Coisas que ninguém viu nos contos de fadas

1-os-sete-anoes-1Os pais deixam os filhos pequenos na floresta para que morram de fome. João e Maria conseguem voltar e, milagrosamente, ainda amam os pais. Os pais, frustrados, tentam de novo e desta vez conseguem: os pequenos realmente se perdem. Depois de quase morrerem nas mãos de uma senhora solitária e louca, eles a matam, roubam suas joias e voltam para casa. Milagrosamente, eles ainda amam os pais. E os pais se alegram com sua volta. Os pequenos assassinos estão carregados de joias, roubadas da vítima. Todos ficam felizes.

* * *

O lobo está sozinho com a menina indefesa, no meio da floresta, sem ninguém por perto. Pode atacá-la ali mesmo, sem nenhum impedimento, sem nenhuma testemunha. Mas prefere trapacear, fazendo-a tomar outro caminho para que ele próprio, por um atalho, chegue antes à casa da avó dela, onde mais tarde, depois de uma sessão de fingimento mal ensaiado, tenta dominá-la.

Preliminares? Ou esse lobo gosta mesmo é de teatro?

* * *

Todo dia os sete anões trazem da mina sacos de diamantes e pedras preciosas. Com alguns meses de trabalho, certamente teriam se tornado os homens mais ricos da Europa. Mas moram numa casinha tosca. Usam roupas remendadas. E não tinham faxineira até a coitada da Branca de Neve chegar.

* * *

A madrasta da Rapunzel foi uma precursora da boa forma. Escalar uma torre daquela altura subindo por uma corda de tranças de cabelos, depois fazer rapel na volta não é para qualquer um. a mulher devia estar em ótima forma. Madrasta fitness.

* * *

Entendendo que não conseguirá persuadir Wendy, Peter Pan recorre ao seu plano B: a minúscula fada Tinker Bell, que deixa cair sobre eles um pó mágico. Todos passam a ter pensamentos felizes e adquirem o dom de voar. Wendy, até então ajuizada e boa argumentadora, se esquece imediatamente de tudo o que dizia um minuto atrás. Agora todos estão prontos para a viagem. Já estão, de alguma forma, viajando em si mesmos, encantados e entregues, aptos a longos e arriscados voos – afinal, vão enfrentar piratas armados, deixar a proteção de sua casa aconchegante, correr riscos. Aspirar o pó mágico afastou seu medo, aniquilou sua consciência. Peter Pan drogou as crianças.

* * *

Nos bons tempos dos contos de fadas, era muito fácil enganar os outros. Um leão jogava às costas uma pele de cordeiro e se fazia passar por um. Um lobo imitava horrivelmente a voz da mamãe cabra e tentava entrar na casa dos cabritinhos. Outro lobo enfiava uma touca na cabeça, uns óculos por cima do focinho comprido e pronto: “Não me reconhece, querida? Sou a sua vovozinha.” O mais divertido mesmo é que a personagem-vítima ainda franze a testa, leva a mão ao queixo, desconfiada, como se pensasse: “Hum… Há algo estranho por aqui…”.

Viajando com Peter Pan

Constanza

Imagem: Walt Disney Productions. Branca de Neve e os sete anões. 1937.

Uma resposta para “Coisas que ninguém viu nos contos de fadas”