
O engenheiro e os fungos
A vida não tem cura. Viver é estar doente de tempo.
Textos literários por Perce Polegatto
Textos literários por Perce Polegatto

A vida não tem cura. Viver é estar doente de tempo.

Noite passada tornei a sonhar que a amava, e a conduzia por uns jardins impossíveis, enriquecidos de remansos, ramos inclinados e delicadas quedas d’água. Ela deita a cabeça em meu ombro, sorri com grande ternura enquanto caminhamos, o que me põe a despertar com um intenso desejo de possuí-la, como não menos o de destruir miseravelmente a mim mesmo.

A ciência é uma paixão Carl (Edward) Sagan (Nova York, 1934 – Seattle, 1996) Astrônomo norte-americano muito conhecido por seu trabalho de divulgação da ciência. Doutorado pela Universidade de Chicago em 1960, transferiu-se em 1968 para a Universidade de Cornell,…

Um arrepio. Conheço essa batida. Lenta, repetida três vezes, como se zombasse de quem está dentro. Outra vez. Digo, mais outras três vezes. Sim, só pode ser.
“Bom dia”, diz ele quase cantando. Mas assim: grave, insinuante.

As palavras finais de O morro dos ventos uivantes destacam a ação da natureza sobrepondo-se, no tempo e no espaço, a todos os conflitos que envolveram anteriormente os personagens Heathcliff e Catherine, com seus temperamentos apaixonados e intempestivos, agora mortos.

Muitas vezes pensamos que tudo está sob controle. Que estamos a salvo e imunes. Só então é que as coisas de fato acontecem.

Conheci Ester no balcão de uma cantina – pelo menos, foi quando nos vimos. Não sei, mesmo hoje, se cheguei a conhecê-la como se espera conhecer alguém. Costumávamos almoçar ali, separadamente, quando não existíamos. Da primeira vez, iniciou-se uma conversa por acaso. Ela era educada, levemente arrogante. Da segunda, toquei seu ombro antes de me sentar – era morno, convidativo. Na terceira beijei-lhe o rosto, pele clara e bem tratada. E nos dias que se seguiram... Não, não havia nada menos casual do que nossos encontros na cantina.

Todo artista compreende um dia, ainda que se deixe classificar como criativo ou mesmo que continue fingindo-se inocente, que nunca foi senão o resultado da convergência de inúmeros outros que ele próprio elegeu. Vivemos entre os invisíveis limites de um mistério que se deixa entrever por espasmos, como cristais guardados só para alguns momentos, nas frestas de umas estranhas revelações que talvez se tenham dado a uns e a outros.

Você se levantou e não pôde evitar o dia. Você se desvia do espelho que também encontrará em pouco, mas não deve admitir que seu rosto esteja inteiramente arruinado. Afinal, bem perto de onde vive, e por grandes extensões de terra, seus semelhantes compartilham misérias tão mais graves que as suas, embora de outro gênero. Tão mais urgentes são tais necessidades, tão exaustiva a marcha diária por conseguir o tão pouco que almejam, tão perverso o silêncio dos que os mantêm sob tais condições e sob controle, isso de tempos imemoriais até cercá-lo hoje, são tragédias pessoais e secretas, desde já riscadas da história...

Há um grupo de homens uniformizados, com seus cavalos, bem à frente. Uns montados, outros de pé, apenas inertes ao lado de suas montarias, talvez aguardando ordens. Alguns desses homens caminham devagar enquanto olham o chão, como vistoriando o local, aparentemente de maneira aleatória, cruzando caminhos. Dois cães passeiam entre eles, também calmos, mas sem rumo. Um nevoeiro esconde as entranhas do bosque.