Perce Polegatto

Perce Polegatto

Perce Polegatto é professor na área de Letras, com especialização em literatura. A metalinguagem, a busca da ­identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos.

A mesma aventura

“Bom dia a todos.”

Por isso todos me observam quando subo ao ônibus, pela manhã. Não se diz bom-dia a todos, especialmente com tal sinceridade. Estranham roupas que mal se ajustam e fazem de mim um cidadão deselegante, sem interesse. Óculos que mal se ajustam ferem-me o nariz e as orelhas. Mal eu me ajusto a alguma coisa. Mas posso vê-los a todos.

Breve relato sobre o conhecimento de artes singulares

No momento de embarcar, tudo sucede festivo e como nos atirássemos à mais gratificante aventura. Os companheiros nos acenam: “Vamos! Vamos!”, e eis o mundo de grandes portas abertas, de sorte à frente, tudo nos excita e convida ao futuro, menos o receio de acabarmos num dos quatro abismos que delimitam os mares e onde monstros impiedosos nos despedaçariam com uma só dentada de fogo. Logo, graças à minha ingenuidade e à minha fé nos semelhantes, fui abandonado no primeiro conflito, capturado por estranhos, por fim tornando-me escravo nas terras do lendário e temido monarca Mons Theos’al-drjdbr III, o piedoso, chamado assim porque seus antecessores apreciavam as torturas enquanto este se entediava com algumas poucas sessões e permitia que liquidassem o prisioneiro da maneira como bem entendessem, desde que o não fossem perturbar em seus aposentos.

Sonho 1448. O ancestral pré-histórico

Pouco atrás dele, entre ervas e baixos arbustos, passa uma jovem belíssima, clara e alta, uma mulher que tenho a impressão de já ter visto antes, talvez uma modelo fotográfica ou de moda, um desses rostos que se tornam familiares por força de o termos memorizado sem intenção. Sei, portanto, que ela não pertence àquele lugar nem àquele tempo. Ela é, como eu, uma visitante. Mesmo assim, está vestida com trajes rústicos, pequenas peças de pele animal. Enquanto caminha de uma parte a outra, até desaparecer por trás de uma árvore, a jovem olha o tempo todo em minha direção, com uma expressão simpática mas desafiadora, como se só estivesse ali para complicar ainda mais o quadro que não compreendo.

Sonho 1702. O velho anjo

Um antigo colega de estudos vai ao meu lado, estamos caminhando em direção ao cemitério, não sei para quê. Faz um dia claro, mas sem sol. Talvez nublado. Não sei.

“Estou pensando em escrever um livro”, ele diz enquanto seguimos por uma rua e outra.

Um livro? Por que escrever um livro? Por que ele quer fazer isso? – tudo isso são perguntas que me permito em silêncio.

“Estou pensando em escrever um livro...”, ele diz enquanto seguimos por uma rua e outra.

Um livro? Por que escrever um livro? Por que ele quer fazer isso? – tudo isso são perguntas que me faço em silêncio.

“Eu nunca pensei em escrever um livro”, eu lhe digo. “Você entende? Entende isso?”

“Não sei se entendo.”

Sonho 670. O filósofo “francês”

Entro numa sala de aula que é ao mesmo tempo um gabinete e um escritório, com partes de uma biblioteca. Conheço esta sala, já estive aqui, e nunca notei todos esses móveis, essa estante de livros, tão sólida e majestosa. Como sou distraído, penso.

Ali está o filósofo em sua mesa, lendo ou escrevendo. Eu me aproximo, começo a fazer uma entrevista com ele. Nesse instante, surge sobre a mesa um estranho cinzeiro de metal que eu suponho ser um gravador...

A morte exagerada de Paul McCartney

Com o boato obscuro, inicialmente anunciado por um radialista de Detroit, tratando da suposta morte do cantor Paul McCartney, um dos integrantes da banda britânica The Beatles, as campanhas de publicidade envolvendo os lançamentos de discos passaram também a alimentar essa mesma ideia, tão cara aos fãs e ao resto dos cidadãos – pois não há nada mais empolgante do que a morte de um ídolo, tanto para os que o amam quanto para os que o detestam.

Sonho 3305. O hamster da faculdade

”Isso tudo vai acabar”, diz o coordenador pensativo, sem olhar para mim, como se fitasse um horizonte que não existia lá dentro.

”Mas como?”, pergunto surpreso. ”Há tantos alunos, tantos cursos...”

”Os templos de Luxor...”, ele murmura, interrompendo-se em seguida.

”Sim, eu entendo. Mas... tão rápido?”

Sonho 2413. A jovem viúva

Vestido e chapéu escuros, renda fina cobrindo-lhe o rosto, certamente de luto, ela o esperava sentada na pequena sala ao lado. Quando ele entrou, viu-a pelas costas, ombros e cabeça baixa. Pronunciou seu nome, e ela virou-se, erguendo-se e entregando-se rapidamente num abraço muito forte, movido por uma emoção e uma carência intensas.

“Era para eu encontrar você só quando estivesse bonita”, falando entre lágrimas. “Mas ele morreu, eu não pude evitar...”