Categoria Os últimos dias de agosto

Arca com retratos do pai. Parte 2

Tudo em mim fica retido, antes de tudo. E fere ou fascina. O odor característico do papel plastificado, a tinta de impressão que até hoje reencontro em certos periódicos – eu começava a aprender dos textos, ao decifrá-los. O fascículo ilustrado com animais do Cretáceo, que ele me compra numa banca de esquina – também começava a aprender do tempo, com os dinossauros.

Arca com retratos do pai. Parte 1

Tudo isso não passava de alucinação para mim – essa infância que ouvia dele, seus pais e avós, a quem mal ou não conheci. Só em minha fantasia podia vislumbrar os funerais dessa ancestral, quando iam todos a pé, trajando a indumentária da colônia e portando archotes no inverno. A vegetação do vale, os caminhos de terra, a neblina. Sua neblina. Seu cortejo de fantasmas.

Treze pode acontecer

Júlio estranhou que seus cabelos, repartidos ao meio, descessem só até o pescoço e a nuca, não chegando a tocar os ombros, e assim mesmo caíssem frontalmente qual fossem mais longos do que aparentavam, como se não pertencessem a um mesmo corte, e pudessem prender-se atrás das orelhas. Que coisa observar isso tudo. Foi sem querer. Ela mesma não podia ter mais que uns dezesseis anos, se tanto, imagine-se, quase dez anos mais jovem, por essa época começava a frequentá-lo a incipiente impressão de estar envelhecendo, afinal vinte e cinco anos não eram mais quinze.

Suínos, símios, restaurante

Três ou quatro restaurantes médios, cardápio variado e preços razoáveis, serviam de solução fácil às exigências de sua fome noturna, isso quando se animava a sair a pé pelo bairro, também por desejar romper com a tirania dos sanduíches que muitas vezes despedaçava sobre a cama ou à mesinha-estante-criado-mudo. Era preciso ao menos experimentar. Lembrar de conferir a grana no fim do mês, enquanto fecha o zíper, calça os sapatos, uns mocassins já amolecidos pelo uso, mas vale a pena tentar, que os sanduíches também têm seu preço.

Café com neblina imprevista

O caminho para o trabalho, os dias úteis, calendário. Supõe-se a agulha de um disco gigantesco, percorrendo as mesmas faixas conhecidas, o mundo à frente. Mesma rua, algumas quadras, quem diria. Quem diria? Estela: “Ora, somos vizinhos de serviço”, ela…

Não diga! Eu também…

“Desculpe, qual é mesmo o seu nome?”

“Estela. E o seu?”

Sim, o que ele merecia. Consagrando e consolidando seu caos de motivos siderais. O meu? Júlio. Muito bem. Fácil.

“Estela, me diga”, segurando aquela xícara enorme com as duas mãos. “Você costuma trazer estranhos para a sua casa?”

“Não. Mas vi que você era inofensivo.”

Júlio ouviu uma sirene de polícia a certa distância, provavelmente a alguns quarteirões dali, lá embaixo.

“Obrigado. Aceito a ironia. Não me importo.”

Vanda pela manhã

Júlio entendeu pela metade o que vinha sendo escrito em suas costas. Julgou que a última palavra fosse tesão. Deixou de sentir o movimento do dedo sobre sua pele. Fingiu que dormia para que ela prosseguisse, ela não prosseguiu, ele então fingiu que acordava. Ao abrir os olhos, a primeira impressão foi a de não estar em sua própria cama. Antes que o tempo escorregue por nossos dedos. Pensou ter sonhado com essas palavras.

Velhas novidades

De toda parte os caminhos pareciam convergir para conduzi-lo ao que fosse seu centro secreto, o que seria inverter as coisas: seu centro é que buscava realizar-se e se utilizava do que mais lhe acorresse ao redor. Como dizer algo assim aos seus amigos, para quem todos os bares eram apenas território de caça? Fala-se em pré-história, evolução, instinto.