Categoria Lisette Maris

As duas vidas de Edmundo Campos

Fatias de mundo, história fragmentada (um dia apenas) em tantas cidades e países. Cristaliza-se o passado. Passado da humanidade, registro dos grandes eventos. A memória de cada pessoa. A literatura tem páginas de anjo, ratos sonhando, monstros melancólicos, outros nem…

Os retratos de Marta Rosana

A sociedade, penso eu (mas não lhe digo), é basicamente formada pelos que se salvaram, inclusive da miséria. Os outros (que outros?) não provarão da aventura humana. Vamos entrar vamos entrar, diz o velho com certa impaciência. A onda aromática…

O telefone pela manhã

Não, eu não lhe digo isso. Ele é que parece dizer-me. A racionalidade que faz de mim um homem prático parece não ter cura, leio em seus olhos. 1 Que iríamos passear, era sábado. O centro, uma quinquilharia qualquer. No…

A cidade de um país

Adentro a sala, tenho à frente a mesa dos conspiradores, entre eles seu poderoso líder. Acabo de ver seu rosto, e agora tenho de morrer. Caí na cilada e estou sozinho. Corro para o fundo, vejo que alguns deles saem…

Óculos

Meu irmão mais velho editou outro volume de contos. Ele tem a vista perfeita, imune a quaisquer desvios, todo ele é contrário a mim, sendo eu o único míope entre os irmãos, pretendendo ansiosamente escrever contos como ele, escondendo do…

Últimas noites do burocrata obstinado

Novamente o sonho dos papeizinhos, e mal os sentia entre os dedos, escapando-lhe antes que pudesse recuperá-los e torná-los classificados aos seus devidos lugares, e essa agonia durou menos do que a outra. A noite seguinte trouxe-lhe pesados fichários que…

Andante de um concerto barroco

A vida não é só para ser vivida, há algo mais que não compreendemos. Mas nada tão sério que não se possa atingir pela música. Como quando nos encontramos daquela vez, em casa de Ruth, sendo a noite a mesma,…

Registro de ciclos e movimentos

A Terra gira e recicla seus ossos. Há escombros impalpáveis, fendas na memória. Tantas vezes restaurada e ainda assim, na junção das hastes, o oliva-ferrugem, óxido de azuis na roleta que hoje conta os mortos. Junto ao orquidário, junto ao chafariz e ao banco de pedra, aqui onde me sentia seguro sem considerar o verdadeiro giro do remoinho silencioso, o ciclone que me trouxe à velhice, eu às vezes tremendo, outras explodindo, inundado em êxtase ou sozinho soterrado entre deslizamentos, algo tão à margem das grandes catástrofes, mas violento à sua maneira, carregando-me sem defesa da infância à adolescência, do homem ao que hoje sou, daqui à faixa espessa do que nem em sonhos entrevejo...

Chancelaria e viagem

...seja este dia ou esta página, agora que tão intensamente atravesso as tardes de perdidas luminosidades, tão parecidas com a minha infância, de mesmo calor e mesmo incômodo, até finalmente intuir que um dos objetivos da vida é, magicamente, estar aqui. Medicamento sob prescrição médica, que diferença faz? Esbarro em tantos semelhantes sadios, mal os reconheço. Sei que o mundo é feito principalmente dos que não puderam realizar-se.

Nádia alcançada, meu último rosto

Senti as noites de minha juventude, o calor e o sereno de madrugadas sem fim, constatei prostíbulos que me escaparam às palavras enquanto os vivi e que não procurei resgatar na poesia das cartas. Identifiquei cada festa, cada momento de orgasmo e vertigem, cada solidão.