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Dia após dia

Ainda que tentasse evitar – o que nunca faço – as ruas costumavam cercar-me de cenas avulsas, frases ouvidas por acaso, pessoas em movimento protagonizando os dias, todos os dias antes que viessem outros, outro tempo, outras gentes.

Velhas novidades

De toda parte os caminhos pareciam convergir para conduzi-lo ao que fosse seu centro secreto, o que seria inverter as coisas: seu centro é que buscava realizar-se e se utilizava do que mais lhe acorresse ao redor. Como dizer algo assim aos seus amigos, para quem todos os bares eram apenas território de caça? Fala-se em pré-história, evolução, instinto.

Sua canção de enganar

Que lhe importam a Coluna de Trajano, as sagas contadas, gravadas em relevo, se sua vida é uma única peça, um único bloco onde se insculpem fragmentos com tudo o que lhe coube viver? E você sabe, como todos, que não pode estar antes nem depois da vida. Só aqui, em meio ao dia, tudo pode ser imaginado.

Chegadas partidas

Ninguém fora despedir-se de mim na rodoviária. Nem era de se esperar, admito. Ainda assim, muito em segredo e contra o mais provável, até o último minuto eu supunha que algo diferente pudesse acontecer, são peças que a esperança nos prega. Dela, sempre fica algum ranço desse especial veneno, próprio a criar outra precária ilusão, levando-nos um pouco mais adiante. Dizem que até o último dia de nossa vida, tudo pode acontecer. Isso quer dizer que também pode não acontecer. Enfim, era mais de meia-noite. Na poltrona bem à minha frente, ia um rapaz cuja turma de amigos promovia uma algazarra do lado de fora, agitando-lhe beijos e sorrisos com vozes embriagadas, desejando-lhe boa sorte entre muitas brincadeiras, uns palavrões toleráveis e obscenos votos de sucesso com futuras fêmeas, isso até que o ônibus partisse. Eu sorria com o canto dos lábios, como nos tempos de escola, quando tinha de fingir estar participando de alegrias alheias. Fingia, dessa vez, para ninguém mais. Fingia que aquilo tudo era para mim.

Meu colega triste

Mas eu era assim, analítico. Ou supunha ser. Observava tudo em meus colegas, naturalmente ou não. Certos dias houve em que me sentia tão aguçado, tão perfeitamente lúcido e desperto, que quase poderia apostar na iminência de alguma fulgurante revelação, em meio a um momento qualquer. Isso nunca aconteceu, claro. Só me ocorria comparar tal estado interior com um lapso de intensa vigília, como se visse, através de um vidro muito limpo, um pátio de árvores após a chuva, cada folha em sua extrema nitidez, como elaborada com a precisão da pena de um desenhista encantado.

Última chance com incêndios

As crianças que se perseguiam, de risos e vozes que eu assimilava como à distância, passaram entre mim e as chamas interrompendo meu estado de fixação involuntária. Que era isso? Uma maneira de concentrar-me? Distrair-me?

Essa noite trazia algo de abandono. Meus olhos haviam perdido os contornos da fogueira em movimento, a nitidez das fagulhas que se desgarravam, enquanto eu aceitava ser absorvido pelo cerne do que me consumia longamente até o coração do fogo. Não mais assistia ao espetáculo das centelhas que as chamas lançavam ao céu e o vento punha a dispersar na noite sobre todos nós, eu e os que festejavam.

Mirna e a viking de tranças

De bruços na cama, eu acompanhava os esforços de Mirna das Selvas em suas aventuras solitárias, atento às expressões de seu rosto, tantas vezes ligado por uma trilha de pequenos globos brancos a um balão-nuvem no qual se organizavam espaços e curiosos sinais. Olhos cintilantes perdidos no horizonte das grandes clareiras. Brincos, braceletes de couro. Armas rudimentares. Cabelos negros, longos e revoltos. Agachando-se por alguma estranha pegada. Eu lia em seu rosto suas decisões. E seus silêncios.

Preço justo

O que mais me admira no espetáculo do mundo, demarcado por longos estios e chuvas devastadoras, é esse inconcebível potencial de fugacidade e aniquilação, um sol escuro, nem benigno nem maligno, que a um tempo extingue e renova tudo o que existe, preservando a vida à custa de exterminar justamente os que vivem, com isso propondo que tudo continue sob o preço de que nada permaneça.