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Dilemas inofensivos, obsessões horrendas

Como me irritam pessoas que leem tudo tão rápido. De uma enfiada, elas dizem. Bem-humoradas, contentes com essa capacidade boba. Como já disse, sou lento para ler (ou lerdo, o que melhor servir), devo reprimir uma faísca de inveja dos rápidos. Não sei se é só isso. Você fica cinco anos escrevendo um livro, relendo e organizando etapas, desclassificando personagens, enriquecendo outros, angustiando-se com dúvidas gramaticais, e ela lhe diz, toda alegre, hiperativa: “Li o seu livro numa única tarde, numa enfiada.” Ah, é assim? Numa enfiada, depois de tudo o que eu fiz? Ela vai ver só a enfiada.

Beckett lhe dá as boas-vindas

Cheguei mesmo a impedir que ela se apoderasse de uns exemplares meio carcomidos, que poderiam destroçar-se de vez – porque eu guardava umas edições muito velhas, de um papel que teria sido branco noutro século, tão antigas que, ao lerem-se alguns de seus parágrafos em voz alta e com alguma boa vontade, seriam capazes de despertar uma múmia em outra parte do mundo.

Rapsódia em cinza

Sol em teu passado, mesmo que hoje atravessa teus olhos.
Mesmo o inverno. Dias de chuva.
E teu sonho.

Consumação mínima

Ela fez questão de mencionar a última vez que estivemos num restaurante. Um sujeito simpático, meio garçom, meio porteiro, não sei, sorria às pessoas que entravam e saíam, desejando-lhes boa noite, bom apetite, bom isto, bom aquilo. Abriu-nos a porta de vidro e um sorriso que não o impedia de nos radiografar dissimuladamente, tanto quanto eu, por minha vez, também o observava, em silêncio, agindo assim.

Meu amigo poeta-patriota

Glauco Pinheiro de Pádua, engenheiro civil, emprego público, Prefeitura Municipal. Poeta por prazer – ou necessidade? Às vezes aparece para trocar ideias, sua tal expressão, na verdade não é uma troca de ideias, ele nunca me dá ideias. De minha parte, evito anunciar-lhe as minhas – não que mereçam qualquer segredo, mas porque normalmente ele não as aprova. E traz seus poemas. Como qualquer pessoa de meia-idade ou aposentada, não consegue disfarçar um estranho contentamento em declarar-se extremamente ocupado, lamentando a terrível falta de tempo. Ele tem trinta e dois anos.

Noite no jantar dançante

Outros homens me viram passar pela porta lateral do salão de festas. Sei que me observaram de seus secretos desejos quando saí para o jardim aberto. Sentei-me sobre uns degraus de ardósia entre dois gramados, de altura conveniente. Tirei da bolsa o batom, revi meu rosto no pequeno espelho, meu pequeno rosto.

Ante seus olhos, quase um silêncio

Noite passada tornei a sonhar que a amava, e a conduzia por uns jardins impossíveis, enriquecidos de remansos, ramos inclinados e delicadas quedas d’água. Ela deita a cabeça em meu ombro, sorri com grande ternura enquanto caminhamos, o que me põe a despertar com um intenso desejo de possuí-la, como não menos o de destruir miseravelmente a mim mesmo.

Vencidos, uma questão de tempo

Se vou morrer hoje, tudo bem, eu pensava. Só o que me trazia um incômodo nervosismo era imaginar como morre­ria. Um só daqueles mísseis, se atingisse o apartamento, se atin­gis­se, digamos, o centro da sala, não me daria tempo para um úl­timo suspiro. Força de expressão, claro: por que eu haveria de querer um último suspiro? Se atingisse outro cômodo, quem sa­be, talvez eu morresse sob escombros, gemendo alguma coi­sa incompreensível ou amaldiçoando todas as guerras do mundo.

Carl Sagan

A ciência é uma paixão Carl (Edward) Sagan (Nova York, 1934 – Seattle, 1996) Astrônomo norte-americano muito conhecido por seu trabalho de divulgação da ciência. Doutorado pela Universidade de Chicago em 1960, transferiu-se em 1968 para a Universidade de Cornell,…