Ninguém fora despedir-se de mim na rodoviária. Nem era de se esperar, admito. Ainda assim, muito em segredo e contra o mais provável, até o último minuto eu supunha que algo diferente pudesse acontecer, são peças que a esperança nos prega. Dela, sempre fica algum ranço desse especial veneno, próprio a criar outra precária ilusão, levando-nos um pouco mais adiante. Dizem que até o último dia de nossa vida, tudo pode acontecer. Isso quer dizer que também pode não acontecer. Enfim, era mais de meia-noite. Na poltrona bem à minha frente, ia um rapaz cuja turma de amigos promovia uma algazarra do lado de fora, agitando-lhe beijos e sorrisos com vozes embriagadas, desejando-lhe boa sorte entre muitas brincadeiras, uns palavrões toleráveis e obscenos votos de sucesso com futuras fêmeas, isso até que o ônibus partisse. Eu sorria com o canto dos lábios, como nos tempos de escola, quando tinha de fingir estar participando de alegrias alheias. Fingia, dessa vez, para ninguém mais. Fingia que aquilo tudo era para mim.