Relâmpagos
Quando penso em minha infância, vejo um menino atrás da vidraça numa noite tempestuosa – rosto sem sorrir, olhos iluminados por relâmpagos que o fascinam.
Textos literários por Perce Polegatto
Textos literários por Perce Polegatto
Quando penso em minha infância, vejo um menino atrás da vidraça numa noite tempestuosa – rosto sem sorrir, olhos iluminados por relâmpagos que o fascinam.

Três ou quatro restaurantes médios, cardápio variado e preços razoáveis, serviam de solução fácil às exigências de sua fome noturna, isso quando se animava a sair a pé pelo bairro, também por desejar romper com a tirania dos sanduíches que muitas vezes despedaçava sobre a cama ou à mesinha-estante-criado-mudo. Era preciso ao menos experimentar. Lembrar de conferir a grana no fim do mês, enquanto fecha o zíper, calça os sapatos, uns mocassins já amolecidos pelo uso, mas vale a pena tentar, que os sanduíches também têm seu preço.

Magra e arcada, a velha de pele ressequida e cabelos grisalhos esperava por mim junto ao portão de grade. Malas prontas, mudança. Lenço, soluços. E um fio de pranto amargurado que mais lhe cavava os olhos cinzentos. Eu a abracei como pude, pedi que não tornasse a chorar, pois pessoas que choram me incomodam muito.
“Ainda está lá?”, perguntei.
Ela assentiu, forjou um gesto com o lenço.

Da primeira vez, quando dormimos juntos (nossos encontros têm sido escassos, à sorte de oportunidades), Lis perdeu o sono antes de mim. O beijo umedecido, emergindo das trevas, tornava lábios o pântano e a névoa que me entorpeciam, trazia-me de volta à vigília, ao que eu era e me sentia sendo, à vida possível. Na faixa que ainda me retinha entre a inconsciência e a memória, via-me na véspera, à entrada da casa: o jardim e suas trevas, a campainha sob a gárgula, hera sobre as pilastras, uma escolta de plantas e palmas que o vento sem lua fazia oscilar, o caminho de pedras informes até a porta pesada de relevos, essa que me franqueava Lis, seu sorriso de encontro. Outra vez a camiseta branca, o detalhe à altura do seio, tênis e jeans, o que normalmente veste para ir à escola, e uma maquiagem talvez ostensiva, própria aos olhos azuis, aos cabelos finos, lisos, e a disfarçar o rosto quase infantil. Dormindo, revela alterações na frequência de sua respiração. Os mais jovens sofrem alterações mais rápidas. Palpitações. Pulsações.

Suponho que para isto sirva o silêncio, para ouvirmos o que não nos querem dizer. Também para que se renovem todas as chances de dizermos algo mais antes do emudecimento. De erguermos um gesto antes da paralisia. Para não nos dizermos, quando tarde demais e na posse da melhor palavra, que estamos hoje morrendo de não a termos dito. De, ao gesto, não o termos deflagrado. E ao amor, por faltar-nos o simples dom da coragem, não o termos inventado.

Ele a segura pelos ombros. Com carinho.
“Ana, sabe, posso te dizer?” Coragem. “Tenho muita saudade daquela noite.”
De frente um ao outro, mas já reativando uns passos lentos que os farão voltar à trajetória anterior – corredor da faculdade, percurso repetido do intervalo, quando de repente (com carinho, claro) ele a deteve.
“Que noite?”
Coragem. Não é uma grande tragédia afinal. Mas é como saltar de um penhasco. Sim, como se... Como, que noite?

Viu horrorizado que a machadinha empastada de sangue subia e descia em golpes sucessivos sobre seu peito. Pareceu-lhe uma infinidade de pancadas surdas ainda que uma só delas pudesse abrir-lhe o tórax ou separar-lhe a cabeça do corpo, e ainda que o jovem empunhando a perigosa ferramenta, um moreno escuro de físico débil, rosto de zigomas, bigode por vingar, costeletas desiguais e olhar traiçoeiro, não demonstrasse tanto vigor e habilidade.

O caminho para o trabalho, os dias úteis, calendário. Supõe-se a agulha de um disco gigantesco, percorrendo as mesmas faixas conhecidas, o mundo à frente. Mesma rua, algumas quadras, quem diria. Quem diria? Estela: “Ora, somos vizinhos de serviço”, ela…

“Desculpe, qual é mesmo o seu nome?”
“Estela. E o seu?”
Sim, o que ele merecia. Consagrando e consolidando seu caos de motivos siderais. O meu? Júlio. Muito bem. Fácil.
“Estela, me diga”, segurando aquela xícara enorme com as duas mãos. “Você costuma trazer estranhos para a sua casa?”
“Não. Mas vi que você era inofensivo.”
Júlio ouviu uma sirene de polícia a certa distância, provavelmente a alguns quarteirões dali, lá embaixo.
“Obrigado. Aceito a ironia. Não me importo.”

Júlio entendeu pela metade o que vinha sendo escrito em suas costas. Julgou que a última palavra fosse tesão. Deixou de sentir o movimento do dedo sobre sua pele. Fingiu que dormia para que ela prosseguisse, ela não prosseguiu, ele então fingiu que acordava. Ao abrir os olhos, a primeira impressão foi a de não estar em sua própria cama. Antes que o tempo escorregue por nossos dedos. Pensou ter sonhado com essas palavras.