Categoria Conspiração dos felizes

Queremos o fim do Quixote

Sempre me impressionou muito que as pessoas andassem com calma – mesmo entre conhecidos e em suas próprias cidades. Também muitas vezes acreditei que a maneira de andar, assim como alguns gestos viciados ou cacoetes, fosse a sugestão de que a natureza orgânica começasse por eles a apresentação dos sinais de alguma desarmonia mais profunda. Mas nada disso eu via entre as ótimas pessoas que andavam por toda parte.

Passe para pequenas viagens

Eu me detinha finalmente, após a tarde de minha estranha primavera. Eu me detinha após milhares de anos de civilização e genes repetidos para que sempre umas pessoas e outras habitassem as cidades e coisas parecidas com cidades. Eu me detinha na esquina de todas as cidades. Outro como eu em Buenos Aires, em Frankfurt, em Alexandria, em Odessa, em Melbourne...

Você me acha cruel?

Enquanto coisas assim – imprevisíveis e aparentemente impossíveis há apenas algumas horas – vão acontecendo bem à minha frente, eu sempre digo a mim mesmo que ainda vou me arrepender desse dia. Na verdade, eu me arrependo de quase tudo o que faço.

Vina, a quase viúva

Ela era jovem e bonita. Cabelos lisos, castanhos. Não podia ter mais que uns vinte e três anos. Mascateando livros. Vida dura, marido doente, desempregado, poeta. A maquiagem muito leve disfarçava-lhe as olheiras, o cansaço, o ar abatido de viúva. Antes que eu lhe respondesse, entrou na lanchonete um rapaz de camisa estampada, cabelos aparados, curtinhos, e passou a folhear os livros, circunspecto. Ela voltou à mesa, vendeu-lhe facilmente um exemplar. Ficaram conversando – infelizmente eu ouvia tudo. O rapaz disse que o mundo precisava de poesia, mas muita poesia. Ela concordou, claro. Ele disse que os poetas eram espíritos de luz, e ela concordou de novo. Ele tinha um primo poeta, que havia escrito mais de mil poemas, mas que, desgraçadamente, desencarnara num acidente de moto. Por fim saiu, sumiu porta afora, levando seu exemplar. Ela contou rápido o dinheiro, dobrou-o, enfiou no bolso da bunda.

A encantadora ovelha ruiva. Parte 1 (Outro livro de bruxas?)

Anseio por vê-la diariamente, mas resisto: fico dois ou três longos dias longe da livraria para que não suspeite que estou apenas interessado nela. Peitinhos empinados, coxas consistentes, cintura... Cintura o quê? O que tem a cintura dela? E daí? Basta de descrições. Mais um pouco, só mais um pouco, vá lá, que esta vale a pena: uma bundinha que compensa todas as caminhadas, todas as esperas, anula a indiferença que ela demonstra por mim e me faz crer que eu a deseje talvez até mais do que imagino, que esteja apaixonado de alguma forma...

Dia após dia

Ainda que tentasse evitar – o que nunca faço – as ruas costumavam cercar-me de cenas avulsas, frases ouvidas por acaso, pessoas em movimento protagonizando os dias, todos os dias antes que viessem outros, outro tempo, outras gentes.

Chegadas partidas

Ninguém fora despedir-se de mim na rodoviária. Nem era de se esperar, admito. Ainda assim, muito em segredo e contra o mais provável, até o último minuto eu supunha que algo diferente pudesse acontecer, são peças que a esperança nos prega. Dela, sempre fica algum ranço desse especial veneno, próprio a criar outra precária ilusão, levando-nos um pouco mais adiante. Dizem que até o último dia de nossa vida, tudo pode acontecer. Isso quer dizer que também pode não acontecer. Enfim, era mais de meia-noite. Na poltrona bem à minha frente, ia um rapaz cuja turma de amigos promovia uma algazarra do lado de fora, agitando-lhe beijos e sorrisos com vozes embriagadas, desejando-lhe boa sorte entre muitas brincadeiras, uns palavrões toleráveis e obscenos votos de sucesso com futuras fêmeas, isso até que o ônibus partisse. Eu sorria com o canto dos lábios, como nos tempos de escola, quando tinha de fingir estar participando de alegrias alheias. Fingia, dessa vez, para ninguém mais. Fingia que aquilo tudo era para mim.

Meu colega triste

Mas eu era assim, analítico. Ou supunha ser. Observava tudo em meus colegas, naturalmente ou não. Certos dias houve em que me sentia tão aguçado, tão perfeitamente lúcido e desperto, que quase poderia apostar na iminência de alguma fulgurante revelação, em meio a um momento qualquer. Isso nunca aconteceu, claro. Só me ocorria comparar tal estado interior com um lapso de intensa vigília, como se visse, através de um vidro muito limpo, um pátio de árvores após a chuva, cada folha em sua extrema nitidez, como elaborada com a precisão da pena de um desenhista encantado.

Preço justo

O que mais me admira no espetáculo do mundo, demarcado por longos estios e chuvas devastadoras, é esse inconcebível potencial de fugacidade e aniquilação, um sol escuro, nem benigno nem maligno, que a um tempo extingue e renova tudo o que existe, preservando a vida à custa de exterminar justamente os que vivem, com isso propondo que tudo continue sob o preço de que nada permaneça.