Projeto esvanecendo-se. Nossa juventude em fatias de espaço-tempo

Uma festa opaca e branda.
Orientada por outra magia.

paul-klee-o-balao-vermelho-1922-1A morte da Maga assinalou, para nós, o fim de uma era. Nosso espaço-tempo, em fatias. Tínhamos todos mais de trinta agora. E ela, sendo uma de nós, era também uma testemunha sobrevivente da década anterior, dos nossos vinte anos. Nossos impulsos, gargalhadas, excessos e solidões pareciam renovar-se nas festas que a Maga, solitária, arranjava em sua casa. Com isso, ela queria estender, ela fez estender nossa primeira juventude a um futuro sem limite, que seria sempre nosso de alguma forma. Todas as festas em sua casa bonita marcaram nossas vidas, nossas fatias de espaço-tempo. No dia de seu funeral, mesmo aqueles que não simpatizavam muito com ela (e os medíocres que riam dela às escondidas, fazendo piadas de gordinhas) sentiam-se gratos por todos aqueles encontros, quando as canções e outros sinais próprios de cada fase, marcando nossa memória entre variações do álcool, faziam crer que poderíamos continuar sendo como éramos, que só dependia de nós, principalmente de nossa motivada anfitriã, que nossa juventude jamais terminasse. Alguns entre nós, mesmo em momentos festivos como aqueles, aproveitavam para fazer negócios. Outros, para reabastecer seus egos. Eu parecia ser o único capaz de registrar tudo, e alguns esperavam isso de mim. A Maga foi um centro, como nos sistemas cósmicos, de forte intensidade gravitacional.

Mario Bunge, filósofo da ciência, disse que, para quem estuda Biologia, a morte não é um mistério. Pode não ser. Mas não é o caso. Isso não importa muito, que não podia impedir nossa tristeza

No velório da Maga, estavam todos abatidos. Sem exceções. Essas horas mornas suspensas em nossas vidas, trágicas em nossa perspectiva, começaram no fim da tarde e estenderam-se por uma parte da noite. Nenhum de nós queria ir embora. Mesmo os nossos conhecidos mais displicentes mais inconsequentes mais egoístas. Era uma última reunião um último encontro uma última festa, sem música sem movimento, quase em silêncio. Uma festa opaca e branda. Orientada por outra magia.

A Marjorie estava conversando com umas amigas, perto do caixão – a Rose Levy, a Tatiana Siqueira e a Gisele Porto, se bem me lembro. E eu saí para respirar a noite fresca, o que ainda era a vida lá fora. O lugar era bem planejado, gramado entre passarelas estreitas, arbustos arredondados, árvores pequenas, plantas com flores amarelas e roxas pontuando o jardim, pequenos lagos artificiais cruzados por pontes de alvenaria branca que nos permitem atravessar com serenidade essas porções de espaço e de tempo entre uma parte e outra, entre um meu pensamento e outro, entre uma lassidão mental minha… e outra. Avistei a Queen ali perto, encostada a um muro. Sozinha ao lado de uma coluna baixa, fumando. No topo dessa coluna delicada e sem enfeites, uma lâmpada redonda, luz amarelada, quase cor de âmbar. Cheguei mais perto, e um grilo parou de cantar. Ela estava de braços cruzados, uma perna dobrada de lado. Blusa escura, não sei de que cor, mangas arregaçadas até os cotovelos, jeans justo, azul-escuro, desenhando suas pernas esguias, botinhas pretas. Reflexos de um spot sobre os laguinhos em seu rosto, movimentos de luz muito discretos, água quase parada. Queen, me diga. O que a Maga te contou? Ela me olhou neutra, com olheiras. Seus cabelos lisos, caídos sem força, cortados reto, fendidos ao meio, destacavam sua testa pálida e bonita. Eu não falava muito com a Maga nesses últimos tempos, querido. Não eram muitas conversas, ela não chegou a ser minha confidente. Nem eu dela. Entende? Sei, entendo. Mas ela nunca deu nenhum sinal dessa doença dela e… não falava nada sobre alguém mais, como a gente vinha pensando? Não. Não mesmo. Fui pega de surpresa, como todo mundo. Um vento muito leve passou. Será que a Queen sabia sobre o namorado misterioso da Maga, sobre a Maga ter alguém em segredo? Minha intuição nunca foi grande coisa, mas eventualmente parece mostrar-se algo mais aguçada, não sei. Não sei mesmo. Nesse momento, lembrei-me de algo que a Mônica Rosa dissera uma vez sobre não poder confiar muito na Queen. Eu sentia que ela, a Queen, estava me escondendo alguma coisa. Só porque me olhou mais de uma vez sem piscar sem sorrir sem se mover. Só virando o rosto para soltar um pouco de fumaça.

Projeto esvanecendo-se

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18. Liberdade à força – sequência

 Guia de leitura

Imagem: Paul Klee. O balão vermelho (detalhe superior). 1922.

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