Não parece intrigante que alguém não encontre sua própria casa no lugar onde ela sinceramente estava? Pode ser. Pode parecer, sim, a alguns, algo bem intrigante. Para mim, foi devastador.
Perguntei a um homem de boné azul, que molhava sua calçada e suas plantas com um longo esguicho, mangueira verde-clara, marcada em toda a sua extensão por duas finas listras brancas, bem ali onde… onde… Não havia mais esse onde como conectivo, pois eu não tinha ao que conectá-lo – minha casa não estava mais lá.
“O senhor, por acaso…”
Ele olhou para um lado e outro, demorando-se em seu silêncio de aposentado e como se lhe houvessem feito uma pergunta muito comprometedora, buscando uma informação secreta, que ele não podia fornecer, e disse que não, não tinha visto coisa nenhuma e não sabia do que se tratava. Além disso…
“… eu moro aqui há 25 dias.”
“Como? O senhor parece ter mais idade, me perdoe a franqueza.”
“O senhor veja como fala”, disse ele, não gostando nada de meu comentário e visivelmente irritado, pois me chamava de senhor, nessa entonação que os mais conservadores usam nas descomposturas. “Mudei para cá no mês passado”, ainda teve a paciência (ou a maldade) de me explicar. “As casas que estão aí são as casas que o senhor está vendo aí. Se a sua casa não está aí…”, uma careta de boca fechada que significava, como todos sabem: paciência, não posso fazer nada. Mirou o esguicho em outra parte da calçada, encolheu os ombros, baixou a cabeça. Ainda esse mais recente movimento de ombros, que significava: não tenho nada a ver com isso. Mas não me importei muito com ele. Estava muito velho. Logo teria de se mudar também, para sempre – ele só não entendia que tinha tudo a ver com isso.
Dobrei a esquina, continuei andando. Nessas mínimas e ridículas frações de segundo, tudo passou por minha cabeça, desde o vácuo quântico, que é o criador da matéria, até a possibilidade de que os contos de fadas por fim se houvessem tornado, horrivelmente, reais. Em hipótese, desfilava a possibilidade de que eu havia perdido drasticamente a memória, ou de que eu havia enlouquecido (esta, a que sempre me pareceu bem próxima), só não cabia a ideia de que estivesse sonhando, isso era claro para mim, pois o sonho pode ser traiçoeiro, e simular alguma forte impressão do real. Mas o contrário, não: a realidade nunca nos engana. E quando a impressão da realidade é assim, intensa, ela simplesmente é assim: intensa.
Passei por umas crianças que brincavam e tive vontade de lhes dizer: “Voltem para casa, não sabem que não se pode brincar aqui, na rua? É perigoso”. Mas por que eu lhes diria isso? Se voltassem para casa e deixassem esses seus brinquedos ao ar livre, que lhes proporcionavam alegrias triunfantes e amargas decepções, não estariam vivendo. E viver pressupõe jogar todos os jogos, antes de voltar para casa.
A casa, eu quase me esqueço. Tenho que encontrar a casa. A minha casa. Um ônibus passou bem ao meu lado, velocidade acima do normal, algo que, em princípio, sempre repudiei, porém agora eu o criticava por outro motivo: por não ter dado chance a que eu conseguisse ler claramente o nome do bairro no mostrador frontal. Lá vai ele, sempre voando. Tentando acompanhar o giro do planeta, pelo jeito. Só eu sei que não vai conseguir. Só eu sei, porque há outras pessoas por ali, e ninguém parece estar pensando nisso.
“Por favor…”, eu me aproximei com aquele ar de cordialidade submissa que trocam os estrangeiros perdidos com a cordialidade segura dos habitantes locais, sempre orgulhosos de saber tudo sobre seu meio, sobre seu bairro, sobre seu reino. “A senhora viu, nessa rua de trás, uma árvore alta, três vezes maior do que uma casa? Saberia me dizer se por acaso ela foi cortada ou…”
Essa mulher de meia-idade, eu a conheço um pouco, meio de vista, de ter cruzado com ela, por acaso, a caminho da quitanda, não lembro ao certo. Estava chegando com o que fosse algumas compras, um saco de papel pardo abraçado à lateral do torso.
“Ela podia ser vista daqui, entende? Sem dúvida. Era maior do que todas essas casas. Maior do que aquelas crianças, maior do que as pessoas idosas que ainda moram por aqui. Porque um dia as crianças não vão morar mais aqui, e os idosos também não. Mas essa árvore, essa árvore alta que…”
A vizinha, sisuda e de olhar percuciente, parece viver em estado de alerta, sempre desconfiando de tudo. Foi assim, muito desconfiada, que ela me fixou os olhos e ouviu (não sei com que nível de atenção) a minha pergunta. Certa vez, outro vizinho me havia dito que conhecera a família dela e ela própria quando pequena, estudaram na mesma escola, acho, e eu fiquei muito surpreso quando ele me contou que ela era uma menina alegre, que ria muito.
E então, de repente, arranhou-me uma memória bastante nítida sobre certo dia em que eu estava varrendo a calçada, e uma moça que fazia sua caminhada por ali diminuiu o passo, aparentemente admirada da altura dessa tal árvore que se mostrava bem à frente de casa.
“Que árvore linda…”, ela disse, quase sorrindo, detendo-se diante do objeto de seu fascínio, à margem da calçada. “Adoro árvores.”
Era jovem, delicada, pele bem tratada, corpo bem proporcionado, talvez resultado de atividades físicas regulares. Eu estava agachado, juntando umas folhas, acabara de arrancar uma erva estranha do gramado estreito. Primeiro, eu não disse nada, quase sorri também, mas acabei gaguejando um eh, um ahn, e por fim:
“Essa árvore?”
Claro, que outra poderia ser? A mais alta, a única ali, bem à nossa frente, e era para onde ela dirigia seu olhar, para o topo, para os galhos lá em cima, os mais altos, vibrando o mínimo com a brisa.
“Eu não sabia que iria crescer tanto assim e… Solta muitas folhas, sabe? E a raiz, às vezes, trinca as lajotas da calçada, está vendo?”
Remorsos depois. À noite. Por que tinha de ser, em tudo, negativo? Ela não estava sendo insinuante, nada disso, podia-se perceber algo assim em sua maneira de dizer e de olhar, e não era o caso. Ela realmente se encantara com a árvore. Ela realmente adorava árvores. Pessoas têm desses momentos, de encantamento e sensibilidade. Mas nem sempre eu compreendia isso a tempo e a contento. Esperei, no dia seguinte, que ela tornasse a passar por ali. Memorizei o horário, mais ou menos. Muitos dias transcorreram. Então, de novo, ela passou.
“Oi.”
E a árvore? Não vamos falar da árvore?
“Oi.”
Parece que ela vai a algum lugar. Claro que ela vai a algum lugar. Melhor dizendo, está vestida para o trabalho, talvez. Não é a sua roupa de caminhada.
“Está cada dia mais linda.”
“Ah… A árvore, sim. Mas solta muitas folhas.”
“Linda”, ela repetiu, iniciando um sorriso, sem tirar os olhos das alturas da copa, das ramagens extremas, uma das mãos no alto da testa, protegendo-se do sol. “Ah, eu adoro árvores.”
Coisas da Biologia, que eu recordava, bom aluno que era, sabia nomes de muitos seres vivos, em latim. Mas nunca dizia que alguma coisa era linda. Que vergonha. Discernia, catalogava, classificava, mas nunca dimnuía de tamanho e adentrava o universo mágico das flores. Minhas memórias se apagavam aí. Estava novamente próximo a essa senhora que imaginei pudesse ajudar-me.
“Descupe, senhora, acho que estou me perdendo. Acho que me perdi. Acho que me perdi mesmo. Acho que estou me perdendo e repetindo coisas. Não sei como. É a carência. Que vergonha, me desculpe. Eu não precisava ter lhe contado isso tudo. Me desculpe, sinceramente.”
“Que vergonha…” disse ela, concordando com neutralidade e contribuindo com minha confusão. Entrou com suas compras.
Andei por ali, dobrando quarteirões, voltando sempre à mesma avenida que delimitava essa parte do bairro, sentindo claramente alguma exaustão minando-me o corpo. Sentei-me num banco da praça para descansar. A questão não era a árvore, propriamente: era a casa. Mas a árvore ficava em frente da casa. A casa ficava sob algumas árvores. Enfim, uma coisa não existia sem a outra, se é que eu pudesse me fazer entender a mim mesmo. Recordava que tantos povos mudaram de lugar ao longo da história, migraram, fugiram, recomeçaram em alguma outra parte, até que também essa alguma outra parte do mundo servisse de cenário a novas ausências em massa, legando cidades-fantasmas para o fascínio de pesquisadores e turistas. Mas não era o momento de eu me perder assim, em divagações inúteis, já que parecia estar perdido o bastante. Eu precisava alcançar essa neutralidade, essa serenidade, essa indiferença que faz a todos tão tranquilos. Partir daí. E prosseguir caminhando. Observando meus próprios passos, imagens ao redor. Vou caminhar até onde puder, até quando puder. Assim são meus passos, a um tempo determinados e tristes, como talvez o sejam os dos refugiados, dos migrantes, os de todos aqueles que um dia não mais lograriam encontrar seu endereço na Terra.