
Das afinidades familiares
Outra noite, com amigos. Fomos os últimos. Chovia, e começávamos a nos desejar – eu, que nunca sorria. 1 Meu pai, depois de sepultado, passou a parecer-se ainda mais comigo. No sofá da sala, era o meu duplo, um espelho…
Textos literários por Perce Polegatto
Textos literários por Perce Polegatto

Outra noite, com amigos. Fomos os últimos. Chovia, e começávamos a nos desejar – eu, que nunca sorria. 1 Meu pai, depois de sepultado, passou a parecer-se ainda mais comigo. No sofá da sala, era o meu duplo, um espelho…

Parei para ler o que havia nas mãos de alguns e espantei-me, porque ali se resumiam os pensamentos que ocupavam suas mentes e eram as chaves de suas almas. Li sonhos absurdos, planos criminosos, memórias, esperanças. Em muitos encontrei paixões sem sentido, vergonhas, frustrações, cartas suicidas, segredos de família...

A desconhecida que me devassava atraiu-me também. Entre suas companheiras, outras não menos cativantes, não se destacava pela beleza. Eu via algo em sua figura e em seus gestos, uma vaga ansiedade.

Descansam a carreta no pouco onde cabe toda a vida de nunca descansar. O pequeno aperta os olhos contra o sol. De mangas enormes, acena o mais velho (ou seca em seus farrapos o suor da testa?) Não, esses meninos…

Quarto-e-sala é como chamam esta cela. A palavra estrangeira soa um pouco mais alegre, mas claro que não a liberta nem altera seus limites. Nada há de especial neste cubículo onde às vezes sonho ou interpreto minhas solidões, exceto por uma porta extra no fundo da saleta em L. Que eu saiba, é o único apartamento com esse inútil apêndice.

Mônica vinha se transformando a cada fim de semana. De certa forma, ela também me preocupava. O pior de tudo era não termos dinheiro, acho. Não tenho certeza. O pior de tudo era o país. O pior era eu. Acho. Fiquei olhando seu rosto inclinado no travesseiro. Gosto de ver sua boca relaxada, entreaberta, mesmo que apareça seu dente quebrado. O nariz reto, mas não aquilino, inspira-me ousadia, determinação, firmeza. Ela não tem nada disso.

“Mais do que de novas paisagens, precisamos de novos olhos”, escreveu Marcel Proust. Um dia, quando esse sensível escritor francês tomava chá com bolinhos, ocorreu-lhe, influenciado pelo aroma e pelo paladar característicos dessa combinação, resgatar definitivamente sua vida e seu universo, tão encantado quanto real, desde a infância até seus amores mais recentes, passando por tudo o que vivera no campo e na cidade.

Foi então que, abrindo os olhos, voltando dessa experiência mística, esse meu rápido e estúpido transe, me aconteceu perceber o interesse de uma jovem púbere, de agradável semblante, que a mim observava discretamente de sua mesa, relativamente próxima. Estava com os pais – veja-se se isto são lugares para se levar uma garota dessas numa noite de sexta-feira! Uma ninfeta de pelo menos treze anos, que o inverno fizera calçar botinhas e estreitar-se em malhas justas, reveladoras de formas em transição. Magrinha, delicada, cabelos lisos que um enfeite discreto desviava para o ombro esquerdo, seu pescoço parcialmente emoldurado pelo capuz do casaco, que lhe caía dos ombros às costas como formando uma ligeira corcunda. Uma graça. Um doce. Um pecado.

Eu olhava ao fundo o retrato de Machado de Assis, menino de morro, ascensão social e exemplo que querem os outros como encarnação de seus métodos de controle, este à minha frente, eu considerava, se não finge tanto quanto eu, espera como todos que eu escreva por ele, que eu veja o que ele ainda não vê, que esclareça algo do ridículo mistério do qual somos parte, nós dois, agora mesmo, eu a ser cumprimentado, ele a cumprimentar-me, também de pé sobre a vida, sem suspeitar talvez de que eu era, como ainda sou, incapaz, tragicamente incapaz, de atinar com a mais simples das respostas.

Por essa época, nada me parecia suficiente. Mas eu pressentia estar me aproximando de alguma nova efervescência de meus valores. Dois capítulos sobre isso é mais do que o gosto do leitor médio pode suportar, eu sei. Foi mesmo uma…