Perce Polegatto

Perce Polegatto

Perce Polegatto é professor na área de Letras, com especialização em literatura. A metalinguagem, a busca da ­identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos.

O nome dela era Vanda

Após tê-la conhecido de perto, sentiu que se fazia, a corça, muito mais inalcançável, mais do que antes, quando não passava de uma sombra indefinida, e como se desde o primeiro momento ele desejasse, sem saber, alcançá-la. Ousadias avulsas. Resultado de superfície. Cansativos rituais de acasalamento. Mas no momento incerto, depois tornado certo, o desejo é maior do que o mundo.

Assim são as festas

A desconhecida voltou à sala, acenou a uns amigos, o que fazia ver que não estava na festa até então. Especialmente abraçou outra garota. Perguntou por ela e por alguém mais, antes de iniciar o ritual de trocar beijos contados à altura da orelha ou estalados em falso, no ar, com uns rapazes que aparentemente a conheciam. Um deles, desviando o rosto, beijou-a na boca, ela não se importou e sorriu.

Passe para pequenas viagens

Eu me detinha finalmente, após a tarde de minha estranha primavera. Eu me detinha após milhares de anos de civilização e genes repetidos para que sempre umas pessoas e outras habitassem as cidades e coisas parecidas com cidades. Eu me detinha na esquina de todas as cidades. Outro como eu em Buenos Aires, em Frankfurt, em Alexandria, em Odessa, em Melbourne...

Vanda vence a água e as nuvens

Mal podia vê-la, a roupa que fosse, eu chegando ao apartamento, já a desejava com toda a saliva a sufocar-me a garganta, essa sensação inconfundível que precede e já desencadeia os estados de grande excitação, e isso me cegava, impedia-me considerá-la ainda como pessoa, mal tinha tempo de pensar em qualquer outra coisa caso ela não me refreasse algumas vezes...

Registro de ciclos e movimentos

A Terra gira e recicla seus ossos. Há escombros impalpáveis, fendas na memória. Tantas vezes restaurada e ainda assim, na junção das hastes, o oliva-ferrugem, óxido de azuis na roleta que hoje conta os mortos. Junto ao orquidário, junto ao chafariz e ao banco de pedra, aqui onde me sentia seguro sem considerar o verdadeiro giro do remoinho silencioso, o ciclone que me trouxe à velhice, eu às vezes tremendo, outras explodindo, inundado em êxtase ou sozinho soterrado entre deslizamentos, algo tão à margem das grandes catástrofes, mas violento à sua maneira, carregando-me sem defesa da infância à adolescência, do homem ao que hoje sou, daqui à faixa espessa do que nem em sonhos entrevejo...

Chancelaria e viagem

...seja este dia ou esta página, agora que tão intensamente atravesso as tardes de perdidas luminosidades, tão parecidas com a minha infância, de mesmo calor e mesmo incômodo, até finalmente intuir que um dos objetivos da vida é, magicamente, estar aqui. Medicamento sob prescrição médica, que diferença faz? Esbarro em tantos semelhantes sadios, mal os reconheço. Sei que o mundo é feito principalmente dos que não puderam realizar-se.

Lise Meitner

A mulher com a bomba na bolsa Lise Meitner (Viena, 1878 – Cambridge, 1968) Física austríaca, descobridora da fissão nuclear. Interessou-se por ciência após ler um trabalho da família Curie. Educou-se nas Universidades de Viena e Berlim, num tempo em…