Beckett – Malone morre

As palavras adquirem poder próprio quando manipuladas por um mestre como Samuel Beckett, esse irlandês a um tempo obscuro e brilhante, que sabia, como poucos, tecer uma admirável linha de equilíbrio entre o sentimentalismo e a observação objetiva. No trecho a seguir, o personagem, Saposcat (ou simplesmente Sapo), revisita sua infância, quando era ignorado na escola por ser pensativo e silencioso, o que passava aos outros a impressão de que era um menino limitado e incapaz de alguma sensibilidade. (Malone morre é o único livro que conheço em que o personagem central muda de nome no meio da narrativa: Saposcat, por mero capricho do autor, passa a se chamar MacMann.)

Sapo amava a natureza, interessava-se pelos animais e pelas plantas e levantava os olhos ao céu, de dia e à noite. Mas ele não sabia olhar para essas coisas, os olhares que ele lhes dispensava não lhe ensinavam nada sobre elas. Fazia confusão ao identificar os pássaros e as árvores, e não conseguia distinguir os cereais uns dos outros. Não associava o açafrão à primavera, nem os crisântemos ao outono. O sol, a luz, os planetas e as estrelas não consistiam em problema para ele, nem o maravilhavam.

Essas coisas estranhas e às vezes belas, que ele teria ao longo da vida em volta de si e que por momentos desejaria conhecer melhor, ele as aceitava com uma espécie de alegria por não compreendê-las, como tudo o que vinha inchar o murmúrio: Você é um simplório. Mas ele adorava o voo do gavião, e sabia distingui-lo dos outros voos. Imóvel, ele acompanhava com os olhos os longos voos perfeitos, a espera trêmula, as asas que se levantavam para a queda a prumo, a subida raivosa, fascinado por tais extremos de gana, orgulho, paciência e solidão.

Samuel Beckett, Malone morre.

Conheça um genial contemporâneo de Beckett na agitada Europa das grandes guerras.

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