Projeto esvanecendo-se. Pequena deusa simples

Nada era estranho na Grécia Antiga.
Era outro mundo, as coisas eram outras coisas. Eles inventavam um monte de histórias, uma quantidade de deuses e deusas, e ninguém estranhava nada, era tudo lindo e assustador.

asher-brown-durand-estudo-da-natureza-rochas-e-arvores-1856-1Josie, eu confesso que não consigo adestrar minha imaginação adolescente avulsa abundante quando estou assim com você, já disse isso, lembra? Fala, ahn? Fala de novo. Você a minha frente, num lugar longe, longe no tempo, perto de umas rochas e umas árvores tranquilas, você com uma túnica até os joelhos, uns enfeites e sandálias trançadas, uns detalhes nos cabelos, coisinhas delicadas nos cabelos, uma deusa leve, otimista. Você estende a mão, eu também, a gente se toca, feliz. Uma pequena deusa com cara de… pode rir, não me importo, eu adoro imaginar assim mesmo. Não, não tô rindo de você, lindo. Verdade. Só adorei também. Você é meio assim, não é? Com essas coisas. Esse tipo de coisa. Não vejo ninguém me falando essas coisas. Por isso que eu acho meio engraçado. Só isso. Muito gostoso, viu? Que mais? Josie, olha. Chamar uma jovem bonita… Tch, ah! – gesto rápido de não-sou-bonita-não. Me escuta. Chamar uma jovem bonita de deusa é um clichê desgastado, muito sem graça até, e eu não tenho uma imaginação só minha. É sempre a repetição das coisas e coisas que mais ou menos eu sei. Ah, lindo, mas pouco me importa isso, que se dane, não precisa ter nada, que isso, só fica assim comigo, vem cá. Dois, três beijos alegres. E seu nome de deusa é… Deleitônima. Ah, é? Ahah. Como é? Deleitônima. Ela sorri, com suas covinhas, sua boca larga, dilatando as narinas. Palhaço. Que nome estranho. Nada era estranho na Grécia Antiga. Era outro mundo, as coisas eram outras coisas. Eles inventavam um monte de histórias, uma quantidade de deuses e deusas, e ninguém estranhava nada, era tudo lindo e assustador. Pena que apareceu o cristianismo depois. Sei, sei. Beijo entrecortado. Tento evocar a deusa enquanto sou dominado por sua boca. De lei tô ni na ma ma… Ela consegue sorrir enquanto beija, mais ou menos isso. Errou. Errei? De lei tô mi ma ni ma… Ahahahah, mas que bobo. Beijo contínuo agora. Breve, mas forte. Bem pegado. Acabou o beijo. Pequenos sorrisos. Quanta bobagem um homem encantado diz! Chega de brincadeirinhas. Chega de graça e de Grécia. Ela me olha, quieta, mas brilhando de viva, essa deusinha pobre. As covinhas à espreita, ao fim de seu sorriso, quase visíveis, querendo mostrar-se a qualquer momento. Não sei o que vai ser de nós, lindo. Fico pensando nisso. Que droga, viu? Que chato. Acho que eu te amo.

 … os deuses gregos representavam uma sociedade hierarquizada. Tinham competências e poderes bem definidos, cada um com seu limite, e mesmo o mais poderoso, não sendo onisciente nem onipresente, também tinha seus problemas. Nenhum deles era absoluto ou completamente transcendente – ou nada faria sentido…

Eu nunca tinha visto a Joss Stone quase comovida assim. Falou devagar, vi que ela estava meio sensibilizada. Não é bom que ela me ame. Mas é menos pior que seja assim. Que não seja um teatrinho uma trapaça um trote. Eu é que não conseguia corresponder a essa sinceridade dela, pressupondo que aquilo não fosse verdade. Que ela estaria interessada em alguma coisa. Mas não estava, como hoje sei. Não estava, nunca esteve. Então ela me disse, pela primeira vez, como diria ainda outras vezes, bem a sua maneira: “Que chato. Acho que eu te amo.” – e isso sempre me dava medo. A culpa era minha, claro. Não tinha nada que estar ali com ela. Não tinha que ter medo. Ou ficava com ela sem medo ou nada de nada. Porque eu sabia, sempre soube, que tudo tinha um preço. Tudo tem um preço. Imagine-se então essa pequena deusa simples, que não se considera bela, que não vê a si mesma como alguém especial, de uma sinceridade admirável automática ampla e imatura, acostumada a sua própria beleza real, sem alarde, um rostinho comum, que passa despercebido pelas ruas. Um rostinho que eu via de muito perto, muito, muito perto. Absolutamente lindo. Linda por não se importar com isso.

Projeto esvanecendo-se

16. Liberdade à força – sequência

14. Matéria básica e um resto de vinho  – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Asher Brown Durand. Estudo da natureza: rochas e árvores. 1856.