Categoria Sonhos

Sonho 1512. A clínica e o funeral

Receio que, talvez, magicamente, aqueles cobertores o façam desaparecer. Ou o transportem a um subterrâneo simetricamente oposto às moradas dos deuses, geralmente no alto das montanhas enevoadas. Próximo aos dois degraus da entrada, no jardinzinho malcuidado de uma casa modesta…

Sonho 811. O livro que falta

A coleção consistia de quatro livros ilustrados, uma enciclopédia adaptada para adolescentes, com artigos sobre inúmeros assuntos. Com o tempo, algumas imagens desapareceram de suas páginas, e eu nunca mais as encontrei – um menino deitado sob uma groselheira, o rosto malvado de um corsário e uma jovem grega portando uma ânfora. Talvez eu as tenha sonhado. Talvez tenham desaparecido de fato.

Sonho 2117. A corte vazia

Um homem está sendo julgado. A mulher bem vestida (entendo mais tarde que é a promotora de justiça) se levanta, com o dedo em sua direção, pronunciando frases intensas. O réu parece contrair-se no encosto, amedrontado. Um ambiente austero, vigas de madeira escura, divisórias envernizadas. Mas curiosamente as paredes parecem em chamas, entre fortes tons de amarelo e vermelho. Aquilo tudo parece ser muito importante, não compreendo por quê. Subo umas escadas laterais para assistir a este extraordinário julgamento de outro ângulo, de um balcão mais alto. Quando chego ao andar superior, a corte está vazia. Não há mais ninguém lá embaixo. A justiça e a injustiça já haviam entrado e saído, tendo frequentado todas as salas de audiência do mundo. E agora não eram mais nada. É que o tempo havia passado.

Sonho 1081. A carruagem veloz

Há um grupo de homens uniformizados, com seus cavalos, bem à frente. Uns montados, outros de pé, apenas inertes ao lado de suas montarias, talvez aguardando ordens. Alguns desses homens caminham devagar enquanto olham o chão, como vistoriando o local, aparentemente de maneira aleatória, cruzando caminhos. Dois cães passeiam entre eles, também calmos, mas sem rumo. Um nevoeiro esconde as entranhas do bosque.

Sonho 1204. A estação orbital

Então surge, bem perto de mim e sem que eu a tenha visto chegar, uma jovem que conheci há algum tempo, entre raras ocasiões, caprichos e arranjos do que chamamos acaso. Som de aves marinhas. Cabelos negros e lisos, pouco agitados pelo vento, esse mesmo vento que me parece tão forte e desconfortável.

“Você se lembra de mim?”, ela inclina um pouco a cabeça, procurando meu rosto, que continua voltado para o mar.

“Claro. Eu me lembro.”

Sonho 1448. O ancestral pré-histórico

Pouco atrás dele, entre ervas e baixos arbustos, passa uma jovem belíssima, clara e alta, uma mulher que tenho a impressão de já ter visto antes, talvez uma modelo fotográfica ou de moda, um desses rostos que se tornam familiares por força de o termos memorizado sem intenção. Sei, portanto, que ela não pertence àquele lugar nem àquele tempo. Ela é, como eu, uma visitante. Mesmo assim, está vestida com trajes rústicos, pequenas peças de pele animal. Enquanto caminha de uma parte a outra, até desaparecer por trás de uma árvore, a jovem olha o tempo todo em minha direção, com uma expressão simpática mas desafiadora, como se só estivesse ali para complicar ainda mais o quadro que não compreendo.

Sonho 1702. O velho anjo

Um antigo colega de estudos vai ao meu lado, estamos caminhando em direção ao cemitério, não sei para quê. Faz um dia claro, mas sem sol. Talvez nublado. Não sei.

“Estou pensando em escrever um livro”, ele diz enquanto seguimos por uma rua e outra.

Um livro? Por que escrever um livro? Por que ele quer fazer isso? – tudo isso são perguntas que me permito em silêncio.

“Estou pensando em escrever um livro...”, ele diz enquanto seguimos por uma rua e outra.

Um livro? Por que escrever um livro? Por que ele quer fazer isso? – tudo isso são perguntas que me faço em silêncio.

“Eu nunca pensei em escrever um livro”, eu lhe digo. “Você entende? Entende isso?”

“Não sei se entendo.”

Sonho 670. O filósofo “francês”

Entro numa sala de aula que é ao mesmo tempo um gabinete e um escritório, com partes de uma biblioteca. Conheço esta sala, já estive aqui, e nunca notei todos esses móveis, essa estante de livros, tão sólida e majestosa. Como sou distraído, penso.

Ali está o filósofo em sua mesa, lendo ou escrevendo. Eu me aproximo, começo a fazer uma entrevista com ele. Nesse instante, surge sobre a mesa um estranho cinzeiro de metal que eu suponho ser um gravador...

Sonho 3305. O hamster da faculdade

”Isso tudo vai acabar”, diz o coordenador pensativo, sem olhar para mim, como se fitasse um horizonte que não existia lá dentro.

”Mas como?”, pergunto surpreso. ”Há tantos alunos, tantos cursos...”

”Os templos de Luxor...”, ele murmura, interrompendo-se em seguida.

”Sim, eu entendo. Mas... tão rápido?”