência de afeto e por outros desinteresses e distâncias. Isso se refletiu claramente em sua obra, tendo influenciado na escolha de Mary Poppins, dos originais da australiana Pamela Travers, como adaptação cinematográfica do que seria seu canto do cisne, uma história em que ele se reconheceu na figura do menino, Michael. Na primeira filha, Jane, viu a representação de seu querido irmão Roy. O pai austero, na figura do banqueiro, de óbvio nome Mr. Banks, e a mãe submissa, pouco interessada nos anseios e na vida real dos filhos, eram, claro, seus pais.

Disney nos legou inúmeros órfãos: Branca de Neve é criada por uma rainha invejosa. Dumbo é filho de mãe solteira. Pinóquio tem um pai, mas não tem mãe. (No conto de Carlo Collodi, era Mestre Cereja o criador de Pinóquio. Antes de atirá-lo ao lixo, entrega-o a Mestre Gepetto dizendo: “Tome, veja o que pode fazer com esse traste.”) Cinderela, além de órfã, é humilhada por sua madrasta e pelas filhas dela. Peter Pan e seus amigos não têm família, moram em cavernas e em buracos de árvores. O jovem Wart, de A espada era a lei, adotado por Sir Hector, encontra a figura paterna em seu preceptor, o mago Merlin. Mógli é abandonado na floresta, tendo sido criado primeiro por lobos, depois por um urso e por uma pantera, pois a selva dos desenhos é rica em amigos leais que se arriscam uns pelos outros.

Mas o fato de que quase todos os personagens centrais de seus filmes sejam órfãos pode também ser a causa da identificação dos adolescentes com essa condição, uma fase em que não mais se veem na criança e ainda não possuem a autonomia do adulto. Sentem que seus pais não são os mesmos, esses que antes tinham que pegar-lhes a mão para atravessar a rua, e não compartilham inteiramente de seu mundo novo por se consolidar. Nós, adolescentes, em algum momento, nos damos conta de que estamos perdidos na floresta. E preferimos assim.

Disney foi, individualmente, a pessoa que mais ganhou prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, o Oscar: 25 ao todo. E talvez não soubesse a quem agradecer toda vez que voltava ao palco para recebê-los. Por que não aos talentosos desenhistas de seu estúdio, que lhe serviram como os anõezinhos também ajudaram sua Branca de Neve, de alguma forma protegendo-o de sua vida madrasta?

Disney tinha origens no interior e não era um homem letrado. Depois de assistir ao primeiro trecho filmado da Sinfonia Pastoral, uma das peças que compõem Fantasia, exclamou: “Nossa, isso vai fazer de Beethoven um sucesso!”

(O tema desenvolvido acima integra a palestra Veja de novo: relações entre textos visuais e narrativos, apresentada recentemente.)

Leia mais sobre o tema: Viajando com Peter Pan

As novas invasões inglesas

5 respostas para “Disney nos deixou órfãos”

  1. Perce

    Fiquei maravilhada ao saber da historia de deste homem e como foi que tudo começou… foi muito interessante… ainda hoje emociono, sempre quando revejo com os meus filhos os seus filmes…
    Sabe o que eu percebi, que algumas destas pessoas de sucesso, digo do setor que tem a ver em transportar sentimentos às pessoas, por meios da musica, filme e leituras… elas na verdade dizem o que sentiram ou sentem, acho que por isso que nos emocionamos tanto, pois acabamos nos identificando ou muitas vezes apenas nos sensibilizando com a emoção ali colocada… adorei… obrigada.
    Um grande abraço.

  2. No outro texto sobre o Peter Pan, eu já havia dito que as produções dos estudios Disney, me fascinavam muito no passado quando era vísivel a mão do dono. As vezes, imagino que histórias ele criaria com a tecnologia do 3D. A Disney sente falta dessa sensibilidade de seu idealizador, visto pelas mancadas que já deu e pelo destaque da sua afiliada a Pixar Estudio. Realmente Disney nos deixou órfãos de sua magia.

  3. É, Perce, a escolha das personagens deve ter sido mesmo por identificação dele, não sabia da história dele. Mas são clássicos, não? A abordagem junguiana fala de alguns dos contos de fadas, destes arquétipos que se repetem nas histórias. E de como os heróis, em geral, têm uma origem familiar complicada, muitas vezes órfãos.

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