As aves marinhas sempre sabem quando devem partir

Muro baixo, de pedras claras, servindo de proteção, a meio caminho do topo da montanha, frente ao oceano. Som de aves marinhas. Altura própria dessa montanha. Encostas de uma elevação verde, de arbustos, algumas árvores e forragens. Para chegar até ali, uma estradinha de areia dura. Encontro-me junto ao muro, essa mureta pela cintura, ante o espaço aberto de céu e mar, eu em silêncio e sem reação, no intervalo desse grande declive que lá embaixo se torna, gradualmente, a praia. Um dia muito claro. A claridade estreita meus olhos. Som intermitente de aves marinhas. Vento em meus cabelos, em meu rosto, mas não muito agradável. Apenas não é muito agradável. Não compreendo por quê.

Então surge, bem perto de mim e sem que eu a tenha visto chegar, uma jovem que conheci há algum tempo, entre raras ocasiões, caprichos e arranjos do que chamamos acaso. Som distante e próximo de aves marinhas. Cabelos negros e lisos, pouco agitados pelo vento, esse mesmo vento que me parece tão forte e desconfortável.

“Você se lembra de mim?”, ela inclina um pouco a cabeça, procurando meu rosto, que continua voltado para o mar.

“Claro. Eu me lembro.”

“De meu nome?”

“Claro que sim. Por que está dizendo isso?”

Tento ser agradável, quase lhe sorrio. Mas não consigo sorrir. Som quase constante de aves marinhas, um som antigo e intermitente. Meu rosto continua voltado para o horizonte do mar. Penso estar sorrindo, assim mesmo. Mas não estou. Espero que ela me compreenda. Que me perdoe. Não gosto de ser desagradável.

“Obrigada por ter vindo”, ela diz, tranquila.

Isso me soa estranho. Estranho porque foi ela quem veio. No instante seguinte, percebo que estamos ali porque combinamos um encontro. Sim, é isso. E eu fui. Eu vim. Isso explica que ela agradeça por eu ter vindo. Certamente temos uma memória forte um do outro. Por tudo, tão breve e tão intenso, que vivemos juntos. Som de aves marinhas. Apenas tenho a sensação incômoda de que minha ingenuidade nunca passa.

“Mas você não disse mais nada”, declaro em tom interrogativo, confuso. “Por que queria que eu viesse?”

Ela toca suavemente meu antebraço com os dedos. Um mínimo contato, mas sempre significativo vindo dela.

“Vamos andar um pouco”, ela sugere, amável.

Seguimos por essa trilha de areia, margeando a mureta e os arbustos logo acima. Faço o possível para não tocar nela.

“Faz tempo, você sabe”, ela começa.

“Alguns anos, sim. Não muito tempo, eu acho.”

“É. Você ainda está lá, na faculdade?”

“Fui demitido no ano seguinte, quer dizer, seguinte ao ano em que nos conhecemos.”

“Que pena. Você era um professor muito querido.”

“Isso não importa muito para eles. E não importa nada agora. Você ia me dizer alguma coisa…”

Ela estreita os olhos contra a luz, move com um gesto simples a mecha de cabelos que o vento lhe devolve à frente do rosto periodicamente.

“Sim. Que nesse tempo todo, não sei como, tenho pensado muito em você. Não sei por quê. Não sei como. Não tento explicar isso a mim mesma.”

Isso me surpreende, porque, nesse tempo todo, também pensei muito nela. E também não sei explicar isso a mim mesmo.

“Fiquei sabendo do que aconteceu com a sua esposa.”

“É mesmo?”

“Como ela está agora?”

“Está bem. Tudo bem.”

Seguimos com calma, passos lentos, quase nos tocando lateralmente. As aves marinhas, passeando no céu sobre nossas cabeças, desaparecendo e retornando, inspiram-me alguma inocência natural, permanente.

“Queria que você soubesse que eu não costumo ter casos com meus professores. Nunca havia acontecido antes. Com ninguém. Você acredita em mim?”

“Acredito. Mas não faz diferença se tivesse, não tenho nenhum direito sobre você.”

Ela sorri de minha falta de jeito.

“Claro que não, eu sei. Mas acho que faz diferença sim. Você foi especial para mim. Ainda é. Você compreende que, quando duas pessoas se tornam especiais, elas se tornam únicas, e ficam acima de todas as outras?”

“Como é?”

“Quando uma pessoa é especial para a outra, quando duas pessoas são assim, uma para a outra, todas as outras pessoas caem para um plano inferior em relação a elas. Até meu filho pequeno, compreende? Tudo fica em segundo plano. São coisas diferentes. Nesses anos todos, eu sempre voltava a pensar em você. Sonhava com você.”

“Também sonhei com você”, confesso relutante, influenciado por suas palavras. “Tentei evitar isso ao máximo. Tentei esquecer.”

Som de aves marinhas. Elas desenham círculos, depois seguem em linha reta para algum outro espaço, fora de nosso campo de visão.

“Somos humanos”, ela diz, sem muita convicção. “Acontece. Aconteceu com a gente. Eu sei, isso não pode voltar. Você não diz nada, e isso me diz muito.”

“É difícil pensar em tudo. Não sei o que pensar, para ser sincero.”

“Tudo bem. Não precisa se preocupar. Foi bom ver você, ouvir sua voz.”

“Também gostei muito de ver você. E ouvir sua voz.”

“Não precisamos estender isso, não é? As coisas já estão claras para mim. Não estão para você?”

Não sei o que dizer. Não digo nada. Ela percebe minha insegurança, meu silêncio. Mostra-se carinhosa e compreensiva.

“Precisamos nos despedir”, ela conclui.

O vento cresce e volta a ser leve, agitando nossos cabelos.

“Quer que eu leve você até a praça da estação?”

“Quero. De lá, pego um ônibus.”

Nessa época do ano, fora da temporada de férias, a cidade costuma estar vazia. Posso levá-la para onde ela quiser. Mas parece que cada gesto significa uma vontade. Cada pequena proposta anuncia uma intenção. Por isso, prefiro deixá-la por perto e permitir que se desloque por sua conta.

“Queria que você soubesse do que estou fazendo.”

“Como? Seu trabalho?”

“Não, não é isso. Na minha rotina, nos meus dias, eu queria que você visse o que estou fazendo. Queria ouvir sua voz. Queria saber o que pensa de uma coisa e outra. Penso em você dia e noite. Não sei o que aconteceu. Isso cresceu sem você saber. Eu não deveria ter vindo. Melhor que você nem soubesse.”

“Não pense assim. Foi bom você ter vindo. Claro que sim.”

“Vou guardar por toda a vida o que vivi magicamente com você.”

“Eu também. E nunca mais vou lhe dizer que, como tem sido até hoje, tenho certeza de que vou continuar ouvindo sua voz.”

Estamos sozinhos em meio à estradinha de areia. A amplidão que inspiram o céu e o mar àquela altura da encosta contrasta com a margem quase escurecida da mata espessa que se ergue ao nosso lado.

“Precisamos nos despedir”, ela repete.

Observo que, nesse tempo recente de nossa conversa, quase não nos olhamos nos olhos. Ela se põe um passo à minha frente, de costas para mim, pega minhas mãos.

“Me abrace assim. Como você gostava de fazer.”

Seu corpo esguio se cola ao meu. Sinto o tecido leve de sua blusa. Sinto seus seios. Sua respiração. Som de aves marinhas.

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