Categoria Artigos

Dia após dia

Ainda que tentasse evitar – o que nunca faço – as ruas costumavam cercar-me de cenas avulsas, frases ouvidas por acaso, pessoas em movimento protagonizando os dias, todos os dias antes que viessem outros, outro tempo, outras gentes.

Velhas novidades

De toda parte os caminhos pareciam convergir para conduzi-lo ao que fosse seu centro secreto, o que seria inverter as coisas: seu centro é que buscava realizar-se e se utilizava do que mais lhe acorresse ao redor. Como dizer algo assim aos seus amigos, para quem todos os bares eram apenas território de caça? Fala-se em pré-história, evolução, instinto.

Disney nos deixou órfãos

Nas longínquas terras da Califórnia, enquanto as equipes de um estúdio mágico trabalhavam num ousado projeto que viria a se chamar Fantasia, o bem-sucedido visionário Walter Elias mandava buscar sua mãe em Kansas City para que ela assistisse, em sessão particular, a alguns trechos prontos do episódio O aprendiz de feiticeiro.

Chegadas partidas

Ninguém fora despedir-se de mim na rodoviária. Nem era de se esperar, admito. Ainda assim, muito em segredo e contra o mais provável, até o último minuto eu supunha que algo diferente pudesse acontecer, são peças que a esperança nos prega. Dela, sempre fica algum ranço desse especial veneno, próprio a criar outra precária ilusão, levando-nos um pouco mais adiante. Dizem que até o último dia de nossa vida, tudo pode acontecer. Isso quer dizer que também pode não acontecer. Enfim, era mais de meia-noite. Na poltrona bem à minha frente, ia um rapaz cuja turma de amigos promovia uma algazarra do lado de fora, agitando-lhe beijos e sorrisos com vozes embriagadas, desejando-lhe boa sorte entre muitas brincadeiras, uns palavrões toleráveis e obscenos votos de sucesso com futuras fêmeas, isso até que o ônibus partisse. Eu sorria com o canto dos lábios, como nos tempos de escola, quando tinha de fingir estar participando de alegrias alheias. Fingia, dessa vez, para ninguém mais. Fingia que aquilo tudo era para mim.

Você, que não queria ler isto

Quem de nós nunca experimentou uma sensação de impotência, quase de amargura, ao adentrar uma biblioteca ou grande livraria e tomar consciência da proliferação de títulos e autores ali acumulados, os textos à espera de olhos que os percorram, os autores de inteligências que os admirem e até, quem sabe, tanto quanto os livreiros, de compradores que os troquem por um dinheirinho? A sensação de que você não passa de um inseto alfabetizado passeando por uma floresta formada em diversos países durante dezenas ou mesmo centenas de anos, como também toda a produção anual de novos frutos, flores e até excrementos, a certeza de que jamais lerá um centésimo sequer dos poetas do mundo, que dirá dos prosadores e dos médicos que preferiram enriquecer com livros sobre ginecologia e combate ao estresse, tudo isso sem contar os psicografados, como se ainda nunca fosse suficiente o número de autores vivos disputando nas prateleiras seu lugar à sombra.

Meu colega triste

Mas eu era assim, analítico. Ou supunha ser. Observava tudo em meus colegas, naturalmente ou não. Certos dias houve em que me sentia tão aguçado, tão perfeitamente lúcido e desperto, que quase poderia apostar na iminência de alguma fulgurante revelação, em meio a um momento qualquer. Isso nunca aconteceu, claro. Só me ocorria comparar tal estado interior com um lapso de intensa vigília, como se visse, através de um vidro muito limpo, um pátio de árvores após a chuva, cada folha em sua extrema nitidez, como elaborada com a precisão da pena de um desenhista encantado.

Crenças e ficções

A antiga tese do catastrofismo, defendida pelo naturalista suíço Charles Bonnet, entre outros, tentava explicar os fósseis antediluvianos, sendo centrada sua ideia principal sobre a periodicidade das grandes catástrofes no passado, envolvendo a totalidade da Terra. Bonnet acreditava que, após cada um desses formidáveis eventos geológicos, as formas vivas subiam um degrau na escala da vida, daí a substituição dos dinossauros por novas espécies. Previu também um vasto cataclismo futuro que faria dos símios homens e dos homens, anjos.

Última chance com incêndios

As crianças que se perseguiam, de risos e vozes que eu assimilava como à distância, passaram entre mim e as chamas interrompendo meu estado de fixação involuntária. Que era isso? Uma maneira de concentrar-me? Distrair-me?

Essa noite trazia algo de abandono. Meus olhos haviam perdido os contornos da fogueira em movimento, a nitidez das fagulhas que se desgarravam, enquanto eu aceitava ser absorvido pelo cerne do que me consumia longamente até o coração do fogo. Não mais assistia ao espetáculo das centelhas que as chamas lançavam ao céu e o vento punha a dispersar na noite sobre todos nós, eu e os que festejavam.

A Lua não era outra

O pai, leitor de almanaques, filosofava à sua maneira. Pegava-o sob a Lua: imagine, a mesma que aqueles egípcios viram há tanto tempo... Ele contemplava também, menino. Hoje pensa que ela continua aí, girando pesada, ao largo do nosso planeta. Quantos deuses e deusas foi a Lua antes que nos contassem que não passava de uma bola de granito e basalto, desprovida até de atividade vulcânica, nada de vida, nem um micróbio. Imagine. E era uma deusa.