A ousadia de pensar em tudo

Aristóteles

(Estagira, região da Trácia, 384 a.C. – Atenas, 322 a.C.)

Com a morte do fundador da Academia, seu mestre Platão, esperava-se que Aristóteles assumisse a direção da primeira instituição de ensino superior do mundo. Ele era o mais brilhante dentre os discípulos do renomado filósofo, que o chamava “A inteligência da Academia” e “O leitor”, em razão de sua incontida curiosidade. Mas, em seu leito de morte, Platão indicou um sobrinho ao cargo, e Aristóteles deixou Atenas, iniciando uma viagem a outras regiões da Grécia. Casou-se com a sobrinha de um tirano e, com a ascensão de Felipe II ao trono, foi chamado à Macedônia, onde se tornaria preceptor de Alexandre, o Grande, nessa época com 14 anos de idade. Com o tempo, Alexandre passou a preparar-se para uma vasta campanha militar, e não mais dispunha de tempo ou vontade para educar-se com seu mestre. De volta a Atenas, Aristóteles fundou o Liceu (Lúkeion), uma instituição de ensino semelhante à de Platão, porém voltada para as ciências naturais. O fato de ele ministrar suas aulas ao ar livre, por vezes caminhando entre as árvores próximas ao Liceu, deu origem a que se definissem seus alunos como peripatéticos, isto é, os que passeiam, circulam, caminham enquanto aprendem. Após a morte precoce de Alexandre, o filósofo decidiu deixar Atenas, que agora, por razões políticas, se voltava contra os macedônios. Em suas palavras, ele queria evitar que se cometesse um segundo crime contra a filosofia – uma referência à condenação de Sócrates. Com exceção da matemática, sua obra examina todas as formas de conhecimento, da ética à poesia, da ciência à metafísica. Suas ideias influenciaram o judaísmo, o islamismo e o cristianismo. Suas concepções sobre as ciências físicas permaneceram com aura de autoridade por muitas gerações seguintes, predominaram no pensamento medieval e só foram substituídas pelo mecanicismo de Newton. Porém, na biologia, algumas de suas anotações foram confirmadas ainda no decorrer do século 19. Antecipou de maneira brilhante a noção de evolução das formas vivas, e seus cadernos de desenho, tratando de anatomia comparada tendo como base animais marinhos, indicavam que ele parecia estar no caminho certo, por pouco não atinando com a origem comum das espécies, descrita por Darwin muitos séculos mais tarde. Ironicamente, sendo ele de cultura ocidental, seus textos foram redescobertos pela Europa cristã por meio dos árabes, que o reverenciavam e o consideravam o preceptor da inteligência humana. Por isso, sua obra só foi traduzida para o latim tardiamente, entre os séculos 12 e 13. A Igreja assimilou muitas de suas concepções errôneas (por exemplo, ele acreditava que o coração fosse o centro da vida e que o cérebro servisse apenas para resfriar o sangue) e subestimou aquelas que lhe conferiam o mérito de um pioneirismo científico sem precedentes. Estranhamente, quanto mais errava, mais era admirado e cultivado pela Igreja. Por causa dessa curiosa singularidade, ele, que ficou conhecido como “O pai da ciência”, teve seu pensamento contestado pelos representantes da Revolução Científica.

• Cerca de um terço de seu trabalho sobreviveu. Tanto quanto Platão, Aristóteles tinha um talento especial com as palavras, cujo estilo Cícero chamou de “rio de ouro”, referindo-se à elegância do fluxo de seu texto. Mesmo assim, a autenticidade de parte de sua obra ainda é questionada.

Calístenes, sobrinho de Aristóteles, optou por acompanhar Alexandre, o jovem conquistador, sendo, mais tarde, executado por ele.

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(Imagens de pessoas tão antigas não são confiáveis. Muitas vezes são representações de um tipo étnico, não correspondendo às feições reais do indivíduo retratado.)

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