Projeto esvanecendo-se. Liberdade à força

Mas não procurei nenhum deles. Não lhes enviei e-mails, não telefonei.
Deixei que dezembro, com seus dias espessos, passasse.

michael-goldberg-abajur-e-vaso-1963-1Minha vida agora era outra. A Marjorie saía para trabalhar. Eu ficava em casa o dia todo. Mesmo quando lecionava, dispunha de algumas manhãs livres. Mas agora tinha de me acostumar com todas as manhãs livres. Todas as tardes. Todas as noites. Não é bom viver assim, tão livre. Não enquanto a Marjorie passa o dia nesse escritório de advocacia onde, por todas as referências, ela personifica uma perfeita competente admirável secretária assistente. Perfeita e preocupada. Proativa, que eu também sei que ela é. Tudo que um líder empreendedor patrão pode desejar. Para um advogado, nem se fale. Além disso, confiável. A toda prova. Eu também me considerava confiável e a toda prova até o dia em que o Valério da Matemática deixou-me a par de todos os boatos excitantes contra mim. Até então, eu era mesmo confiável, que os boatos não eram fatos. Depois, quando me sentia o próprio portador heroico da verdade, o sobrevivente ressentido da resistência moral, prejudicado por gente esperta e aproveitadora, conheci, sob aquele dia de nuvens, a garota triste que seria, em pouco tempo, minha improvável amante. Minha felicidade nervosa e renovada. Minha mentira mais linda.

Eu não sabia ainda o que fazer para voltar à ativa. Tinha perdido minhas conexões, que já eram pouquíssimas. Dificilmente encontraria aulas naquela época do ano, quando já se encontrariam fechados os contratos, organizados os horários e definidos os corpos docentes. Como eu trabalhava nisso há muito tempo, sem interrupção, sem precisar me preocupar em procurar aulas em parte alguma, e como nos últimos anos, para piorar, vinha me dedicando com exclusividade a uma única instituição, eu me via completamente fora de forma quanto à maratona de procurar trabalho. Tinha que procurar frutas escondidas no alto das copas. A árvore toda caiu.

… Jean-Paul Sartre postulava que deveríamos encontrar um sentido para nossas vidas, já que a vida não apresenta sentido algum. Albert Camus defendia que isso era desnecessário: que a vida não tinha sentido mesmo e que simplesmente deveríamos aceitar isso…

Pensei em colegas que poderiam me ajudar com uma vaga de docente em escolas de ensino médio, talvez numa dessas cidades próximas, já que a disputa aqui costuma ser agressiva e medíocre. Mas não procurei nenhum deles. Não lhes enviei e-mails, não telefonei. Deixei que dezembro, com seus dias espessos, passasse. Eu quase adivinhava que esses colegas que me vinham à mente, entre imagens rápidas, nem sabiam do que tinha acontecido comigo. Que eu, um dos professores mais ativos e atarefados da instituição, com uma laboriosa diversidade de matérias, desde a mais comum, Compreensão de textos, aplicada a quase todos os cursos, até a específica Semiótica, com mínima carga horária no curso de Educação artística, estava drasticamente parado. A não ser que fossem próximos de um desses tipos muito bem informados, de preferência maledicentes, não teriam ainda essa notícia, no mínimo curiosa, sobre mim. Imagino que reagiriam com alguma interjeição de surpresa, talvez um palavrão inofensivo, desses que não valem mais nada, mas que nos agrada e alegra pronunciar, bem-humorados e autoconfiantes. Que bosta, não é?

Minha forçada ociosidade fez surgirem hábitos aos quais eu me dedicava enquanto ainda percebia, em silêncio, dissimuladas vibrações de culpa. Caminhar e correr. Mexer no jardim. Internet por mais tempo. Ler mais, o que era só o agravamento de um entranhado hábito em curso – em curso desde que aprendi a decifrar o código absurdo que usamos para registrar e repassar ideias. Convivia em tempo integral com a asseada Coco Chanel, que aliás preferia alienar-se docemente, sabendo-me seguro e próximo, indo se acomodar a algum canto, a deixar-se adormecida boa parte do tempo. Seguro. No aconchego do lar. Na casa que pertence a meu sogro.

Enquanto essas atividades me ocupavam, minhas caminhadas e meus grifos em páginas novas, eu não conseguia evitar uma incômoda impressão de que minhas funções como professor profissional e pessoa não eram e não seriam mais as mesmas. Eu tinha de voltar a trabalhar, fosse como fosse. Com janeiro a meio, o verão entrecortado por tons arroxeados no céu, entre o entardecer e as primeiras estrelas, nas proximidades do bairro industrial, preparei cópias de meu currículo, cuidando de esperanças mais ou menos mortas. Eu olhava esses papéis, um cego de olhos esgazeados. Sem nenhum interesse. Olhava-os, por nada. Há pouco mais de dez anos, com frescas lembranças de minha formatura e de meus colegas de faculdade, eu entregava meu breve histórico profissional em finas pastas de plástico de cores discretas. Esse cuidado ingênuo, quando revisto, inspirava-me uma patética desagradável amargurada pena de mim mesmo.

Projeto esvanecendo-se

19. Do que eu era – sequência

17. Nossa juventude em fatias de espaço-tempo – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Michael Goldberg. Abajur e vaso. 1963.

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