Projeto esvanecendo-se. Pequena deusa simples

Nada era estranho na Grécia Antiga.
Era outro mundo, as coisas eram outras coisas. Eles inventavam um monte de histórias, uma quantidade de deuses e deusas, e ninguém estranhava nada, era tudo lindo e assustador.

asher-brown-durand-estudo-da-natureza-rochas-e-arvores-1856-1Tatuagem na virilha direita. Uma borboletinha à qual deu um nome delicado e infantil. Uma palavra que, tanto quanto o endereço e o nome verdadeiro inteiro da Josie, naturalmente eu não posso revelar. (Uma pena, porque às vezes me pego muito ansioso e tenso, louco para contar tudo.) Eu não a chamaria Rosebud ou Claire, nada assim acovardado, sob referências, mas garanto que é um nome breve e simpático, desses que nos fazem estranhar e sorrir quase ao mesmo tempo, nessa sequência sutil. Eu me divertia com o nomezinho forçado dessa lepidóptera de decalques (começa com A) enquanto examinava de perto os traços finos e as cores fracas de suas asinhas desbotadas divididas desdobradas entre a coxa e a lateral do baixo-ventre. Com o tempo, }A{ deixou de me interessar, perdeu minha atenção. Eu nem pensava mais nesse enfeite de criança dela – a não ser que, por um motivo qualquer, estivessem meu rosto e meus olhos muito perto desse recorte específico de sua nudez. Mas como uma tatuagem não pode ser apagada, }A{ sempre me recordava as coisas que não podem ser revertidas, como são todas as coisas do tempo, que são todas as coisas que participam de nossas vidas, o tempo todo, as coisas do mundo, como já se sabe e já se espera. Podemos negar e omitir, e as pessoas futuras jamais saberão do que não queremos que saibam. Mas o fato é que essas tais coisas já aconteceram – por isso é que não podem ser apagadas. Nunca. E não é porque o tempo passou. É porque aconteceram. Sejam atos de heroísmo ou de vergonha, estão feitos.

Josie, eu confesso que não consigo adestrar minha imaginação adolescente avulsa abundante quando estou assim com você, já disse isso, lembra? Fala, ahn? Fala de novo. Você a minha frente, num lugar longe, longe no tempo, perto de umas rochas cor de tijolo, quase amarelas, e umas árvores tranquilas, você com uma túnica até os joelhos, uns enfeites e sandálias trançadas, uns detalhes nos cabelos, coisinhas delicadas nos cabelos, botões de pilriteiros talvez, uma deusa leve, otimista. No alto de um aclive suave. Perto de mim, uns passos acima. Trilha estreita, terra avermelhada bonita, margens com ervas rasteiras. Eu fechava os olhos em sua cama enquanto descrevia inventava sonhava. Você estende a mão, eu também, a gente se toca, feliz. Uma pequena deusa com cara de… Pode rir, não me importo, eu adoro imaginar assim mesmo. Não, não tô rindo de você, lindo. Verdade. Só adorei também. Você é meio assim, não é? Com essas coisas. Esse tipo de coisa. Não vejo ninguém me falando essas coisas. Por isso que eu acho meio engraçado. Só isso. Muito gostoso, viu? Que mais? Josie, olha. Chamar uma jovem bonita… Tch, ah! – gesto rápido de não-sou-bonita-não. Me escuta. Chamar uma jovem bonita de deusa é um clichê desgastado, muito sem graça até, e eu não tenho uma imaginação só minha. É sempre a repetição das coisas e coisas que mais ou menos eu sei. Ah, lindo, mas eu não ligo, que se dane, não precisa ter nada, que isso, só fica assim comigo, vem cá. Dois, três beijos alegres. E seu nome de deusa é… Deleitônima. Ah, é? Ahah. Como é? Deleitônima. Ela sorri, com suas covinhas, sua boca larga, dilatando as narinas. Palhaço. Que nome estranho. Nada era estranho na Grécia Antiga. Era outro mundo, as coisas eram outras coisas. Eles inventavam um monte de histórias, uma quantidade de deuses e deusas, e ninguém estranhava nada, era tudo lindo e assustador. Pena que apareceu o cristianismo depois. Sei, sei. Beijo entrecortado. Tento evocar a deusa enquanto sou dominado por sua boca. De lei tô ni na ma ma… Ela consegue sorrir enquanto beija, mais ou menos isso. Errou. Errei? De lei tô mi ma ni ma… Ahahahah, mas que bobo. Beijo contínuo agora. Breve, mas forte. Bem pegado. Acabou o beijo. Pequenos sorrisos. Quanta bobagem um homem encantado diz! Chega de brincadeirinhas. Chega de graça e de Grécia – graças a ela, graças novas e grécias antigas. Ela me olha, quieta, mas brilhando de viva, essa deusinha pobre. As covinhas à espreita, ao fim de seu sorriso, quase visíveis, querendo mostrar-se a qualquer momento. Não sei o que vai ser de nós, lindo. Fico pensando nisso. Que droga, viu? Que chato. Acho que eu te amo.

… os deuses gregos representavam uma sociedade hierarquizada. Tinham competências e poderes bem definidos, cada um com seu limite, e mesmo o mais poderoso, não sendo onisciente nem onipresente, também tinha seus problemas. Nenhum desses deuses era absoluto ou completamente transcendente – ou nada faria sentido…

Eu nunca tinha visto a Joss Stone quase comovida assim. Falou devagar, vi que ela estava meio sensibilizada. Não é bom que ela me ame. Mas é menos pior que seja assim. Que não seja um teatrinho uma trapaça um trote. Eu é que não conseguia corresponder a essa sinceridade dela, pressupondo que aquilo não fosse verdade. Que ela estivesse interessada em alguma coisa, eu não sabia o quê. Mas não estava, como hoje sei. Não estava, nunca esteve. Então ela me disse, pela primeira vez, como diria ainda outras vezes, bem a sua maneira: Que chato. Acho que eu te amo… – e isso sempre me dava medo. A culpa era minha, claro. Não tinha nada que estar ali com ela. Não tinha que ter medo. Ou ficava com ela sem medo ou nada de nada. Porque eu sabia, sempre soube, que tudo tinha um preço. Tudo tem um preço. Imagine-se então essa pequena deusa simples, que não se considera bela, que não vê a si mesma como alguém especial, de uma sinceridade admirável automática ampla e imatura, acostumada a sua própria beleza real, sem alarde, um rostinho comum, que passa despercebido pelas ruas. Um rostinho que eu via de muito perto, muito, muito perto. Absolutamente lindo. Linda por não se importar com isso.

Apesar de citar elementos da Grécia antiga, o que é a coisa mais banal básica didática e conhecida por todos em toda parte, não havia nenhum esnobismo em minha fala nem na estética esboçada em minhas simulações. De verdade, não. O fato é que essa garota ignorante e carente me inspirava de outra maneira. Eu queria era me livrar de tantos conhecimentos que não me ajudavam em nada e já estavam longe de ser uma daquelas coisas que-eu-mais-tinha. A Josie não precisava disso. Vivia muito bem sem isso. E me fazia relaxar dessas patéticas pretensões ditas intelectuais. Maquiavel uma vez escreveu… O quê? Maquiavel. Ahn. Ele escreveu que… que… Pouco me importa. Que os homens se conquistam ou se destroem? Mas ela reage com simpatia. Pouco curiosa, muito carinhosa. Gosto dessas coisas que você sabe, gosto de ver você sabendo essas coisas, você sabe uma porção de coisas, não é? Mas essas coisas que-eu-mais-sei fazem de mim um tolo pior que o Fausto. Ao menos me sinto bem em constatar isso. Respirar fundo, amigo. Tente sorrir um pouco, sem nenhuma razão. Eu assumia, ali, com a Josie, a versão mais simples de mim mesmo.

… Piet Mondrian confessava que nunca se sentia livre, que sempre havia algo que o pressionava a continuar. Mas eu queria me livrar disso também. Não queria ser pressionado a continuar, queria reter comigo apenas eu mesmo…

E essas bobagens imaginativas, próprias de quem se reconhece encantado, equivalem ao gosto pelos contos de fadas e pelas histórias maravilhosas e pelos episódios mágicos ensinados nos livros religiosos: algo que nunca aconteceu e nunca acontecerá. Recaídas de nossas concepções infantis, que tentam traduzir essa inocência residual, no fundo pedindo ajuda, amedrontada, sustentando, como pode, um desejo insensato pelas coisas como elas não são e como elas jamais haverão de ser. Um mundo perdido é um mundo que nunca antes possuímos, apenas porque não existiu. Um mundo que não se perdeu, porque nunca foi. Um mundo no qual nunca vivemos – e que ironicamente projetamos no passado, ao contrário do que seria natural: projetá-lo no futuro. Até isso é contra a vida. A Josie entre as rochas antigas e as árvores frescas de um paraíso helênico só podia mesmo render um sorriso solidário dela – e uns beijos mais fortes, vá lá. A Josie, à imagem da Joss Stone, por si só uma Joss baixinha e menos glamurosa, encarnada à minha frente, à frente de meus sonhos inventados, com a perspectativa de que as coisas talvez pudessem encaminhar-se conduzir-se apontar a algum desfecho tranquilo e desejável, próximo ao ideal e à beleza, todas essas imagens e seus arranjos denunciavam um incômodo sintoma de que eu não me completara adequadamente em mim mesmo. Essa beleza é imaginária. Uma ilusão incompatível com um adulto. Longe das longas e variadas narrativas mitológicas ou das tragédias clássicas provindas dessa fragmentada região insular a um canto do Mediterrâneo, não havia senão a vida real, com a força simples de sua concretude, distorcida às vezes por alguma fragmentada região mental geradora de minhas ideias, a um canto de minha visão mediana, atravessando cacos e se lançando à frente, avançando talvez rumo ao negro. No mais, essas imagens deliciosas não passavam de outro sinal indisfarçável de que eu não estava bem.

Projeto esvanecendo-se

18. Nossa juventude em fatias de espaço-tempo – sequência

16. Os rapazes, os homens, a guerra  – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Asher Brown Durand. Estudo da natureza: rochas e árvores. 1856.

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