
O engenheiro e os fungos
A vida não tem cura. Viver é estar doente de tempo.
Textos literários por Perce Polegatto
Textos literários por Perce Polegatto

A vida não tem cura. Viver é estar doente de tempo.

Noite passada tornei a sonhar que a amava, e a conduzia por uns jardins impossíveis, enriquecidos de remansos, ramos inclinados e delicadas quedas d’água. Ela deita a cabeça em meu ombro, sorri com grande ternura enquanto caminhamos, o que me põe a despertar com um intenso desejo de possuí-la, como não menos o de destruir miseravelmente a mim mesmo.

Se vou morrer hoje, tudo bem, eu pensava. Só o que me trazia um incômodo nervosismo era imaginar como morreria. Um só daqueles mísseis, se atingisse o apartamento, se atingisse, digamos, o centro da sala, não me daria tempo para um último suspiro. Força de expressão, claro: por que eu haveria de querer um último suspiro? Se atingisse outro cômodo, quem sabe, talvez eu morresse sob escombros, gemendo alguma coisa incompreensível ou amaldiçoando todas as guerras do mundo.

Um arrepio. Conheço essa batida. Lenta, repetida três vezes, como se zombasse de quem está dentro. Outra vez. Digo, mais outras três vezes. Sim, só pode ser.
“Bom dia”, diz ele quase cantando. Mas assim: grave, insinuante.

No trem, engrenagens da memória voltadas à notícia da morte de meu pai, eu prevendo o fastidioso velório, a encenação toda, os maneirismos próprios de tais ocasiões...

O jornal dedicou-me duas linhas, literalmente, numa de suas colunas mais estreitas, o tópico cultural. E não que merecesse mais do que isso. Aquele era, sem dúvida, um de meus contos mais execráveis: convencional, descritivo, tinha até uma mensagem. Escrevi muitos contos ruins, e quase todos foram premiados. Por sorte, nem todos foram publicados, e eu pude extraviá-los mais tarde.

Álbum de figurinhas com artistas e casais da tevê: por essa época, meus pais já não dormiam juntos. Banco imobiliário, enquanto oficiais de justiça chegavam para levar eletrodomésticos, objetos afins, valores penhorados.

Muitas vezes pensamos que tudo está sob controle. Que estamos a salvo e imunes. Só então é que as coisas de fato acontecem.

Um homem está sendo julgado. A mulher bem vestida (entendo mais tarde que é a promotora de justiça) se levanta, com o dedo em sua direção, pronunciando frases intensas. O réu parece contrair-se no encosto, amedrontado. Um ambiente austero, vigas de madeira escura, divisórias envernizadas. Mas curiosamente as paredes parecem em chamas, entre fortes tons de amarelo e vermelho. Aquilo tudo parece ser muito importante, não compreendo por quê. Subo umas escadas laterais para assistir a este extraordinário julgamento de outro ângulo, de um balcão mais alto. Quando chego ao andar superior, a corte está vazia. Não há mais ninguém lá embaixo. A justiça e a injustiça já haviam entrado e saído, tendo frequentado todas as salas de audiência do mundo. E agora não eram mais nada. É que o tempo havia passado.

Conheci Ester no balcão de uma cantina – pelo menos, foi quando nos vimos. Não sei, mesmo hoje, se cheguei a conhecê-la como se espera conhecer alguém. Costumávamos almoçar ali, separadamente, quando não existíamos. Da primeira vez, iniciou-se uma conversa por acaso. Ela era educada, levemente arrogante. Da segunda, toquei seu ombro antes de me sentar – era morno, convidativo. Na terceira beijei-lhe o rosto, pele clara e bem tratada. E nos dias que se seguiram... Não, não havia nada menos casual do que nossos encontros na cantina.