
Sonho 772. Vista do mirante
Vista de um mirante. Sonho com estranhas torres.É quando compreendo que meu espanto nunca foi senão uma faceta de meu medo. Estou no terraço, junto ao parapeito, do que me parece a noite mais clara, o edifício mais alto…
Textos literários por Perce Polegatto
Textos literários por Perce Polegatto

Vista de um mirante. Sonho com estranhas torres.É quando compreendo que meu espanto nunca foi senão uma faceta de meu medo. Estou no terraço, junto ao parapeito, do que me parece a noite mais clara, o edifício mais alto…

“É, eu estava com ela, já disse”, pegando o nariz de Liana, rindo. “Eu não disse não, menina?” Beijos na orelha e no pescoço dela, a mesma estratégia adolescente de tentar neutralizar a companheira, fazendo-a arrepiar-se num frêmito de desejo, uma palavra, uma expressão que ele adorava imaginar enquanto isso acontecia de fato. Fssss... – um frêmito de desejo.
Ela não se arrepiou.

Quinze anos. Violentada pelo cunhado. Perdera o filho de um mês. Sombras de família. Segredos, escândalos. Foto-grafada no pomar, sorri em meio às laranjas. Saudável, cati-vante, pernas e pés à mostra convidando a um ato brutal de volúpia. O sorriso, o pomar de laranjeiras. O que busca a natureza afinal? Momentos de violento desejo gerando cria-turas frágeis e delicadas como os recém-nascidos não pare-cem participar da mesma sucessão de fenômenos. Ora, que dizer da morte? A mesma imagem ainda o desafia. A jovem o olha de frente. Sorri. Em meio às laranjas.

Tudo em mim fica retido, antes de tudo. E fere ou fascina. O odor característico do papel plastificado, a tinta de impressão que até hoje reencontro em certos periódicos – eu começava a aprender dos textos, ao decifrá-los. O fascículo ilustrado com animais do Cretáceo, que ele me compra numa banca de esquina – também começava a aprender do tempo, com os dinossauros.

Tudo isso não passava de alucinação para mim – essa infância que ouvia dele, seus pais e avós, a quem mal ou não conheci. Só em minha fantasia podia vislumbrar os funerais dessa ancestral, quando iam todos a pé, trajando a indumentária da colônia e portando archotes no inverno. A vegetação do vale, os caminhos de terra, a neblina. Sua neblina. Seu cortejo de fantasmas.

Incontáveis são as sutilezas que envolvem a sexualidade humana, não menos que as grosserias, os desejos inconfessáveis, as taras dissimuladas, as distorções e excentricidades, os tabus subvertidos, as violações à força, a infidelidade camuflada em velhas arcas de família, por vezes deflagrando episódios de paixão doentia, obsessões incuráveis e crimes violentos, porém só um leve rubor altera a face destes jovens hesitantes enquanto trocam um beijo rápido.

Ao vê-la, pelo que percebeu como um breve instante, estendendo-se para o alto, apoiando um pé sobre a cama para alcançar o cabide vertical (Liana era baixa, mas não muito), as pernas tão bonitas bem ao lado do rosto dele, a tensão de uns músculos suaves logo acima do tornozelo, as coxas praticamente uniformes em sua consistência, Danilo sentiu algo poderoso, diferente do que apenas vinha sentindo há tempos, quando se forçava até o fim num ato de masturbação (porque, afinal, o havia começado) ou quando apenas percebia o contato físico de outro corpo, o que desperta mesmo ereções, de alguma maneira animal, involuntária e mecânica. Mas ali, era diferente.

Júlio estranhou que seus cabelos, repartidos ao meio, descessem só até o pescoço e a nuca, não chegando a tocar os ombros, e assim mesmo caíssem frontalmente qual fossem mais longos do que aparentavam, como se não pertencessem a um mesmo corte, e pudessem prender-se atrás das orelhas. Que coisa observar isso tudo. Foi sem querer. Ela mesma não podia ter mais que uns dezesseis anos, se tanto, imagine-se, quase dez anos mais jovem, por essa época começava a frequentá-lo a incipiente impressão de estar envelhecendo, afinal vinte e cinco anos não eram mais quinze.

Tornamos a nos conhecer na reunião que move a numerosa família à casa da matriarca em sua cidade. Ali os mais velhos apreciam clássicos do jazz e trilhas de cinema. Dessa vez pareceu-me claro de sua parte, quando todos deixaram a sala rumo aos fogos e às festas previstas a céu aberto, e ela passou a ensaiar sua dança de olhos fechados sob influência do disco esquecido: o ondulante movimento de ombros detido por meu impulso de prender-lhe um braço, prender-lhe os olhos frente à franqueza de quem podia antecipar o que ela própria ansiava por revelar-me, quando eu lhe disse: “Você não gosta dessa música.”
Quando penso em minha infância, vejo um menino atrás da vidraça numa noite tempestuosa – rosto sem sorrir, olhos iluminados por relâmpagos que o fascinam.