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Treze pode acontecer

Júlio estranhou que seus cabelos, repartidos ao meio, descessem só até o pescoço e a nuca, não chegando a tocar os ombros, e assim mesmo caíssem frontalmente qual fossem mais longos do que aparentavam, como se não pertencessem a um mesmo corte, e pudessem prender-se atrás das orelhas. Que coisa observar isso tudo. Foi sem querer. Ela mesma não podia ter mais que uns dezesseis anos, se tanto, imagine-se, quase dez anos mais jovem, por essa época começava a frequentá-lo a incipiente impressão de estar envelhecendo, afinal vinte e cinco anos não eram mais quinze.

Suínos, símios, restaurante

Três ou quatro restaurantes médios, cardápio variado e preços razoáveis, serviam de solução fácil às exigências de sua fome noturna, isso quando se animava a sair a pé pelo bairro, também por desejar romper com a tirania dos sanduíches que muitas vezes despedaçava sobre a cama ou à mesinha-estante-criado-mudo. Era preciso ao menos experimentar. Lembrar de conferir a grana no fim do mês, enquanto fecha o zíper, calça os sapatos, uns mocassins já amolecidos pelo uso, mas vale a pena tentar, que os sanduíches também têm seu preço.

Invisíveis no intervalo

Ele a segura pelos ombros. Com carinho.

“Ana, sabe, posso te dizer?” Coragem. “Tenho muita saudade daquela noite.”

De frente um ao outro, mas já reativando uns passos lentos que os farão voltar à trajetória anterior – corredor da faculdade, percurso repetido do intervalo, quando de repente (com carinho, claro) ele a deteve.

“Que noite?”

Coragem. Não é uma grande tragédia afinal. Mas é como saltar de um penhasco. Sim, como se... Como, que noite?

Café com neblina imprevista

O caminho para o trabalho, os dias úteis, calendário. Supõe-se a agulha de um disco gigantesco, percorrendo as mesmas faixas conhecidas, o mundo à frente. Mesma rua, algumas quadras, quem diria. Quem diria? Estela: “Ora, somos vizinhos de serviço”, ela…

Não diga! Eu também…

“Desculpe, qual é mesmo o seu nome?”

“Estela. E o seu?”

Sim, o que ele merecia. Consagrando e consolidando seu caos de motivos siderais. O meu? Júlio. Muito bem. Fácil.

“Estela, me diga”, segurando aquela xícara enorme com as duas mãos. “Você costuma trazer estranhos para a sua casa?”

“Não. Mas vi que você era inofensivo.”

Júlio ouviu uma sirene de polícia a certa distância, provavelmente a alguns quarteirões dali, lá embaixo.

“Obrigado. Aceito a ironia. Não me importo.”

Um puta abraço, os dois

Ele tirou a capa de sua antiga máquina de escrever, anos sem uso, nem serviria mais para nada, claro. Claro que não. Porque agora... Agora as teclas enchiam seus ouvidos, a vertigem fazia desfilar páginas arrancadas do cilindro com felicidade, os textos prontos, os estampidos sequenciais de uma metralhadora louca sobrepostos no tempo, registrando com fúria amostras de sua confusão e de seus ideais perdidos para sempre...

Enquanto seu ônibus não vem

Regina tinha os lábios finos mas tentadores. Com a mesma nitidez daquelas noites, o rosto dela aproximava-se para mais um delicioso beijo, sempre um delicioso beijo – o nariz pequeno, as maçãs do rosto, os cabelos curtos e loiros soltando pontas irregulares ao redor das orelhas, o contorno de seu rostinho quadrado desaparecendo conforme os olhos de Danilo finalmente se fechavam, antes tentando adiar ao máximo a visão da proximidade dela, e então aquela boquinha firme, decidida a possuir a dele, primeiro com pequenos toques e pegadinhas leves, que não duravam muito.

Os mocinhos da matriz

Foram a uma cidade próxima, a trabalho, acompanhando um gerente que tinha muita esperança no futuro deles. (Ah, se ele soubesse...)

As meninas da filial, que eles estavam a poucos quilômetros de conhecer, representavam, para alguns, uma agradável esperança. Para Danilo, certamente. Acreditava no destino, sabia que mais cedo ou mais tarde encontraria a mulher de sua vida, embora não tivesse tido ainda uma namorada sequer.

Um dia, você abriu o jornal…

“Mas você a subestimava mesmo, não? Olha só, como ela era sensível! Puxa, acho que só as mulheres se entendem afinal. Essa das conchinhas... Estou gostando dela, cada vez mais. E se ela estivesse viva, eu estaria preocupada agora, me contorcendo de ciúmes.”

Danilo sorriu com o cantinho da boca, vaidoso. Mas baixou os olhos para sua taça.

O segredo das conchas

“Não importa se você vai rir de mim, não importa mesmo.”

“Ora, Ana, imagine...”

Ela remexia a bolsa. Buscava uma coisa. Algo se prendeu, depois se soltou, em meio a algum ruído de chaves ou qualquer outra quinquilharia de metal.