Tag contos

Sonho 1128. A pedra de atrito

Então ele se deita no chão, com o rosto entre os braços, e irrompe a chorar convulsivamente, como uma criança. Eu me aproximo, querendo saber o que aconteceu. Meu amigo e eu caminhando por um bosque claro e tranquilo, árvores…

Queremos o fim do Quixote

Sempre me impressionou muito que as pessoas andassem com calma – mesmo entre conhecidos e em suas próprias cidades. Também muitas vezes acreditei que a maneira de andar, assim como alguns gestos viciados ou cacoetes, fosse a sugestão de que a natureza orgânica começasse por eles a apresentação dos sinais de alguma desarmonia mais profunda. Mas nada disso eu via entre as ótimas pessoas que andavam por toda parte.

Registro de ciclos e movimentos

A Terra gira e recicla seus ossos. Há escombros impalpáveis, fendas na memória. Tantas vezes restaurada e ainda assim, na junção das hastes, o oliva-ferrugem, óxido de azuis na roleta que hoje conta os mortos. Junto ao orquidário, junto ao chafariz e ao banco de pedra, aqui onde me sentia seguro sem considerar o verdadeiro giro do remoinho silencioso, o ciclone que me trouxe à velhice, eu às vezes tremendo, outras explodindo, inundado em êxtase ou sozinho soterrado entre deslizamentos, algo tão à margem das grandes catástrofes, mas violento à sua maneira, carregando-me sem defesa da infância à adolescência, do homem ao que hoje sou, daqui à faixa espessa do que nem em sonhos entrevejo...

Chancelaria e viagem

...seja este dia ou esta página, agora que tão intensamente atravesso as tardes de perdidas luminosidades, tão parecidas com a minha infância, de mesmo calor e mesmo incômodo, até finalmente intuir que um dos objetivos da vida é, magicamente, estar aqui. Medicamento sob prescrição médica, que diferença faz? Esbarro em tantos semelhantes sadios, mal os reconheço. Sei que o mundo é feito principalmente dos que não puderam realizar-se.

Nádia alcançada, meu último rosto

Senti as noites de minha juventude, o calor e o sereno de madrugadas sem fim, constatei prostíbulos que me escaparam às palavras enquanto os vivi e que não procurei resgatar na poesia das cartas. Identifiquei cada festa, cada momento de orgasmo e vertigem, cada solidão.

A casa e a célula

Claro que eu não poderia, nem deveria, aproximar-me de tal pensamento. Mesmo porque não o havia procurado, ele é que chegava até mim por meio das conclusões dela, que por sua vez pareciam ter-se originado de um sonho – para outros, talvez, um pesadelo. Na verdade, preocupam-me tentações desse gênero porque sei que sou capaz de experimentá-las. Ter um dia vivido certas experiências por minha própria vontade é o que mais sustenta meus receios secretos hoje.

Cães de caça entre a Lira e Leão Menor

Eu olhava o cadáver: que fazer com esses restos? “Que fazer de vocês?”, eu o olhava.
Trouxera-o de fora ao jardim dos fundos, já não podia voltar atrás. Terra ainda úmida, não seria difícil abrir uma cova precária, nem aquilo merecia mais. Logo voltariam a relva, as ervas rasteiras e umas flores inúteis, sempre casuais e ridículas.

Cores, sombras: aquarela de passagem

Minha lancheira encardida, ela com seus cadernos de classe empoeirados pelas quadras de terra que afastam a pequena escola, um galpão tosco e sem recursos que fica para mim tão longe, longe... É apenas o caminho de volta. Mas, aos seis anos, tudo é fascinante em qualquer caminho.

Cenas infantis

“É preciso ter coragem, lembra?”

“Lembro, claro que sim. Mas parece que a coragem é uma qualidade dos sórdidos.”

“Não importa. É preciso ter coragem de qualquer maneira. Noite alta, as casas fechadas. Sou apenas um corpo que anda. Por que a noite me aflige assim?”

“Como posso saber? O que será para você talvez um prêmio poderá ser para mim um castigo.”

“Certa vez sonhei com a glória. De outra vez, sonhei com o amor. Nas duas vezes, acordei sozinho.”