
Parmênides
Defendia a ideia de que um objeto não poderia se transformar em outro que diferisse muito de sua essência, ao contrário de Heráclito, que acreditava na constante transformação de todas as coisas.
Textos literários por Perce Polegatto
Textos literários por Perce Polegatto

Defendia a ideia de que um objeto não poderia se transformar em outro que diferisse muito de sua essência, ao contrário de Heráclito, que acreditava na constante transformação de todas as coisas.

A vida se cruzava por toda parte, entre fluxos de tráfego, pedestres nas calçadas, nas faixas de segurança... Todos sempre se deslocando em busca de alguma coisa, vivos, tentando se realizar de alguma forma. Enquanto isso, em silêncio, ela apodrecia ao meu lado.

Sempre me impressionou muito que as pessoas andassem com calma – mesmo entre conhecidos e em suas próprias cidades. Também muitas vezes acreditei que a maneira de andar, assim como alguns gestos viciados ou cacoetes, fosse a sugestão de que a natureza orgânica começasse por eles a apresentação dos sinais de alguma desarmonia mais profunda. Mas nada disso eu via entre as ótimas pessoas que andavam por toda parte.

O homem que dividiu o mundo

Após tê-la conhecido de perto, sentiu que se fazia, a corça, muito mais inalcançável, mais do que antes, quando não passava de uma sombra indefinida, e como se desde o primeiro momento ele desejasse, sem saber, alcançá-la. Ousadias avulsas. Resultado de superfície. Cansativos rituais de acasalamento. Mas no momento incerto, depois tornado certo, o desejo é maior do que o mundo.

A desconhecida voltou à sala, acenou a uns amigos, o que fazia ver que não estava na festa até então. Especialmente abraçou outra garota. Perguntou por ela e por alguém mais, antes de iniciar o ritual de trocar beijos contados à altura da orelha ou estalados em falso, no ar, com uns rapazes que aparentemente a conheciam. Um deles, desviando o rosto, beijou-a na boca, ela não se importou e sorriu.

A única certeza é a transformação.

Mal podia vê-la, a roupa que fosse, eu chegando ao apartamento, já a desejava com toda a saliva a sufocar-me a garganta, essa sensação inconfundível que precede e já desencadeia os estados de grande excitação, e isso me cegava, impedia-me considerá-la ainda como pessoa, mal tinha tempo de pensar em qualquer outra coisa caso ela não me refreasse algumas vezes...

O mais antigo engenheiro grego conhecido

A Terra gira e recicla seus ossos. Há escombros impalpáveis, fendas na memória. Tantas vezes restaurada e ainda assim, na junção das hastes, o oliva-ferrugem, óxido de azuis na roleta que hoje conta os mortos. Junto ao orquidário, junto ao chafariz e ao banco de pedra, aqui onde me sentia seguro sem considerar o verdadeiro giro do remoinho silencioso, o ciclone que me trouxe à velhice, eu às vezes tremendo, outras explodindo, inundado em êxtase ou sozinho soterrado entre deslizamentos, algo tão à margem das grandes catástrofes, mas violento à sua maneira, carregando-me sem defesa da infância à adolescência, do homem ao que hoje sou, daqui à faixa espessa do que nem em sonhos entrevejo...