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A mesma aventura

“Bom dia a todos.”

Por isso todos me observam quando subo ao ônibus, pela manhã. Não se diz bom-dia a todos, especialmente com tal sinceridade. Estranham roupas que mal se ajustam e fazem de mim um cidadão deselegante, sem interesse. Óculos que mal se ajustam ferem-me o nariz e as orelhas. Mal eu me ajusto a alguma coisa. Mas posso vê-los a todos.

A morte exagerada de Paul McCartney

Com o boato obscuro, inicialmente anunciado por um radialista de Detroit, tratando da suposta morte do cantor Paul McCartney, um dos integrantes da banda britânica The Beatles, as campanhas de publicidade envolvendo os lançamentos de discos passaram também a alimentar essa mesma ideia, tão cara aos fãs e ao resto dos cidadãos – pois não há nada mais empolgante do que a morte de um ídolo, tanto para os que o amam quanto para os que o detestam.

Sonho 3305. O hamster da faculdade

”Isso tudo vai acabar”, diz o coordenador pensativo, sem olhar para mim, como se fitasse um horizonte que não existia lá dentro.

”Mas como?”, pergunto surpreso. ”Há tantos alunos, tantos cursos...”

”Os templos de Luxor...”, ele murmura, interrompendo-se em seguida.

”Sim, eu entendo. Mas... tão rápido?”

Sonho 2413. A jovem viúva

Vestido e chapéu escuros, renda fina cobrindo-lhe o rosto, certamente de luto, ela o esperava sentada na pequena sala ao lado. Quando ele entrou, viu-a pelas costas, ombros e cabeça baixa. Pronunciou seu nome, e ela virou-se, erguendo-se e entregando-se rapidamente num abraço muito forte, movido por uma emoção e uma carência intensas.

“Era para eu encontrar você só quando estivesse bonita”, falando entre lágrimas. “Mas ele morreu, eu não pude evitar...”

Não me venham falar da Lua

Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.

...parágrafo de abertura de "A metamorfose", por Franz Kafka, que nos conta de maneira também muito simples o que aconteceu com o desafortunado Gregor Samsa, um destino absurdo e miraculoso que não desejamos nem para... Bem, talvez o desejemos a alguns, não importa. O que nos chama a atenção é o fato de essa metamorfose ser relatada sem nenhum espanto, nenhuma surpresa. Nenhum ponto de exclamação. Nenhuma palavra em tom de lamento. Nenhum comentário ansioso querendo rasgar a garganta.

Um único tiro

“É, eu estava com ela, já disse”, pegando o nariz de Liana, rindo. “Eu não disse não, menina?” Beijos na orelha e no pescoço dela, a mesma estratégia adolescente de tentar neutralizar a companheira, fazendo-a arrepiar-se num frêmito de desejo, uma palavra, uma expressão que ele adorava imaginar enquanto isso acontecia de fato. Fssss... – um frêmito de desejo.

Ela não se arrepiou.

Arca com retratos do pai. Parte 1

Tudo isso não passava de alucinação para mim – essa infância que ouvia dele, seus pais e avós, a quem mal ou não conheci. Só em minha fantasia podia vislumbrar os funerais dessa ancestral, quando iam todos a pé, trajando a indumentária da colônia e portando archotes no inverno. A vegetação do vale, os caminhos de terra, a neblina. Sua neblina. Seu cortejo de fantasmas.

A simples (e espantosa) descoberta de Wegener

Quem nunca observou com curiosidade que o recorte das costas brsaileiras se encaixa na parte leste da Àfrica como se tivesse sido arrancado de lá? Eu sei, eu também me diverti com essa imagem quando era menino. Por muito tempo, isso foi visto apenas como uma alegre coincidência. Mas não era. A coisa toda é sutilmente catastrófica – embora não pareça.