Rapsódia em cinza

Sol em teu passado, mesmo que hoje atravessa teus olhos.
Mesmo o inverno. Dias de chuva.
E teu sonho.
Textos literários por Perce Polegatto
Textos literários por Perce Polegatto

Sol em teu passado, mesmo que hoje atravessa teus olhos.
Mesmo o inverno. Dias de chuva.
E teu sonho.

Ela fez questão de mencionar a última vez que estivemos num restaurante. Um sujeito simpático, meio garçom, meio porteiro, não sei, sorria às pessoas que entravam e saíam, desejando-lhes boa noite, bom apetite, bom isto, bom aquilo. Abriu-nos a porta de vidro e um sorriso que não o impedia de nos radiografar dissimuladamente, tanto quanto eu, por minha vez, também o observava, em silêncio, agindo assim.

O primeiro a sugerir que a Terra era mais velha do que se pensava. Xenófanes (Colofon, Jônia, 570 a.C. – 475 a.C.) Poeta e filósofo grego, primeiro pensador a considerar que o planeta Terra sofresse alterações físicas ao longo dos…

Glauco Pinheiro de Pádua, engenheiro civil, emprego público, Prefeitura Municipal. Poeta por prazer – ou necessidade? Às vezes aparece para trocar ideias, sua tal expressão, na verdade não é uma troca de ideias, ele nunca me dá ideias. De minha parte, evito anunciar-lhe as minhas – não que mereçam qualquer segredo, mas porque normalmente ele não as aprova. E traz seus poemas. Como qualquer pessoa de meia-idade ou aposentada, não consegue disfarçar um estranho contentamento em declarar-se extremamente ocupado, lamentando a terrível falta de tempo. Ele tem trinta e dois anos.

Outros homens me viram passar pela porta lateral do salão de festas. Sei que me observaram de seus secretos desejos quando saí para o jardim aberto. Sentei-me sobre uns degraus de ardósia entre dois gramados, de altura conveniente. Tirei da bolsa o batom, revi meu rosto no pequeno espelho, meu pequeno rosto.

A vida não tem cura. Viver é estar doente de tempo.

Noite passada tornei a sonhar que a amava, e a conduzia por uns jardins impossíveis, enriquecidos de remansos, ramos inclinados e delicadas quedas d’água. Ela deita a cabeça em meu ombro, sorri com grande ternura enquanto caminhamos, o que me põe a despertar com um intenso desejo de possuí-la, como não menos o de destruir miseravelmente a mim mesmo.

Se vou morrer hoje, tudo bem, eu pensava. Só o que me trazia um incômodo nervosismo era imaginar como morreria. Um só daqueles mísseis, se atingisse o apartamento, se atingisse, digamos, o centro da sala, não me daria tempo para um último suspiro. Força de expressão, claro: por que eu haveria de querer um último suspiro? Se atingisse outro cômodo, quem sabe, talvez eu morresse sob escombros, gemendo alguma coisa incompreensível ou amaldiçoando todas as guerras do mundo.

A ciência é uma paixão Carl (Edward) Sagan (Nova York, 1934 – Seattle, 1996) Astrônomo norte-americano muito conhecido por seu trabalho de divulgação da ciência. Doutorado pela Universidade de Chicago em 1960, transferiu-se em 1968 para a Universidade de Cornell,…

Um arrepio. Conheço essa batida. Lenta, repetida três vezes, como se zombasse de quem está dentro. Outra vez. Digo, mais outras três vezes. Sim, só pode ser.
“Bom dia”, diz ele quase cantando. Mas assim: grave, insinuante.