Fingindo como adulto

O presente de estar vivo

Não estou escrevendo, estou desenhando. Não sabia escrever ainda. Apenas imitava os adultos, fingindo. O bastante para me orgulhar da foto, mostrada por meu pai dias depois, quando a trouxe do laboratório de revelação. Lembro-me (como é possível me lembrar disso?) que sorri ao vê-la. Sabia que iriam acreditar que eu estava escrevendo de verdade, tinha certeza de que aquilo convenceria a todos, facilmente. Só mais tarde pude entender melhor o tempo. Entender que ninguém saberá meu nome no futuro, muito menos o que pensei naquele dia. Minha língua se transformará tanto a ponto de tornar-se irreconhecível, e as palavras que escrevo agora serão intrincados sinais misteriosos. Misteriosos como são agora. Como foram sempre, variando na escrita de todos os povos, em todos os tempos. Mas isso veio muito depois. Eu me lembro de ter gostado muito da foto, vendo-a em minhas mãos. Eu lembro que sorri.

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